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Operação Suíça
— Papai, mais alto!
A ordem, emitida com a autoridade de um general de cinco estrelas em um corpo de dois anos de idade, ecoou pelo terraço da cobertura. Arthur, o furacão pessoal de Emanuel, estava empoleirado nos ombros do pai, os dedinhos gordos emaranhados nos cabelos escuros dele, o corpo balançando em um ritmo que ameaçava o precário equilíbrio de ambos. Ele era uma miniatura perfeita de Emanuel: a mesma energia implacável, a mesma necessidade de estar no topo, a mesma carranca de concentração que agora exibia enquanto observava a cidade a seus pés.
— Se eu for mais alto, nós dois vamos parar lá embaixo, campeão — respondeu Emanuel, a voz grave tingida de um divertimento que só Arthur conseguia arrancar dele. Suas mãos seguravam firmemente os tornozelos do filho, a única âncora que impedia o pequeno titã de tentar voar.
A cena era o retrato da nova normalidade que se instalara nos últimos dois anos. O império de Emanuel não era mais um triângulo, mas um ecossistema caótico e barulhento. Eduarda e Maya haviam se mudado para a cobertura logo após o nascimento de Arthur, e o espaço, antes um santuário de design minimalista, agora era um campo minado de brinquedos coloridos, carrinhos e a ocasional mancha de suco de uva em um tapete persa.
Do outro lado do terraço, em uma pequena piscina inflável, a guerra fria diária estava em andamento.
— O castelo precisa de uma torre rosa, Maya. É a torre da princesa. E a princesa sou eu — declarou Ágata, agora com três anos e a autoconfiança de Sara elevada à décima potência. Ela segurava um balde rosa, olhando com desdém para o balde azul que Maya tentava encaixar no topo da estrutura de areia molhada.
Maya, também com três anos, fez um beicinho. Seus cachos castanhos estavam molhados e grudados na testa, e seus grandes olhos, a herança mais pura de Eduarda, expressavam uma teimosia doce.
— Não. A torre é azul. O céu é azul.
— O céu não manda no meu castelo!
Antes que a disputa arquitetônica pudesse escalar para um conflito físico, Eduarda interveio. Ela se levantou da espreguiçadeira onde lia um livro, a personificação da serenidade em meio ao caos. Sua figura havia recuperado a esbeltez, mas carregava uma nova firmeza, uma confiança que a maternidade e a vida ao lado de Emanuel e Sara haviam forjado.
— Que tal duas torres? Uma rosa e uma azul? Duas princesas podem morar no castelo — sugeriu ela, a voz um bálsamo.
Ágata considerou a proposta diplomática por um segundo.
— Tá. Mas a minha torre é mais alta.
Eduarda sorriu e piscou para Maya, que aceitou o acordo com um aceno de cabeça. A paz fora restaurada. Por enquanto.
Sara, observando tudo por trás de seus óculos de sol de grife, soltou uma risada abafada.
— Você é uma pacificadora da ONU, Duda. Eu já teria jogado as duas na piscina e declarado o castelo território neutro.
Ela estava deitada como uma pantera ao sol, o corpo escultural em um biquíni preto que parecia ter sido pintado nela. Ao seu lado, uma taça de mimosa suava no calor da tarde. Ela era a rainha em seu camarote, assistindo ao circo que era sua vida e adorando cada minuto.
A campainha tocou, e a harmonia precária foi elevada a um novo nível de complexidade com a chegada de Lucas, Helena e Theo.
O caos se multiplicou. Theo, agora um menino de quatro anos com cachos loiros e uma energia que rivalizava com a de Arthur, não perdeu tempo. Ele ignorou os adultos, passou correndo por Arthur e Emanuel, desviou de Ágata e seu projeto de construção e foi direto para o seu alvo.
— Maya!
Ele parou em frente a ela, as mãos atrás das costas e um sorriso que mostrava uma janelinha recente.
— Eu trouxe um presente pra você.
Ele revelou um desenho, um emaranhado de rabiscos coloridos que, com alguma boa vontade, poderia ser interpretado como duas figuras de palito de mãos dadas sob um sol sorridente.
Maya pegou o papel com a solenidade de quem recebe um Picasso.
— É ‘nito’, Téo! Somos nós?
— Sim! E essa coisa amarela é uma casa de chocolate onde a gente vai morar — explicou ele, com total seriedade.
A cena era tão absurdamente doce que Eduarda e Helena trocaram um olhar enternecido. Sara sorriu por trás de sua taça. Lucas riu alto.
Emanuel, no entanto, sentiu um arrepio familiar. O monstro da possessividade, que ele aprendera a manter acorrentado em um porão escuro de sua mente com sessões de terapia caríssimas e o medo constante das ameaças de Sara, sacudiu suas correntes.
Ele desceu Arthur de seus ombros, colocando-o no chão. O menino imediatamente correu para se juntar à brincadeira, mas Emanuel permaneceu de pé, uma estátua de fúria contida, observando o pequeno pretendente de sua filha.
Theo, encorajado pela recepção calorosa, decidiu que era hora do golpe de misericórdia. Ele se virou, marchou com seus pés pequenos até Emanuel e parou, olhando para cima com uma determinação impressionante.
— Tio Manu.
Emanuel olhou para baixo, o rosto uma máscara de neutralidade fria.
— Sim, Theo?
— Eu tenho uma coisa importante pra te falar — anunciou o menino, estufando o peito. — Quando eu crescer, eu vou casar com a Maya. A gente já decidiu. E você vai ter que deixar, porque eu amo ela.
O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Os adultos congelaram. Lucas engasgou com a própria risada.
Então, Sara explodiu em uma gargalhada tão alta e genuína que assustou os patos na lagoa lá embaixo.
— Ai, meu Deus! É oficial! Temos um pedido de casamento! Manu, você ouviu isso? O menino tem mais atitude que muito homem barbado por aí!
Emanuel não riu. Ele não disse nada. Apenas continuou a encarar Theo, os olhos escuros se tornando dois poços de gelo. O monstro não estava mais apenas sacudindo as correntes. Ele as havia arrebentado. Mas, fiel à sua nova estratégia de sutileza, ele não rugiu. Ele começou a conspirar.
— Isso é… muito… planejado da sua parte, Theo — disse Emanuel, a voz perigosamente calma.
— Sim! E a gente vai ter dez cachorros! — completou o menino, orgulhoso de seu plano de vida.
— Entendo. Um plano muito sólido — concordou Emanuel. Ele se virou e caminhou até a churrasqueira, pegando uma pinça e começando a mexer na carne com uma concentração violenta, como se cada pedaço de picanha fosse um obstáculo para a felicidade futura de sua filha.
A festa continuou, mas uma sombra havia caído sobre o humor de Emanuel. Ele era educado, respondia às perguntas, mas seus olhos voltavam constantemente para o canto onde Maya e Theo agora brincavam juntos, alheios ao pacto de sangue que acabara de ser selado e à sentença de exílio que estava sendo mentalmente redigida para um deles.
***
Naquela noite, a cobertura estava finalmente silenciosa. As crianças dormiam, cada uma em seu quarto, pequenos anjos que durante o dia eram demônios de energia. Sara havia saído para um evento de moda. Eduarda, vestindo um pijama de seda confortável, encontrou Emanuel em seu escritório, um espaço sagrado de couro escuro, aço e livros de arte.
Ele estava sentado em sua imponente cadeira de couro, de costas para a porta, o brilho do laptop iluminando seu rosto concentrado. Eduarda sorriu. Amava vê-lo assim, o rei em seu trono, comandando seu vasto império digital.
Ela se aproximou silenciosamente, planejando abraçá-lo por trás e talvez roubar um beijo. Seus olhos passaram por cima do ombro dele, esperando ver planilhas complexas ou os designs de uma nova tatuagem.
O que ela viu a fez parar. E depois, a fez franzir a testa.
Eram fotos de castelos. Prédios imponentes de pedra cinzenta cercados por montanhas nevadas e lagos de um azul profundo. Títulos em francês e alemão saltavam da tela.
*Institut auf dem Rosenberg. St. Gallen, Suíça.*
*Aiglon College. Villars-sur-Ollon, Suíça.*
*Gordonstoun School. Elgin, Escócia.*
— Planejando nossas próximas férias em família? — perguntou ela, a voz carregada de uma curiosidade divertida. — Achei que você odiasse frio.
Emanuel quase pulou da cadeira, fechando o laptop com um movimento brusco e culpado.
— Duda! Eu não ouvi você chegar.
— Percebi — ela riu, contornando a mesa e sentando-se em seu colo, passando os braços em volta de seu pescoço. — O que você estava vendo com tanto interesse? Pareciam lugares bem sérios.
— Estou apenas… pesquisando — disse ele, evasivo, evitando o olhar dela. — Opções educacionais para o futuro.
— Opções educacionais? — repetiu ela, tentando abrir o laptop novamente. Ele resistiu. — Para quem? O Arthur? Ele mal sabe usar o banheiro sozinho e você já está planejando a faculdade dele na Suíça?
— Não é para o Arthur.
Os olhos de Eduarda se arregalaram em compreensão. Uma pausa. E então, o som começou. Um risinho baixo, abafado contra o peito dele. Depois, uma risada um pouco mais alta. E, finalmente, uma gargalhada completa, incontrolável, que a fez se jogar para trás, quase caindo do colo dele.
— Não! — ela disse, entre risos, as lágrimas brotando em seus olhos. — Você não está fazendo isso! É por causa do Theo, não é? Meu Deus, Emanuel! Você está pesquisando internatos na Europa para a Maya!
— Não é engraçado, Eduarda! — rosnou ele, o rosto vermelho de irritação e constrangimento. — É uma questão de planejamento estratégico. Esses lugares oferecem a melhor educação do mundo! Foco total nos estudos, esportes, artes… longe de… distrações.
— Distrações? — ela ofegou, tentando recuperar o fôlego. — Você quer dizer, longe de meninos de quatro anos que te declaram suas intenções amorosas? Você vai mandar a nossa filha para o exílio nos Alpes porque o Theo quer morar numa casa de chocolate com ela?
— Ele disse que a ama! Ele tem um plano! É um menino muito determinado! — argumentou Emanuel, como se isso fosse uma prova irrefutável da ameaça.
— Ele é determinado em comer meleca quando acha que ninguém está olhando! — gargalhou Eduarda. — Emanuel, isso é a coisa mais ridícula e absurdamente fofa que eu já vi você fazer!
— Não é fofo, é prudência! Daqui a dez, doze anos, essa determinação toda vai ser um problema!
— E a sua solução é mandar ela para um colégio interno na Escócia onde o maior evento social é a tosquia de ovelhas?
A porta do escritório se abriu. Sara entrou, um copo de água na mão, o cabelo preso em um coque desleixado.
— O que está acontecendo aqui? Parece que alguém está sendo torturado. E por que a Eduarda está roxa?
— O Manu… — tentou explicar Eduarda, mas foi vencida por outra onda de riso. — Ele… internatos… Maya… Theo…
Sara olhou de Eduarda, que chorava de rir, para Emanuel, que parecia prestes a explodir. Ela se aproximou, abriu o laptop que ele havia largado na mesa e começou a ler. Seu rosto permaneceu impassível por um longo momento. Então, um canto de sua boca se curvou para cima.
— Gordonstoun — disse ela, com a voz séria. — Onde o Rei Charles estudou. Dizem que os banhos frios e as corridas matinais na neve formam o caráter. Ou criam um ressentimento eterno contra os pais. É uma aposta.
— Sara, não ajuda! — resmungou Emanuel.
— Pelo contrário, estou ajudando a analisar suas opções — continuou ela, sentando-se na beirada da mesa com a elegância de sempre. — Aiglon College. Requer que os alunos façam expedições nas montanhas. Excelente. Se a Maya estiver ocupada demais tentando não congelar até a morte em uma avalanche, não terá tempo para pensar em namorados. Você é um gênio, Manu.
— Vocês duas são impossíveis! Eu estou tentando proteger o futuro da minha filha!
— Você está tentando construir uma fortaleza medieval ao redor dela! — corrigiu Eduarda, finalmente recuperando o controle. Ela se levantou do colo dele e o encarou, as mãos na cintura. — De jeito nenhum, Emanuel. A Maya não vai para internato nenhum. Ela vai crescer aqui, conosco. Vai para a escola, vai ter amigos, vai talvez até gostar do Theo quando eles tiverem idade para isso, e você vai ter que aprender a lidar com isso.
— E se eu não conseguir?
— Aí você compra um saco de pancadas e desconta sua frustração nele. Ou melhor — sugeriu Sara, com um brilho maligno nos olhos —, você pode ser o acompanhante oficial dela em todos os encontros. Imagina a cena? Maya, com dezesseis anos, em um cinema, e você sentado na cadeira ao lado, com essa sua cara de assassino de aluguel, encarando o pobre coitado que ousou comprar pipoca para ela.
A imagem era tão vívida e patética que até Emanuel quase sorriu. Quase.
— Isso não vai acontecer.
— Não vai mesmo — concordou Eduarda, agora séria. — Porque você vai ser melhor que isso. Você prometeu. Você está fazendo terapia para ser melhor. Para não deixar esse monstro ciumento tomar conta de você. Mandar sua filha para outro continente não é ser melhor, é fugir. É a solução de um covarde. E você não é um covarde, Emanuel.
As palavras dela o atingiram. "Covarde". Era uma acusação que ele não podia suportar. Ele olhou para o rosto de Eduarda, firme e decidido. Olhou para Sara, que o observava com uma expectativa divertida. Elas estavam unidas. Não zombando dele, mas o desafiando. Desafiando-o a cumprir a promessa que fizera a elas e a si mesmo.
Com um suspiro que pareceu carregar todo o peso de seus medos paternos, ele estendeu a mão e fechou o laptop com um clique suave e definitivo.
— Tudo bem.
— Tudo bem o quê? — perguntou Eduarda, cruzando os braços.
— Sem internatos na Suíça — admitiu ele, a contragosto.
— E na Escócia? — pressionou Sara.
— E em nenhum outro lugar do planeta Terra — completou Eduarda.
Emanuel passou as mãos pelo rosto, sentindo-se exausto.
— Sem internatos. Em lugar nenhum. Vocês venceram.
Eduarda sorriu, a vitória iluminando seu rosto. Ela se inclinou e lhe deu um beijo suave.
— Nós não vencemos. Nós, como família, tomamos uma decisão sensata.
— É, tanto faz — resmungou ele.
Sara deu um tapinha em seu ombro.
— Não se preocupe, querido. Quando chegar a hora, eu mesma ensino à Maya todas as técnicas para dispensar os idiotas e manter apenas os que valem a pena. Ela vai ter o melhor treinamento. O meu.
Emanuel gemeu. Às vezes, ele não sabia o que era pior: os pretendentes de sua filha ou as mulheres de sua própria casa.
Ele se levantou, sentindo-se derrotado.
— Eu vou ver as crianças.
Ele saiu do escritório sob os olhares cúmplices de Sara e Eduarda. Caminhou pelo corredor silencioso, parando primeiro na porta do quarto de Maya. Ele a abriu uma fresta. Ela dormia profundamente, abraçada ao desenho que Theo lhe dera. A visão ainda lhe causava uma pontada de ciúme irracional, mas agora estava misturada com uma dose de humor resignado.
Ele estava prestes a fechar a porta quando uma vozinha sonolenta o chamou do quarto ao lado.
— Papai?
Ele entrou no quarto de Arthur. O menino estava sentado em seu berço, os olhos grandes e alertas no escuro.
— O que foi, campeão? Teve um pesadelo?
— Água.
Emanuel sorriu. A necessidade imediata e simples de seu filho era um antídoto para as complexidades do futuro. Ele pegou o copo de água na cômoda e o entregou a Arthur, que bebeu com avidez.
— Pronto? — perguntou Emanuel, pegando o copo de volta.
Arthur assentiu. Mas em vez de se deitar, ele ergueu os bracinhos. Um pedido. Emanuel o pegou no colo, o corpo quente e familiar do menino se aninhando em seu peito. Arthur era sólido, presente, uma extensão inegável de si mesmo. Era mais fácil.
— Papai — sussurrou Arthur, apontando para uma tatuagem de tigre no braço de Emanuel. — Tigle.
— É, um tigre — concordou Emanuel, sentindo o peso reconfortante do filho em seus braços.
Ele ficou ali, no escuro, embalando o menino, o herdeiro que carregava seu sangue e sua fúria. A Operação Suíça havia sido um fracasso retumbante. As rainhas de seu castelo haviam vetado seus planos de exílio. Ele sabia que as batalhas pelo coração de Maya estavam apenas começando, e que ele provavelmente perderia a maioria delas.
Mas, enquanto sentia a respiração de Arthur em seu pescoço, ele percebeu que talvez estivesse focando na guerra errada. O futuro era um território desconhecido e assustador. O presente, no entanto, era um furacão de dois anos pedindo água no meio da noite. E, por enquanto, isso era um império que ele ainda conseguia governar.