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A Queda do Titã
O primeiro sinal de que o império de Emanuel tinha uma rachadura em sua fundação não foi um acordo de negócios que deu errado ou uma traição no mercado. Foi um arrepio. Um arrepio traiçoeiro que percorreu sua espinha enquanto ele se levantava da cama, o sol da manhã mal tocando o horizonte do Rio de Janeiro. Ele o ignorou, atribuindo-o ao ar condicionado. Titãs não sentiam frio.
O segundo sinal foi a dor de cabeça que começou a pulsar atrás de seus olhos enquanto ele tomava seu café expresso, forte e amargo como ele gostava. Ele tomou um analgésico, a mente já focada na agenda do dia: uma reunião com investidores japoneses, uma visita surpresa a um de seus estúdios e, mais tarde, a consulta de rotina de Eduarda para verificar o progresso de Arthur. Titãs não tinham tempo para dor.
O terceiro e definitivo sinal veio quando ele tentou levantar Ágata do chão da sala. Sua filha, um pequeno dínamo de energia, parecia pesar uma tonelada. Seus braços fraquejaram por uma fração de segundo, e uma onda de tontura o fez cambalear para o lado.
— Papai tá bobo! — riu Ágata, sem perceber a falha na armadura de seu pai.
Mas Sara, que saía do closet parecendo uma deusa da moda em um terninho branco impecável, percebeu. Seus olhos azuis, afiados como bisturis, estreitaram-se.
— Emanuel? Você está pálido.
— É o cansaço — mentiu ele, a voz soando mais rouca do que o normal. — Não dormi bem.
Ela se aproximou, o perfume caro envolvendo-o. Sem pedir permissão, ela pousou as costas da mão em sua testa. A pele dela era fria contra a dele, que queimava.
— Cansaço? Emanuel, você está pegando fogo — declarou ela, o tom não de preocupação, mas de pura irritação. — Você não pode ficar doente hoje. Os japoneses estão esperando.
— Eu não estou doente — teimou ele, afastando-se. — Eu vou tomar um banho e estarei novo em folha.
O banho gelado, no entanto, só serviu para intensificar os tremores. Quando ele saiu, enrolado em uma toalha, o espelho do banheiro mostrou-lhe uma imagem que ele não reconhecia: um homem com os olhos fundos, a pele com um brilho febril e uma vulnerabilidade que o enojou.
Ele se vestiu com a força do hábito, mas cada movimento era um esforço. Quando chegou à sala de jantar, Eduarda já estava lá. Ela havia dormido na cobertura na noite anterior, uma ocorrência cada vez mais comum. Grávida de oito meses, ela se movia com uma lentidão sonhadora, e a visão dela, preparando uma mamadeira para Maya, era o contraponto suave à energia elétrica de Sara.
Foi Eduarda quem viu a verdade que Emanuel tentava esconder.
— Manu? — chamou ela, a voz doce e preocupada. Ela largou a mamadeira e se aproximou dele, o rosto franzido em uma expressão de pura ansiedade. — Você não está bem.
Ela estendeu a mão para tocar seu rosto, e ele recuou por instinto, odiando a ideia de que sua fraqueza fosse tão óbvia para ela, sua flor de algodão, a quem ele deveria proteger.
— Eu estou ótimo — disse ele, a voz saindo como um arranhão.
Antes que Eduarda pudesse insistir, o corpo de Emanuel o traiu de forma definitiva. Uma onda de calafrios o atingiu com a força de um soco, fazendo seus dentes baterem. Ele se agarrou à mesa para não cair, o mundo girando perigosamente ao seu redor.
O caos se instalou.
— Eu sabia! — exclamou Sara, pegando o celular. — Vou ligar para o Dr. Almeida. Ele que venha aqui agora. Você não vai a lugar nenhum. A reunião está cancelada.
Eduarda, por outro lado, entrou em um modo de pânico silencioso e eficiente. Ela correu até ele, ignorando seus protestos fracos, e o ajudou a se sentar em uma cadeira.
— Sara, pegue um cobertor! Ele está tremendo de frio! — pediu ela, a voz embargada.
— Pega você, Eduarda! Eu estou tentando salvar o império que esse idiota está colocando em risco por achar que é imortal! — retrucou Sara, já falando ao telefone em um tom autoritário.
Eduarda não discutiu. Com a agilidade surpreendente que a maternidade lhe dera, ela foi até o quarto e voltou com um edredom pesado, envolvendo-o nos ombros de Emanuel. Ele se encolheu sob o tecido, sentindo-se pateticamente fraco. Maya, que estava em seu cadeirão, começou a choramingar, sentindo a tensão no ar.
— Calma, meu amor, a mamãe está aqui — disse Eduarda, a voz tremendo, enquanto tentava consolar a filha e o homem ao mesmo tempo.
O Dr. Almeida, um médico discreto e acostumado às excentricidades dos ricos, chegou em menos de meia hora. Seu diagnóstico foi rápido e direto: uma infecção viral agressiva, provavelmente Influenza A. A febre estava em trinta e nove e meio e subindo. A ordem era repouso absoluto, hidratação e medicação.
— Ele não pode ficar doente — disse Sara ao médico, como se a doença fosse uma falha de caráter que pudesse ser corrigida com uma ordem. — Ele tem um império para administrar.
— Senhora, o império terá que esperar. O corpo dele está travando uma batalha, e se ele não repousar, pode evoluir para algo muito mais sério — respondeu o médico, com uma paciência infinita.
Emanuel foi praticamente carregado para a cama. Ele odiou cada segundo. Odiou a forma como suas pernas pareciam feitas de borracha. Odiou a mão de Eduarda em suas costas, apoiando-o. Odiou o olhar de Sara, uma mistura de preocupação genuína e profundo aborrecimento. Ser cuidado era ser fraco. E Emanuel não era fraco.
As horas seguintes se arrastaram em um pesadelo febril. A cobertura, seu castelo de vidro, transformou-se em uma enfermaria de luxo. As duas mulheres de sua vida revelaram suas naturezas opostas em face da crise.
Sara era o general. Ela cancelou todos os compromissos de Emanuel, remarcou reuniões, respondeu e-mails urgentes com uma eficiência assustadora. Ela coordenava a equipe da casa, garantindo que houvesse sopas nutritivas, sucos frescos e um silêncio monástico. Sua preocupação se manifestava como controle. Ela entrava no quarto a cada hora, não para fazer um carinho, mas para verificar o termômetro com a precisão de uma cientista.
— Trinta e nove e oito. Essa porcaria não está baixando — ela resmungava, mais para si mesma do que para ele. — Eu disse ao Almeida que o antitérmico era fraco.
Eduarda era a enfermeira de alma. Ela não saiu do lado da cama. Com uma bacia de água fria e um pano macio, ela umedecia a testa e o pescoço de Emanuel, murmurando palavras de conforto que ele mal conseguia registrar. Ela tentava fazê-lo beber água, segurando o copo com canudo em seus lábios secos. Seus olhos castanhos, normalmente sonhadores, estavam turvos de lágrimas não derramadas. Sua ansiedade se manifestava como um cuidado incessante, quase sufocante.
— Beba só mais um pouquinho, meu amor. Por favor. Você precisa se hidratar — ela sussurrava, a voz um bálsamo e uma tortura para os ouvidos de Emanuel.
O atrito entre as duas era inevitável.
— Eduarda, pare de sufocá-lo! — disse Sara, entrando no quarto e vendo Eduarda tentando ajeitar o travesseiro de Emanuel pela décima vez. — Ele precisa dormir, não de uma babá em tempo integral.
— Ele está queimando, Sara! Eu só estou tentando ajudar! — retrucou Eduarda, a voz subindo em um tom de desespero.
— Ajudar é garantir que a medicação seja dada na hora certa e que os negócios dele não desmoronem enquanto ele está aqui delirando. Ficar passando paninho na testa dele é cena de novela. Seja prática.
— Ser prática não vai baixar a febre dele! O que ele precisa é de cuidado! De carinho!
— Ele precisa de um antiviral potente, não de carinho! — rosnou Sara.
Emanuel ouvia a discussão como se viesse debaixo d'água. Ele queria gritar para as duas pararem, para deixá-lo em paz em sua miséria, mas a única coisa que conseguiu foi emitir um gemido rouco.
À noite, a febre atingiu o pico. Quarenta graus. Emanuel começou a delirar. Ele se debatia na cama, arrancando os cobertores, murmurando nomes de clientes, ordens para seus tatuadores, fragmentos de conversas.
— O contorno... mais fino... Lucas, tira ele daqui... — ele balbuciava, os olhos vidrados, fixos em um ponto invisível no teto.
Eduarda entrou em pânico total. Ela começou a chorar abertamente, segurando a mão dele como se pudesse ancorá-lo de volta à realidade.
— Emanuel, por favor, volta pra mim... sou eu, a Duda... por favor...
— Eduarda, saia daqui — a voz de Sara, surpreendentemente calma, soou atrás dela.
Eduarda se virou, os olhos vermelhos e inchados.
— Eu não vou deixá-lo!
— Você não está ajudando. Você está se desesperando, e isso não ajuda ninguém. Vá tomar um ar. Eu fico com ele.
Pela primeira vez, Eduarda viu uma rachadura na fachada de Sara. A mão da loira, que segurava o celular, tremia levemente. A irritação em seu rosto havia sido substituída por uma máscara de aço que mal continha um medo profundo. Sara não temia a doença; ela temia a perda de controle que a doença representava. Ela temia um mundo sem Emanuel.
Relutantemente, Eduarda saiu do quarto, os soluços sacudindo seu corpo. Ela foi para a sala, onde Ágata e Maya, já de pijama, assistiam a um desenho com a babá. Ágata mal notou a mãe postiça, mas Maya, sempre sensível, viu o rosto de Eduarda e fez um beicinho.
— Mamãe ‘xolando’?
Eduarda a pegou no colo, abraçando-a com força, e o choro veio com tudo. Era o medo, o desamparo, a imagem de seu titã, seu protetor, reduzido a um homem frágil e delirante.
Enquanto isso, no quarto, Sara sentou-se na beirada da cama. Ela não tocou em Emanuel. Apenas o observou.
— Escuta aqui, seu idiota teimoso — disse ela, a voz baixa e feroz. — Você não tem permissão para desistir. Eu não construí metade deste império com você para te ver ser derrotado por um vírus de merda. A Eduarda está lá fora se desmanchando, suas filhas estão confusas e eu tenho uma coleção nova da Chanel para inaugurar com você na próxima semana. Então, trate de lutar e voltar para nós. Entendeu?
Emanuel apenas gemeu em resposta, virando a cabeça no travesseiro.
Foi nesse momento que a porta do quarto se abriu silenciosamente. Maya, que havia escapado dos braços de Eduarda, entrou no quarto escuro com seus passinhos incertos. Ela viu o pai na cama grande, ouviu os sons estranhos que ele fazia. Ela não sentiu medo. Apenas uma curiosidade triste.
— Papai? — sussurrou ela.
Sara se virou, pronta para repreendê-la e mandá-la sair, mas algo a fez parar.
Maya caminhou até a cama. Era alta demais para ela. Com um esforço, ela se apoiou na lateral e conseguiu subir, engatinhando sobre os lençóis caros até chegar perto do rosto de Emanuel.
— Papai dodói — constatou ela, com a sabedoria simples de uma criança.
Ela olhou para o rosto suado dele, para os lábios secos. E então, ela fez a única coisa que sabia fazer para consertar as coisas, o gesto que antes era o epicentro das fúrias de seu pai.
Ela se inclinou e depositou um beijo suave e úmido na bochecha febril de Emanuel. Depois outro na testa. E mais um no queixo.
— ‘Xalou’, papai — disse ela, dando tapinhas leves no rosto dele. — Beijinho ‘xala’.
Sara observava a cena, paralisada, um nó se formando em sua garganta.
E então, o milagre aconteceu.
No meio de sua névoa delirante, algo perfurou a confusão de Emanuel. Não foi a voz de comando de Sara, nem o sussurro desesperado de Eduarda. Foi o toque. O toque suave e o cheiro de bebê de sua filha. A memória do gesto que ele tanto odiara, agora transformado no mais puro ato de amor.
Ele parou de se debater. Um longo suspiro escapou de seus lábios. Seus olhos, antes vidrados, piscaram e focaram. A primeira coisa que ele viu foi o rostinho redondo de Maya, a poucos centímetros do seu.
— Maya... — ele sussurrou, a voz um fiapo.
— Papai! — ela sorriu, radiante, como se tivesse operado uma mágica. — ‘Xalou’!
Ele ergueu a mão, que tremia, e tocou o cabelo dela. Não havia raiva. Não havia ciúme. Apenas um alívio profundo, uma rendição. O monstro da possessividade, confrontado com a pureza daquele afeto, havia se encolhido e recuado.
Ele virou a cabeça e viu Sara, de pé ao lado da cama, os olhos brilhando com uma umidade rara.
— Sara...
— Bem-vindo de volta, idiota — disse ela, a voz embargada, tentando soar dura, mas falhando miseravelmente.
Naquele momento, Eduarda entrou correndo no quarto, alertada pelo silêncio súbito. Ela parou na porta, vendo a cena: Maya na cama com Emanuel, e Emanuel acordado, consciente.
— Manu? — ela choramingou, o alívio tão avassalador que suas pernas fraquejaram.
— Vem aqui, Duda — chamou ele, a voz ainda fraca.
Eduarda correu para o outro lado da cama, pegando a mão dele e cobrindo-a de beijos, as lágrimas finalmente rolando livres por seu rosto.
— Eu fiquei com tanto medo... eu pensei que...
— Shhh... eu estou aqui — disse ele, apertando a mão dela.
Ele estava deitado ali, entre suas duas mulheres. De um lado, Sara, a fortaleza, a parceira de batalhas, cujo amor era uma armadura. Do outro, Eduarda, o refúgio, a calmaria, cujo amor era um bálsamo. E no meio de tudo, Maya, sua pequena rebelde, a curandeira improvável, cujo amor era a mais pura forma de liberdade.
A febre começou a ceder durante a noite. Pela manhã, Emanuel estava fraco, dolorido, mas lúcido. Ele acordou e encontrou Eduarda adormecida em uma poltrona ao lado da cama, a mão dela ainda segurando a sua. Na porta, Sara conversava em voz baixa ao telefone, resolvendo os problemas do mundo, mas seus olhos não saíam de cima dele.
Quando ela desligou, encontrou o olhar dele.
— O império sobreviveu — disse ela, com um meio sorriso.
— Graças a você — respondeu ele, a voz mais firme.
— E a ela — Sara acenou com a cabeça para Eduarda, uma rara admissão de mérito. — Ela quase se dissolveu em lágrimas, mas não saiu do seu lado um segundo sequer. E a sua pequena beijoqueira... parece que ela tem seus talentos.
Emanuel sorriu, um sorriso cansado.
— Onde ela está?
— Com a Ágata, provavelmente tentando ensinar a ela que beijos são melhores que ordens. Sem muito sucesso, eu imagino.
— Chama ela pra mim.
Minutos depois, Maya entrou no quarto, trazida pela mão de Sara.
— Papai! — exclamou ela, correndo para a cama.
Emanuel a puxou para seu colo, ignorando a dor em seus músculos. Ele a abraçou com força, inalando o cheiro dela.
— Você me curou, sabia, minha princesa?
Maya sorriu, sem entender completamente, mas feliz por ter seu pai de volta. Ela ergueu o rostinho e lhe deu um beijo estalado nos lábios.
Emanuel não recuou. Ele não enrijeceu. Ele a beijou de volta.
Eduarda acordou com o som da risada de Maya e abriu os olhos, vendo a cena. Um sorriso luminoso brotou em seu rosto cansado. Sara, encostada no batente da porta, observava tudo, e pela primeira vez em muito tempo, seu rosto não continha sarcasmo nem irritação. Apenas uma paz relutante.
O titã havia caído. Ele havia sido forçado a encarar sua própria mortalidade, sua própria fragilidade. Mas ao cair, ele não encontrou o abismo. Encontrou uma rede de segurança tecida com os fios mais fortes e improváveis: a praticidade feroz de uma rainha, a devoção infinita de uma flor e a cura inocente contida nos beijos de uma pequena princesa.
Seu império não era feito apenas de aço e concreto, de dinheiro e poder. Era feito de amor. Um amor complicado, disfuncional, possessivo, mas inegavelmente real. E ao aceitar ser cuidado, Emanuel descobriu uma nova forma de força. A força de não precisar estar no controle o tempo todo. A força de se render. E naquele momento, com a cabeça de Maya em seu peito e os olhares de Sara e Eduarda sobre ele, Emanuel se sentiu mais rei do que nunca.