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O Rugido do Silêncio
A manhã havia começado com uma promessa de ar puro e desconexão, algo que Emanuel julgava necessário para aliviar a pressão constante de gerenciar seus estúdios e, principalmente, a dinâmica volátil entre suas duas mulheres. Ele havia organizado aquela trilha em uma reserva particular com alguns amigos próximos, tatuadores e empresários que, como ele, buscavam um escape da selva de pedra. No entanto, o que deveria ser um momento de lazer estava se transformando em um teste de resistência para seus nervos.
Emanuel caminhava à frente, seu porte físico robusto abrindo caminho pela trilha de dificuldade moderada. Atrás dele, o contraste era gritante. Sara, mesmo em um ambiente de terra e mato, não abria mão da estética. Usava um conjunto de academia de grife, colado ao corpo siliconado, e um boné de marca, reclamando ocasionalmente da umidade que arruinava sua escova. Eduarda, por outro lado, parecia uma pequena camponesa deslocada; vestia calças largas, uma camiseta de algodão e carregava uma mochila que parecia pesada demais para seus ombros delicados, parando a cada cinco minutos para observar uma planta ou o ângulo da luz entre as árvores.
— Emanuel, querido, quanto falta para chegarmos ao mirante? Meus pés estão começando a odiar esse tênis, e olha que ele custou uma fortuna — Sara exclamou, parando para ajustar a alça do top que realçava seu decote generoso.
— Falta pouco, Sara. Mantenha o passo e pare de reclamar — Emanuel respondeu sem olhar para trás, sua voz ecoando com a autoridade habitual. — Duda, como você está? Precisa que eu leve sua mochila?
Eduarda limpou o suor da testa, oferecendo um sorriso tímido e um pouco cansado.
— Eu estou bem, Manu... só estou um pouco lenta. A floresta é tão linda, parece um quadro do romantismo alemão.
— Deixa de ser lúdica, garota — Sara bufou, passando por Eduarda e dando um tapinha condescendente em seu ombro. — É só um monte de árvore e mosquito. Vamos logo, senão o sol vai baixar e eu não quero estar aqui quando as onças saírem para jantar.
O grupo de amigos de Emanuel já estava alguns metros à frente, rindo e conversando alto. Emanuel parou por um momento, esperando que as duas o alcançassem. Ele sentia aquela necessidade visceral de tê-las sob seu campo de visão. Quando chegaram a uma bifurcação sinalizada por uma pedra grande coberta de musgo, Emanuel recebeu uma chamada de rádio de um dos amigos que já estava no topo.
— Vou subir aquele trecho mais íngreme para ajudar o pessoal com o acampamento do almoço — Emanuel disse, segurando o rosto de Eduarda com uma mão e lançando um olhar de aviso para Sara. — Sigam pelo caminho da direita. É plano e bem demarcado. Não saiam da trilha principal sob hipótese alguma. Entendido?
— Sim, senhor, capitão — Sara ironizou, batendo continência com um sorriso travesso.
— Promete que não demora, Manu? — Eduarda pediu, segurando a barra da camisa dele, os olhos grandes transmitindo aquela insegurança que sempre o fazia querer colocá-la em um cofre.
— Não vou demorar. Dez minutos e eu volto para buscar vocês se não tiverem chegado.
Emanuel subiu o atalho rápido, confiando que, por serem apenas duzentos metros de trilha reta e limpa, nada aconteceria. Mas a natureza e a distração são aliadas cruéis.
Lá embaixo, Sara avistou uma clareira com flores silvestres um pouco afastada do caminho.
— Olha só, Eduarda, aquelas flores iam ficar ótimas na vitrine da loja para a coleção de primavera. Vem, me ajuda a pegar algumas.
— A trilha, Sara... o Emanuel disse para não sair — Eduarda murmurou, hesitante.
— Ah, por favor, são dez passos. Deixa de ser frouxa. Ele nem vai notar.
Vinte minutos depois, Emanuel desceu o mirante. O silêncio que encontrou na bifurcação foi como um soco no estômago.
— Sara? Eduarda? — ele chamou, a voz ainda controlada.
Nenhuma resposta. Apenas o som do vento nas copas das árvores. Ele caminhou pela trilha da direita, acelerando o passo. Nada. Correu de volta para a bifurcação. O chão tinha marcas de rastros que saíam do caminho principal em direção a uma encosta densa.
O controle que Emanuel tanto prezava evaporou instantaneamente. Uma onda de calor e adrenalina atingiu seu peito, transformando o homem racional em uma fera em alerta.
— SARA! EDUARDA! — O grito dele rasgou a mata, potente e carregado de uma fúria desesperada.
Ele começou a descer a encosta, ignorando os galhos que arranhavam seus braços tatuados. Seus amigos, ouvindo os gritos, desceram correndo.
— O que houve, cara? — perguntou Marcos, um de seus sócios.
— Elas sumiram. Eu deixei as duas aqui por cinco minutos e elas sumiram! — Emanuel se virou para o amigo, os olhos injetados, a respiração ofegante. Ele parecia um leão enjaulado, andando de um lado para o outro, os punhos cerrados. — Se alguma coisa acontecer com elas, eu juro por Deus que eu não vou me perdoar. Eu devia ter forçado a Eduarda a ficar em casa, eu devia ter segurado a mão daquela loira irresponsável!
— Calma, Emanuel, a gente vai achar...
— CALMA O CACETE! — Emanuel explodiu, chutando um tronco seco que se partiu com o impacto. — A Eduarda é uma criança na floresta, ela vai entrar em pânico! E a Sara... aquela idiota deve estar tentando fazer pose para foto enquanto se enfia em algum buraco!
Emanuel não esperou por ajuda organizada. Ele se embrenhou na mata fechada, seguindo instintos que ele nem sabia que possuía. A cada minuto que passava, sua mente projetava cenários catastróficos. Ele via Eduarda chorando, encolhida, chamando por ele. Via Sara ferida, perdendo a pose que tanto protegia. A possibilidade de perder seu "equilíbrio" — a doçura de uma e a provocação da outra — o estava enlouquecendo.
— EDUARDA! RESPONDE, PORRA! — Ele rugia, a voz já ficando rouca.
Enquanto isso, cerca de trezentos metros dali, em um desnível do terreno que as impedia de serem ouvidas devido ao eco das rochas, a situação era tensa. Sara havia escorregado em um barranco de barro, arrastando Eduarda consigo quando a mais jovem tentou segurá-la. Elas não estavam feridas gravemente, mas o fundo do pequeno cânion era cercado por vegetação espinhosa e o sinal do celular era inexistente.
— Viu só? Parabéns, Sara! — Eduarda chorava, sentada no chão, as mãos sujas de terra cobrindo o rosto. — O Manu vai ficar louco. Ele vai matar a gente... se a gente não morrer aqui antes!
— Cala a boca, Eduarda! — Sara tentava limpar o barro da calça caríssima, mas suas mãos tremiam. A máscara de autoconfiança estava rachada. — Eu só queria as flores. Como eu ia saber que essa terra estava fofa? E para de chorar, esse barulho me irrita!
— Eu quero o Emanuel... — Eduarda soluçava, abraçando os próprios joelhos, voltando ao seu estado mais manhoso e vulnerável. — Ele disse para não sair... ele sempre tem razão.
Sara olhou para a garota encolhida e, por um momento, a competitividade sumiu. Ela sentiu uma pontada de culpa. Eduarda era irritante com aquela fragilidade, mas era a "pequena" deles.
— Ei, olha para mim — Sara disse, aproximando-se e segurando os ombros de Eduarda com uma firmeza que não sentia. — O Emanuel é um trator. Ele vai derrubar essa floresta inteira, mas vai achar a gente. Ele é obcecado por você, e, bom... ele não vive sem as minhas brigas. Tenta gritar comigo, vai. Me xinga. Só não fica aí morrendo.
Eduarda olhou para Sara, os olhos castanhos inundados de lágrimas.
— Eu não consigo xingar você, Sara. Eu só... eu só queria estar em casa.
— Pois quando sairmos daqui, você vai morar com a gente — Sara decretou, tentando usar o humor como defesa. — Porque eu não vou passar por isso sozinha de novo. Se for para me perder, você vai estar lá para eu ter em quem botar a culpa.
Longe dali, Emanuel estava fora de si. Ele havia encontrado um pedaço do cardigã de Eduarda preso em um arbusto de espinhos. O tecido bege, agora rasgado e sujo, foi o gatilho final. Ele caiu de joelhos por um segundo, apertando o pano contra o rosto, sentindo o cheiro de camomila que ainda resistia.
— Se eu perder vocês... — ele sussurrou, a voz quebrada, antes de se levantar com uma fúria renovada.
Ele começou a correr na direção da declividade, ignorando o cansaço. Ele gritava os nomes delas com uma frequência rítmica, quase como uma prece agressiva. Até que, no fundo de um vale, um som agudo respondeu.
— EMANUEL! AQUI EMBAIXO! — Era a voz de Sara. Aguda, histérica e, para os ouvidos dele, a música mais bela do mundo.
Emanuel saltou o último trecho, deslizando pelo barranco sem se importar com a segurança. Quando seus pés tocaram o fundo do desnível, ele as viu.
Sara estava de pé, descabelada e suja, mas com o olhar desafiador de sempre voltado para ele. Eduarda estava no chão, pálida, parecendo uma flor murcha.
O impacto do alívio foi tão forte que Emanuel quase perdeu o fôlego. Ele caminhou até elas com passos pesados. O "leão" ainda estava lá, a raiva não tinha passado, mas a proteção agora falava mais alto.
— Emanuel! — Eduarda tentou se levantar, mas ele foi mais rápido, ajoelhando-se e puxando-a para um abraço tão apertado que ela soltou um ganido.
— Nunca mais — ele rosnou contra o ouvido dela, o corpo tremendo de adrenalina. — Nunca mais saia do meu lado. Você me ouviu?
— Desculpa, Manu... desculpa — ela soluçava contra o peito dele, escondendo o rosto no pescoço tatuado, sentindo o coração dele bater como um tambor descontrolado.
Emanuel então olhou para cima, para Sara, que permanecia parada, esperando a bronca. Ele estendeu o braço livre e a puxou com força pela cintura, colando-a ao seu lado, prendendo as duas em um abraço possessivo e desesperado.
— Você — ele disse, olhando fixamente para Sara — é a mulher mais irresponsável que eu já conheci. Você quase matou a Eduarda de susto e quase me fez ter um infarto.
— Ah, não exagera, querido — Sara tentou dizer, mas sua voz falhou e ela acabou encostando a cabeça no ombro dele, fechando os olhos. — Eu sabia que você vinha. Você sempre vem.
Emanuel ficou ali, no fundo daquele buraco úmido, abraçado às suas duas metades conflitantes. A raiva ainda borbulhava, mas o sentimento de posse era soberano.
— Acabou a brincadeira — Emanuel sentenciou, a voz agora fria e absoluta. — Nós vamos sair daqui, eu vou levar vocês para casa, e amanhã mesmo, Eduarda, eu vou buscar suas coisas na casa dos seus pais.
Eduarda tentou protestar, levantando a cabeça.
— Mas, Manu...
— Não tem "mas", Eduarda! — Ele a cortou, segurando seu rosto com uma intensidade que a fez silenciar na hora. — Eu quase perdi o juízo hoje. Eu não vou passar por isso de novo porque você quer ser "independente" morando longe de mim. Você vai morar comigo e com a Sara. Eu vou ter as duas onde eu possa trancar a porta e saber que estão seguras.
Sara deu um sorriso de lado, limpando uma mancha de lama da bochecha.
— Viu só, lindinha? Eu disse que ele ia resolver a situação. Bem-vinda ao hospício oficial.
Eduarda olhou de um para o outro. Estava exausta, assustada e completamente dominada pela aura de Emanuel. Ela se aconchegou mais no peito dele, sentindo-se pequena e protegida.
— Tudo bem... — ela murmurou, a manha voltando à sua voz conforme o medo se dissipava. — Se você me carregar até o carro, eu mudo.
Emanuel não disse nada. Ele apenas a pegou no colo com uma facilidade impressionante, como se ela não pesasse nada, e estendeu a mão para Sara.
— Vamos. E se uma de vocês soltar a minha mão ou sair do meu campo de visão por um segundo que seja antes de chegarmos ao asfalto, eu juro que o castigo vai ser longo.
Eles começaram a subida. Emanuel na frente, carregando Eduarda como um tesouro resgatado e segurando o pulso de Sara com uma firmeza inquebrável. O leão não estava mais enjaulado; ele havia recuperado seu bando, e agora, o mundo inteiro teria que passar por ele antes de chegar perto delas novamente.