Voltar ao resumo

D

O Domínio do Sangue e do Cuidado

O telefone de Emanuel vibrou sobre a mesa de mogno em seu estúdio principal, um espaço que exalava luxo e rebeldia, com paredes cobertas por esboços de tatuagens premiadas e prêmios internacionais. Ele estava terminando de traçar o contorno de uma fênix complexa nas costas de um cliente VIP quando o nome de Eduarda brilhou na tela. O coração dele deu um solavanco atípico. Eduarda raramente ligava; ela era feita de mensagens curtas e agradecimentos tímidos.

— Preciso de cinco minutos — disse Emanuel ao cliente, a voz autoritária não aceitando contestações.

Ele atendeu no segundo toque.

— Eduarda?

— Emanuel... — A voz dela veio carregada de um choro contido, o som de respiração ofegante e o ruído de fundo de um ambiente movimentado. — Desculpe incomodar, eu tentei resolver sozinha, mas a Maya... ela não parava de queimar de febre. Eu estou no Hospital Santa Luzia.

Emanuel sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço, mas não era afeto. Era uma irritação pura, possessiva e fria.

— Por que você não me ligou antes de sair de casa? — O tom dele foi cortante. — Eu disse que era o seu contato de emergência. Eu disse que você não deveria fazer nada sozinha.

— Eu entrei em desespero, Emanuel! Ela estava tão quente, tão molinha... eu só peguei a bolsa e corri. Meus pais não estavam e...

— Eu estou indo para aí agora. Não saia do lugar.

Emanuel desligou sem esperar resposta. Ele não chamou seu motorista; ele mesmo pegou as chaves da sua moto esportiva, a única coisa que cortaria o trânsito do Rio de Janeiro com a velocidade que sua impaciência exigia. Enquanto acelerava entre os carros, a mente dele trabalhava em um ritmo frenético. Ele estava furioso porque Eduarda, em sua fragilidade habitual, havia esquecido que ele era a âncora dela. Ele odiava a ideia dela estar em um hospital, vulnerável, sem a proteção da sua presença.

Quando Emanuel entrou na emergência pediátrica, sua figura era um contraste violento com o ambiente estéril e infantil. De jaqueta de couro, calça escura e o olhar de quem estava pronto para derrubar o prédio, ele localizou Eduarda em um canto da sala de espera VIP. Ela parecia menor do que nunca, sentada em uma poltrona de couro branco, com Maya adormecida em seu colo, envolta em uma manta de lã.

Eduarda levantou os olhos e, ao ver Emanuel, soltou um suspiro de alívio que terminou em um soluço. Ele caminhou até ela em passos largos, parando à sua frente e bloqueando a visão de qualquer outra pessoa na sala.

— Cadê o médico? — perguntou ele, a voz baixa e tensa.

— Ele está vindo... já deram o antitérmico, agora estamos esperando o Dr. Gustavo para a avaliação completa — Eduarda respondeu, limpando o rosto com as costas da mão.

Emanuel não se sentou. Ele ficou de pé, uma sentinela sombria, observando o peito de Maya subir e descer com dificuldade. O choro da bebê, agora transformado em um resmungo manhoso e febril, atingiu Emanuel de uma forma que ele não esperava. Não era apenas a proteção que ele sentia por Ágata; era algo mais profundo, mais territorial. Maya era "dele" por escolha, e ver aquele pequeno ser sofrendo o deixava em um estado de alerta agressivo.

— Eduarda? — Uma voz masculina, calma e excessivamente gentil, ecoou pelo corredor.

Um homem por volta dos trinta anos, usando um jaleco impecável sobre uma camisa social bem cortada, aproximou-se. Ele tinha um sorriso acolhedor e um crachá que dizia "Dr. Gustavo - Pediatria".

— Dr. Gustavo! — Eduarda se levantou com dificuldade por causa do peso de Maya. — Ela melhorou um pouco a temperatura, mas ainda está muito manhosinha.

O médico se aproximou e, com uma naturalidade que fez os olhos de Emanuel estreitarem, colocou a mão no ombro de Eduarda de forma confortante.

— Calma, Duda. Eu te disse pelo telefone que ia cuidar de tudo. O quadro dela parece ser apenas uma virose comum, mas vamos fazer os exames para garantir.

Emanuel deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do médico. A diferença de altura e a aura de perigo que Emanuel emanava fizeram o Dr. Gustavo recuar instintivamente a mão do ombro de Eduarda.

— "Duda"? — Emanuel repetiu a palavra como se fosse um insulto. — Vocês se conhecem de onde exatamente?

Eduarda olhou para Emanuel, assustada com o tom de voz.

— O Gustavo foi meu colega de escola, Emanuel. Ele é o pediatra da Maya desde que eu a peguei. Ele tem sido maravilhoso, sempre me atende de madrugada quando eu entro em pânico.

— É meu trabalho, Eduarda — disse o médico, tentando recuperar a postura profissional, embora seus olhos mostrassem que ele estava intimidado pelo homem tatuado à sua frente. — E o senhor é...?

— O responsável por elas — Emanuel respondeu, a voz carregada de uma autoridade inquestionável. — E de agora em diante, qualquer atendimento "de madrugada" ou qualquer decisão médica passa por mim. Entendido, doutor?

O Dr. Gustavo olhou para Eduarda em busca de uma explicação, mas ela estava ocupada demais tentando acalmar Maya, que havia acordado com o som das vozes e começado a chorar aquele choro sensível que Emanuel tanto conhecia.

— Emanuel, por favor, ele só está ajudando — sussurrou Eduarda, a voz trêmula.

— Ele está sendo familiar demais — rebateu Emanuel, voltando sua atenção para a bebê.

Maya esticou os bracinhos curtos, mas não para Emanuel. Ela se agarrou ainda mais ao pescoço de Eduarda, escondendo o rosto e soltando um gemido manhoso, recusando-se a olhar para qualquer outra pessoa. Emanuel sentiu uma pontada estranha no peito. Um ciúme que ele nunca sentira com Ágata. Ágata era independente, uma mini-Sara que ria do perigo. Maya era o oposto; ela era o dengo em forma de gente, e naquele momento, ela estava excluindo Emanuel do seu pequeno mundo de dor.

— Vamos para a sala de exame — disse o médico, pigarreando.

Dentro do consultório, o desconforto de Emanuel só aumentou. Ele assistiu, de braços cruzados, enquanto o Dr. Gustavo examinava Maya. O modo como o médico falava com Eduarda, com uma suavidade que beirava o flerte, e a maneira como Eduarda sorria de volta, grata pela atenção, faziam Emanuel querer socar a parede.

— Ela vai precisar de hidratação e repouso — concluiu o médico, entregando uma receita a Eduarda. — Se precisar de qualquer coisa, Duda, você tem meu celular pessoal. Pode ligar a qualquer hora.

— Ela não vai precisar — Emanuel interveio, pegando a receita da mão de Eduarda antes que ela pudesse ler. — Eu mesmo vou cuidar da farmácia e de tudo o que for necessário. Obrigado, doutor. Já terminamos aqui.

Emanuel conduziu Eduarda para fora do consultório com uma mão firme em sua cintura. Ele não disse uma palavra até chegarem ao estacionamento.

— Emanuel, você foi grosseiro! O Gustavo é meu amigo e um excelente profissional — Eduarda disse, parando ao lado do carro dele, com Maya ainda soluçando em seu colo.

— Eu não pago a melhor creche da cidade e não coloco o meu nome nos documentos da sua filha para você ficar de sorrisinhos para "amigos de escola" em corredores de hospital, Eduarda — Emanuel explodiu, a voz ecoando no estacionamento vazio. — Você é minha responsabilidade. Ela é minha responsabilidade.

Eduarda recuou, os olhos cheios de lágrimas.

— Eu não sou sua propriedade, Emanuel! E a Maya... ela é tudo o que eu tenho. Eu só queria que ela ficasse bem.

Emanuel olhou para Eduarda, vendo a fragilidade dela misturada com uma rara centelha de resistência. O ciúme que ele sentia do médico era óbvio, mas o que o estava corroendo por dentro era o ciúme da própria Maya. Ele queria que a bebê precisasse dele. Queria que, naquele momento de dor, ela esticasse os braços para o seu colo, e não apenas para o de Eduarda. Ele queria ser o herói completo daquela história.

Ele se aproximou, suavizando o tom, mas mantendo a intensidade.

— Me dá ela aqui — pediu ele.

— Ela não quer, Emanuel, ela está manhosinha...

— Me dá a Maya, Eduarda.

Relutante, Eduarda passou a bebê para os braços de Emanuel. Maya começou a protestar, um choro fraco e irritado, tentando se empurrar para longe do peito largo e firme dele. Mas Emanuel não cedeu. Ele a segurou com uma delicadeza surpreendente, aninhando a cabeça da bebê em seu pescoço, exatamente onde sua tatuagem de corvo terminava.

— Shhh... calma, pequena. Eu estou aqui — sussurrou Emanuel, começando a balançar o corpo em um ritmo lento.

Aos poucos, o choro de Maya foi diminuindo. O calor do corpo de Emanuel parecia acalmá-la, e a força que ele emanava, que antes a assustava, agora servia como um escudo. Maya soltou um último suspiro trêmulo e relaxou, agarrando a camiseta de Emanuel com seus dedos minúsculos.

Emanuel sentiu uma satisfação primitiva. Ele olhou para Eduarda, que observava a cena em silêncio, comovida pela imagem do homem bruto rendido à fragilidade da bebê.

— Eu não quero que você se sinta sozinha, Eduarda — disse ele, a voz agora rouca. — Mas eu também não quero ninguém ocupando o espaço que é meu. Nem médico, nem amigo, nem ninguém.

Nesse momento, o celular de Emanuel tocou. Era Sara. Ele atendeu no viva-voz, sem desviar os olhos de Eduarda.

— Manu? Onde você se meteu? — A voz de Sara era vibrante, acompanhada pelo som de música alta ao fundo. — A Ágata está aqui querendo destruir minha nova coleção de sapatos e eu preciso de você para levá-la para jantar.

— Estou no hospital com a Eduarda e a Maya, Sara — respondeu Emanuel, curto e grosso.

Houve uma pausa do outro lado da linha. Sara soltou uma risadinha, mas não havia raiva em seu tom.

— Ah, a bonequinha adoeceu? Que drama. E você, claro, foi correndo salvar o dia. Tudo bem, Manu. Eu entendo. Mas não demore muito. A Ágata é sua filha de sangue, não esqueça disso enquanto brinca de enfermeiro da outra.

— Eu sei exatamente quem são minhas filhas, Sara.

— Ótimo. Mande melhoras para a pequena "manhosa". E Eduarda, querida, se você estiver ouvindo, pare de chorar! Homem detesta mulher que se desmancha por qualquer febre.

Sara desligou, deixando um silêncio pesado entre Emanuel e Eduarda.

— Ela não se importa, não é? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma insegurança profunda. — Ela sabe que você está aqui comigo e ela simplesmente... aceita.

— A Sara sabe que ela é a rainha do meu mundo, Eduarda — Emanuel disse, aproximando-se dela, ainda com Maya adormecida em seu braço. — Mas ela também sabe que eu sou um homem que não se contenta com pouco. Eu quero a força dela, mas eu preciso da sua suavidade. E eu quero a Ágata, mas eu não vou deixar ninguém tocar na Maya.

Eduarda sentiu um arrepio. Ela sabia que estava entrando em um labirinto perigoso. Emanuel era um homem controlador, um homem que não aceitava nada menos que a devoção total. E ela, em sua carência e doçura, estava cada vez mais presa àquela teia de proteção.

— Vamos para casa — Emanuel ordenou, abrindo a porta do carro para ela. — Eu vou ficar com vocês esta noite. Vou garantir que essa febre não volte e que nenhum "doutor" precise ser incomodado.

Enquanto dirigia para o apartamento de Eduarda, Emanuel sentia o peso de Maya em seu colo — ele se recusara a colocá-la na cadeirinha no trajeto curto até a saída do hospital, mantendo-a protegida contra seu peito enquanto Eduarda dirigia o olhar para a janela. Ele estava possesso de ciúmes, um sentimento que o consumia de duas formas diferentes: o desejo por Eduarda e a necessidade de ser o único suporte de Maya.

Ao chegarem, Emanuel assumiu o controle de tudo. Ele preparou o banho morno para Maya, organizou os remédios e ordenou que Eduarda descansasse. Ele a viu deitar-se, exausta, e sentou-se na beira da cama, observando-a.

— Você me assusta às vezes, Emanuel — sussurrou Eduarda, antes de fechar os olhos.

— O medo é apenas o início do respeito, Eduarda — ele respondeu, tocando o cabelo dela. — E o respeito é o que vai manter você e a Maya seguras. Comigo.

Naquela noite, Emanuel não voltou para Sara. Ele ficou no pequeno apartamento, entre o cheiro de sabonete de bebê e a presença silenciosa de Eduarda. Ele sabia que Sara estaria esperando por ele com sua vulgaridade magnética e seu sarcasmo, e ele voltaria para ela, porque ela era o seu pilar. Mas, enquanto olhava para Maya dormindo no berço e para Eduarda em sua cama, Emanuel sentiu que seu império estava finalmente completo.

Ele tinha o sangue e a seda. A fúria e o dengo. E ele mataria qualquer um — fosse um palhaço de circo ou um pediatra gentil — que tentasse tirar um milímetro sequer do controle que ele agora exercia sobre aquelas duas vidas. O ciúme era apenas o combustível para a sua proteção absoluta. E Emanuel nunca estivera tão disposto a queimar tudo ao seu redor para manter o que era seu.