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O Santuário e a Sentinela
A mansão de Emanuel, com suas linhas arquitetônicas frias e mármore impecável, parecia pequena demais para a energia que Arthur emanava. Aos dois anos, o menino não era apenas uma criança; era uma força da natureza, um pequeno motor de combustão interna que não conhecia o conceito de "pausa". Ele corria pelos corredores, escalava as cadeiras de design da sala de jantar e desafiava as babás com um olhar que era a cópia fiel do desafio de Emanuel.
No entanto, como todas as tempestades que eventualmente encontram terra firme, Arthur tinha um único porto seguro.
— Ele não para, Manu... ele simplesmente não para — Eduarda suspirou, sentada na poltrona de amamentação no quarto dos bebês, que estava mergulhado em uma luz âmbar suave.
Arthur, que cinco minutos antes estava tentando usar o rabo do cachorro como corda de rapel, agora estava completamente imóvel. O rosto gordinho estava pressionado contra o peito de Eduarda, as mãos pequenas espalmadas sobre a pele macia da mãe, e o som rítmico da sucção era o único ruído no quarto. O peito de Eduarda era o único lugar no mundo capaz de domar o caos que vivia dentro do menino.
Emanuel estava encostado no batente da porta, observando a cena com uma mistura de adoração e posse. Ele adorava ver a submissão do filho diante da doçura de Eduarda. Era o equilíbrio perfeito: a força bruta de um homem sendo amansada pela vulnerabilidade de uma mulher.
— Ele é como eu, Duda — Emanuel disse, a voz baixa para não quebrar o encanto. — Ele precisa de um lugar para descarregar o mundo. Você é o santuário dele.
Eduarda olhou para cima, os olhos castanhos brilhando com uma ternura cansada. Ela acariciou os cabelos escuros de Arthur, sentindo a respiração dele se tornar pesada com o início do sono.
— Às vezes eu acho que ele só para porque sabe que aqui eu mando nele — ela brincou, fazendo um biquinho manhoso. — Ele é tão teimoso, Manu. Hoje ele tentou morder a sandália da Sara porque ela não deixou ele subir na mesa.
— A Sara não tem paciência — Emanuel deu de ombros, aproximando-se e beijando o topo da cabeça de Eduarda. — Mas você tem. E é por isso que ele é louco por você.
O momento de paz, contudo, estava prestes a ser brutalmente interrompido.
Lá embaixo, na área da piscina, o som de risadas infantis e conversas de adultos indicava que o churrasco de domingo estava em pleno vigor. Emanuel havia convidado alguns de seus sócios e amigos mais próximos, incluindo Marcos, seu braço direito nos estúdios de tatuagem.
Quando Emanuel e Eduarda desceram — ela carregando um Arthur sonolento e ele com a mão possessivamente pousada na nuca dela —, a cena no jardim parecia idílica. Sara estava deslumbrante em um biquíni minúsculo coberto por uma saída de praia transparente, bebendo champanhe e rindo das piadas dos convidados. Ágata estava sentada em uma mesa pequena, "liderando" um grupo de outras crianças com a autoridade de uma rainha.
E Maya... a pequena e sensível Maya estava brincando na beira da grama com o filho de Marcos, um menino de quatro anos chamado Léo.
Emanuel parou no último degrau da varanda. Seus olhos, sempre vigilantes, fixaram-se na filha. Maya ria, mostrando os dentinhos de leite, enquanto Léo entregava a ela uma flor de plástico que havia pegado de algum enfeite da mesa.
— Olha, Manu, que fofos — Eduarda sussurrou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — A Maya finalmente fez um amiguinho.
Emanuel não respondeu. Ele sentiu um aperto estranho no peito, uma irritação irracional que começou a subir por sua garganta.
Léo, em um gesto de inocência puramente infantil, segurou o rosto de Maya com as mãos pequenas e deu um beijo estalado na bochecha da menina.
O mundo de Emanuel parou.
— O que aquele moleque pensa que está fazendo? — A voz de Emanuel saiu como um rosnado baixo, carregado de uma fúria que fez Eduarda sobressaltar-se.
Antes que Eduarda pudesse processar o que estava acontecendo, Emanuel já estava atravessando o gramado com passos pesados. Ele parecia um predador protegendo sua cria mais frágil.
— Emanuel, espera! — Eduarda chamou, correndo atrás dele com Arthur no colo.
Emanuel chegou à beira da grama e, sem dizer uma palavra, pegou Maya do chão com um movimento brusco. A menina, assustada pela rapidez do pai, soltou um gritinho e começou a chorar.
— Ei, cara, o que foi? — Marcos perguntou, aproximando-se com uma expressão confusa, vendo o filho, Léo, recuar assustado.
— Tira o seu filho de perto da minha filha, Marcos — Emanuel disse, a voz vibrando de ódio contido. — Ele estava beijando ela.
Marcos piscou, incrédulo, e depois soltou uma risada nervosa.
— Emanuel, eles são crianças! O Léo tem quatro anos, a Maya tem dois. Foi um beijo na bochecha, cara. Eles estão brincando de casinha ou algo assim.
— Eu não dou a mínima para o que eles estão brincando — Emanuel retrucou, apertando Maya contra o peito, os olhos fixos no menino como se ele fosse uma ameaça real. — Ninguém toca na minha filha. Ninguém.
Sara, atraída pela confusão, aproximou-se balançando o quadril, uma expressão de deboche estampado no rosto perfeitamente maquiado.
— Por favor, Emanuel, não comece com o seu complexo de posse agora — ela disse, tomando um gole de sua bebida. — É apenas um beijinho. Deixe a menina viver. Se você for assim agora, imagine quando ela tiver quinze anos e os meninos começarem a pular o muro da mansão.
Emanuel virou-se para Sara com um olhar que faria qualquer homem recuar, mas Sara apenas sorriu, acostumada com as explosões do parceiro.
— Ninguém vai pular muro nenhum — Emanuel sentenciou. — Eu vou eletrificar o muro e colocar cães de guarda.
Eduarda chegou ao lado dele, ofegante, e tocou o braço de Emanuel com a mão livre.
— Manu, para com isso... você está assustando a Maya. Olha para ela.
Emanuel olhou para baixo. Maya estava com o rosto enterrado em seu pescoço, soluçando baixinho, o corpinho tremendo. O choro da filha foi como uma facada em seu ego, mas a raiva contra o "invasor" ainda era maior.
— Ela está assustada porque esse moleque a desrespeitou — Emanuel insistiu, embora sua voz tivesse suavizado um pouco ao falar com a menina. — Shhh, Maya... o papai está aqui. Ninguém vai encostar em você.
— Emanuel, você está sendo ridículo — Eduarda disse, tentando usar sua voz mais firme, embora o tom manhoso ainda estivesse lá. — Isso é coisa de criança. Eles não têm maldade. É um carinho, um gesto de amizade.
— Amizade começa assim, Eduarda. Depois vira outra coisa — Emanuel caminhou em direção à casa, ignorando os convidados que observavam a cena em um silêncio constrangedor.
Ele entrou no escritório, o único lugar onde sentia que tinha controle total, e sentou-se na poltrona com Maya ainda no colo. Eduarda entrou logo atrás, fechando a porta. Ela colocou Arthur, que agora estava bem acordado e confuso, no tapete, e ajoelhou-se diante de Emanuel.
— Manu, olha para mim — ela pediu, pegando as mãos dele. — Você não pode enlouquecer toda vez que um menino olhar para a sua filha. A Maya é linda, ela é doce. As pessoas vão gostar dela.
— Eu não quero que gostem dela desse jeito — ele rosnou, as tatuagens em seus braços parecendo mais escuras sob a luz do escritório. — Ela é minha. Minha pequena Maya. Eu vou protegê-la de caras como... como eu.
Eduarda soltou uma risadinha suave, apesar da tensão.
— É esse o problema, não é? Você sabe exatamente o que os homens pensam.
— Exatamente — Emanuel admitiu, a mandíbula tensa. — Eu sei como os caras são. Eu sei como eles olham. E eu não vou deixar ninguém olhar para ela assim.
Eduarda suspirou, acariciando os joelhos de Emanuel.
— Um dia ela vai crescer, Manu. Um dia ela vai querer namorar. Ela vai trazer um rapaz aqui para você conhecer, e você vai ter que ser civilizado.
Emanuel sentiu um calafrio real percorrer sua espinha. A imagem de uma Maya adolescente, usando maquiagem e saindo de mãos dadas com um estranho, era mais aterrorizante para ele do que qualquer crise financeira ou briga de gangues que já enfrentara no passado.
— Ela não vai namorar — ele afirmou, a voz absoluta. — Ela vai ser freira. Ou vai morar aqui comigo para sempre. Eu vou construir uma ala nova na casa para ela e para o Arthur.
— Você está sendo bobo — Eduarda manhou, subindo no colo dele, espremendo-se entre ele e a pequena Maya. — Você vai ter que aceitar. O mundo gira, o tempo passa... e a nossa menininha vai ser uma mulher.
— Se algum dia algum moleque entrar nesta casa para pedir a mão dela, eu vou mostrar a ele a minha coleção de agulhas de tatuagem — Emanuel disse, embora o tom tivesse um rastro de humor negro. — E vou explicar detalhadamente o que acontece com quem quebra o coração dela.
Eduarda beijou o pescoço de Emanuel, sentindo a tensão dele diminuir gradualmente.
— Você é um exagerado. Mas eu sei que é porque você a ama. Só tenta não expulsar todos os amigos do Arthur também, ou o menino vai crescer sozinho.
— O Arthur é homem. Ele que se defenda — Emanuel disse, mas então olhou para o filho no chão, que estava tentando morder a perna da mesa. — Na verdade, o Arthur vai ser o meu segundo em comando. Ele vai me ajudar a vigiar a irmã.
— Coitada da Maya... — Eduarda riu, escondendo o rosto no peito de Emanuel. — Com um pai e um irmão desses, ela vai ter que ser muito esperta.
A porta do escritório se abriu com um estrondo e Sara entrou, parecendo irritada.
— Emanuel, o Marcos está indo embora. Ele ficou ofendido, obviamente. Parabéns, você estragou o churrasco porque um bebê de quatro anos deu um beijo na sua filha. Você é oficialmente um psicopata.
— Eu não me importo com o Marcos — Emanuel levantou-se, ainda segurando Maya. — E se ele não consegue controlar o filho, o problema é dele.
Sara revirou os olhos e olhou para Eduarda.
— Duda, como você aguenta esse homem? Ele é um homem das cavernas com uma máquina de tatuar.
Eduarda olhou para Emanuel, que agora estava ninando Maya com uma doçura que contrastava violentamente com a fúria de minutos atrás.
— Ele é o meu homem das cavernas, Sara — Eduarda respondeu, com aquela sua manha característica, abraçando o braço de Emanuel. — E eu gosto que ele seja protetor. Só às vezes ele passa um pouquinho do ponto.
— Um pouquinho? — Sara bufou. — Ele quase declarou guerra a uma criança de pré-escola!
Emanuel ignorou as provocações de Sara. Ele estava focado em Maya, que finalmente havia parado de chorar e agora brincava com os botões da camisa dele.
— Ela está bem agora — Emanuel disse, a voz suave. — Mas o aviso está dado. Nesta casa, ninguém toca na Maya sem a minha autorização.
Eduarda sorriu, sabendo que aquela era uma batalha perdida. Emanuel nunca mudaria. Sua necessidade de controle, sua posse sobre as mulheres de sua vida e seu instinto protetor sobre os filhos eram a base de quem ele era.
Naquela noite, após o caos do churrasco ter sido limpo e as crianças estarem devidamente acomodadas, Emanuel estava deitado na cama imensa, com Sara de um lado e Eduarda do outro. O silêncio da mansão era reconfortante, mas a mente de Emanuel ainda trabalhava.
— Manu? — Eduarda chamou, a voz sonolenta, aninhando-se sob o braço dele.
— Sim, pequena?
— Você sabe que a Ágata deu um beijo no rosto do filho do vizinho na semana passada, não sabe?
Emanuel sentou-se na cama como se tivesse sido atingido por um raio.
— O QUÊ?
Sara soltou uma gargalhada alta, cobrindo o rosto com o travesseiro.
— Ah, a Ágata não, Emanuel. A Ágata é quem manda. Ela deu o beijo e depois disse para o menino que ele agora era o súdito dela.
Emanuel passou as mãos pelo rosto, sentindo que sua sanidade estava sendo testada por todos os lados. Ele olhou para as duas mulheres e percebeu que, por mais que tentasse ser o mestre daquela mansão, ele estava cercado por forças que nunca conseguiria controlar totalmente.
— Eu vou precisar de mais cães de guarda — ele murmurou, deitando-se novamente.
Eduarda riu e o abraçou com força.
— Você só precisa de nós, Manu. Só de nós.
E enquanto Arthur dormia o sono dos justos, sonhando talvez com motos e aventuras, e Maya sonhava com flores de plástico, Emanuel fechou os olhos, sabendo que sua vida seria uma eterna vigília. Mas, enquanto tivesse o peito de Eduarda para acalmar Arthur e a força de Sara para desafiá-lo, ele estava pronto para enfrentar qualquer "Léo" que cruzasse o seu caminho.
Porque no império de Emanuel, o amor era uma posse, e a proteção era a única lei que não podia ser quebrada. E Eduarda, com sua manha e sua doçura, era a única que sabia exatamente como fazer o rei baixar a guarda — pelo menos até o próximo beijo na bochecha.