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O Labirinto de Silêncios e Mentiras

A sala de reuniões da creche estava impregnada com aquele aroma característico de giz de cera e produtos de limpeza cítricos que Emanuel já começava a associar a conflitos. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas ele sentia o pescoço queimar. Sentado entre Sara e Eduarda, ele parecia o eixo de uma balança perigosa. De um lado, Sara, exalando um perfume importado tão forte que parecia marcar território, vestindo um conjunto de alfaiataria branco que realçava seu bronzeado e o brilho dos seus preenchimentos. Do outro, Eduarda, que parecia querer fundir-se à cadeira, vestindo um cardigã de tricô bege e segurando uma pequena bolsa de maternidade com desenhos de nuvens.

— Bom dia a todos — começou a diretora, ajustando os óculos sobre a ponte do nariz. — Convocamos esta reunião de pais para discutirmos o desenvolvimento socioemocional da turma dos bebês. Como sabem, tivemos alguns incidentes isolados de mordidas e estranhamentos, e queremos garantir que o ambiente familiar esteja alinhado com a nossa proposta pedagógica.

Sara cruzou as pernas, o salto agulha balançando ritmicamente. Ela não estava ali para ouvir sobre pedagogia; estava ali para garantir que Ágata continuasse sendo a rainha do parquinho.

— Vamos direto ao ponto, diretora — disse Sara, a voz carregada de uma ironia polida. — Minha filha é uma líder nata, mas percebo que ela fica agitada quando o ambiente ao redor é... instável.

Eduarda baixou os olhos para as próprias mãos, que repousavam trêmulas sobre o colo. Emanuel sentiu uma necessidade quase física de segurar aquelas mãos, mas a presença de Sara e os olhares dos outros pais na sala o mantinham rigidamente em seu lugar.

— Entendo, Sra. Sara — respondeu a diretora, voltando-se para o prontuário à sua frente. — Mas hoje queremos focar na integração. Notamos que a pequena Maya tem se mostrado muito retraída e manhosa nos últimos dias, buscando refúgio constante nos braços das professoras. Eduarda, querida, gostaríamos de entender um pouco mais sobre a rotina da Maya em casa. Especialmente sobre a figura paterna.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que Emanuel pôde ouvir o bater do relógio na parede. Ele sentiu o músculo da sua mandíbula saltar.

— A figura paterna? — Eduarda repetiu, a voz saindo tão fina que quase quebrou.

— Sim — continuou a diretora, com uma curiosidade profissional que Emanuel considerou invasiva. — No formulário de matrícula, consta que você é a mãe adotiva e que os pais biológicos não estão presentes. Mas, para o desenvolvimento da Maya, é importante sabermos se existe uma referência masculina estável. Quem é o pai da Maya, Eduarda? Ou melhor, quem exerce esse papel na vida dela?

Emanuel sentiu um soco no estômago. A pergunta pairava no ar como uma fumaça tóxica. Ele olhou de soslaio para Eduarda e viu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto dela. A fragilidade dela naquele momento o atingiu com mais força do que qualquer grito de Sara jamais conseguiria.

— Ela... ela não tem um pai — sussurrou Eduarda, a voz embargada. — Sou apenas eu. Meus pais ajudam, mas não há um pai.

Um burburinho discreto percorreu a sala. Algumas mães trocaram olhares de piedade, outras de julgamento. Emanuel sentiu a raiva borbulhar. Ele odiava a ideia de Eduarda ser vista como alguém "incompleta" ou "digna de pena".

— Isso explica muita coisa — comentou uma das mães presentes, uma mulher de meia-idade com um colar de pérolas apertado demais. — Crianças sem uma figura masculina firme tendem a ser mais inseguras, não é, diretora? Talvez seja por isso que a menina é tão dependente.

— Com licença — interrompeu Emanuel, a voz soando como um trovão que silenciou instantaneamente o burburinho.

Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, a postura exalando a agressividade controlada de quem comanda estúdios de tatuagem e negócios milionários.

— O que a configuração familiar da Eduarda tem a ver com a qualidade do ensino desta creche? — Emanuel perguntou, fixando os olhos na diretora. — Maya é uma criança amada e bem cuidada. Se ela é sensível, é porque tem uma mãe que se importa com as emoções dela, não porque falta um "homem" em casa para ensinar ela a ser bruta.

Sara olhou para Emanuel, uma sobrancelha loira perfeitamente desenhada se erguendo. Ela percebeu a intensidade na voz dele, o modo como ele defendia Eduarda como se estivesse protegendo seu próprio território. Sara não sentiu ciúmes; sentiu diversão. Ela sabia que Emanuel estava se afogando naquele sentimento de proteção pela "bonequinha", e ela estava adorando assistir ao espetáculo.

— O que o meu Manu quer dizer — disse Sara, colocando a mão sobre o braço de Emanuel de forma possessiva —, é que a gente não deveria estar aqui discutindo a vida pessoal da Eduarda. Mas, já que o assunto surgiu, eu mesma posso dizer que a Maya está muito bem assistida.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com o apoio inesperado.

— Obrigada, Sara — murmurou Eduarda.

— De nada, querida — Sara sorriu, um sorriso predatório. — Mas a diretora tem um ponto. Uma criança precisa de alguém que imponha respeito. E já que a Maya não tem um pai... — ela fez uma pausa dramática, olhando para Emanuel — ...o Emanuel tem feito um ótimo papel de tio postiço, não é, Manu? Ele vive preocupado com as duas.

A diretora arqueou as sobrancelhas, captando a tensão elétrica entre os três.

— Oh, entendo. Sr. Emanuel, o senhor tem tido uma participação ativa na vida da pequena Maya também?

Emanuel sentiu o suor frio. Ele olhou para Eduarda, que estava pálida, e depois para Sara, que o desafiava com o olhar.

— Eu ajudo como posso — respondeu Emanuel, medindo as palavras. — Como pai da Ágata, eu me interesso pelo bem-estar de todas as crianças da turma. E a Eduarda é... uma amiga da família.

A palavra "amiga" saiu pesada de sua boca, como uma mentira que queima a língua. Ele queria dizer que era ele quem segurava Eduarda quando ela chorava de exaustão. Queria dizer que era ele quem Maya buscava quando precisava de um colo firme.

— Pois bem — disse a diretora, parecendo satisfeita com a fofoca colhida. — Mas precisamos de um nome para as emergências. No caso da Maya, Eduarda, se você não estiver disponível, quem devemos chamar? Se não há um pai, há algum tutor legal masculino?

Eduarda hesitou, o lábio inferior tremendo.

— Pode colocar o meu nome — disse Emanuel, antes que pudesse processar a consequência daquelas palavras.

O silêncio na sala desta vez foi absoluto. Sara soltou uma risadinha abafada, achando a audácia de Emanuel excitante. Eduarda olhou para ele com uma mistura de choque e uma gratidão tão profunda que seus olhos brilharam.

— O senhor, Sr. Emanuel? — a diretora perguntou, anotando rapidamente. — Mas o senhor já é o responsável pela Ágata.

— E agora sou o contato de emergência da Maya — Emanuel afirmou, levantando-se, sinalizando que a reunião havia acabado para ele. — Algum problema com isso? Pago as mensalidades de ambas se for necessário para garantir que essa pergunta sobre "quem é o pai" nunca mais seja feita de forma depreciativa nesta sala.

Ele não esperou por uma resposta. Emanuel caminhou até Eduarda, pegou a bolsa de maternidade das mãos dela e a ajudou a se levantar. Sara veio logo atrás, caminhando com sua elegância vulgar, balançando os quadris enquanto passava pelas outras mães estupefatas.

Ao saírem para o corredor, longe dos olhos dos outros pais, Eduarda parou e segurou o braço de Emanuel.

— Emanuel... por que você fez isso? Você não precisava... a Sara...

— Eu fiz porque eu quis, Eduarda — ele a interrompeu, a voz mansa apenas para ela. — Eu não suporto ver você sendo acuada daquele jeito. E se a Maya precisar de um nome naquele papel, vai ser o meu.

Sara aproximou-se, parando ao lado deles. Ela olhou para Eduarda e depois para o namorado.

— Você é um homem de gestos grandes, não é, Manu? — Sara disse, ajeitando a gola da camisa dele. — Ficou todo irritadinho porque perguntaram do pai da menina. Admita, você adorou a ideia de ser o "pai" oficial naquelas fichas.

Emanuel olhou para Sara, tentando ler suas intenções.

— Você não se importa, Sara?

— Eu? — ela deu de ombros, rindo. — Querido, eu sei o que eu tenho em casa. Se você quer brincar de ser o protetor da órfã e da mãe solteira, vá em frente. Eu sei que no fim da noite, a sua conta bancária e a sua cama pertencem a mim. Além disso, a Eduarda é tão... inofensiva. Ela nem saberia o que fazer com um homem como você se não tivesse a minha permissão.

Eduarda sentiu uma pontada de humilhação com o comentário de Sara, mas a sensação de segurança que Emanuel emanava era mais forte. Ela se aproximou dele, buscando o calor de seu corpo.

— Obrigada, Emanuel. De verdade. Eu me senti tão sozinha naquela sala antes de você falar.

Emanuel passou o braço pelos ombros de Eduarda, enquanto a outra mão permanecia na cintura de Sara. Ele estava no centro do seu próprio mundo distorcido.

— Você nunca está sozinha, Eduarda. Eu já te disse isso.

— Bom — interrompeu Sara, consultando o relógio de ouro no pulso —, o drama acabou. Agora, Manu, você vai me levar para almoçar naquele lugar caro no Leblon. E Edu, querida, por que você não vem com a gente? Você parece que vai desmaiar se não comer um carboidrato.

Eduarda olhou para Emanuel, buscando aprovação.

— Venha, Eduarda — disse ele, a voz firme. — Vamos os três.

Enquanto caminhavam em direção ao SUV de luxo, Emanuel sentia a tensão em seus ombros diminuir, apenas para ser substituída por uma excitação sombria. Ele tinha o controle. Ele tinha a mulher que o desafiava e a mulher que o idolatrava. Ele era o porto seguro de Eduarda e o troféu de Sara.

Ao entrarem no carro, Emanuel olhou pelo retrovisor e viu as duas cadeirinhas de bebê instaladas no banco de trás — a de Ágata, com detalhes em couro, e a de Maya, que ele mesmo havia comprado e mandado instalar no dia anterior, sem contar a Sara.

A pergunta da diretora ainda ecoava em sua mente: "Quem é o pai da Maya?".

Emanuel sorriu para si mesmo enquanto ligava o motor potente. Ele não precisava de papéis legais para saber a resposta. Naquele momento, ele decidiu que Maya era dele tanto quanto Ágata. E Eduarda... ela era a sua possessão mais delicada, um segredo que ele guardaria sob as garras de Sara, até que as duas se tornassem partes indissociáveis do seu império pessoal.

— Para onde vamos, Manu? — perguntou Sara, retocando o batom.

— Para onde eu quiser, Sara — ele respondeu, acelerando. — Para onde eu quiser.