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O Rugido do Pequeno Motor

A manhã na mansão de Emanuel começou com o som metálico de ferramentas batendo contra o chão da garagem climatizada. Emanuel, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que deixava à mostra as tatuagens intrincadas que cobriam seus ombros e costas, estava agachado diante de um objeto coberto por um lençol de seda preta. Seus movimentos eram precisos, quase rituais. Ele não era apenas um homem de negócios ou um artista da pele; ele era um homem que acreditava que a masculinidade e a coragem deveriam ser forjadas desde o berço.

Arthur, agora com pouco mais de um ano e meio, estava sentado no chão próximo ao pai, observando cada movimento com uma intensidade assustadora para uma criança da sua idade. Ele não brincava com carrinhos de plástico ou blocos de montar; ele queria o que o pai tinha. Ele queria o metal, o cheiro de graxa e a sensação de poder.

— Está pronto, campeão? — Emanuel perguntou, a voz rouca vibrando no peito enquanto ele puxava o lençol.

Sob o tecido, revelou-se uma miniatura impecável de uma moto de trilha, personalizada para ser uma réplica elétrica da máquina de alta cilindrada que Emanuel guardava em seu estúdio principal. Era preta fosca, com detalhes em fibra de carbono e o nome "ARTHUR" gravado no tanque em letras góticas.

— Moto! — Arthur gritou, batendo as palmas das mãos no chão e tentando se levantar com aquela agilidade impaciente que já havia rendido tantos curativos no passado.

— É sua. Mas você tem que aprender a domar a fera — Emanuel disse, um meio sorriso surgindo em seu rosto enquanto ele pegava o filho no colo e o sentava no banco de couro da pequena máquina.

A cena seria perfeita, um momento de ligação entre pai e herdeiro, se não fosse pelo som de passos rápidos e hesitantes ecoando pelo concreto da garagem.

— Manu? O que é esse barulho? — A voz de Eduarda surgiu, carregada de uma preocupação imediata.

Ela apareceu na porta da garagem, segurando Maya nos braços. Eduarda usava um vestido leve de algodão, os cabelos castanhos caindo em ondas sobre os ombros, e sua expressão mudou instantaneamente de curiosidade para horror ao ver o filho montado no que parecia ser um veículo de destruição em massa.

— Emanuel... o que é isso? — Ela perguntou, aproximando-se devagar, como se a moto pudesse explodir a qualquer momento.

— É o presente de aniversário atrasado do Arthur. Uma moto elétrica de baixa voltagem, Duda. Totalmente segura — Emanuel respondeu, sem tirar as mãos do filho, que já agarrava os manetes com uma naturalidade nata.

— Segura? Emanuel, ele mal parou de usar fraldas! — Eduarda exclamou, a voz subindo um tom, o que para ela era o equivalente a um grito de guerra. — Ele caiu da estante e abriu a testa há pouco tempo, você esqueceu? Ele não vai andar nisso. De jeito nenhum.

Emanuel sentiu a irritação começar a formigar na base do seu pescoço. Ele odiava ser questionado em suas decisões, especialmente quando se tratava da educação dos filhos e de como ele pretendia moldar Arthur.

— Ele não vai cair, Eduarda. Eu estarei ao lado dele o tempo todo. Ele precisa desenvolver coordenação motora e equilíbrio.

— Ele pode desenvolver equilíbrio em um triciclo de plástico, Manu! — Eduarda se aproximou, a manha começando a transparecer em seus olhos úmidos. Ela tocou o braço de Emanuel, buscando aquela proximidade física que costumava dobrá-lo. — Por favor... meu coração não aguenta. Olha o tamanho dele nessa coisa. Ele parece tão pequeno... tão frágil.

— Ele não é frágil, Duda. Ele é um homem — Emanuel rebateu, a voz ficando mais fria, mais rígida. Ele se levantou, deixando Arthur equilibrado na moto, e encarou Eduarda. — Você quer criar um menino que tem medo da própria sombra? Porque é isso que você está fazendo com essa superproteção sufocante.

— Eu só quero que ele chegue aos dois anos inteiro! — Ela soluçou, encostando a testa no peito dele, uma tática de submissão e apelo emocional que geralmente funcionava. — Por favor, Manu... guarde isso por mais um ano. Só um ano. Eu faço o que você quiser. Eu prometo que não reclamo mais da bagunça no estúdio... mas não deixa ele subir nisso agora.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o perfume de camomila dela. A manha de Eduarda era sua maior fraqueza, mas o desejo de ver o filho ser forte era sua maior prioridade.

— Não — ele sentenciou, afastando-a suavemente. — Ele vai andar hoje. Agora.

— O que é esse drama todo aqui? Parece que alguém morreu — a voz de Sara cortou o ar como um chicote.

Ela entrou na garagem usando um conjunto de ginástica justo, segurando Ágata pela mão. A menina loira olhou para a moto e seus olhos brilharam com uma inveja mal disfarçada.

— Nossa, Emanuel, que brinquedo incrível — Sara comentou, cruzando os braços e ignorando o choro silencioso de Eduarda. — Mas você sabe que a Ágata vai querer uma rosa, não sabe?

— A Eduarda está tentando proibir o Arthur de andar — Emanuel disse, a irritação transparecendo em cada palavra.

Sara soltou uma risada debochada, revirando os olhos para Eduarda.

— Ai, pelo amor de Deus, Duda. Deixe de ser sonsa. O menino nasceu para isso. Olha a cara dele. Ele está mais feliz do que quando ganha doce.

— Você não entende, Sara! Você não tem medo de nada, mas eu tenho! — Eduarda rebateu, escondendo o rosto nas mãos. — Ele é meu bebê...

— Ele é filho do Emanuel, querida. Aceite que ele não vai passar a vida lendo livros de arte com você — Sara provocou, aproximando-se da moto e dando um tapinha no ombro de Arthur. — Vai lá, garoto. Mostra para a sua mãe que você tem sangue nas veias e não suco de uva.

Arthur, sentindo o apoio do pai e a provocação da "outra mãe", girou o punho do acelerador. O motor elétrico soltou um zumbido baixo e a moto deu um solavanco para frente.

— EMANUEL! — Eduarda gritou, agarrando a camisa dele com força. — Para ele! Agora!

Emanuel, no entanto, apenas caminhou ao lado do filho. Arthur mantinha os pés firmes nas pedaleiras, o rosto concentrado, uma miniatura do próprio pai em uma estrada de alta velocidade. Ele percorreu três metros na garagem plana e parou, olhando para Emanuel com um sorriso banguela e vitorioso.

— Viu? — Emanuel se virou para Eduarda, a expressão triunfante. — Ele nasceu para isso.

Eduarda não respondeu. Ela simplesmente deu as costas, soltando um soluço audível, e saiu da garagem em direção à casa, carregando Maya como se estivesse fugindo de um incêndio.

A irritação de Emanuel atingiu o ápice. Ele odiava quando ela fazia aquilo — o papel de vítima, a retirada dramática que o deixava sentindo-se como um monstro, mesmo quando ele sabia que estava certo.

— Deixe ela, Emanuel — Sara disse, pegando Ágata no colo. — Ela vai se trancar no quarto, chorar um pouco e depois vir pedir desculpas com aquela voz de gatinho abandonado. Você conhece a peça.

— Eu vou falar com ela — Emanuel rosnou, entregando Arthur para a babá que acabara de chegar. — Leve-o para o jardim. Só na grama. E não saia do lado dele.

Emanuel entrou na casa com passos pesados. Ele encontrou Eduarda no quarto dos bebês, sentada em uma poltrona de amamentação, balançando Maya freneticamente, embora a menina estivesse calma.

— Você vai fazer isso de novo? — Emanuel perguntou, parando na porta, os braços cruzados sobre o peito largo. — Vai me transformar no vilão porque eu quero que meu filho tenha coragem?

Eduarda levantou os olhos, que estavam vermelhos e inchados. Ela parecia tão pequena naquela poltrona, tão frágil, que Emanuel sentiu aquela pontada familiar de culpa lutando contra sua raiva.

— Você não me ouve, Manu... — ela murmurou, a voz falhando. — Você decide as coisas e espera que eu apenas aceite. Eu sou a mãe dele também. Eu sinto as coisas antes de acontecerem. Eu senti que hoje ia ser um dia ruim.

— Você sentiu ou você inventou um desastre na sua cabeça porque tem medo da vida? — Emanuel aproximou-se, ajoelhando-se diante dela, forçando-a a olhar para ele. — Duda, olhe para mim. Eu nunca deixaria nada acontecer com o Arthur. Eu morreria antes de deixar um arranhão sério atingir qualquer um de vocês. Mas eu não posso protegê-lo do mundo se eu não deixá-lo enfrentar o mundo.

— Mas uma moto, Manu... é tão perigoso — ela soluçou, inclinando-se para frente e escondendo o rosto no ombro dele. — Eu tenho tanto medo de perder o que a gente construiu. Eu tenho medo de que, se ele se machucar, você vá me culpar por não ter sido forte o suficiente.

Emanuel suspirou, envolvendo-a com os braços, sentindo a submissão dela, o cheiro doce e a manha que sempre o desarmava. Ele a apertou com força, sentindo o coração dela bater rápido contra o seu peito.

— Eu nunca culparia você por amar demais, pequena. Mas você precisa confiar em mim. Eu sou o porto seguro desta casa, não sou?

— É... — ela respondeu baixinho, a voz abafada pela pele dele.

— Então confie. O Arthur é forte. Ele precisa desse desafio. E eu preciso que você esteja lá, ao meu lado, aplaudindo ele, em vez de fugir para o quarto.

Eduarda se afastou um pouco, olhando para ele com aqueles olhos grandes e expressivos. Ela esticou a mão e tocou a cicatriz de uma tatuagem antiga no braço de Emanuel.

— Você promete que vai segurar ele? Que não vai deixar ele ir rápido demais?

— Eu prometo — Emanuel disse, suavizando a expressão. — Agora, limpe esse rosto. A Sara já está lá fora incentivando a Ágata a tentar roubar a moto do irmão. Se você não for lá, o Arthur vai acabar perdendo o presente para a irmã.

Eduarda soltou uma risadinha fraca, limpando as lágrimas.

— A Ágata é terrível... ela puxou a Sara em tudo.

— E o Arthur puxou a mim. Por isso ele precisa da moto — Emanuel se levantou e estendeu a mão para ela. — Vamos.

Eles voltaram para o jardim. Sara estava sentada em uma espreguiçadeira, bebendo água de coco e rindo enquanto via Arthur tentar manobrar a moto na grama alta, o que tornava tudo muito mais lento e seguro. Ágata corria atrás dele, gritando que era a sua vez.

Eduarda sentou-se em um banco próximo, as mãos apertadas no colo, mas seus olhos estavam fixos no filho. Cada vez que a moto balançava, ela prendia a respiração, mas quando Arthur soltava uma gargalhada pura de alegria, ela sentia um calor estranho no peito.

Emanuel ficou de pé, como um sentinela, a poucos metros do filho. Ele não intervinha, mas sua presença era uma barreira invisível contra o perigo.

— Viu só? — Sara gritou para Eduarda. — O garoto é um piloto nato. Emanuel, você vai ter que construir uma pista aqui no fundo.

— Não dê ideias, Sara! — Eduarda exclamou, mas desta vez havia um sorriso em seu rosto.

A tarde passou entre pequenos sustos e muitas risadas. Arthur, eventualmente, cansou-se e acabou dormindo em cima do tanque da moto, com o capacete minúsculo pendendo para o lado. Emanuel o pegou no colo, sentindo o calor do corpo do filho, o cheiro de sol e grama.

— Ele foi bem — Emanuel disse, aproximando-se de Eduarda.

— Ele foi maravilhoso — ela admitiu, levantando-se e acariciando o pézinho sujo de terra do filho. — Mas eu ainda odeio essa moto, Manu.

— Eu sei que odeia. E é por isso que eu amo você — Emanuel a puxou para um beijo rápido e possessivo. — Porque você é o freio que me impede de ir rápido demais.

Sara aproximou-se, carregando Ágata, que também já estava bocejando.

— Que cena linda. O domador e a sua pequena fada das flores — Sara ironizou, mas havia uma suavidade incomum em seu olhar. — Agora, podemos entrar? Minha pele já teve sol o suficiente por hoje e eu preciso de um banho de banheira que dure duas horas.

— Vá, Sara. Eu cuido das crianças — Eduarda disse, assumindo seu papel de cuidadora com uma naturalidade que sempre acalmava a casa.

Eles entraram na mansão, deixando para trás a moto elétrica sob a luz do crepúsculo. O conflito da manhã havia se dissipado, substituído por uma compreensão silenciosa. Emanuel continuaria a empurrar os limites, Sara continuaria a provocá-los e Eduarda continuaria a ser o coração sensível que mantinha todos unidos.

Naquela noite, enquanto Arthur dormia com um pequeno curativo novo no joelho — um troféu da sua primeira "aventura" — Emanuel sentou-se na varanda, observando a lua. Ele sabia que a jornada de criar herdeiros seria cheia de batalhas como aquela. Mas, enquanto tivesse a força de Sara para desafiá-lo e a doçura de Eduarda para suavizá-lo, ele sabia que seu império estava em boas mãos.

Eduarda apareceu silenciosamente atrás dele, envolvendo sua cintura com os braços e apoiando a cabeça em suas costas.

— Manu? — ela chamou baixinho.

— Sim, pequena?

— Amanhã... você me ensina a ligar a moto? Só para eu saber como desligar rápido se precisar?

Emanuel soltou uma risada profunda, segurando as mãos dela sobre seu abdômen.

— Ensino, Duda. Eu ensino.

O silêncio da noite foi selado com o entendimento de que, naquela família, o medo e a coragem caminhavam de mãos dadas, guiados pela mão firme de um homem que não aceitava nada menos do que a perfeição de seu bando. E, por mais que Eduarda manhasse e Sara provocasse, o rugido do pequeno motor era apenas o começo de uma história que nenhum deles estava pronto para ver terminar.