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Sombras de Crimson e Arame Farpado
O horizonte de São Paulo era uma floresta de concreto e luzes artificiais que Emanuel agora dominava de seu triplex nos Jardins. Um ano havia se passado desde o início daquela configuração atípica na casa de campo. O que começou como um desejo impulsivo transformou-se em uma rotina de posse absoluta. Emanuel não apenas mantinha Sara e Eduarda sob o mesmo teto, como havia fundido suas vidas de tal forma que as duas mulheres agora orbitavam ao seu redor como extensões de sua própria vontade.
Mas o sucesso e a expansão de seus estúdios de tatuagem e outros empreendimentos menos públicos trouxeram sombras. Emanuel não era apenas um artista rico; ele era um homem que transitava por zonas cinzentas da legalidade, onde o respeito era mantido através do medo e de conexões perigosas.
Naquela noite de sexta-feira, o ar no apartamento estava saturado de uma tensão que nem mesmo o luxo conseguia dissipar. Emanuel terminava de ajustar o relógio de platina no pulso, observando seu reflexo no espelho. Ele usava um terno sob medida, preto como breu, que escondia as tatuagens em seus braços, mas não a aura de autoridade implacável que ele exalava.
— Manu, eu realmente não entendo por que tenho que usar esse vestido tão fechado — reclamou Sara, entrando no closet.
Ela estava deslumbrante, como sempre, mas ostentava um visual ligeiramente mais contido do que sua habitual vulgaridade agressiva. O vestido de veludo vermelho era justo, ressaltando cada curva e o volume de seus seios, mas Emanuel havia vetado o decote profundo que ela pretendia usar.
— Porque hoje não é uma noite para você fazer propaganda da sua loja, Sara — Emanuel disse, a voz fria e pragmática. — É uma noite de negócios. O ambiente vai estar carregado. Quero você perto de mim. O tempo todo.
Sara bufou, passando o batom com força, mas não discutiu. Ela conhecia o tom de voz que Emanuel usava quando as coisas estavam ficando sérias. Ela sabia que, por trás da fachada de empresário, Emanuel estava lidando com lobos.
— E a bonequinha? Ela está pronta? — Sara perguntou, suavizando o tom.
— Estou aqui — sussurrou Eduarda, aparecendo na porta.
Aos 21 anos, Eduarda parecia ter florescido em uma beleza etérea e melancólica. Ela usava um vestido de seda azul-marinho, longo, com mangas bufantes transparentes. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e ela parecia um anjo deslocado em um mundo de tubarões. Seus olhos grandes estavam fixos em Emanuel, buscando a segurança que só ele provia.
— Venha aqui, Duda — Emanuel ordenou suavemente.
Ela caminhou até ele, e Emanuel a envolveu pela cintura, sentindo a fragilidade de seu corpo esguio. Ele beijou sua testa, um gesto que fez Eduarda fechar os olhos e suspirar.
— Escutem bem as duas — começou Emanuel, olhando para ambas. — Vamos à festa de aniversário do Victor. Ele é um aliado, mas os convidados dele nem sempre seguem as mesmas regras. O lugar vai estar cheio de gente que vocês não conhecem. Prostitutas de luxo, agiotas, políticos sujos. Não quero que saiam do meu lado por um segundo sequer. Se eu me levantar, vocês se levantam. Se eu for ao banheiro, vocês esperam na porta. Entendido?
— Você está me deixando nervosa, Manu — disse Sara, ajeitando a pulseira de diamantes. — É tão perigoso assim?
— É um ambiente onde o erro não é perdoado — ele respondeu, os olhos endurecendo. — Eduarda, não solte a minha mão.
— Eu prometo — ela murmurou, a voz trêmula.
O trajeto até a mansão no Morumbi foi feito em silêncio absoluto dentro do carro blindado. Quando chegaram, a atmosfera já era pesada. Seguranças armados com fuzis discretos guardavam os portões. O som da música eletrônica era abafado, um batido grave que parecia o pulsar de um coração doente.
Ao entrarem no salão principal, o cenário era de uma decadência opulenta. Mulheres esculturais, vestindo quase nada, circulavam com bandejas de prata, oferecendo substâncias que iam muito além do champanhe. Homens de meia-idade, com olhares predatórios, ocupavam os sofás de couro.
Emanuel sentiu Eduarda apertar sua mão com tanta força que as pontas dos dedos dela ficaram brancas. Sara, por sua vez, instintivamente colou-se ao braço esquerdo dele, seus olhos azuis examinando o ambiente com uma cautela que ela raramente demonstrava.
— Emanuel! O homem de ouro! — Victor, o anfitrião, aproximou-se. Ele era um homem robusto, com o rosto marcado por cicatrizes e um sorriso que não chegava aos olhos. — E você trouxe as suas joias da coroa. Magníficas.
Victor olhou para Eduarda com uma intensidade que fez a garota recuar para trás do ombro de Emanuel.
— Elas ficam comigo, Victor — disse Emanuel, o tom de voz sendo um aviso claro. — Vamos para o camarote.
Emanuel conduziu as duas para uma área elevada, um sofá em forma de U que oferecia uma visão privilegiada, mas protegida, da festa. Ele se sentou no centro. Imediatamente, Sara acomodou-se em seu colo do lado esquerdo, e Eduarda, trêmula, sentou-se do lado direito, praticamente fundindo-se ao corpo dele.
— Eu não gosto daqui, Manu — sussurrou Eduarda, escondendo o rosto no pescoço dele. — O cheiro... as pessoas... parece que algo ruim vai acontecer.
— Shh... eu estou aqui — Emanuel passou o braço ao redor dela, puxando-a para mais perto. — Ninguém vai tocar em você.
Sara, geralmente a alma da festa, estava quieta. Ela observava as prostitutas de luxo que dançavam em volta das mesas, mulheres que vendiam a alma por migalhas do poder daqueles homens. Pela primeira vez, a vulgaridade que Sara usava como armadura parecia pequena diante da depravação real daquele lugar. Ela se inclinou para Emanuel, buscando o contato físico.
— Aqueles homens estão olhando para a Duda como se ela fosse um prato de comida — Sara sibilou no ouvido de Emanuel. — Se um deles chegar perto, eu juro que furo o olho dele com meu salto.
Emanuel deu um sorriso sombrio.
— Ninguém vai chegar perto.
Ao longo da noite, vários homens tentaram se aproximar para falar de negócios. Emanuel atendia a todos sem permitir que as mulheres saíssem de seu colo. Era uma imagem de poder absoluto: o leão protegendo suas duas leoas, uma de fogo e outra de neve.
— Emanuel, precisamos discutir a rota de importação para as tintas de Londres — disse um homem de terno cinza, aproximando-se com um copo de uísque. Ele olhou para Eduarda, que estava com os olhos fechados, tentando se desligar do barulho. — A menina parece doente. Por que não deixa que uma das minhas garotas a leve para um quarto para descansar?
Emanuel sentiu o corpo de Eduarda enrijecer. Ela o abraçou com força, as unhas cravando-se levemente no tecido de seu terno.
— Ela não vai a lugar nenhum — Emanuel respondeu, a voz saindo como um trovão baixo. — E se você olhar para ela de novo dessa forma, vamos ter um problema que o seu seguro de vida não vai cobrir.
O homem empalideceu e recuou, balbuciando uma desculpa.
— Eu quero ir embora, Emanuel — pediu Eduarda, as lágrimas começando a brotar. — Por favor.
— Só mais um pouco, pequena — ele disse, a mão subindo para acariciar os cabelos dela com uma doçura que contrastava com a violência de suas palavras anteriores. — Eu preciso que o Victor assine os documentos de garantia. Depois, vamos direto para casa.
Sara, percebendo o pânico de Eduarda, estendeu a mão e segurou a mão da garota por cima das pernas de Emanuel.
— Aguenta firme, bonequinha — Sara disse, com uma sinceridade rara. — O Manu está no controle. Ninguém mexe com a gente.
A festa continuava a degringolar. No centro do salão, uma briga começou entre dois traficantes de armas, e o som de vidro quebrando fez Eduarda dar um grito abafado. Emanuel não se moveu, seus olhos fixos na entrada, onde seus próprios seguranças mantinham a posição.
Victor aproximou-se novamente, trazendo uma pasta de couro.
— Aqui está, Emanuel. Tudo conforme o combinado. Desculpe pela confusão lá embaixo, o pessoal perde a linha rápido demais.
Emanuel pegou a pasta sem soltar Eduarda.
— Estamos de saída, Victor.
— Já? A noite está apenas começando. Tenho garotas novas que acabaram de chegar do leste europeu...
— Eu tenho tudo o que preciso bem aqui — Emanuel cortou-o, levantando-se.
Ele não soltou as duas. Com um braço ao redor de cada uma, ele as guiou pelo caos do salão. As prostitutas olhavam para Sara com inveja, e os homens olhavam para Eduarda com cobiça, mas o caminho se abria diante de Emanuel como se ele fosse o próprio mar vermelho.
Quando finalmente entraram no carro e as portas blindadas se fecharam com um baque surdo, o silêncio foi imediato. Eduarda desabou em prantos no peito de Emanuel, liberando todo o medo acumulado.
— Acabou, Duda. Já passou — ele murmurou, ninando-a.
Sara respirou fundo, tirando os sapatos e jogando-os no chão do carro. Ela estava pálida, a confiança abalada.
— Aquele lugar era o inferno, Manu — ela disse, olhando pela janela enquanto o carro se afastava da mansão. — Eu nunca vi nada parecido. Aquelas mulheres... elas não tinham alma nos olhos.
— É a realidade do mundo em que eu transito, Sara — Emanuel disse, olhando para ela com seriedade. — Por isso eu sou tão rígido com vocês. Por isso eu não deixo a Eduarda sair sozinha e controlo onde você vai. Existem pessoas que veriam vocês apenas como moedas de troca.
Sara assentiu, aproximando-se dele e de Eduarda. Pela primeira vez, não havia disputa de espaço. As duas se uniram ao redor do homem que era seu mestre, protetor e carcereiro.
— Eu odeio isso — disse Eduarda, limpando o rosto. — Odeio que você tenha que lidar com essas pessoas.
— Eu lido com elas para que você possa continuar lendo seus livros de arte em paz, Duda — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — Para que a Sara possa ter a loja dela sem ser incomodada por cobradores. Esse é o preço.
Ao chegarem no triplex, o ambiente seguro e familiar pareceu um santuário. Emanuel levou Eduarda até o quarto dela, ajudando-a a tirar o vestido pesado. Ela estava exausta, o trauma da noite drenando suas energias.
— Durma — ele disse, cobrindo-a. — Vou estar no quarto ao lado.
— Não vá... — ela pediu, segurando a mão dele. — Fica aqui até eu dormir?
Emanuel sentou-se na beira da cama, observando-a. Ele sentia uma satisfação sombria. O medo delas o irritava, mas também o alimentava. Saber que ele era a única barreira entre elas e o abismo do mundo exterior era o que mantinha seu ego de pé.
Sara apareceu na porta, já de robe, observando a cena. Ela entrou silenciosamente e sentou-se do outro lado da cama de Eduarda.
— Hoje foi uma noite difícil para a pequena — Sara comentou, a voz suave. — Mas nós sobrevivemos.
— Nós sempre sobrevivemos — Emanuel afirmou.
Ele olhou para as duas mulheres. Sara, a loira siliconada que o mundo via como vulgar, mas que possuía uma lealdade de ferro; e Eduarda, a menina sensível que era sua alma escondida. Ele as queria exatamente assim: dependentes, protegidas e sob seu domínio total.
Eduarda pegou no sono segurando a mão de Emanuel e a de Sara. Naquela noite, em meio ao luxo de São Paulo, o triplex não era apenas uma residência. Era uma fortaleza onde o amor e a possessão se confundiam, e onde Emanuel, o tatuador que desenhava destinos na pele e na vida, garantia que suas duas peças mais preciosas nunca mais tivessem que encarar a escuridão sem ele.
Mas, no fundo de sua mente, Emanuel sabia que o mundo lá fora não desistiria tão fácil. Victor e seus asseclas tinham visto o que ele mais amava. E em seu mundo, o amor era a maior de todas as fraquezas. Ele teria que ser ainda mais implacável. Ele teria que ser o monstro que protegia os anjos.