Voltar ao resumo

D

O Sal e a Seda

O sol de meio-dia no Rio de Janeiro não tinha piedade, mas Emanuel parecia imune ao calor enquanto observava o horizonte. Ele estava sentado sob um quiosque de luxo, protegido por uma estrutura de madeira nobre e palha, enquanto o som de risadas estridentes e o tilintar de copos de cristal preenchiam o ambiente. Sara havia decidido que aquele sábado seria um "dia de folga das obrigações", o que, no dicionário dela, significava reunir suas amigas mais barulhentas, vestir o biquíni mais caro da sua coleção e desfilar sua autoconfiança pela areia.

— Manu, para de olhar para o nada e me ajuda com o bronzeador! — Sara exclamou, jogando o cabelo loiro platinado para o lado.

Ela usava um biquíni de fita, minúsculo e brilhante, que deixava muito pouco para a imaginação. O silicone firme e a pele impecável atraíam olhares de todos os homens que passavam pela orla, mas Sara só tinha olhos para Emanuel. Ela adorava a atenção alheia, mas o que a alimentava era a posse silenciosa que Emanuel exercia sobre ela.

Emanuel pegou o frasco de óleo e começou a espalhar pelas costas da namorada com movimentos lentos e firmes. Suas mãos grandes, marcadas por tatuagens de traços finos e complexos, contrastavam com a pele dourada de Sara.

— Onde está a Ágata? — perguntou ele, a voz grave cortando o falatório das amigas de Sara.

— Está com a babá ali na sombra, brincando com aquele balde de ouro que você comprou — Sara riu, fechando os olhos enquanto sentia o toque do namorado. — Relaxa, Emanuel. O lugar é privativo, ninguém vai chegar perto da nossa princesa.

Emanuel assentiu, mas seus olhos continuavam escaneando a praia. Ele era um homem de negócios, um tatuador que construiu um império com as próprias mãos, e o controle era sua segunda natureza. Ele nunca baixava a guarda, especialmente quando se tratava de sua família.

Foi então que ele a viu.

A uns cinquenta metros de distância, onde as ondas quebravam suavemente na areia clara, uma figura solitária caminhava em direção à água. Não era uma das amigas de Sara, com seus corpos montados e joias chamativas. Era alguém que parecia pertencer a outro mundo.

Eduarda carregava Maya no colo, caminhando com uma hesitação quase infantil. Ela usava um biquíni de crochê em tom off-white, com amarrações laterais que pareciam delicadas demais. O corte era curto, bem mais do que Emanuel considerava apropriado para a timidez dela, revelando as curvas suaves e naturais de um corpo que não conhecia o bisturi. A pele alva de Eduarda brilhava sob o sol, e o contraste com o cabelo castanho escuro, agora úmido, era hipnotizante.

Emanuel sentiu um aperto familiar no estômago. A visão de Eduarda, tão exposta e ao mesmo tempo tão alheia ao próprio impacto, fez o óleo em suas mãos parecer subitamente quente demais.

— Olha só — Sara murmurou, abrindo um dos olhos e seguindo a direção do olhar de Emanuel. — Se não é a nossa santinha da creche. Ela fica bem de biquíni, não fica, Manu?

Emanuel não respondeu de imediato. Ele continuou observando enquanto Eduarda entrava na água até os joelhos, levantando Maya e fazendo a bebê rir com o toque da espuma salgada.

— O biquíni é pequeno demais para ela — Emanuel disse finalmente, o tom carregado de um ciúme irracional que ele tentou disfarçar como desaprovação.

Sara soltou uma gargalhada genuína, sentando-se e ajeitando a parte de cima do biquíni.

— Ah, para com isso! Você adora o fato de ela ser toda "escondidinha" e de repente aparecer assim. Admite, Emanuel, o contraste te deixa louco.

— Eu vou lá ver como elas estão — Emanuel levantou-se, sem dar explicações.

— Vai lá, protetor — Sara piscou para ele, pegando seu drink de lichia. — Aproveita e convida ela para vir aqui. Eu quero ver de perto se aquele cabelo dela é natural mesmo.

Emanuel caminhou pela areia com passos pesados. Ele vestia apenas uma bermuda preta de marca, exibindo o peitoral largo e as pernas musculosas totalmente cobertas por arte na pele. Ele era uma presença intimidadora, um predador em meio a turistas, mas conforme se aproximava de Eduarda, sua expressão se suavizava.

Eduarda estava de costas, balançando Maya, quando sentiu a sombra de Emanuel cobri-la. Ela virou-se rapidamente, quase perdendo o equilíbrio na areia movediça sob a água.

— Emanuel! — Ela exclamou, levando a mão livre ao peito, o rosto ficando instantaneamente vermelho. — Que coincidência encontrar você aqui.

— O mundo é pequeno, Eduarda — disse ele, a voz baixando uma oitava. Seus olhos desceram pelo corpo dela, detendo-se nos laços do biquíni que pareciam prestes a se soltar com qualquer onda mais forte. — Você está... diferente hoje.

Eduarda tentou puxar a parte de baixo do biquíni, sentindo-se subitamente nua sob o olhar dele.

— Minha mãe que comprou... ela disse que eu precisava de algo mais "moderno" para a praia. Eu me sinto um pouco descoberta demais, para ser sincera.

— Você está linda — ele disse, a franqueza sendo mais rápida que sua cautela. — Mas eu prefiro você em lugares onde nem todo mundo pode olhar.

Eduarda baixou a cabeça, o dengo natural dela aflorando. Ela se aproximou um passo, buscando a sombra que o corpo dele projetava, um instinto de proteção que Emanuel alimentava com prazer.

— A Maya adorou o mar — Eduarda mudou de assunto, tentando controlar o batimento acelerado do coração. — Ela é tão manhosa, não queria sair do meu colo nem por um segundo.

— A Ágata está ali no quiosque — Emanuel indicou com a cabeça. — Venha conosco. A Sara quer que você se junte a nós.

Eduarda hesitou, olhando para o grupo de mulheres glamourosas que cercavam Sara.

— Eu não sei se eu me encaixo ali, Emanuel... Elas parecem tão...

— Você se encaixa onde eu disser que você se encaixa — ele a interrompeu, estendendo a mão para pegar a bolsa que ela carregava no ombro. — Vamos. Não aceito não como resposta.

Emanuel caminhou ao lado dela, mantendo uma mão possessiva na base das costas de Eduarda enquanto voltavam para o quiosque. Ele sentia a maciez da pele dela sob seus dedos e o calor que emanava daquele corpo frágil. Quando chegaram à área coberta, o contraste entre as duas mulheres ficou ainda mais evidente.

Sara se levantou, os saltos plataforma afundando levemente na areia. Ela era o sol: brilhante, agressiva e impossível de ignorar. Eduarda era a lua: suave, pálida e misteriosa.

— Eduarda, querida! — Sara disse, aproximando-se e dando dois beijos no ar. — Que corpinho você tem escondido sob aqueles vestidos de museu, hein? O Manu estava quase tendo um infarto de ciúmes ali de longe.

— Sara... — Emanuel advertiu, mas havia um sorriso de canto nos lábios.

— Eu não... eu só vim para a Maya brincar um pouco — Eduarda murmurou, sentando-se na beirada de uma espreguiçadeira, tentando esconder as pernas.

Nesse momento, a babá trouxe Ágata para perto. A bebê de oito meses, já acostumada com o luxo e com a atenção constante, estava vestida com um maiô de grife e óculos escuros minúsculos. Quando ela viu Maya no colo de Eduarda, o clima mudou.

Ágata, que tinha a personalidade forte da mãe, esticou o braço e tentou puxar o brinquedo que Maya segurava. Maya, assustada com a aproximação brusca, começou a chorar de forma manhosa, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda.

— Ei, Ágata! Nada de agressividade — Emanuel disse, pegando a filha no colo.

Ágata soltou um grito de protesto, tentando alcançar Maya novamente, desta vez com a intenção clara de dar um tapa ou um puxão. A pequena Maya, sentindo a energia hostil da outra bebê, soluçava alto, agarrando-se ao biquíni de Eduarda.

— Acho que elas ainda não esqueceram o incidente da creche — Sara comentou, achando graça da rivalidade infantil. — A Ágata é territorialista igual ao pai. Ela sente que esse espaço é dela.

Eduarda balançava Maya freneticamente, com os olhos marejados.

— Eu sinto muito, ela é muito sensível a barulhos e movimentos bruscos.

Emanuel colocou Ágata de volta no cercadinho acolchoado, mas manteve o olhar em Eduarda. Ele viu como o choro de Maya a afetava, como ela parecia prestes a chorar junto. Sem se importar com quem estava olhando, ele sentou-se ao lado de Eduarda e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para o seu peito.

— Calma, Eduarda. Elas são bebês, estão se estranhando, é normal — ele sussurrou perto do ouvido dela.

Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel por um segundo, permitindo-se ser cuidada. Sara observava a cena com uma expressão indecifrável. Ela não sentia raiva; sentia uma espécie de satisfação de poder. Ela sabia que Emanuel precisava daquela fragilidade de Eduarda para se sentir completo, da mesma forma que precisava da força de Sara para se manter no topo.

— Manu, por que você não leva a Eduarda para dar um mergulho mais calmo lá no fundo? — Sara sugeriu, enquanto acendia um cigarro fino. — Eu cuido das meninas aqui. A babá me ajuda.

Emanuel olhou para Sara, buscando qualquer sinal de sarcasmo, mas encontrou apenas cumplicidade.

— Você tem certeza? — ele perguntou.

— Claro. A Ágata precisa aprender que nem tudo gira em torno dela, e a Maya precisa de um pouco de paz. Vai lá, Emanuel. Tira essa menina desse sol, ela vai acabar derretendo de tanta timidez.

Emanuel levantou-se e estendeu a mão para Eduarda.

— Vamos? A água vai ajudar a Maya a se acalmar.

Eduarda olhou para a mão dele, depois para Sara, que apenas acenou com a cabeça. Ela se levantou, ainda segurando Maya, e seguiu Emanuel em direção a uma parte mais reservada da praia, longe do barulho das amigas de Sara.

Conforme se afastavam, Emanuel sentiu que o equilíbrio de sua vida estava mudando. Ele tinha Sara, a mulher que o entendia e que não impunha limites às suas vontades. E agora tinha Eduarda, a menina-mulher que despertava nele um instinto de proteção que ele nunca soube que possuía.

Ao entrarem na água, Emanuel ajudou Eduarda a segurar Maya. O toque de suas mãos na água morna criou uma bolha de intimidade que parecia inquebrável.

— Você está mais calma? — ele perguntou, observando uma gota de água escorrer pelo colo dela.

— Com você por perto, eu sempre me sinto mais calma — Eduarda respondeu, olhando-o nos olhos com uma honestidade que o desarmou.

Emanuel sorriu, um sorriso raro e verdadeiro. Ele sabia que estava jogando um jogo perigoso, mas enquanto sentia o peso de Maya em seus braços e via o brilho nos olhos de Eduarda, ele tinha certeza de uma coisa: ele não abriria mão de nenhuma das duas.

De volta ao quiosque, Sara observava os dois de longe, um sorriso de canto nos lábios. Ela sabia que a chegada de Eduarda não era o fim de seu relacionamento com Emanuel, mas o início de uma nova dinastia. Uma onde ela era a rainha, e Eduarda... Eduarda era o tesouro que eles compartilhariam.

— É, Manu... — Sara murmurou para si mesma, tomando o último gole de seu drink. — Você realmente sabe como escolher as coisas boas da vida.

Enquanto isso, na água, Ágata e Maya continuavam a se olhar de longe, um prenúncio de que a convivência entre aquelas duas famílias seria tudo, menos tranquila. Mas para Emanuel, o caos era apenas mais uma oportunidade de exercer o seu controle.