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A Guerra dos Colos

O sol de domingo caía preguiçoso sobre a cobertura de Emanuel, um santuário de vidro, aço e luxo suspenso sobre a agitação do Rio de Janeiro. O aroma de cloro da piscina de borda infinita misturava-se ao cheiro caro do protetor solar de Sara e ao perfume floral e discreto que emanava de Eduarda. Era o retrato de uma paz improvável, uma harmonia conquistada à base de poder, desejo e uma estranha forma de cumplicidade.

Sara estava deitada em uma espreguiçadeira de design italiano, o corpo curvilíneo e dourado mal coberto por um biquíni de crochê neon que parecia ter sido feito sob medida para chocar e encantar. Seus olhos, protegidos por óculos de sol gigantescos, estavam fechados, mas Emanuel sabia que ela não perdia um único detalhe do que acontecia ao seu redor. Ao lado dela, Ágata, sua miniatura de personalidade forte, brincava em um tapete acolchoado, empilhando blocos de madeira com uma concentração feroz que era puro reflexo do pai.

Do outro lado do terraço, em uma poltrona de vime suspensa que balançava suavemente com a brisa, estava Eduarda. Ela usava um maiô de babados em tom pastel, uma peça romântica que acentuava sua delicadeza. Em seu colo, um livro de arte sobre Monet repousava aberto, mas seus olhos castanhos e sonhadores estavam fixos em Maya. A pequena, sentada no chão aos seus pés, tentava encaixar uma peça em um brinquedo de formas, soltando um resmungo manhoso de frustração a cada tentativa falha.

Emanuel estava no centro de tudo, como sempre. Sentado em um sofá baixo e confortável, ele lia relatórios de seus novos estúdios em um tablet, mas sua atenção estava dividida entre o trabalho e as três mulheres que compunham seu império pessoal. Ele se sentia como um rei em seu jardim privado, um jardim com duas flores exóticas e opostas: uma orquídea selvagem e vibrante e uma flor de algodão suave e rara.

A paz foi quebrada pelo som que Emanuel aprendera a identificar como o prenúncio do dengo. Maya largou o brinquedo, fez um beicinho que derreteria o coração mais duro e engatinhou com uma determinação surpreendente em direção a ele. Ela parou aos pés de Emanuel, ergueu os bracinhos curtos e soltou um pequeno "anh" que era um pedido e uma ordem.

Emanuel sorriu, o rosto geralmente sério se suavizando instantaneamente. Ele largou o tablet e pegou a bebê, ajeitando-a em seu colo.

— O que foi, minha princesa manhosa? — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela, que cheirava a shampoo de camomila. — Cansou de ser inteligente e agora quer um pouco de colo do papai?

Maya suspirou satisfeita, aninhando-se em seu peito. Ela passou os dedinhos pela tatuagem de corvo no pescoço de Emanuel, um gesto que havia se tornado seu calmante particular. Para ela, aquele homem grande e de voz grave era sinônimo de segurança, o porto seguro que sua mãe, em sua doçura, às vezes não conseguia ser.

A cena, no entanto, não passou despercebida. Do outro lado do tapete, Ágata parou de empilhar seus blocos. Seus olhos azuis, idênticos aos de Sara, fixaram-se em Maya, que ocupava o que ela considerava seu trono por direito: o colo de Emanuel. A expressão em seu rosto de querubim mudou de concentração para indignação. Ela soltou um grunhido de protesto, derrubou sua torre de blocos com um tapa e começou a sua própria jornada em direção ao pai.

Ela não engatinhou com a hesitação de Maya. Ágata se movia com a confiança de uma pequena predadora. Chegou ao sofá e, em vez de pedir, começou a puxar a perna da calça de Emanuel, emitindo sons guturais e impacientes.

— Ei, o que foi, minha leoa? — Emanuel riu, achando graça da personalidade da filha mais velha. — Tem colo para todo mundo.

Ele tentou a manobra que, em sua lógica masculina, parecia a solução perfeita. Ajeitou Maya em um joelho e, com a outra mão, puxou Ágata para o outro. Por um glorioso segundo, o equilíbrio pareceu ter sido alcançado. Emanuel tinha uma filha em cada perna, o peso delas ancorando-o em uma sensação de plenitude e poder.

Mas o reino de Emanuel tinha duas rainhas em potencial, e nenhuma delas estava disposta a dividir a coroa.

Ágata foi a primeira a atacar. Ela se inclinou sobre o espaço que as separava e tentou empurrar Maya com a mão gordinha, um gesto claro de "saia daqui".

Maya, sentindo a invasão de seu espaço seguro, reagiu da única maneira que sabia. Seu beicinho tremeu, seus olhos se encheram de lágrimas e um choro alto e sentido ecoou pelo terraço. Era um choro de mágoa, de quem se sentia traída e ameaçada.

— Ágata, não! — advertiu Emanuel, segurando a mão da filha. — Seja boazinha com a sua irmã.

A palavra "irmã" pareceu inflamar ainda mais a situação. Ágata, frustrada por ter sido repreendida, soltou um grito de raiva e começou a se debater, tentando se livrar do aperto do pai para alcançar Maya novamente. O choro de Maya, por sua vez, aumentou de volume, transformando-se em um soluço desesperado enquanto ela se agarrava à camisa de Emanuel, escondendo o rosto em seu peito.

Em segundos, o terraço silencioso se transformou em um campo de batalha auditivo. De um lado, o choro agudo e indignado de Ágata. Do outro, o choro magoado e manhoso de Maya. As duas bebês, cada uma em um joelho, olhavam para Emanuel como se ele fosse o único juiz daquela disputa, e ambas exigiam um veredito a seu favor.

Na espreguiçadeira, Sara abaixou os óculos de sol, revelando olhos que brilhavam de pura diversão. Ela soltou uma gargalhada alta e cristalina.

— Olha só isso, Manu! — exclamou ela, sentando-se. — O seu harém está em guerra. Você criou dois pequenos monstros possessivos que são o seu reflexo perfeito.

Eduarda, que havia se levantado da poltrona suspensa, aproximou-se com passos hesitantes, uma mão cobrindo a boca para abafar uma risadinha. Seus olhos, no entanto, dançavam de alegria.

— Elas são tão dramáticas! — disse ela, a voz doce e divertida. — Parece que estão disputando o último pedaço de terra do planeta.

— E estão! — confirmou Sara, levantando-se e caminhando até o centro do caos com seu balanço de quadris característico. — O colo do pai. É o bem mais valioso deste império, não é mesmo, Edu?

Eduarda corou com a observação, mas assentiu, sentindo-se parte daquela piada interna. A dinâmica entre ela e Sara havia se tornado uma dança fascinante. Sara era a mentora irônica, a rainha que permitia que a favorita do rei tivesse seus privilégios, enquanto Eduarda era a aprendiz que, aos poucos, perdia o medo e aprendia a apreciar a força da outra mulher.

— Façam alguma coisa! — pediu Emanuel, olhando de uma para a outra, uma rara expressão de desamparo em seu rosto. Ele tentava acalmar as duas ao mesmo tempo, balançando os joelhos e sussurrando palavras de consolo, mas cada gesto que fazia para uma parecia ofender profundamente a outra.

— Fazer o quê? — Sara riu, cruzando os braços. — Eu estou adorando o espetáculo. A minha filha é uma guerreira. Ela sabe lutar pelo que quer. Olha essa garra, essa menina vai dominar o mundo! Estou orgulhosa.

— A Maya só quer um pouco de paz, coitadinha — disse Eduarda, com um tom protetor, mas ainda sorrindo. — Ela não entende de competição, só de afeto.

A troca de farpas divertidas entre as mães só servia para realçar a ironia da situação. As duas mulheres, que poderiam ser rivais mortais, assistiam, unidas em sua diversão, enquanto suas filhas travavam a batalha que elas mesmas haviam decidido não lutar.

Emanuel, percebendo que não receberia ajuda, tentou uma nova tática. Ele se levantou, segurando uma bebê em cada braço. A imagem era poderosa: o homem imponente, com o corpo coberto de arte, servindo de refúgio para duas crianças chorosas. Ele começou a andar pelo terraço, o movimento ritmado de seus passos finalmente começando a surtir efeito.

— Calma, minhas meninas... calma... — ele murmurava, a voz grave vibrando em seu peito. — O papai está aqui. Para as duas.

Aos poucos, os gritos se transformaram em soluços e os soluços em resmungos. Ágata, exausta pela explosão de raiva, encostou a cabeça no ombro direito de Emanuel, mas seus olhos ainda fuzilavam Maya. Maya, por sua vez, aninhou-se no ombro esquerdo, os dedinhos ainda agarrados à camisa dele, como se temesse ser arrancada dali a qualquer momento.

Sara se aproximou e passou a mão pelas costas de Ágata.

— Isso, minha selvagem. Descanse um pouco. Guarde as energias para a próxima batalha — sussurrou ela, piscando para Emanuel.

Eduarda também se aproximou, tocando suavemente a bochecha de Maya, que estava vermelha e úmida de lágrimas.

— Passou, meu amor. Ninguém vai te machucar — disse ela, com a doçura que era sua marca registrada.

Emanuel parou de andar, sentindo o peso das duas filhas em seus braços. Elas finalmente haviam adormecido, vencidas pelo cansaço. Ele olhou para Sara, que tinha um sorriso vitorioso nos lábios. Depois, olhou para Eduarda, cujo rosto expressava uma ternura infinita.

— Vocês duas são impossíveis — disse ele, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma resignação divertida.

— Nós? — retrucou Sara, ajeitando uma mecha do cabelo loiro. — Querido, essas duas são o seu legado. Uma tem a minha beleza e a sua fúria. A outra tem a doçura da Eduarda e a sua necessidade de controle. Você está cercado, Emanuel. E, convenhamos, você adora isso.

Ele não pôde negar. Aquele caos, aquela disputa possessiva pelo seu afeto, era a validação máxima de seu poder. Ele era o sol em torno do qual aqueles pequenos planetas giravam.

— Leve a Ágata para o berço — pediu ele a Sara. — Eu coloco a Maya no quarto de hóspedes.

Com uma delicadeza que contrastava com sua imagem, Emanuel passou Ágata para os braços de Sara. A loira pegou a filha com a naturalidade de quem segura um troféu valioso e a levou para dentro, não sem antes lançar um olhar cúmplice para Emanuel.

Emanuel ficou a sós com Eduarda no terraço agora silencioso. Ele ainda segurava Maya, que dormia profundamente contra seu peito.

— Eu nunca pensei que veria você perder o controle de uma situação — comentou Eduarda, aproximando-se e ajeitando a manta em volta de Maya.

— Eu não perdi o controle — corrigiu ele, a voz baixa. — Eu apenas deixei que elas resolvessem do jeito delas. Elas precisam aprender a conviver no mesmo espaço.

— No seu colo? — Eduarda sorriu.

— Principalmente no meu colo — ele confirmou, os olhos escuros fixos nos dela. Ele se inclinou e a beijou suavemente, um beijo que tinha o gosto do sol da tarde e da satisfação de um rei que acabara de assistir a uma justa em sua homenagem. — Elas são como vocês duas. Uma é fogo, a outra é água. E eu preciso das duas para não morrer de tédio ou de sede.

Eduarda encostou a testa no peito dele, sentindo o coração de Emanuel bater forte e constante sob sua orelha. Ela não se sentia mais ameaçada por Sara ou pela força de Ágata. Ela havia encontrado seu lugar naquele universo peculiar. Era a calmaria na tempestade, o dengo que equilibrava a fúria.

— Eu te amo, Emanuel — sussurrou ela, pela primeira vez. As palavras saíram com a naturalidade de uma confissão há muito guardada.

Emanuel apertou-a contra si com o braço livre, inalando o perfume de seu cabelo.

— Eu sei, minha bonequinha. Eu sei.

Ele levou Maya para dentro e a deitou cuidadosamente no berço montado no quarto de hóspedes, que havia se tornado, na prática, o quarto de Maya. Depois, voltou para o terraço. Sara já estava de volta à sua espreguiçadeira, mas agora lia uma revista de moda. Eduarda estava sentada na beirada da piscina, os pés mergulhados na água.

Emanuel parou entre as duas, observando seu reino. A guerra havia acabado, por enquanto. As duas pequenas rainhas descansavam, mas ele sabia que a disputa pelo trono — seu colo, seu tempo, seu afeto — seria uma constante em suas vidas. E, estranhamente, a ideia não o assustava. Pelo contrário, o excitava.

Ele se sentou no chão, entre a espreguiçadeira de Sara e a piscina onde Eduarda estava. Esticou as pernas, cruzou os braços atrás da cabeça e fechou os olhos, sentindo o sol em seu rosto.

Ele tinha tudo. A ambição e a paz. A selvageria e a doçura. A guerra e a rendição. E no centro de tudo, ele, o eixo, o prêmio, o rei. A guerra dos colos havia apenas começado, e Emanuel mal podia esperar pela próxima batalha.