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Heranças de uma Noite de Vidro

O silêncio do triplex foi estilhaçado pelo som insistente do interfone da portaria. Emanuel, que terminava de conferir alguns relatórios de seus estúdios na Europa, franziu o cenho. Eram quase dez da manhã de um sábado, e ele não esperava ninguém. Sara ainda dormia o sono profundo das rainhas, e Eduarda provavelmente estava na cozinha preparando o chá que tanto gostava.

— Senhor Emanuel? — a voz do porteiro soou hesitante através do aparelho. — Tem uma mulher aqui embaixo. O nome dela é Bianca. Ela diz que é urgente e... senhor, ela está com dois carrinhos de bebê.

Emanuel sentiu um estalo de memória. Bianca. Uma loira escultural, prostituta de luxo que ele conhecera em uma festa de arromba há quase dois anos, durante um dos breves e explosivos términos entre ele e Sara. Fora uma única noite de excessos e indiferença mútua.

— Mande subir — disse ele, a voz saindo mais gélida que o habitual.

Minutos depois, a porta do elevador privativo se abriu. Bianca entrou no hall com uma aparência que em nada lembrava a mulher glamourosa de outrora. Estava pálida, com olheiras profundas e um desespero mal contido nos olhos. À sua frente, dois carrinhos de bebê gêmeos, modernos e caros, mas que pareciam pequenos demais para a bagunça de brinquedos e mantas dentro deles.

— O que significa isso, Bianca? — Emanuel levantou-se, cruzando os braços sobre o peito tatuado.

— São suas, Emanuel — ela disse, sem preâmbulos, a voz falhando. — Maya e Ágata. Elas têm um ano. Eu tentei, juro que tentei, mas eu não nasci para isso. Minha carreira acabou, eu não tenho mais dinheiro e não tenho paciência. Se você não ficar com elas, eu vou deixá-las em um abrigo hoje mesmo.

Emanuel ficou estático. Ele, o homem que controlava impérios e pessoas, sentiu o chão oscilar. Ele olhou para os carrinhos. De um deles, uma cabecinha de cabelos castanhos e olhos grandes e úmidos espiou por baixo da manta. Do outro, uma bebê de expressão séria, quase altiva, observava o ambiente com um desdém que era assustadoramente familiar.

— Você está louca? — Emanuel deu um passo à frente. — Você aparece aqui depois de um ano com duas crianças e espera que eu simplesmente...

— Emanuel? O que é essa gritaria? — Sara apareceu no topo da escada, usando um robe de seda rosa choque, os cabelos loiros levemente bagunçados.

Ela parou no meio do caminho, os olhos arregalados ao ver Bianca e os dois carrinhos. Logo atrás dela, Eduarda surgiu, segurando um livro, com sua expressão doce e curiosa que rapidamente se transformou em choque.

— Quem é essa mulher, Manu? — Sara desceu os degraus rapidamente, a voz subindo de tom. — E por que tem bebês na minha sala?

— Elas são filhas dele, se é o que você quer saber — Bianca disparou, com uma risada amarga. — E agora são problemas de vocês. Os exames de DNA estão na bolsa. Eu não volto atrás.

Bianca deixou as bolsas de fraldas no chão, virou as costas e entrou no elevador antes que Emanuel pudesse reagir. O silêncio que se seguiu foi denso, apenas quebrado pelo choro súbito e baixinho de uma das bebês.

— Filhas? — Eduarda sussurrou, aproximando-se lentamente, como se tivesse medo de que as crianças desaparecessem. — Emanuel... elas são suas?

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse latejar em suas têmporas.

— Eu tive um envolvimento com ela quando nós terminamos aquela vez, Sara — ele explicou, olhando para a namorada, que parecia prestes a explodir. — Eu não sabia de nada.

Sara caminhou até os carrinhos, bufando de indignação.

— Isso é ridículo! Uma vigarista aparece aqui e... — Ela parou de falar no momento em que seus olhos encontraram os de Ágata.

A bebê no carrinho da direita não chorava. Ágata tinha os cabelos loiros clarinhos e uma expressão de absoluta superioridade. Ela olhou para as unhas compridas e pintadas de Sara, e depois para o rosto da mulher, dando um pequeno "tchau" com a mãozinha, mas sem sorrir, como se estivesse concedendo uma audiência real.

— Olha só para isso... — Sara murmurou, a raiva minguando instantaneamente. — Ela me olhou de cima a baixo. Manu, essa menina tem a minha cara de quando eu não gosto de alguém. Ela é... ela é esnobe!

Enquanto isso, no outro carrinho, Maya começou a soluçar de forma mais sentida. Ela era menor, mais delicada, com os olhos castanhos idênticos aos de Emanuel, mas com a doçura que ele nunca possuiu.

Eduarda, movida por um instinto que nem sabia que tinha, ajoelhou-se ao lado do carrinho de Maya.

— Oh, meu Deus... não chore, pequena — Eduarda disse com sua voz mais suave.

Ela pegou Maya no colo. A bebê imediatamente se agarrou à blusa de Eduarda, escondendo o rosto em seu pescoço e soltando um suspiro manhoso, buscando o calor e o refúgio. Eduarda sentiu o coração derreter. A fragilidade daquela criança espelhava a sua própria, e uma conexão instantânea e poderosa se formou.

— Emanuel, olhe para ela — Eduarda disse, com os olhos brilhando de lágrimas. — Ela é tão sensível. Ela está assustada.

Emanuel aproximou-se das três mulheres e das duas crianças. Ele olhou para Maya nos braços de Eduarda; a menina era o retrato da timidez e da carência. Depois olhou para Ágata, que agora tentava puxar o cordão de ouro de Sara com uma insistência autoritária.

— Isso é um caos — Emanuel sentenciou, embora algo em seu peito tivesse mudado ao ver suas características impressas naqueles rostos pequenos. — Vou mandar meus advogados verificarem tudo, mas... se elas forem minhas, elas ficam.

— É claro que ficam! — Sara exclamou, já pegando Ágata no colo. A bebê não protestou, apenas ajeitou-se no braço de Sara como se fosse o seu trono de direito. — Olha essa pose, Manu. Ela é perfeita. Já imagino os looks que vou montar para ela na loja. Vai ser a minha mini-modelo.

— E a Maya precisa de carinho — Eduarda disse, ninando a bebê que agora distribuía beijos babados no rosto dela. — Ela é tão manhosa, Emanuel. Ela não quer me soltar.

As semanas seguintes transformaram o triplex em um campo de batalha de fraldas, mamadeiras e descobertas. Emanuel, apesar de seu jeito prático e reservado, viu-se completamente rendido. Ele gastou pequenas fortunas transformando um dos quartos em um berçário digno de princesas, mas a dinâmica que se estabeleceu foi o que mais o surpreendeu.

Eduarda tornou-se a "mãe" dedicada de Maya. As duas passavam horas na biblioteca; Eduarda lia livros de arte em voz baixa enquanto Maya descansava em seu colo, brincando com as mechas de seu cabelo castanho. Maya era uma criança emocionalmente intuitiva; se via Eduarda triste ou quieta, ela se aproximava e oferecia seu brinquedo favorito, buscando a proximidade física que ambas tanto valorizavam.

— Ela é igualzinha a você, Duda — Emanuel comentou certa tarde, observando as duas no jardim de inverno. — Sensível demais para esse mundo.

— Eu vou protegê-la, Emanuel — Eduarda respondeu, abraçando a menina. — Não vou deixar que ninguém a assuste.

Já Sara e Ágata eram uma força da natureza. Ágata era exigente, não aceitava qualquer comida e só parava de chorar se estivesse no colo de Sara ou se estivessem diante de um espelho. Sara, que nunca se imaginara com filhos, estava encantada. Ela levava a bebê para a loja, onde Ágata ficava em um cercadinho de luxo, observando as clientes com um olhar crítico que fazia Sara gargalhar.

— Ela tem personalidade, Manu! — Sara dizia, enquanto trocava a fralda de Ágata (uma tarefa que ela aprendeu a fazer com uma rapidez surpreendente, sem estragar as unhas). — Ela não é qualquer uma. Essa aqui vai mandar em tudo quando crescer.

Emanuel sentia-se puxado entre esses dois mundos dentro de casa. Quando estava estressado com os negócios, ele buscava a paz no quarto de Maya e Eduarda, onde o silêncio e o afeto o acalmavam. Mas, à noite, ele se divertia com a energia de Sara e os desafios de Ágata, que já começava a balbuciar ordens.

No entanto, o conflito central permanecia. Emanuel ainda queria o controle total. Ele via como Maya se apegava a Eduarda e sentia uma pontada de ciúmes daquela conexão tão pura. E via como Sara usava Ágata como uma extensão de sua própria vaidade.

— Você está sendo possessivo até com os bebês, Emanuel — Sara disse uma noite, enquanto eles dividiam uma garrafa de vinho após as meninas dormirem.

— Eu só quero garantir que elas tenham o melhor — ele respondeu, rígido.

— O melhor ou o que você decide que é o melhor? — Sara provocou, aproximando-se dele. — Admita, Manu. Você ama o fato de que agora tem quatro mulheres dependendo de você.

Emanuel não respondeu, mas o sorriso de canto denunciou seus pensamentos.

Na manhã seguinte, Luana, a irmã de Eduarda, apareceu para uma visita. Ela ainda mantinha sua postura protetora e desconfiada em relação a Emanuel. Quando viu Eduarda sentada no chão, brincando de esconder com Maya, enquanto Emanuel observava da porta com um olhar de adoração, Luana sentiu um aperto no coração.

— Duda, você está se envolvendo demais nisso — Luana disse, puxando a irmã para um canto. — Essas crianças são filhas de uma prostituta e do homem que... bem, você sabe como o Emanuel é. Isso vai te prender a ele para sempre.

— Eu já estou presa a ele, Luana — Eduarda respondeu com uma firmeza que surpreendeu a irmã. — Mas agora eu tenho a Maya. Ela precisa de mim. E eu preciso dela.

— Ele está usando essas crianças para te manipular, para que você nunca vá embora — Luana insistiu.

Emanuel, que ouvia a conversa de longe, sentiu a irritação crescer. Ele caminhou até as duas, sua presença imponente silenciando o ambiente.

— Luana, se você veio aqui para semear discórdia, a porta é por onde você entrou — disse ele, a voz perigosamente baixa. — Minhas filhas são minha responsabilidade. E se a Eduarda escolheu amá-las, você não tem o direito de interferir.

— Ela é minha irmã! — Luana rebateu.

— E ela é minha mulher — Emanuel retrucou, colocando a mão no ombro de Eduarda.

Eduarda, sentindo a tensão, recuou um passo, mas Maya, percebendo o conflito, começou a choramingar e esticou os bracinhos para Emanuel. Foi a primeira vez que a menina buscou o pai de forma tão direta. Emanuel a pegou no colo, e a pequena Maya escondeu o rosto em seu peito tatuado.

O gesto desarmou a todos. Emanuel sentiu algo se quebrar dentro de sua armadura de gelo. Aquela criaturinha tão frágil confiava nele.

— Vá embora, Luana — Eduarda disse, baixinho. — Por favor.

Quando a irmã saiu, o triplex voltou ao seu equilíbrio peculiar. Sara desceu as escadas com Ágata, que usava um óculos de sol de brinquedo e um laço gigante na cabeça.

— Que clima pesado é esse? — Sara perguntou, ajeitando Ágata no quadril. — Ágata quer passear. Manu, pegue a Maya e a bonequinha. Vamos ao parque. Quero que todos vejam a família perfeita que nós somos.

Emanuel olhou para Sara, para o brilho desafiador em seus olhos, e depois para Eduarda, que sorria timidamente enquanto limpava uma lágrima. Ele tinha as duas mulheres que desejava e agora tinha duas extensões de si mesmo para moldar.

— Vamos — disse ele, sentindo que, pela primeira vez, o controle que ele tanto buscava não vinha apenas do medo ou do dinheiro, mas dessa teia complexa de afetos que ele havia construído.

No parque, a cena chamava a atenção. O homem alto e tatuado com uma bebê tímida no colo; a loira deslumbrante e chamativa com uma bebê que parecia uma pequena rainha; e a jovem delicada que caminhava ao lado deles, cuidando para que nada perturbasse a paz do grupo.

Emanuel sabia que o mundo lá fora ainda era perigoso, que Bianca poderia voltar ou que rivais poderiam tentar usar as meninas contra ele. Mas enquanto olhava para Maya rindo de uma borboleta e Ágata ignorando as outras crianças com um ar de superioridade, ele jurou que o seu império seria, acima de tudo, a fortaleza delas.

Sara percebeu o olhar dele e piscou.

— Eu disse que você conseguiria tudo o que queria, Manu. Só não sabia que viria em dobro.

— Às vezes — Emanuel respondeu, observando Eduarda segurar a mão de Maya para ajudá-la a dar os primeiros passos na grama —, o destino desenha melhor do que eu.

E ali, sob o sol da tarde, a família de Emanuel — composta por silicone e seda, livros e sensibilidade, autoridade e ternura — seguia seu caminho, um labirinto de vidas entrelaçadas onde o amor, por mais distorcido que fosse, era a única lei que realmente importava.