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Estrada de Ferro e Mal-estar
O sol da manhã batia contra o vidro fumê do ônibus de luxo que Emanuel havia alugado para a viagem. O veículo era o que havia de melhor: poltronas de couro que reclinavam quase totalmente, frigobar abastecido, ar-condicionado silencioso e um sistema de som de última geração. O plano era simples: uma viagem de cinco horas até uma estância hidromineral privativa, onde Emanuel pretendia celebrar o fechamento de um contrato internacional com seus amigos mais próximos, as amigas de Sara e, claro, suas duas namoradas.
Emanuel estava sentado na primeira fila, em uma poltrona dupla com Eduarda. No corredor ao lado, Sara ocupava o espaço com Jéssica, rindo alto enquanto abriam a primeira garrafa de champanhe do dia, ignorando o fato de que ainda não eram nem dez da manhã.
— Emanuel, querido, relaxa esse rosto! — Sara exclamou, estendendo uma taça em direção a ele. — Você ganhou milhões essa semana, estamos em um ônibus que custa mais que um apartamento e vamos para um spa. Bebe um pouco!
— Agora não, Sara — Emanuel respondeu, a voz contida, mas firme. — Estou de olho na Duda.
Ele desviou o olhar da loira exuberante, que usava um conjunto de veludo rosa chiclete e óculos escuros imensos, para focar na figura pequena e encolhida ao seu lado. Eduarda estava pálida. Seus dedos apertavam as bordas de um livro de poesias que ela não conseguia ler há pelo menos vinte minutos.
— Como você está, pequena? — ele perguntou, baixando o tom de voz, a mão tatuada subindo para acariciar a nuca dela com uma ternura que ele raramente demonstrava em público.
— Eu tomei o remédio, Manu... — Eduarda sussurrou, a voz saindo pastosa. — Tomei dois antes de sair de casa e mais dois quando entramos no ônibus. Mas a estrada... ela é muito cheia de curvas.
— Quatro Dramin? — Emanuel franziu o cenho, preocupado. — Duda, isso é muito. Você devia estar apagada.
— Minha ansiedade não deixa o remédio fazer efeito — ela murmurou, fechando os olhos com força quando o ônibus fez uma curva acentuada para a esquerda.
Atrás deles, as amigas de Sara — Jéssica, Paula e Bia — faziam barulho. Elas tiravam selfies, comentavam sobre os jogadores que Emanuel convidara e faziam piadas internas que ecoavam por todo o veículo.
— Nossa, olha a cara da santinha — Paula comentou por cima do ombro, sem nenhuma discrição. — Parece que viu um fantasma. Ou será que é só o efeito da vida real batendo?
Sara soltou uma risada anasalada, ajeitando o busto siliconado sob o top justo.
— Deixa ela, Paula. A Duda é sensível, você sabe. Ela é feita de açúcar e poemas. O balanço do ônibus deve ser demais para o labirinto de porcelana dela.
Emanuel cerrou os dentes, mas antes que pudesse retrucar, sentiu o corpo de Eduarda tensionar violentamente. Ela levou a mão à boca, os olhos arregalados e injetados.
— Manu... — ela conseguiu dizer, antes de um som abafado e úmido escapar de sua garganta.
— Merda! — Emanuel reagiu com a rapidez de quem está acostumado a gerenciar crises.
Ele pegou a sacola de papel que havia deixado de prontidão no bolso da poltrona, mas mal teve tempo de posicioná-la. Eduarda vomitou. O som foi angustiante, um espasmo que sacudiu seu corpo esguio. O cheiro azedo rapidamente começou a se espalhar pela parte frontal do ônibus.
— Ai, meu Deus! Que nojo! — Jéssica gritou, levantando os pés da poltrona como se estivesse fugindo de uma inundação. — Emanuel, faz alguma coisa!
— Cala a boca, Jéssica! — Emanuel rugiu, sem olhar para trás.
Ele segurava os cabelos castanhos de Eduarda com uma mão, enquanto a outra amparava o saco para ela. O rosto dele, geralmente frio e calculista, estava transfigurado pela preocupação. Ver Eduarda naquele estado de vulnerabilidade extrema disparava todos os seus gatilhos de proteção.
— Calma, Duda... põe tudo para fora. Eu estou aqui — ele dizia, ignorando o fato de que um pouco do respingo havia atingido sua camiseta de marca.
Eduarda teve uma segunda crise logo em seguida, mais forte que a primeira. Ela soluçava entre os espasmos, as lágrimas correndo pelo rosto pálido, misturando-se ao suor frio que brotava em sua testa.
— Que horror, Emanuel! — Sara se levantou, tapando o nariz com a mão perfeitamente manicureada. — O ônibus está infestado agora! Motorista, abre as janelas! Liga o exaustor!
— Sara, senta a bunda nessa poltrona e fica quieta! — Emanuel explodiu, os olhos faiscando. — Ela está passando mal de verdade!
— E eu estou passando mal com o cheiro! — Sara retrucou, embora houvesse uma ponta de incômodo real em sua voz ao ver a situação da outra. — Eu disse que ela devia ter ido no carro pequeno, Emanuel. Você que quis todo mundo junto para bancar o patriarca do harém!
Eduarda vomitou pela terceira vez, um líquido bilioso e amargo, já que não tinha mais nada no estômago. Ela desabou contra o peito de Emanuel, tremendo como uma folha. O silêncio no ônibus agora era pesado, quebrado apenas pelos murmúrios de nojo das amigas de Sara ao fundo.
— Ela vai desmaiar — Emanuel constatou, o pânico começando a vazar por sua voz firme. — Duda? Olha para mim.
Ele pegou uma garrafa de água mineral gelada, molhou um lenço de papel e começou a limpar o rosto dela com uma delicadeza quase dolorosa de se ver.
— Eu quero descer... — Eduarda choramingou, a voz manhosíssima, escondendo o rosto no pescoço dele. — Manu, me tira daqui... por favor... dói tudo.
— Não tem como descer no meio da rodovia, pequena — ele explicou, beijando o topo da cabeça dela. — Nós vamos dar um jeito.
Emanuel olhou para o corredor. Sara estava parada lá, olhando para a cena. Apesar de toda a sua vulgaridade e agressividade verbal, ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém. Ela viu o desespero nos olhos dele e, por um breve segundo, a competitividade deu lugar a algo mais prático.
— Sai da frente, Emanuel — Sara disse, aproximando-se.
— O que você vai fazer? — ele perguntou, na defensiva.
— Vou ajudar, porra! Acha que eu sou inútil? — Sara revirou os olhos e se virou para as amigas. — Jéssica, me dá aquele seu perfume cítrico caro. Agora! Paula, pega o kit de primeiros socorros que eu vi você guardando.
As amigas obedeceram, intimidadas pelo tom de comando de Sara. Ela pegou o perfume e borrifou generosamente no ar ao redor para mascarar o cheiro do vômito, depois pegou um lenço umedecido com álcool.
— Segura ela direita, Emanuel — Sara ordenou. — Duda, olha para mim. Abre o olho, gatinha.
Eduarda abriu os olhos minimamente, focando na figura loira e brilhante à sua frente.
— Toma isso — Sara entregou um chiclete de menta forte e colocou o lenço com álcool perto do nariz de Eduarda. — Respira o álcool. Ajuda a cortar a náusea. E para de chorar, senão você vai hiperventilar e vomitar de novo.
— Obrigada, Sara... — Eduarda sussurrou, a voz trêmula.
— Não me agradeça, só não suja meu sapato novo — Sara respondeu com o sarcasmo de sempre, mas sua mão descansou por um segundo no ombro de Eduarda antes de ela se afastar.
Emanuel olhou para Sara, um breve aceno de cabeça servindo como um agradecimento que as palavras não dariam conta. Ele então se voltou para o motorista pelo interfone.
— Pare no próximo posto que tiver uma farmácia ou ambulatório. Agora! Eu não me importo com o cronograma.
Os próximos dez minutos foram de uma tensão insuportável. Eduarda permanecia deitada no colo de Emanuel, que a embalava como se fosse um bebê. Ela estava em um estado de semi-consciência, exausta pelo esforço físico e pelo efeito tardio do excesso de medicação.
Lá atrás, as amigas de Sara continuavam a cochichar.
— Que cena patética — Paula sussurrou para Jéssica. — O cara é um império ambulante e está ali, servindo de balde para uma menina que não aguenta uma viagem de ônibus. Se fosse eu, ele já teria me deixado no acostamento.
— Ele gosta disso — Jéssica respondeu, retocando o batom. — Ele gosta de se sentir o herói. A Sara ele quer para exibir, a outra ele quer para cuidar. É doentio.
Sara, que tinha ouvido tudo, virou-se na poltrona, os olhos azuis faiscando como lâminas.
— Se eu ouvir mais um pio sobre o que o Emanuel gosta ou deixa de gostar, vocês três vão voltar para casa a pé — Sara disse, a voz baixa e perigosa. — Ele é meu homem e o que acontece naquele banco é assunto nosso. Entenderam ou eu preciso desenhar com o meu gloss?
As amigas murcharam imediatamente. Sara voltou a olhar para a frente, sentindo uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de ciúme, mas que queimava do mesmo jeito. Ela via a forma como as mãos de Emanuel tremiam levemente enquanto ele limpava o suor da testa de Eduarda. Ela sabia que, para ele, o mundo poderia acabar, desde que aquelas duas estivessem sob sua guarda.
Finalmente, o ônibus encostou em um posto de serviços de grande porte. Antes mesmo do veículo parar totalmente, Emanuel já estava de pé, carregando Eduarda nos braços. O corpo dela pendia sem forças, a cabeça descansando em seu ombro.
— Sara, pegue as bolsas dela e a minha — Emanuel comandou enquanto descia os degraus. — Eu vou levá-la para o ambulatório daqui.
Sara bufou, mas pegou as mochilas, saindo logo atrás. O grupo de amigos e as outras mulheres ficaram no ônibus, observando a cena pela janela com uma mistura de curiosidade e tédio.
Dentro do pequeno posto médico do local, uma enfermeira de plantão atendeu Eduarda rapidamente.
— É cinetose severa, potencializada pela ansiedade e excesso de medicação — explicou a enfermeira enquanto aplicava uma injeção de anti-emético no braço de Eduarda. — Ela precisa de repouso absoluto em um lugar que não se mova pelas próximas duas horas.
Emanuel estava encostado na parede, os braços cruzados, a mandíbula travada.
— Eu vou chamar um helicóptero — ele disse, pegando o celular. — Não vou colocá-la de volta naquele ônibus.
— Emanuel, deixa de ser exagerado! — Sara interveio, entrando na sala com as bolsas. — Um helicóptero aqui? Vai levar quanto tempo para chegar? Duas, três horas? Ela precisa deitar agora.
— E você sugere o quê, Sara? — ele disparou, irritado. — Que eu a deixe aqui no meio da estrada?
— Tem um hotel fazenda a cinco quilômetros daqui. Eu vi a placa — Sara disse, prática. — A gente pega um táxi, leva ela para lá, ela dorme a tarde toda e a gente se encontra com o pessoal amanhã no spa.
Emanuel parou, processando a sugestão. Era lógica. Era prática. Era exatamente o que ele precisava, mas seu lado controlador odiava mudar os planos.
— E o ônibus? Meus convidados? — perguntou ele.
— Eles são adultos, Emanuel. Têm comida, bebida e o motorista sabe o caminho — Sara revirou os olhos, aproximando-se dele e ajeitando a gola de sua camiseta suja. — Você quer cuidar dela, não quer? Então vamos fazer do jeito certo. Eu também não estou com a mínima vontade de aguentar o bafafá daquelas peruas no ônibus depois desse show de horrores.
Emanuel olhou para Eduarda, que agora dormia profundamente na maca, o rosto finalmente recuperando um pouco da cor natural. Depois olhou para Sara, que mantinha sua postura de mulher fatal mesmo em um ambulatório de beira de estrada.
— Tudo bem — ele cedeu. — Vou avisar o pessoal.
Meia hora depois, o ônibus partiu sem eles. Emanuel, Sara e uma Eduarda sonolenta seguiram em um carro particular para o hotel fazenda próximo.
Ao chegarem e se instalarem em uma suíte ampla, Emanuel deitou Eduarda na cama de dossel, cobrindo-a com um edredom macio. Ele ficou ali, sentado na beira da cama, observando a respiração rítmica dela.
Sara apareceu na porta do quarto, segurando duas taças de conhaque que havia pedido no serviço de quarto.
— Toma — ela disse, entregando uma a ele. — Você está parecendo um defunto.
Emanuel aceitou a bebida, dando um gole longo que queimou sua garganta e relaxou seus nervos.
— Obrigado, Sara. Por hoje.
— Não se acostuma — ela respondeu, sentando-se em uma poltrona próxima e cruzando as pernas, deixando a fenda do conjunto de linho revelar suas coxas torneadas. — Eu só fiz isso porque o cheiro naquele ônibus estava acabando com a minha vibe. E porque eu sei que se ela morresse, você ia ficar insuportável pelos próximos dez anos.
Emanuel deu um sorriso curto, o primeiro do dia.
— Ela não ia morrer, Sara.
— Para você, se ela espirra, o mundo entra em luto — Sara ironizou, mas seus olhos amoleceram um pouco. — Ela é muito frágil, Emanuel. Você tem certeza de que aguenta esse peso o tempo todo?
Emanuel olhou para Eduarda e depois para Sara. O contraste era gritante. Uma era o porto seguro, a doçura que ele precisava para não se tornar um monstro no mundo dos negócios. A outra era o fogo, a parceira que o desafiava e que entendia sua ambição.
— Eu aguento qualquer coisa, Sara. Desde que eu tenha o controle — ele respondeu, a voz recuperando a autoridade habitual.
— Controle é uma ilusão, querido — Sara disse, levantando-se e caminhando até ele. Ela se inclinou, sussurrando perto de seu ouvido. — Hoje o controle foi do estômago da Duda. E veja onde viemos parar.
Ela depositou um beijo provocante no canto da boca dele, deixando o rastro do seu batom caro e o cheiro do seu perfume cítrico.
— Vou tomar um banho de banheira. Quando a "bela adormecida" acordar, peça algo leve para ela comer. E depois... — Sara deu um sorriso malicioso — ...eu espero que você lembre quem foi que salvou o seu dia.
Ela saiu do quarto com seu andar rebolado, deixando Emanuel sozinho no silêncio da suíte. Ele suspirou, sentindo a tensão finalmente deixar seu corpo. Ele se inclinou e beijou a testa de Eduarda, que murmurou algo ininteligível em seu sono, agarrando-se à mão dele mesmo inconsciente.
Emanuel ficou ali, no meio das suas duas realidades. O susto na estrada havia passado, mas ele sabia que a convivência forçada naquele hotel fazenda, longe dos amigos e da agitação, traria novos desafios. Eduarda acordaria manhosa e carente, exigindo sua atenção total. Sara estaria impaciente e provocadora, testando seus limites a cada minuto.
E ele, como sempre, tentaria ser o mestre de obras de um edifício construído sobre areia movediça, amando a fragilidade de uma e a força vulgar da outra, enquanto a estrada da vida continuava a fazer curvas que nenhum remédio seria capaz de suavizar.