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O Labirinto de Vidro e Alfazema

O sol da manhã de outono no Rio de Janeiro entrava pelas imensas janelas da nova mansão no Jardim Botânico, filtrado pelas copas das árvores centenárias que cercavam a propriedade. O ambiente era uma mistura impecável de sofisticação e caos infantil. No chão da sala de estar, sobre um tapete de seda crua que Sara provavelmente pagara o preço de um carro popular, Maya, agora com dois anos, empilhava blocos de madeira com uma concentração quase solene. Seus cabelos castanhos, herança clara da família de Emanuel, caíam em ondas suaves sobre o rosto concentrado.

— Mamãe, olha! — exclamou a pequena, a voz doce e manhosa ecoando pelo pé-direito alto.

Eduarda, que estava sentada no sofá revisando os rascunhos de sua tese de conclusão de curso, levantou os olhos e sorriu. Aos vinte e dois anos, ela florescera. O estilo romântico e as cores claras permaneciam, mas havia uma nova segurança em seus gestos, uma calma de quem aprendera a navegar em águas profundas e luxuosas.

— Que torre linda, meu amor — disse Eduarda, fechando o notebook e descendo para o tapete para ficar ao nível da filha. — Você quer que a mamãe ajude com o topo?

— Sim, mamãe Duda! — Maya se jogou nos braços de Eduarda, aninhando o rosto em seu pescoço. — Você tem cheiro de flor.

O som de saltos altos estalando contra o piso de mármore anunciou a chegada da outra metade daquela estrutura complexa. Sara entrou na sala como um furacão de eficiência e estilo. Usava um conjunto de alfaiataria rosa vibrante, o decote generoso exibindo o bronzeado perfeito e o brilho discreto de um colar de diamantes. Atrás dela, Ágata vinha correndo, já vestida com um uniforme de escola bilíngue, o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo impecável.

— Bom dia, família! — Sara anunciou, deixando a bolsa da Hermès sobre o aparador. — Eduarda, você viu o relatório da unidade de Londres? O Emanuel está surtando porque os custos de importação de tintas subiram 15% e ele quer que eu faça mágica.

— Bom dia, Sara — Eduarda respondeu, ainda com Maya no colo. — Não vi o relatório, mas o Emanuel comentou ontem à noite que estava preocupado. Ele saiu cedo para o estúdio da Barra?

— Saiu às sete. Aquele homem não dorme, ele apenas recarrega a bateria com café e obsessão por trabalho — Sara aproximou-se e pegou Ágata no colo, que estava tentando puxar um dos blocos de Maya.

— Mãe, a Maya não quer me dar o bloco azul! — reclamou Ágata, o tom de voz autoritário e impaciente, uma cópia fiel da mãe biológica.

— Ágata, peça com educação — Sara repreendeu, embora houvesse um brilho de orgulho nos olhos ao ver a personalidade forte da filha. — Oi, tia Duda! Dê um beijo na tia antes de irmos para a escola.

Ágata inclinou-se e deu um beijo rápido na bochecha de Eduarda.

— Oi, tia Duda. Você vai me buscar hoje?

— Vou sim, meu anjo — prometeu Eduarda, sorrindo para a menina que, embora não a chamasse de mãe, a via como um porto seguro de doçura e paciência. — Eu e a Maya vamos estar lá na porta.

A dinâmica estava consolidada. Maya, a bebê sensível e manhosa, encontrara em Eduarda o espelho de sua alma, chamando-a de "mamãe" desde as primeiras palavras, enquanto reservava o título de "mãe" para Sara, a figura de autoridade e proteção prática. Ágata, por outro lado, era o grudinho de Sara, espelhando sua esnobice natural e sua energia competitiva, vendo Eduarda como a "tia" querida que sempre tinha um abraço macio e uma história para contar.

— Certo, vamos — disse Sara, ajeitando o relógio de ouro no pulso. — Eduarda, o Emanuel quer jantar fora hoje. Algo sobre comemorar a nova parceria com o artista japonês. Ele quer as duas lá.

— Sara, eu tenho o seminário final amanhã... — Eduarda começou a protestar, a insegurança ainda surgindo em momentos de pressão.

— Eduarda, olhe para mim — Sara parou diante dela, as mãos na cintura. — Você já é quase uma mestre em História da Arte. Você fala três idiomas e acalma o homem mais difícil que eu já conheci. Você vai a esse jantar, vai usar aquele vestido verde que compramos na semana passada e vai brilhar. Eu cuido da logística das meninas, você só precisa ser o colírio para os olhos do Emanuel. Ele precisa de você para não mandar o japonês para o inferno se a negociação travar.

Eduarda riu, balançando a cabeça. Era impossível dizer não a Sara quando ela entrava no modo "administradora de vidas".

— Está bem. Eu vou.

— Ótimo. Agora, Ágata, vamos. O motorista já está esperando. Maya, dê tchau para a mãe!

— Tchau, mãe! — Maya acenou com a mãozinha gorda, voltando a se aninhar em Eduarda assim que a porta principal se fechou.

O dia passou entre fraldas, blocos de montar e os estudos de Eduarda. No final da tarde, após buscar Ágata na escola e organizar o lanche das meninas, Eduarda retirou-se para o seu quarto para se preparar. A mansão era dividida de forma que todos tivessem seu espaço, mas o quarto principal, uma suíte master com dimensões de um apartamento, era o território comum onde as fronteiras entre os três se dissolviam.

Emanuel chegou quando Eduarda estava terminando de prender o cabelo em um coque despojado, mas elegante. Ele parecia exausto, as olheiras leves denunciando as noites mal dormidas, mas seu rosto se iluminou instantaneamente ao ver Eduarda pelo reflexo do espelho.

— Você está maravilhosa — disse ele, aproximando-se e envolvendo a cintura dela com os braços tatuados. Ele enterrou o rosto na curva do pescoço de Eduarda, inspirando profundamente. — Eu precisava disso. Esse cheiro é a única coisa que me mantém são.

— O dia foi difícil? — perguntou ela, virando-se nos braços dele e acariciando o rosto marcado.

— Reuniões, contratos, egos... — Emanuel suspirou, fechando os olhos sob o toque dela. — O artista japonês é um gênio, mas é temperamental. A Sara já o deixou sob controle durante o almoço, mas ele quer ver a "musa" que eu mencionei.

— Musa? — Eduarda corou. — Emanuel, eu sou apenas uma estudante.

— Você é a minha paz, Eduarda — ele corrigiu, o olhar intenso e possessivo. — E é a mãe da minha filha mais doce. Para mim, você é tudo.

O jantar no restaurante exclusivo em Santa Teresa foi uma coreografia perfeita. Sara dominava a conversa técnica, discutindo porcentagens e expansão de mercado com uma agressividade charmosa que deixava o convidado japonês impressionado. Emanuel, ao lado de Eduarda, agia como o pilar de estabilidade, intervindo com observações precisas e curtas.

Eduarda, inicialmente calada, acabou sendo o centro das atenções quando o assunto mudou para as influências da arte oriental no modernismo brasileiro. Sua voz suave e seu conhecimento profundo encantaram o artista, que via nela uma sensibilidade rara.

— Você vê? — sussurrou Sara para Emanuel, enquanto Eduarda explicava uma técnica de pintura para o convidado. — Eu te disse. Ela é o nosso melhor ativo de relações públicas. Ninguém consegue ser rude perto dela.

Emanuel deu um sorriso de canto, observando a mulher que amava.

— Ela não é um ativo, Sara. Ela é o coração.

— Eu sei, Manu. Eu sei — Sara respondeu, bebendo um gole de vinho, sem sombra de ciúmes, apenas com a satisfação de quem vira uma estratégia bem-sucedida se transformar em uma vida plena.

Ao voltarem para casa, já tarde da noite, o silêncio da mansão era reconfortante. Eles subiram as escadas juntos, um trio unido por laços que o mundo lá fora jamais entenderia. Antes de irem para o quarto, passaram pelo berçário.

Maya e Ágata dormiam em camas adjacentes. Ágata estava toda atravessada, o pijama de seda desarrumado, chutando as cobertas. Maya estava encolhida em posição fetal, abraçada a uma naninha de lavanda.

Emanuel aproximou-se e cobriu Ágata, dando um beijo em sua testa. Sara fez o mesmo com Maya, ajeitando o travesseiro da pequena com uma delicadeza que poucos viam.

— Elas são perfeitas — sussurrou Sara, olhando para as duas.

— Elas são o resultado de nós três — disse Eduarda, aproximando-se e segurando a mão de Sara de um lado e a de Emanuel do outro.

Naquele momento, as tensões do dia, as disputas de controle de Emanuel, a vulgaridade estratégica de Sara e a insegurança de Eduarda pareciam irrelevantes. Eles eram um ecossistema único.

Quando finalmente entraram no quarto principal, Emanuel sentou-se na beira da cama e começou a desamarrar os coturnos. Sara já estava diante do espelho, retirando as joias com gestos rápidos. Eduarda sentou-se ao lado de Emanuel, encostando a cabeça em seu ombro.

— Eu estava pensando... — começou Eduarda, a voz baixa. — O seminário amanhã é sobre a representação da família na arte sacra.

— E o que você concluiu? — perguntou Emanuel, puxando-a para o seu colo.

— Que a arte tenta colocar a família em molduras quadradas, simétricas, perfeitas. Mas a vida... a vida é mais parecida com uma das suas tatuagens, Emanuel. É feita de dor, de tinta que penetra fundo, de marcas que não saem mais. É assimétrica, é estranha para quem olha de fora, mas é linda para quem a carrega.

Sara virou-se, já apenas de lingerie, e caminhou até eles. Ela sentou-se do outro lado de Emanuel, completando o círculo.

— Você está ficando muito poética, Duda — provocou Sara, mas seu tom era carinhoso. — Mas você tem razão. Quem diria que a loira vulgar e a menina sensível acabariam dividindo o mesmo império e o mesmo homem?

— Eu sou o homem mais sortudo do mundo — disse Emanuel, puxando as duas para um abraço coletivo. — E pobre de quem tentar quebrar esse equilíbrio.

Naquela noite, enquanto o Rio de Janeiro lá fora continuava seu ritmo frenético, dentro do labirinto de vidro e alfazema, o silêncio era de paz. Eduarda adormeceu sentindo o calor de Emanuel de um lado e a presença vibrante de Sara do outro. Ela não era mais a menina assustada que pedira abrigo em uma noite de chuva. Ela era a mamãe da Maya, a tia da Ágata, a musa de Emanuel e a parceira improvável de Sara.

E no seu sonho, ela não estava em uma moldura de museu. Ela estava em uma tela infinita, onde as cores se misturavam sem medo, criando uma imagem que ninguém mais poderia pintar. A família deles não era uma obra de arte clássica; era uma arte moderna, crua e absolutamente real. E para Eduarda, era o único lugar no mundo onde ela finalmente se sentia completa.