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O Espetáculo das Emoções
A cidade estava em polvorosa com a chegada do Circo Imperial, uma estrutura colossal de lona listrada em vermelho e dourado que prometia um espetáculo de luzes, acrobatas internacionais e uma magia que parecia perdida nos tempos modernos. Para Emanuel, no entanto, o circo era apenas o palco perfeito para testar a nova e peculiar dinâmica de sua vida. Ele não queria escolher entre o asfalto quente e vibrante que era Sara e a relva fresca e serena que era Eduarda. Ele queria o cenário completo.
O SUV preto de Emanuel estacionou no setor VIP do picadeiro. O primeiro a sair foi ele, vestindo uma camisa de linho cinza-chumbo com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando as tatuagens que subiam pelos pulsos. Ele deu a volta e abriu a porta para Sara. Ela saltou do carro como se estivesse entrando em um tapete vermelho: usava um vestido de couro ecológico caramelo, tão justo que cada movimento parecia um desafio à física, e saltos que a deixavam quase da altura de Emanuel. Ágata, no colo da mãe, usava um vestidinho de grife com estampas de oncinha e um laço vermelho gigante na cabeça.
— Manu, se eu ver um animal maltratado, eu subo naquele palco e dou uma bolsada no domador — Sara avisou, ajeitando o busto e verificando se o batom estava intacto. — Mas confesso que o cheiro de pipoca me deixou animada.
— É um circo moderno, Sara. Não tem animais, só artistas — Emanuel respondeu, passando o braço pela cintura dela e depositando um beijo possessivo em seu ombro. — E a Eduarda?
— Ali, ó. Chegando com os pais "jovens" dela — Sara apontou com o queixo, sem um pingo de ciúme, apenas com aquela curiosidade predatória de quem observa uma criatura exótica.
Eduarda desceu de um carro prata logo atrás. Ela parecia uma boneca de porcelana em um campo de flores: usava um vestido romântico de algodão azul-claro, com mangas bufantes e uma fita na cintura. O cabelo castanho estava solto, caindo em ondas suaves. Maya, em seu colo, usava um conjunto de soft branco com orelhinhas de coelho, agarrada ao pescoço da mãe como se o mundo fosse acabar a qualquer momento.
— Oi, Edu! — Sara gritou, acenando com entusiasmo. — Vem logo, o Manu comprou o camarote inteiro só para a gente não ter que aguentar o suor dos plebeus.
Eduarda aproximou-se timidamente, os pais dela acenando de longe antes de seguirem para outro setor, dando espaço para que a filha vivesse aquele momento com o "patrocinador" da ideia.
— Oi, Sara. Oi, Emanuel — disse Eduarda, a voz doce e baixa. — A Maya está um pouco assustada com o barulho da música, mas ela ficou encantada com as luzes lá fora.
Emanuel deu um passo à frente, saindo do lado de Sara por um instante para ficar entre as duas. Ele tocou o rosto de Eduarda com as costas dos dedos, um gesto rápido mas carregado de uma intimidade que fez a jovem corar instantaneamente.
— Ela vai ficar bem. Eu estou aqui — Emanuel afirmou, a voz soando como uma promessa de proteção. — Vamos entrar.
O camarote era luxuoso, com poltronas de veludo e uma visão privilegiada do picadeiro. Sara sentou-se na frente, colocando Ágata em pé no seu colo para que a bebê pudesse ver tudo. Ágata batia as mãos gordinhas no parapeito, gritando de alegria cada vez que um holofote passava por elas.
Eduarda sentou-se ao lado de Emanuel, buscando inconscientemente a proximidade do corpo dele. Maya, sentindo o ambiente estranho, começou a soltar aqueles chorinhos manhosos que só ela sabia fazer, enterrando o rosto no seio de Eduarda.
— Ela está com fome ou com sono? — Emanuel perguntou, inclinando-se para Eduarda.
— Acho que é só dengo mesmo — Eduarda respondeu, balançando a bebê. — Ela é muito sensível, qualquer coisa nova a deixa assim, querendo proteção.
— Ela tem a quem puxar — Emanuel murmurou, e o olhar que trocou com Eduarda foi tão intenso que ela precisou desviar, focando na orquestra que começava a tocar.
O espetáculo começou com uma explosão de cores. Trapezistas voavam sobre suas cabeças e malabaristas faziam o impossível com tochas incandescentes. Sara gritava "Uhu!" e batia palmas, enquanto Ágata tentava imitar a mãe, rindo alto. A energia de Sara era contagiante, uma força da natureza que preenchia o camarote.
— Olha aquilo, Manu! Se eu tivesse essa flexibilidade, você estaria perdido — Sara brincou, lançando um olhar malicioso para o namorado.
Emanuel riu, mas sua mão direita, escondida pelo braço da poltrona, encontrou a mão de Eduarda. Ele entrelaçou seus dedos nos dela, sentindo a pele macia e o leve tremor da jovem. Eduarda não recuou; ela apertou a mão dele, buscando estabilidade enquanto assistia aos acrobatas.
No intervalo do primeiro ato, as luzes se acenderam parcialmente e alguns artistas começaram a circular pelas laterais para interagir com o público VIP. Foi quando um palhaço, com uma maquiagem clássica — rosto branco, nariz vermelho enorme e uma peruca laranja berrante —, aproximou-se do camarote deles.
Ele fazia mímicas engraçadas e tirava flores de plástico das mangas. Ágata, a pequena guerreira de Sara, esticou o braço e tentou agarrar o nariz do palhaço, dando uma gargalhada que ecoou pelo camarote.
— Isso aí, filha! Pega ele! — Sara incentivou, achando a cena o máximo.
Mas o palhaço, querendo ser inclusivo, virou-se para a outra bebê. Ele se aproximou de Eduarda, fazendo uma careta exagerada e soltando um som de buzina estridente que escondia na mão.
O efeito em Maya foi imediato e devastador. A bebê soltou um grito de puro pavor, um choro agudo e desesperado que parecia vir do fundo da alma. Ela se encolheu tanto no colo de Eduarda que parecia querer fundir-se ao corpo da mãe.
— Oh, meu Deus! Calma, Maya, é só um palhaço — Eduarda disse, entrando em pânico ao ver o sofrimento da filha. Ela começou a tremer junto com a bebê, as lágrimas surgindo nos olhos castanhos. — Por favor, moço, afaste-se um pouco... ela tem medo.
O palhaço, achando que era apenas a timidez inicial, insistiu. Ele se inclinou mais, tentando oferecer um balão em formato de bicho para Maya, fazendo um som de "bi-bi" com a boca.
— Sai daqui agora — a voz de Emanuel cortou o ar como um chicote.
Ele se levantou de um salto, colocando-se entre o palhaço e as poltronas onde Eduarda e Maya estavam. A expressão de Emanuel era de puro gelo, os olhos escuros brilhando com uma fúria protetora que fez o artista recuar dois passos instantaneamente.
— Eu disse para sair — Emanuel repetiu, a voz baixa, mas carregada de uma autoridade perigosa. — Você não está vendo que a criança está assustada? Se encostar nela ou na mãe dela de novo, eu acabo com o show para você.
O palhaço, agora visivelmente desconcertado e sem graça, pediu desculpas com um gesto rápido e sumiu entre as cortinas laterais.
Emanuel virou-se para Eduarda. Ela estava com o rosto escondido no topo da cabeça de Maya, ambas chorando baixinho. Ele se ajoelhou na frente dela, ignorando o conforto de sua poltrona VIP.
— Ei, olhe para mim — ele pediu, pegando as mãos trêmulas de Eduarda. — Ele já foi. Ninguém vai chegar perto de vocês.
— Eu... eu me sinto tão boba — Eduarda soluçou, limpando o rosto com o ombro. — Ela é tão sensível, Emanuel. Eu fico com o coração na mão.
— Você não é boba. Você é a mãe dela — Emanuel disse, com uma doçura que fez Sara, lá na frente, arquear uma sobrancelha.
Sara observava a cena com os braços cruzados. Ela não estava com raiva do instinto protetor de Emanuel; na verdade, ela achava fascinante como ele conseguia transitar entre o homem bruto que a possuía com força e o cavaleiro de armadura brilhante que socorria a "bonequinha".
— Vem cá, Manu — Sara chamou, com um tom de voz que misturava ironia e comando. — Deixa a menina respirar. Edu, querida, bebe um pouco de água. O palhaço era horroroso mesmo, até eu fiquei com vontade de dar um chute nele com esse sapato de bico fino.
Emanuel levantou-se, mas não se afastou totalmente de Eduarda. Ele entregou um copo de água para ela e esperou até que a respiração de Maya voltasse ao normal. A bebê agora soluçava baixinho, com a mãozinha apertando a gola do vestido de Eduarda.
— Você quer ir embora? — Emanuel perguntou a Eduarda.
— Não... eu não quero estragar o passeio da Ágata e da Sara — Eduarda respondeu, olhando para Sara com uma admiração tímida. — Eu vou ficar bem. Só preciso de um minuto.
Sara caminhou até elas, deixando Ágata por um momento com a babá que estava sentada logo atrás. Ela se inclinou e tocou o braço de Eduarda.
— Escuta aqui, "Edu". Você é mole demais, menina. Tem que ensinar essa pequena a ser brava como a minha Ágata. Mas, enquanto ela não aprende, relaxa. O Emanuel adora bancar o herói. Deixa ele se sentir importante protegendo vocês.
Eduarda sorriu fraco, sentindo a energia avassaladora de Sara. Era impossível odiar aquela mulher, mesmo que ela fosse tudo o que Eduarda temia ser.
— Obrigada, Sara. Você é muito forte.
— Eu sou necessária — Sara corrigiu, piscando para Emanuel. — Agora, vamos focar no que interessa. O próximo ato é o dos mágicos e eu quero ver se eles conseguem fazer minha fatura do cartão desaparecer.
O espetáculo continuou, mas o clima no camarote havia mudado. Emanuel agora estava sentado de forma que seu braço envolvia o encosto da poltrona de Eduarda, mantendo-a protegida sob sua sombra. Com a outra mão, ele segurava a mão de Sara, que assistia a tudo com um sorriso vitorioso.
Ele estava no centro de seu próprio universo. Tinha a mulher que o desafiava e o completava em sua ambição, e a mulher que o suavizava e despertava seus instintos mais nobres.
Ao final do show, enquanto os aplausos ecoavam pela lona, Emanuel ajudou Eduarda a se levantar. Maya já havia dormido, exausta pelas emoções da noite. Ágata, por outro lado, ainda tentava pular no colo de Emanuel, cheia de energia.
— Foi uma noite e tanto — comentou Sara, enquanto caminhavam para a saída. — A gente deveria fazer isso mais vezes. O que você acha, Eduarda?
— Eu... eu adoraria — Eduarda respondeu, olhando para Emanuel. — Se o Emanuel estiver por perto para espantar os palhaços.
Emanuel sentiu um calor no peito. Ele conduziu as duas para fora, uma em cada lado, sentindo-se o dono do mundo.
— Eu sempre vou estar por perto — ele afirmou, a voz firme. — Para as duas.
Enquanto caminhavam pelo estacionamento iluminado, a imagem era singular: o homem imponente, a loira exuberante e a morena delicada, com suas respectivas filhas que eram o retrato fiel de suas mães. Emanuel sabia que a sociedade olharia torto, que a lógica diria que aquilo não funcionaria. Mas, ao sentir o toque de Sara e o olhar de gratidão de Eduarda, ele teve certeza de que não aceitaria nada menos do que tudo o que o destino — e sua própria vontade — havia colocado em seu caminho.
Ele era Emanuel, e em seu império, as regras eram ditadas pelo seu desejo. E seu desejo, naquela noite, era manter aquelas duas mulheres sob seu domínio, cada uma à sua maneira, para sempre.