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O Peso da Doçura e o Ritmo de Arthur

A luz da manhã no Jardim Botânico tinha um tom dourado e denso, filtrada pelas palmeiras imperiais que cercavam a mansão. Dentro da suíte master, o silêncio era um luxo raro, quebrado apenas pelo som rítmico da respiração de Emanuel. Eduarda, no entanto, já estava acordada. Ela sentia o peso familiar e reconfortante em seu ventre, um movimento vigoroso que parecia acompanhar as batidas de seu próprio coração. Arthur, aos quatro meses de gestação, já demonstrava ter herdado a energia vulcânica do pai e a impaciência de Sara.

Com cuidado para não despertar Emanuel — que passara a noite em claro resolvendo uma crise logística no estúdio de Tóquio —, Eduarda escorregou da cama. Ela vestiu um robe de seda clara, que se moldava suavemente à sua barriga agora nitidamente arredondada. Ao caminhar pelo corredor de mármore, o primeiro som que ouviu foi um balbucio vindo do quarto ao lado.

— Mamãe Duda! — A voz de Maya era um sussurro ansioso.

Eduarda entrou no quarto e encontrou a pequena de quase três anos em pé no berço, com os braços estendidos. Maya, com seus cabelos castanhos e olhar tímido, era a definição de doçura. Assim que viu Eduarda, seu rostinho se iluminou.

— Colo, mamãe! Colo! — pediu a menina, fazendo um biquinho manhoso que Eduarda nunca conseguia ignorar.

Mesmo sentindo uma leve pontada nas costas, Eduarda não hesitou. Ela se aproximou e içou Maya, acomodando a menina no quadril. O peso de Maya, somado ao volume da gravidez, exigia um esforço considerável, mas o modo como a pequena aninhava o rosto em seu pescoço fazia qualquer desconforto desaparecer.

— Bom dia, meu amor — sussurrou Eduarda, beijando o topo da cabeça da filha. — Dormiu bem?

— O Arthur chutou? — perguntou Maya, esticando a mãozinha para tocar a barriga de Eduarda.

— Chutou muito. Acho que ele quer brincar com você.

Eduarda começou a descer as escadas, carregando Maya com uma naturalidade que desafiava as recomendações médicas. Ela sabia que Emanuel odiaria a cena, mas o vínculo entre ela e Maya era algo que transcendia a biologia. Maya era sua "grudinho", a âncora que a segurara quando o mundo de luxo e tatuagens de Emanuel parecia assustador demais.

Na cozinha, Sara já estava em plena atividade. Usava um robe de oncinha, segurando uma xícara de café expresso em uma mão e o celular na outra. Ágata estava sentada à mesa, comendo cereais com uma expressão de tédio aristocrático.

— Eduarda, pelo amor de Deus — disse Sara, desligando o celular e olhando para a cena com uma sobrancelha arqueada. — Você parece uma estátua da fertilidade carregando um fardo. Coloca essa menina no chão antes que o Emanuel acorde e tenha um aneurisma.

— Ela só queria um pouco de carinho, Sara — respondeu Eduarda, sentando-se com dificuldade em uma das banquetas da ilha da cozinha, mas mantendo Maya em seu colo.

— Carinho ela pode receber sentada — Sara caminhou até elas, pegando Maya pelas axilas e colocando-a em uma cadeira alta ao lado de Ágata. — Você está com quatro meses, Duda. O Arthur já é um gigante, segundo a última ultrassonografia. Você não tem que carregar peso.

— Eu me sinto bem — insistiu Eduarda, embora sua respiração estivesse um pouco curta.

— Você se sente bem até ter um deslocamento de placenta ou uma dor nas costas que te deixe de cama por uma semana — Sara deu um gole no café, seus olhos azuis brilhando com uma mistura de pragmatismo e preocupação genuína. — Eu já passei por duas gestações, lembra? E eu não tinha um menino agitado como esse aí dentro. O Arthur vai ser um problema, anote o que eu digo. Ele já chuta como se estivesse tentando derrubar uma parede.

— Ele é como o pai — disse Eduarda, sorrindo docemente.

— Exatamente o meu ponto — retrucou Sara.

Nesse momento, passos pesados foram ouvidos na escada. Emanuel apareceu, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, o tronco coberto por tatuagens que pareciam ganhar vida sob a luz da manhã. Seu rosto estava fechado, a expressão de quem não dormira o suficiente.

— Bom dia — murmurou ele, indo direto para a cafeteira. Ele serviu-se de café preto e, antes de beber, seus olhos varreram a cozinha, pousando em Eduarda.

Ele caminhou até ela e depositou um beijo firme em sua testa, deixando a mão repousar por um momento sobre a barriga dela. Arthur, como se sentisse a presença do pai, deu um chute vigoroso que Emanuel sentiu sob a palma da mão.

— Ele está acordado — comentou Emanuel, um esboço de sorriso surgindo em seus lábios.

— Desde as seis da manhã — disse Eduarda.

Emanuel olhou para Maya, que estava tentando alcançar um pedaço de mamão na mesa, e depois voltou o olhar para Eduarda, notando a leve marca vermelha em seu braço, típica de quem carregara uma criança pesada.

— Você estava carregando ela no colo de novo, não estava? — A voz de Emanuel mudou, tornando-se ríspida, o tom de comando que ele usava nos estúdios.

— Só por um momento, Emanuel. Ela queria descer as escadas comigo — explicou Eduarda, tentando minimizar.

— Eduarda, nós já conversamos sobre isso — disse ele, colocando a xícara na mesa com um ruído seco. — O médico foi claro. Você tem que evitar carregar peso. A Maya está enorme. Para que servem as babás e o motorista?

— Eles não são a mãe dela, Emanuel — Eduarda rebateu, sua voz suave, mas carregada de uma teimosia que só ele conseguia despertar. — Eu não vou deixar de dar colo para a minha filha só porque estou grávida.

— Não é "não dar colo", é não se arriscar! — Emanuel elevou um pouco o tom, o estresse acumulado da semana transbordando. — Se você cair nessas escadas com ela, o que acontece com o Arthur? O que acontece com você?

— Eu não vou cair! — Eduarda se levantou, a face corada. — Você está sendo controlador de novo.

— Eu estou sendo responsável! — Emanuel cruzou os braços, sua presença física intimidante preenchendo o espaço.

Sara, que assistia à cena com um divertimento cínico, interveio antes que a discussão escalasse.

— Parem os dois. Manu, você parece um guarda de prisão. Duda, você parece uma mártir. Maya, coma seu mamão.

Emanuel bufou, passando a mão pelo cabelo curto. Ele se aproximou de Eduarda e segurou seus ombros com delicadeza, sua raiva transformando-se em uma preocupação quase sufocante.

— Eu só tenho medo, Duda. Esse menino... ele é importante. Você é importante. Eu não suportaria se algo acontecesse porque você quis ser a "supermãe" da Maya.

Eduarda relaxou sob o toque dele, sua raiva evaporando. Ela se inclinou para frente, encostando a testa no peito dele.

— Eu tomo cuidado, Manu. Mas a Maya é tão sensível. Ela sente que as coisas vão mudar quando o Arthur chegar. Ela precisa saber que o meu colo ainda é dela.

Emanuel suspirou, derrotado pela lógica emocional de Eduarda. Ele a abraçou, tomando cuidado com a barriga proeminente.

— Eu vou contratar mais alguém para ficar de olho em você durante o dia — declarou ele.

— Não precisa, Emanuel! — Eduarda protestou, rindo.

— Precisa sim. Se eu não posso te convencer, a Sara vai.

— Ah, não me envolva na sua paranoia, Emanuel — disse Sara, levantando-se para terminar de arrumar Ágata para a escola. — Mas eu concordo que a Duda é teimosa. Ontem eu a peguei tentando arrastar a poltrona do berçário porque queria "mudar a energia do quarto".

Emanuel olhou para Eduarda com incredulidade.

— Uma poltrona, Eduarda?

— Era leve! — mentiu ela, desviando o olhar.

O restante da manhã seguiu em uma rotina de negociações. Emanuel saiu para o trabalho ainda resmungando sobre "segurança e limites", enquanto Sara levava Ágata para a escola. Eduarda ficou em casa com Maya, aproveitando o silêncio da mansão.

À tarde, o calor do Rio tornou-se opressor. Eduarda decidiu levar Maya para a piscina coberta. Ela usava um biquíni que deixava sua barriga de quatro meses totalmente à mostra, a pele esticada e brilhante. Arthur parecia gostar da água, movendo-se suavemente enquanto Eduarda flutuava.

Maya estava sentada no degrau da piscina, brincando com bonecas de plástico.

— Mamãe, entra! — pediu a menina.

Eduarda saiu da parte funda e sentou-se ao lado de Maya. A menina imediatamente engatinhou para o seu colo, sentando-se sobre as coxas de Eduarda, a água batendo na cintura das duas.

— Você ama o Arthur? — perguntou Maya, olhando para a barriga da mãe.

— Amo muito. Como eu amo você.

— Ele vai tomar o meu lugar? — A pergunta, vinda de uma criança de menos de três anos, partiu o coração de Eduarda. A sensibilidade de Maya era aguçada, uma característica que Sara muitas vezes criticava, mas que Eduarda protegia com unção.

— Nunca, meu amor. O seu lugar é só seu. O Arthur vai ter o lugar dele, e vocês dois vão ser melhores amigos.

Eduarda abraçou Maya com força, sentindo o corpinho molhado da filha contra o seu. Ela sabia que Emanuel ficaria furioso se visse a pressão que Maya exercia sobre seu útero naquele momento, mas ela não se importava. O conforto da filha era sua prioridade.

Horas mais tarde, quando Emanuel retornou, ele encontrou as duas adormecidas na imensa cama de casal. Eduarda estava de lado, e Maya estava aninhada na curva de seu corpo, uma perna jogada por cima da barriga da mãe.

Emanuel parou na porta, observando a cena. A luz do crepúsculo banhava o quarto em tons de violeta e laranja. Ele sentiu uma onda de amor tão intensa que seus olhos arderam. Ele se aproximou silenciosamente e sentou-se na beira da cama.

Eduarda abriu os olhos e sorriu, ainda sonolenta.

— Oi — sussurrou ela.

— Vocês duas não param, não é? — Ele estendeu a mão e acariciou o rosto de Maya, que nem se mexeu. — Eu vi as câmeras da piscina, Eduarda.

Eduarda sentiu um frio na espinha.

— Você estava me vigiando?

— Eu estava garantindo que você estava bem — corrigiu ele, sua voz agora mais suave. — Você passou uma hora com ela no colo dentro da água. O peso diminui na água, eu sei, mas ainda assim...

— Emanuel, pare de ser um administrador e seja apenas um pai por cinco minutos — pediu ela, pegando a mão dele e colocando-a sobre o ponto onde Arthur estava chutando. — Sinta. Ele está bem. Ele está feliz.

Emanuel sentiu o movimento rítmico e forte sob sua mão. Arthur era um guerreiro, mesmo antes de nascer.

— Ele é forte — admitiu Emanuel.

— Ele é como você. Mas a Maya... ela precisa da minha fragilidade. Ela precisa saber que eu ainda sou o porto seguro dela.

Sara apareceu na porta do quarto, segurando uma taça de vinho e o monitor de vídeo de Ágata, que já estava em seu próprio quarto.

— A reunião de família começou e ninguém me chamou? — perguntou ela, entrando e sentando-se na poltrona de amamentação que Eduarda tanto defendia. — O jantar está pronto. E, Manu, pare de brigar com a Duda. Eu já agendei uma massagista pré-natal para ela vir três vezes por semana. É a minha contribuição para que ela não quebre ao meio carregando essa menina.

Emanuel olhou para Sara e depois para Eduarda. Ele percebeu que, naquela casa, ele nunca teria o controle total. Entre a praticidade implacável de Sara e a doçura teimosa de Eduarda, ele era apenas o pilar que sustentava o teto.

— Tudo bem — cedeu ele, levantando-se. — Mas a partir de amanhã, Maya usa o carrinho ou anda de mãos dadas. Sem colo nas escadas. É o meu limite, Eduarda.

— Combinado — mentiu Eduarda, piscando para Sara, que deu um sorriso cúmplice por trás da taça de vinho.

Emanuel pegou Maya no colo com cuidado, sem acordá-la, para levá-la ao seu próprio quarto. Eduarda observou as costas tatuadas do marido, sentindo uma paz profunda. Arthur deu mais um chute, como se concordasse com a trégua.

— Ele vai ser um problema, Duda — repetiu Sara, levantando-se para sair do quarto. — Um menino com a força do Emanuel e a sua capacidade de conseguir o que quer com um olhar... Deus nos ajude quando o Arthur nascer.

— Ele vai ser perfeito, Sara — respondeu Eduarda, acariciando o ventre.

— Vai ser — concordou a loira, parando na porta. — Mas eu ainda acho que você deveria ter escolhido um nome mais curto. Arthur soa como alguém que vai exigir muito de nós. E, honestamente? Eu acho que é exatamente disso que essa família precisa. Mais alguém para nos manter ocupados.

Eduarda riu sozinha no quarto escuro. Ela olhou para a vista do Jardim Botânico e sentiu que, apesar do peso nas costas, da preocupação de Emanuel e das críticas de Sara, sua vida era uma obra de arte em constante evolução. Entre o cheiro de lavanda de Maya e o ritmo vigoroso de Arthur, ela encontrara seu verdadeiro lugar. Ela não era apenas a musa ou a protegida; ela era o centro de gravidade de um mundo que, embora caótico e complexo, era inteiramente seu.