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Herança de Sangue e Leite
O silêncio era um luxo esquecido na mansão de Emanuel. Onde antes reinava o som de música ambiente ou o estalar de gelo em copos de whisky, agora dominava uma sinfonia caótica de balbucios, choro estridente e o barulho de brinquedos de plástico batendo no chão de porcelanato. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de jantar com um tablet em mãos, observava o cenário com a mesma expressão severa e observadora de sempre, embora as olheiras discretas denunciassem que o controle absoluto cobrava seu preço.
Aos oito meses, os frutos daquela noite na Pousada da Colina haviam transformado a dinâmica da casa em um campo de batalha de personalidades.
— Emanuel, por favor, tire essa menina de perto de mim antes que eu perca a cabeça! — Sara exclamou, descendo as escadas com Ágata no colo.
Sara, apesar da maternidade, não havia abandonado sua essência. Usava um robe de seda caríssimo e saltos plataforma, mas sua expressão era de puro cansaço. Ágata, uma bebê loira de olhos azuis gélidos e bochechas rosadas, não chorava; ela gritava. Era um grito de comando, uma exigência de atenção que parecia vir de alguém com o triplo da sua idade.
— Ela não quer o berço, não quer o tapete, não quer a babá. Ela só quer ficar no meu colo olhando para o espelho — Sara reclamou, entregando a pequena ao pai.
Emanuel pegou Ágata, que imediatamente silenciou ao sentir os braços fortes e tatuados do pai. A bebê tocou o rosto de Emanuel com uma mãozinha gorda e soltou um som que parecia um julgamento sobre o estado da casa.
— Ela tem o seu gênio, Sara — Emanuel disse, a voz rouca, enquanto ajeitava a filha no braço. — Ela sabe o que quer e não aceita menos que isso.
— Ela é arrogante, isso sim — Sara bufou, sentando-se à mesa e servindo-se de café. — Ontem ela empurrou o purê de mandioquinha porque queria o meu iogurte grego. Oito meses, Emanuel! Oito meses e ela já me olha como se eu fosse a empregada dela.
Nesse momento, um estrondo vindo da sala de estar interrompeu a conversa. Eduarda apareceu correndo, com o cabelo castanho preso em um coque frouxo e uma mancha de leite na camiseta clara.
— Arthur! Não, meu amor, o vaso não! — Eduarda gritou, a voz doce mas desesperada.
Arthur, um dos gêmeos, era a imagem viva da energia caótica. Com apenas oito meses, ele já engatinhava com uma velocidade que desafiava as leis da física. Ele havia derrubado um cesto de revistas e agora tentava escalar o sofá para alcançar um vaso de cristal.
— Ele não para, Manu... ele simplesmente não para — Eduarda disse, parando no meio da sala para recuperar o fôlego.
Em seus braços, bem colada ao seu peito, estava Maya. A gêmea era o oposto do irmão. Tímida e extremamente sensível, Maya estava com o rosto escondido no pescoço da mãe, os olhinhos castanhos observando o mundo com cautela. Se Arthur era o trovão, Maya era a garoa fina.
— Deixe ele, Duda — Emanuel ordenou, levantando-se com Ágata ainda no colo. — Arthur precisa aprender os limites.
— Ele vai se machucar, Manu! — Eduarda manhou, aproximando-se do marido e buscando proteção, como sempre fazia.
Emanuel envolveu a cintura de Eduarda com o braço livre, prendendo-a contra seu corpo. Ali estavam eles: o patriarca e seu bando. Arthur, percebendo que o pai o observava, parou de tentar escalar o sofá e soltou uma risada ruidosa, batendo as mãos no chão.
— Veja — Emanuel disse, apontando para o filho. — Ele só quer a sua atenção. Ele é agitado porque sabe que você vai correr atrás dele.
— Ele é um pequeno terrorista — Sara comentou da mesa, observando Maya. — E essa daí não desgruda? Duda, você vai criar uma menina que não sabe andar sozinha se continuar deixando ela enfurnada no seu decote.
Eduarda apertou Maya com mais força, sentindo a bebê se encolher.
— Ela é sensível, Sara. O barulho que a Ágata faz assusta ela. Não é, minha princesinha? — Eduarda beijou a testa de Maya, que soltou um suspiro manhoso e se aninhou ainda mais.
— Ela é o seu reflexo, Duda — Emanuel interveio, suavizando o tom. — Mas a Sara tem razão em um ponto. Arthur e Ágata estão dominando o território. Se a Maya não aprender a se impor, eles vão comer o lanche dela na escola daqui a alguns anos.
A manhã seguiu com a rotina intensa. Emanuel, que agora trabalhava mais de casa para manter o controle sobre a criação dos filhos, tentava mediar as tensões. Ele amava a altivez de Ágata, que já demonstrava ser a "namorada principal" entre os bebês, mas tinha uma fraqueza óbvia pela fragilidade de Maya e pela energia bruta de Arthur.
Por volta das onze horas, o caos atingiu o ápice. Arthur decidiu que não queria mais os brinquedos; ele queria o peito. Começou a chorar de uma forma estridente, um choro que não era de dor, mas de impaciência. Ele se jogou no chão, chutando o ar, recusando qualquer tentativa de consolo das babás.
— Ele só quer você, Duda — Emanuel disse, observando o filho do escritório. — Vá alimentá-lo.
Eduarda sentou-se na poltrona da sala, exausta. Ela amamentava Maya em um seio, enquanto Arthur, ávido e impaciente, tentava alcançar o outro.
— Calma, Arthur... a mamãe está aqui — ela sussurrava, a voz falhando.
Emanuel aproximou-se e sentou-se no braço da poltrona. Ele colocou a mão sobre a cabeça de Arthur, exercendo aquela pressão firme que costumava acalmar o menino.
— Coma e silencie, pequeno guerreiro — Emanuel murmurou.
Arthur, milagrosamente, sossegou. O contato físico com o pai e o alimento da mãe eram as únicas coisas que domavam sua natureza selvagem. Enquanto isso, Maya bebia tranquilamente, mantendo uma mãozinha segurando a blusa de Eduarda, como se tivesse medo de que ela desaparecesse.
— Você está bem? — Emanuel perguntou, olhando para Eduarda.
— Estou cansada, Manu. Às vezes sinto que não dou conta dos dois. O Arthur exige tanto... e a Maya é tão quietinha que eu tenho medo de não dar a atenção que ela merece por estar sempre correndo atrás dele.
— Você dá conta porque eu estou aqui — ele afirmou, o tom de voz não permitindo discussões. — E porque a Sara, por mais que reclame, ajuda com a logística.
— Eu ouvi meu nome! — Sara apareceu na porta, segurando Ágata, que agora mastigava um mordedor de silicone como se fosse um charuto caro. — Eu ajudo com a logística e com o estilo. Já viram o que eu comprei para a Ágata? Um vestido de seda italiana. Ela vai ser a bebê mais bem vestida desse condomínio.
— Ela tem oito meses, Sara. Ela vai gorfgar nessa seda em dez minutos — Eduarda disse, soltando uma risadinha.
— Que ela gorfe com classe! — Sara retrucou, sentando-se no tapete e colocando Ágata sentada.
A bebê loira olhou para os irmãos no colo de Eduarda. Ágata soltou um som de desdém e voltou a atenção para o seu mordedor, ignorando a "plebe" que lutava pelo leite.
— Veja isso — Emanuel riu, algo raro. — Ágata não se mistura. Ela realmente acha que o mundo gira em torno dela.
— E não gira? — Sara piscou para Emanuel. — Ela aprendeu com a melhor.
O clima pesou levemente quando Emanuel se levantou e caminhou até a janela, observando o jardim.
— Os pais da Eduarda ligaram — ele disse, sem se virar. — Eles querem levar os gêmeos para passar o fim de semana na casa de praia.
Eduarda congelou. O medo de se separar dos filhos, especialmente de Maya, era quase palpável.
— Não... eles são muito pequenos, Manu. A Maya não vai dormir sem mim. E o Arthur vai destruir a casa deles.
— Eu já disse que não — Emanuel virou-se, a expressão séria de volta. — Ninguém sai desta casa sem a minha supervisão. Se eles quiserem ver os netos, que venham aqui. Eu não vou deixar meus filhos longe de mim, nem por duas noites.
Sara sorriu, satisfeita. Ela adorava o lado possessivo de Emanuel, pois isso lhe dava uma segurança que ela nunca admitiria precisar.
— Isso mesmo, "Papai Urso". Mantenha a guarda — ela provocou.
Emanuel caminhou até Sara, pegou Ágata do chão e a colocou no ombro. Depois, foi até Eduarda, beijou a testa dela e a de Maya, e colocou a mão no ombro de Arthur.
— Eu construí este império para eles — Emanuel disse, a voz vibrando com uma determinação sombria e protetora. — E eu vou garantir que eles cresçam exatamente como eu planejei. Ágata com a sua força, Sara. Arthur com a minha energia. E Maya... com a sua doçura, Duda.
— E quem vai controlar todos eles quando crescerem? — Eduarda perguntou, olhando para o marido.
Emanuel olhou para as duas mulheres — a loira vibrante e vulgar que o desafiava, e a morena tímida e manhosa que o desarmava. Depois, olhou para os três bebês que eram a extensão de sua própria alma.
— Eu vou — ele respondeu de forma simples e absoluta. — Eu sempre vou.
A tarde caiu sobre a mansão. Arthur finalmente pegou no sono, exausto de sua própria agitação. Maya dormia profundamente no berço, com um paninho que tinha o cheiro de Eduarda. Ágata, no entanto, permanecia acordada no cercadinho, observando Emanuel trabalhar no computador. Ela não chorava, apenas vigiava, como se estivesse aprendendo como se governa um reino.
Emanuel olhou para a filha loira e sentiu um arrepio. Ele sabia que, entre todos, Ágata seria a que mais lhe daria trabalho no futuro. Ela tinha o olhar de Sara, mas o cálculo de Emanuel.
— Vá dormir, pequena — ele murmurou.
Ágata apenas piscou, soltou o mordedor e estendeu os braços. Não era um pedido; era uma ordem.
Emanuel suspirou, fechou o laptop e foi até ela. O macho alfa de estúdios internacionais e negócios milionários estava, mais uma vez, rendido às exigências de uma das suas mulheres.
— Você venceu, Ágata — ele disse, pegando-a no colo. — Mas só por hoje.
Lá de cima, no corredor, Sara e Eduarda observavam a cena. Sara tinha o braço passado pelos ombros de Eduarda, uma convivência civilizada que fora forjada no fogo da maternidade compartilhada.
— Ele acha que manda em tudo — Sara sussurrou.
— Deixe ele achar — Eduarda respondeu, encostando a cabeça no ombro de Sara. — Enquanto ele achar que manda, ele nos protege. E é tudo o que eu preciso.
As duas namoradas, tão diferentes quanto o dia e a noite, sorriram no escuro. Emanuel podia ser o rei daquela casa, mas elas eram as guardiãs do coração do rei. E, com três herdeiros agora garantindo o futuro, o império de Emanuel estava mais sólido — e mais barulhento — do que nunca.