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Sussurros no Escuro da Fazenda
A estrada de terra que levava à centenária Fazenda Vale do Silêncio era um caminho tortuoso, cercado por árvores cujos galhos pareciam dedos retorcidos sob a luz alaranjada do final da tarde. Emanuel dirigia com uma mão no volante, a expressão concentrada e séria. Ele precisava desse refúgio. O estresse dos estúdios e a tensão constante entre suas duas mulheres o estavam drenando. Ele acreditava que o ar puro e o isolamento da propriedade de sua família seriam o remédio ideal para forçar uma convivência mais harmônica.
No banco do passageiro, Sara usava óculos escuros de grife e um conjunto de linho que, apesar de ser para o campo, era curto e decotado o suficiente para deixar claro que ela não pretendia se misturar com a lama. Ela bufava a cada solavanco do carro. No banco de trás, Eduarda olhava pela janela com um misto de encantamento e apreensão. O lugar era lindo, mas o silêncio que dava nome à fazenda parecia denso demais, quase sólido.
— Emanuel, querido, tem certeza de que não tem sinal de Wi-Fi aqui? — Sara perguntou, agitando o celular no ar. — Eu tenho uma loja para gerenciar, pedidos para conferir. Não posso ficar isolada no século dezenove.
— Você não gerencia nada, Sara, você tem funcionários para isso — Emanuel respondeu, a voz rouca e firme. — E a ideia é justamente essa. Desconectar. A Duda não está reclamando.
— A Duda não reclama de nada, ela é uma santa, não sabia? — Sara ironizou, lançando um olhar pelo retrovisor. — Está aí atrás toda trabalhada no misticismo, provavelmente lendo sobre a história das pedras dessa estrada.
Eduarda deu um sorriso tímido, apertando a alça de sua bolsa de lona.
— Eu só acho o lugar... intenso — murmurou Eduarda. — Meus pais disseram que essa região tem muitas lendas. Histórias de antigos moradores que nunca partiram.
— Lendas para assustar criança, Duda — Emanuel cortou, embora tenha estendido a mão direita para trás, buscando a mão dela por um instante para acalmá-la. — A fazenda é segura. É minha. Nada acontece aqui sem que eu saiba.
Eles chegaram à casa principal, uma construção robusta de pedra e madeira, com uma varanda que circulava todo o imóvel. O sol já havia se posto, deixando para trás um rastro de roxo e cinza no céu. Enquanto Emanuel descarregava as malas, um calafrio percorreu a espinha de Eduarda. Ela sentia que estava sendo observada da orla da mata.
— Vamos entrar, está ficando frio — Emanuel comandou, carregando a maior parte da bagagem com uma facilidade que realçava os músculos de seus braços cobertos por tatuagens.
A noite caiu rapidamente. Após um jantar preparado pela caseira que já havia ido embora para sua própria casinha nos fundos, o trio se acomodou na sala de estar, aquecida por uma lareira. Emanuel estava sentado em uma poltrona de couro, revisando alguns desenhos em seu tablet, enquanto Sara bebia um vinho tinto caro e Eduarda folheava um livro sobre folclore regional que encontrara na estante da família.
— Escutem isso... — Eduarda disse, a voz baixa. — "O Vigilante das Sombras". Dizem que é uma criatura que habita as matas do Vale. Ele não tem rosto, apenas uma silhueta alta e desproporcional. Ele aparece para aqueles que invadem seu silêncio.
Sara soltou uma gargalhada aguda, o som ecoando de forma estranha no teto alto da sala.
— Pelo amor de Deus, Eduarda! Você faz faculdade de História da Arte ou de Roteiro de Filme de Terror de quinta categoria? — Sara se levantou, caminhando de forma provocante até Emanuel e sentando-se no braço da poltrona dele. — Emanuel, diz para ela parar. Daqui a pouco ela vai estar fazendo xixi na cama de medo.
— É só uma história, Duda — Emanuel disse sem tirar os olhos do tablet, embora um vinco de irritação tenha surgido em sua testa. — O único "vigilante" aqui sou eu.
— Mas a descrição é tão detalhada... — Eduarda insistiu, sentindo uma inquietação crescente. — Dizem que ele emite um som, como um estalar de galhos secos, mesmo quando não há vento.
— Chega de histórias — Emanuel decretou, fechando o tablet. — Sara, vá se preparar para dormir. Duda, tente relaxar. Amanhã vamos fazer uma trilha e você vai ver que não há nada lá fora além de árvores e gado.
Cerca de uma hora depois, a casa mergulhou no escuro. Emanuel dormia no quarto principal com Sara. O quarto de Eduarda ficava logo ao lado, uma concessão que ele fizera para que ela não se sentisse pressionada a dividir a cama com os dois logo na primeira noite em um lugar estranho.
Eduarda não conseguia dormir. O som do vento batendo nas janelas de madeira parecia sussurrar seu nome. Ela se levantou para pegar um copo de água na cozinha. Ao passar pelo corredor, viu Sara na varanda envidraçada que dava para os fundos. A loira estava de costas, usando uma camisola de seda curta e transparente, fumando um cigarro eletrônico.
— Também não consegue dormir, "boneca"? — Sara perguntou sem se virar, o tom sarcástico de sempre presente.
— O silêncio me deixa agitada — Eduarda admitiu, aproximando-se da vidraça.
— É o vinho. O vinho aqui é bom, mas o ar é pesado — Sara comentou, soltando uma nuvem de vapor. — Sabe, o Emanuel me cansa às vezes com essa mania de querer ser o dono do mundo. Trazer a gente para cá... é quase como se ele quisesse nos cercar.
Eduarda ia responder, mas algo na escuridão do jardim chamou sua atenção. Além do alcance das luzes externas da varanda, perto do velho carvalho, algo se moveu. Não era o movimento de um animal. Era algo alto, excessivamente alto, que se desdobrava das sombras.
— Sara... — Eduarda sussurrou, o coração batendo na garganta. — O que é aquilo?
Sara, que adorava manter a pose de corajosa, olhou na direção que Eduarda apontava. Ela estreitou os olhos, pronta para soltar um comentário ácido, mas a piada morreu em seus lábios.
Entre as árvores, uma figura se destacava. Tinha pelo menos dois metros e meio de altura. Não parecia ter roupas, mas sim uma pele escura como a casca de uma árvore queimada. Os braços eram longos demais, as mãos quase tocando o chão. Não havia rosto, apenas uma superfície lisa e opaca que refletia a luz pálida da lua.
— Mas que porra é essa? — Sara exclamou, deixando o cigarro cair no chão.
A criatura inclinou a cabeça para o lado. O som veio em seguida: um estalo seco, como se um tronco imenso estivesse sendo partido ao meio. *Crec. Crec. Crec.*
Eduarda sentiu as pernas fraquejarem.
— É ele... o Vigilante — a voz dela mal saía.
A criatura deu um passo em direção à casa. O movimento era fluido, mas antinatural, como se ela estivesse deslizando sobre o solo.
— EMANUEL! — Sara gritou, a voz perdendo toda a confiança e se tornando um agudo de puro terror. — EMANUEL, VEM AQUI AGORA!
As duas recuaram para dentro da sala, tropeçando nos móveis no escuro. Emanuel surgiu no topo da escada em segundos, vestindo apenas uma calça de moletom, segurando uma lanterna tática e uma faca de caça que mantinha na cabeceira.
— O que foi? O que aconteceu? — Ele desceu os degraus rapidamente, encontrando as duas abraçadas, um contraste bizarro entre a fragilidade de Eduarda e a vulgaridade agora borrada pelo medo de Sara.
— Tem uma coisa lá fora! — Sara apontou para a varanda, as mãos siliconadas tremendo visivelmente. — Uma coisa enorme, Emanuel! Não era um bicho, era um monstro!
Emanuel franziu o cenho, o instinto protetor assumindo o controle. Ele empurrou as duas para trás de si e caminhou até a vidraça, iluminando o jardim com o feixe potente da lanterna.
O carvalho estava lá. As sombras das árvores dançavam com o vento. Mas não havia nada.
— Não tem nada lá, Sara — disse Emanuel, percorrendo o jardim com a luz. — Deve ter sido um cervo ou até mesmo um dos cavalos que escapou do cercado. A luz da lua prega peças, vocês sabem disso.
— Não era um cavalo! — Eduarda disse, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido. — Manu, ele estalou... ele olhou para a gente. Ele não tinha rosto. É igual ao livro.
Emanuel suspirou, sentindo a irritação crescer. Ele lidava com crises financeiras e problemas de logística internacional, não com fantasmas. Para ele, aquilo era o ápice da instabilidade emocional das duas se alimentando mutuamente.
— Duda, você leu aquela história e ficou impressionada. Sara, você provavelmente bebeu demais e entrou na onda dela — ele disse, embora sua voz fosse firme e ele não baixasse a guarda totalmente. — Eu vou dar uma volta ao redor da casa só para garantir, mas quero as duas lá em cima. Agora.
— Você não vai sair! — Sara agarrou o braço dele, as unhas compridas cravando na pele tatuada. — Se aquela coisa te pegar, o que a gente faz?
— Nada vai me pegar, Sara. Me solta — ele ordenou, com uma frieza que a fez obedecer imediatamente.
Emanuel saiu pela porta lateral. As duas ficaram na sala, em um silêncio sepulcral, apenas ouvindo o som dos próprios corações. Por um breve momento, a rivalidade desapareceu. Sara segurou a mão de Eduarda com força.
— Se a gente morrer aqui, eu vou matar o Emanuel primeiro por ter nos trazido — Sara sussurrou, tentando recuperar um pouco de seu sarcasmo, embora a voz estivesse trêmula.
— Ele não acredita na gente — Eduarda respondeu, olhando para a porta. — Ele acha que controla tudo, mas tem coisas que não podem ser controladas.
Minutos depois, Emanuel voltou. Ele estava trancando as portas com uma força desnecessária.
— Viu alguma coisa? — perguntou Eduarda.
— Nada. Pegadas de animais comuns perto da cerca, nada mais — ele respondeu, embora houvesse uma leve hesitação em seus olhos que ele tentava esconder. Ele tinha ouvido um estalo vindo da mata, um som que não parecia de nenhum animal que ele conhecesse, mas sua mente racional se recusava a aceitar o sobrenatural. — Vamos subir. Ninguém sai dos quartos até o amanhecer.
Eles subiram. Emanuel, querendo evitar mais histeria, mandou que as duas dormissem no quarto principal com ele. A cama king-size era grande o suficiente. Ele ficou no meio. Sara se agarrou ao seu braço esquerdo, escondendo o rosto em seu pescoço. Eduarda se aninhou no lado direito, segurando sua mão e buscando o calor de seu corpo como um escudo contra o frio que parecia emanar das paredes da casa.
— Eu quero ir embora amanhã cedo — Sara murmurou contra a pele dele.
— Não vamos embora — Emanuel respondeu, a voz rígida. — Eu não vou deixar que um susto bobo e uma lenda de livro estraguem o meu descanso. Nós vamos ficar o final de semana inteiro.
— Manu, por favor... — Eduarda pediu, a voz manhosa e carregada de medo.
— Durmam — ele comandou, encerrando o assunto.
A noite se arrastou. Emanuel permaneceu acordado por muito tempo, ouvindo os sons da casa velha. Ele sentia o peso das duas mulheres sobre ele, a responsabilidade de protegê-las, a irritação por não conseguir convencê-las de que estavam seguras.
Por volta das três da manhã, um som ecoou por toda a fazenda. Não foi um grito, nem o vento. Foi um estalo longo, vibrante, como se a própria estrutura da casa estivesse sendo comprimida por mãos gigantescas. *Creeeeeeec.*
Sara e Eduarda sentaram-se na cama instantaneamente. Emanuel também se ergueu, a mão alcançando a faca.
— O que foi isso? — Sara gritou, a voz embargada pelo choro.
Vindo do andar de baixo, o som de algo pesado sendo arrastado pelo assoalho de madeira preencheu o silêncio. Era um som rítmico. Arrastar. Estalar. Arrastar. Estalar.
— Fiquem aqui — Emanuel sussurrou, a adrenalina finalmente substituindo a lógica.
Ele se levantou e foi até a porta do quarto, abrindo-a apenas uma fresta. O corredor estava mergulhado em uma escuridão que parecia mais profunda do que o normal. Ele apontou a lanterna para a escada.
Lá embaixo, no final dos degraus, ele viu.
Não era um cervo. Não era um cavalo.
Era uma mão. Uma mão longa, com dedos que pareciam galhos descascados, segurando o corrimão de madeira. A criatura estava começando a subir.
Emanuel recuou, fechando a porta e trancando-a silenciosamente. Sua respiração estava acelerada. Pela primeira vez na vida, o controle que ele tanto prezava havia evaporado.
— Emanuel? — Eduarda chamou, a voz num fio. — O que você viu?
Ele se virou para elas. O rosto de Emanuel, sempre tão sereno e firme, estava pálido. Ele caminhou até a cama e puxou as duas para perto, sentando-se entre elas e mantendo a faca em riste diante da porta.
— Não saiam de perto de mim — ele disse, a voz baixa e tensa. — Eu não sei o que é aquilo. Mas nada entra nesse quarto.
— Você viu! Você viu! — Sara começou a hiperventilar. — A gente tem que sair daqui! Pega o carro, Emanuel! Pega a merda do carro!
— Não dá para chegar no carro no escuro — ele admitiu, a verdade amarga saindo por seus lábios. — Estamos no segundo andar. A única saída é a escada. E ele está lá.
Eduarda começou a rezar baixinho, escondendo o rosto no peito de Emanuel. Sara, em um raro momento de vulnerabilidade, agarrou-se à cintura dele, enterrando as unhas em suas costas.
O som de estalos agora estava do lado de fora da porta. *Crec. Crec.*
Algo arranhou a madeira da porta. Um arranhão lento, deliberado, que ia do topo até o chão.
— Vai embora! — Emanuel rugiu, sua voz de comando ecoando pelo quarto, tentando esconder o terror que sentia. — Sai da minha casa!
O silêncio que se seguiu foi ainda pior. Por horas, os três ficaram imóveis na cama, formando um único bloco de carne e medo. Emanuel não baixou a faca por um segundo sequer. Sara alternava entre soluços silenciosos e xingamentos sussurrados contra a fazenda, contra Emanuel e contra a vida. Eduarda permanecia em um transe de terror, sentindo que a criatura não queria apenas entrar, ela queria o silêncio deles.
Quando os primeiros raios de sol começaram a atravessar as frestas das cortinas, os sons pararam. O peso opressor que parecia esmagar o quarto se dissipou.
Emanuel esperou até que o sol estivesse alto no céu antes de se levantar. Ele foi até a porta e a abriu. No lado de fora, na madeira nobre da porta do quarto, havia três sulcos profundos, como se garras de ferro tivessem tentado rasgar a entrada.
Ele não disse nada. Voltou para o quarto, pegou as malas de qualquer jeito e olhou para as duas.
— Vamos embora. Agora.
Sara não precisou ouvir duas vezes. Ela pegou seus sapatos e correu para o carro, ignorando a elegância ou a pose. Eduarda caminhava ao lado de Emanuel, trêmula, olhando para trás a cada passo.
Enquanto Emanuel manobrava o SUV para sair em disparada pela estrada de terra, ele olhou pelo retrovisor. Lá, na varanda da casa que pertencera à sua família por gerações, ele viu uma silhueta alta e esguia, imóvel sob a luz do sol, confundindo-se com as colunas de pedra.
Ele acelerou, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
No banco de trás, Eduarda chorava baixinho. Ao lado dele, Sara bebia água compulsivamente, as mãos ainda tremendo.
— Emanuel... — Sara começou, a voz rouca. — Você nunca mais, em toda a sua vida, nos traz para cá. Você entendeu?
— Eu entendi, Sara — ele respondeu, a voz sem emoção, o racionalismo tentando lutar para voltar ao lugar, embora soubesse que algo dentro dele havia mudado.
— Manu? — Eduarda chamou do banco de trás. — Você ainda acha que é coisa da nossa cabeça?
Emanuel olhou para ela pelo espelho. Ele viu o medo nos olhos da menina que ele tanto queria proteger e viu o trauma nos olhos da mulher que ele achava inabalável.
— Não importa o que eu acho, Duda — ele disse, finalmente cedendo. — O que importa é que estamos saindo. E que vocês duas vão morar comigo na cidade a partir de hoje. Eu não vou deixar vocês sozinhas em lugar nenhum.
Sara lançou um olhar para trás, para Eduarda. Pela primeira vez, não houve sarcasmo, nem disputa de território. Houve apenas o reconhecimento de que, naquela noite, elas tinham compartilhado algo que ninguém mais entenderia.
— Ela tem razão, Emanuel — Sara disse, voltando-se para a estrada. — A "boneca" vai para casa com a gente. Eu não vou conseguir dormir naquela casa enorme sozinha depois disso. E se ela tentar fugir para a casa dos pais, eu mesma vou lá buscar ela pelos cabelos.
Eduarda deu um sorriso fraco, limpando as lágrimas. O preço para viverem os três sob o mesmo teto tinha sido alto e aterrorizante, mas, enquanto a fazenda Vale do Silêncio desaparecia na poeira da estrada, Emanuel sabia que o caos em sua vida estava apenas começando — mas, pelo menos, seria um caos que ele poderia tentar trancar do lado de fora.