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O Labirinto de Veludo e Tinta
O relógio de carvalho no hall de entrada da mansão de campo badalou duas vezes, o som ecoando de forma melancólica pelos corredores silenciosos. Quatro meses haviam se passado desde aquele primeiro fim de semana de névoa e olhares roubados, mas para Emanuel, o tempo parecia ter se dobrado sob sua vontade. Ele não era um homem que aceitava um "não" como resposta, e a resistência de Eduarda, embora genuína e motivada pelo medo, fora apenas o combustível necessário para que ele montasse seu cerco.
Agora, a casa de campo não era apenas um refúgio de fim de semana; tornara-se o cenário de uma configuração que poucos entenderiam, mas que para Emanuel era a perfeição absoluta.
Emanuel estava sentado em uma poltrona de couro no escritório, observando o monitor de seu laptop. Ele acabara de aprovar os esboços para a nova convenção de tatuagem em Paris, mas sua mente estava no andar de cima. Ele sentia o peso do estresse de gerenciar seus estúdios globais, mas havia uma calma nova em suas veias. Uma calma que tinha nome, cheiro de baunilha e uma pele que parecia feita de seda.
A porta se abriu e Sara entrou, trazendo consigo o perfume importado forte e o som rítmico de seus saltos agulha. Ela usava um robe de seda transparente sobre uma lingerie preta mínima, o cabelo loiro platinado caindo em ondas perfeitas sobre os ombros.
— Ela ainda está trancada na biblioteca? — Sara perguntou, sentando-se no colo de Emanuel com a naturalidade de quem é dona do território. — Aquela menina vai acabar virando um livro de tanto que lê.
Emanuel passou a mão pela cintura de Sara, sentindo a firmeza do silicone e a pele bem cuidada. Ele a puxou para um beijo possessivo, um gesto que reafirmava o lugar dela.
— Deixe-a, Sara. Ela gosta do silêncio — Emanuel respondeu com sua voz grave, os dedos traçando as unhas impecáveis da namorada.
— Eu não me importo, Manu. Você sabe disso — Sara deu um sorriso irônico, brincando com o colarinho da camisa dele. — Ela é doce, e confesso que até eu gosto de ter algo tão... delicado por perto. Mas você está ficando obcecado. Quase não sai mais daquele estúdio que montou aqui só para ficar perto dela.
— Eu consigo equilibrar as coisas — ele afirmou, embora soubesse que era uma meia-verdade.
Emanuel havia conseguido o que queria. Eduarda agora morava com eles na mansão durante as férias da faculdade, sob o pretexto de "proteção" e "ajuda nos estudos de arte". Luana, a irmã de Eduarda, tentara lutar contra, mas Emanuel usara sua influência e recursos para convencer os pais modernos e ausentes das meninas de que Eduarda estaria segura sob sua tutela. E Eduarda, em sua fragilidade e carência emocional, acabara cedendo à gravidade esmagadora que Emanuel exercia sobre ela.
— Vou subir para tomar um banho de espuma — Sara disse, levantando-se e dando um tapinha no rosto dele. — Não demore. E se for ver a "bonequinha", diga que eu escolhi um vestido novo para ela. Está na cama do quarto dela.
Emanuel esperou que Sara saísse antes de se levantar. Ele caminhou até a biblioteca, o coração batendo em um ritmo que ele só permitia que Eduarda visse.
Ao abrir a porta pesada, ele a encontrou. Eduarda estava encolhida em um divã perto da janela, um livro de iluminuras medievais aberto no colo. Ela usava um vestido de algodão branco, simples e romântico, que contrastava drasticamente com a vulgaridade luxuosa de Sara. Ao ouvir a porta, ela deu um pequeno sobressalto, fechando o livro.
— Emanuel... — ela sussurrou, a voz manhosa e carregada de uma timidez que quatro meses de convivência não haviam apagado.
— Você não foi jantar — disse ele, aproximando-se com passos lentos, como um predador que já não precisa caçar, mas ainda aprecia o movimento.
— Eu não estava com fome. Estava lendo sobre a arquitetura das catedrais — ela desviou o olhar, as bochechas ganhando um tom rosado.
Emanuel parou diante dela e estendeu a mão, tocando o queixo de Eduarda para forçá-la a olhá-lo. A pele dela era macia, fria, e ele sentiu o tremor leve que sempre a percorria quando ele estava por perto.
— Você está fugindo de novo, Duda? — a voz dele era um sussurro perigoso. — Achei que já tivéssemos passado dessa fase.
— Eu não estou fugindo... é só que... às vezes eu me sinto perdida aqui — ela admitiu, os olhos expressivos brilhando com uma vulnerabilidade que o desarmava. — A Sara é tão... e você é tão... eu sinto que não pertenço a esse mundo de vocês.
Emanuel sentou-se ao lado dela, reduzindo o espaço entre seus corpos até que ela pudesse sentir o calor dele. Ele a puxou para perto, e Eduarda, como sempre, cedeu, apoiando a cabeça no ombro dele, buscando a proteção que só o homem que a mantinha "presa" podia oferecer.
— Você pertence a mim — ele disse com uma possessividade absoluta. — Sara entende isso. Ela tem o lugar dela, e você tem o seu. Eu cuido de você, Duda. Eu te dou o silêncio, os livros, a paz que você quer. Em troca, eu só quero você aqui. Onde eu possa te ver.
— Minha irmã diz que isso é errado — ela murmurou, os dedos finos brincando com os botões da camisa de Emanuel. — Ela diz que você me manipula.
— Luana não entende nada sobre nós — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — Ela vê a superfície. Você vê o que está por baixo, não vê?
Eduarda fechou os olhos. Ela sabia que Emanuel era intenso, controlador e que sua relação com Sara era algo que desafiava qualquer lógica moral que ela aprendera na faculdade. Mas quando ele a tocava, quando ele usava sua riqueza e poder para criar um casulo de conforto ao redor dela, ela se sentia segura. Era uma segurança perigosa, mas ela era jovem e sensível demais para resistir.
— Eu vi o desenho que você fez no meu caderno — ele continuou, a voz vibrando contra o ouvido dela. — A noiva fantasma. Você ainda pensa nela?
— Eu sinto que ela ainda caminha por aqui — Eduarda disse, olhando para as sombras nos cantos da biblioteca. — Às vezes, eu me sinto como ela. Uma sombra em uma casa cheia de luzes fortes.
— Você não é uma sombra — Emanuel a virou para si, segurando sua cintura com firmeza. — Você é a parte de mim que eu não mostro para o mundo. Sara é a minha armadura, o meu império. Você é a minha redenção.
Ele a beijou. Foi um beijo lento, profundo, que carregava toda a tensão acumulada de um homem que passava o dia comandando negócios multimilionários e terminava a noite tentando não quebrar a delicadeza da mulher que amava. Eduarda correspondeu com uma entrega total, suas mãos subindo pelo pescoço tatuado de Emanuel, buscando o contato físico que ela tanto ansiava.
— Emanuel... — ela ofegou entre os beijos —, a Sara... ela está lá em cima...
— Ela sabe onde eu estou — ele respondeu, a voz rouca de desejo. — Ela não se importa, Duda. Ela gosta de saber que eu estou satisfeito. E nada me satisfaz mais do que ter vocês duas sob o meu teto.
Eduarda sentiu uma pontada de insegurança, uma fraqueza que sempre a assombrava.
— Você nunca vai se cansar de mim? Eu não sou como ela. Eu não sei ser... marcante.
Emanuel sorriu, um sorriso raro e genuíno que só ela conseguia arrancar.
— Se eu quisesse outra Sara, eu teria outra Sara. Eu quero você. Quero sua timidez, seus livros, esse seu jeito de se esconder no meu peito. Você me dá o equilíbrio que eu preciso para não enlouquecer.
Ele a pegou no colo, a leveza do corpo de Eduarda fazendo-o sentir-se ainda mais poderoso. Ele a carregou pelos corredores até o quarto dela, onde o vestido que Sara escolhera — um modelo de seda rosa pálido, caro e delicado — repousava sobre a cama.
Ao entrar no quarto, Emanuel percebeu que a porta de interligação para o quarto principal estava entreaberta. Sara estava encostada no batente, observando a cena com um sorriso de satisfação nos lábios pintados de cereja.
— Finalmente trouxe a pequena para o ninho — Sara disse, cruzando os braços, fazendo com que o decote de seu robe se aprofundasse. — Ela parece exausta, Manu. Você está pressionando a menina de novo?
Emanuel colocou Eduarda no chão, mas manteve um braço ao redor de sua cintura.
— Ela estava apenas perdida nos pensamentos dela — Emanuel respondeu, o olhar alternando entre a exuberância de Sara e a suavidade de Eduarda.
Sara caminhou até eles. Ela não sentia ciúmes, não da forma tradicional. Para ela, Emanuel era um sol e ela era o planeta principal em sua órbita. Ter Eduarda ali era como ter uma lua bonita para decorar o céu; não mudava a hierarquia, apenas tornava a vista mais interessante.
— Duda, querida — Sara disse, tocando o rosto da jovem com suas unhas longas e decoradas —, você precisa relaxar. O Manu é um bruto às vezes, mas ele só quer o seu bem. E eu também. Amanhã vamos sair para comprar algumas joias. Você precisa de algo que brilhe tanto quanto esses seus olhos de artista.
Eduarda olhou para Sara, sentindo-se pequena, mas estranhamente acolhida pela confiança esmagadora da outra mulher.
— Eu... eu não preciso de joias, Sara. Obrigada.
— Todas precisam de joias — Sara riu, uma risada alta que preencheu o quarto. — Agora, Emanuel, deixe a menina descansar um pouco. Você tem negócios para resolver comigo no outro quarto.
Emanuel olhou para Eduarda, que lhe deu um sorriso tímido e encorajador. Ele sabia que Eduarda precisava de tempo para processar tudo, e Sara sabia exatamente como manejar os apetites dele.
— Vá dormir, Duda — Emanuel ordenou suavemente. — Amanhã de manhã, quero que você me mostre aqueles esboços que fez do jardim.
— Sim, Emanuel — ela respondeu, a voz doce voltando ao seu tom natural de obediência carinhosa.
Emanuel saiu do quarto com Sara, que envolveu o braço dele com possessividade. Antes de fechar a porta, ele olhou uma última vez para Eduarda. Ela já estava pegando o vestido de seda, seus dedos pequenos acariciando o tecido caro.
No corredor, Sara encostou Emanuel contra a parede.
— Você está feliz agora, não está? — ela sussurrou, a voz carregada de ironia. — O grande Emanuel tem seu castelo, sua rainha e sua princesa intocada.
— Eu tenho o que eu construí — ele respondeu, segurando o rosto de Sara com força. — E você sabe que não seria a mesma coisa sem você para administrar o caos.
— Eu sei — ela piscou, puxando-o pela gravata em direção ao quarto deles. — Mas não se esqueça, Manu. Eu sou a que conhece todos os seus segredos. Aquela ali... ela só conhece a parte que você deixa ela ver.
Emanuel não respondeu. Ele não precisava. No silêncio daquela mansão de campo, ele sabia que havia criado um mundo próprio. Um mundo onde a vulgaridade e a delicadeza coexistiam sob seu comando. Ele tinha a estabilidade de Sara e a pureza de Eduarda.
Enquanto Sara o arrastava para sua própria tempestade de sentidos, Emanuel pensou na noiva fantasma que Eduarda tanto mencionava. Talvez a lenda estivesse certa, e a casa fosse assombrada. Mas, para ele, não eram fantasmas que percorriam os corredores. Era o desejo, denso e inebriante, que agora unia três vidas em um laço que ninguém, nem mesmo a protetora Luana ou o mundo lá fora, seria capaz de desatar.
Eduarda, em seu quarto, vestiu a seda rosa e olhou-se no espelho. Ela não via mais a menina tímida que fugia de sombras. Ela via alguém que, embora insegura, havia encontrado um lugar onde era desejada com uma intensidade quase religiosa. Ela se deitou, o cheiro de Emanuel ainda em sua pele, e ouviu o som abafado das risadas de Sara no quarto ao lado.
Pela primeira vez em quatro meses, ela não sentiu vontade de fugir. Ela fechou os olhos e deixou que o silêncio da mansão a envolvesse, aceitando seu papel naquele labirinto de veludo e tinta que Emanuel havia desenhado especialmente para ela.