D
A Marca do Território
O tempo, para Emanuel, era uma entidade que ele dobrava à sua vontade. Passou-se um ano desde o primeiro encontro na creche, um ano em que ele reescreveu o mapa de sua própria vida, adicionando um novo continente de doçura e dengo ao seu já vasto império de paixão e poder. A cobertura no Leblon, antes um palco para a dinâmica explosiva entre ele e Sara, agora era um ecossistema complexo, um triângulo de poder onde três adultos e três crianças (uma ainda por nascer) orbitavam em torno do mesmo sol implacável: ele.
A mudança mais sísmica havia sido legal. Maya, com seu um ano recém-completado, não era mais apenas a "protegida". Em sua certidão de nascimento, o nome de Emanuel agora figurava com a autoridade fria da lei: pai. Ele a adotara, um gesto que para o mundo era de uma generosidade impressionante, mas que, para os que o conheciam, era a mais pura e definitiva declaração de posse.
E havia Arthur. O nome já fora escolhido, tatuado em letras góticas discretas no antebraço de Emanuel, sob a manga de suas camisas de linho. Arthur era o herdeiro de sangue, o filho que se agitava com uma energia violenta dentro do ventre de Eduarda, que agora, grávida de sete meses, exibia uma barriga redonda e proeminente que Emanuel adorava tocar, como se para sentir a vibração de seu futuro.
Naquele domingo, o terraço da cobertura era um microcosmo daquela nova realidade. O churrasco, uma desculpa para reunir amigos, era na verdade uma exibição de seu domínio. Sara, mais deslumbrante do que nunca em um biquíni dourado que desafiava a gravidade, comandava a grelha com uma espátula em uma mão e um copo de champanhe na outra, distribuindo ordens para o chef contratado. Ágata, sua cópia em miniatura, corria pelo deck de madeira com a pose de uma pequena imperatriz, os cabelos loiros presos em um coque bagunçado, gritando ordens para seus bonecos.
Do outro lado, em uma área sombreada por um ombrelone gigante, estava o refúgio da calmaria. Eduarda, vestindo um vestido de algodão branco, leve e esvoaçante, estava sentada em uma poltrona de balanço, lendo uma história para Maya. A menina estava aninhada entre as pernas da mãe, a cabeça apoiada na barriga de Eduarda, sentindo os chutes do irmão ainda não nascido. Maya era o grude de Eduarda, sua sombra, seu pequeno eco. A cada chute mais forte de Arthur, Maya soltava uma risadinha, como se já estivesse em uma conversa secreta com ele.
— Ele está agitado hoje — disse Eduarda, a voz suave flutuando na brisa salgada. Ela olhou para Emanuel, que estava perto, observando a cena com uma satisfação sombria. — Acho que ele não gosta de ficar quieto, igual ao pai.
Emanuel sorriu, um sorriso que era reservado apenas para ela. Ele se aproximou, ajoelhou-se em frente a Eduarda e pousou a mão sobre a dela, que repousava na barriga. Sentiu um chute forte, uma afirmação de vida que o fez sentir um orgulho primitivo.
— Ele só está marcando território — disse Emanuel, inclinando-se para beijar os lábios de Eduarda, um beijo lento e possessivo que a fez corar, mesmo depois de tantos meses. — Como o pai dele.
A campainha tocou, e Sara gritou do outro lado do terraço.
— Manu, atende a porta! Deve ser o Lucas. E vê se não assusta a mulher dele com essa sua cara de quem acabou de conquistar um país.
Lucas era o amigo mais antigo de Emanuel, um dos poucos que sobrevivera à sua ascensão meteórica. Ele era um arquiteto de sucesso, casado com Helena, uma designer de interiores doce e discreta, e pai de Theo, um menino de quase dois anos com cachos loiros e olhos curiosos.
Quando Emanuel abriu a porta, Lucas o abraçou com a familiaridade de anos de amizade.
— E aí, irmão? Que império é esse que você montou? — brincou Lucas, olhando para a cena no terraço: Sara comandando a churrasqueira, Eduarda grávida e serena, e as duas meninas brincando. — Cara, você precisa me dar umas aulas. Eu mal dou conta de um filho, você está colecionando.
Emanuel deu um soco leve no ombro do amigo.
— Eu não coleciono, eu governo — corrigiu ele, com um meio sorriso. — Entra aí. A Sara está no modo predadora hoje, então cuidado.
A tarde transcorreu em uma harmonia quase surreal. As crianças foram colocadas para brincar em um cercadinho gigante e seguro, cheio de brinquedos educativos e almofadas. Ágata imediatamente assumiu o papel de líder, tentando ensinar Theo a empilhar blocos do "jeito certo". Maya, como sempre, ficou em um canto, observando tudo com seus grandes olhos castanhos, agarrada a uma boneca de pano que Eduarda havia costurado para ela.
Theo, no entanto, parecia fascinado por Maya. Ele abandonou as lições de engenharia de Ágata e engatinhou até a menina quieta. Sentou-se à sua frente e ficou apenas olhando, a cabeça inclinada.
— Que fofos! — comentou Helena, a mulher de Lucas, observando a cena de longe. — Parece que o Theo encontrou uma namoradinha.
Emanuel, que estava conversando com Lucas sobre um novo projeto de investimento, ouviu o comentário e seu corpo inteiro enrijeceu. Seus olhos se cravaram na cena dentro do cercadinho. Viu o menino loiro se aproximar mais de Maya. Viu a mãozinha dele tocar o rosto dela.
Eduarda, que estava sentada ao lado de Emanuel, percebeu a mudança instantânea na postura dele.
— Emanuel, calma. Eles são bebês — sussurrou ela, colocando a mão em seu braço, um gesto que antes o acalmava, mas que agora parecia inútil.
O que aconteceu em seguida foi em uma fração de segundo, mas para Emanuel, pareceu em câmera lenta. Theo, em um gesto de pura e inocente imitação do carinho que via seus pais trocarem, inclinou-se para frente e deu um beijo desajeitado e molhado na bochecha de Maya.
Maya piscou, surpresa. Ela tocou a própria bochecha onde os lábios de Theo haviam pousado e, em vez de chorar ou recuar, soltou uma risadinha. Um som cristalino, de pura diversão. Ela gostou. O carinho inesperado a havia encantado.
Para Emanuel, aquela risada foi como o estopim de uma bomba.
Ele não gritou. Ele não fez um escândalo. Pior. Ele se levantou com uma calma glacial que era mil vezes mais aterrorizante do que qualquer explosão de raiva. O copo de uísque em sua mão foi colocado na mesa com um clique seco e definitivo. O som da conversa e da música pareceu morrer ao seu redor.
Ele caminhou até o cercadinho. Cada passo era pesado, carregado de uma fúria possessiva que fazia o ar vibrar. Lucas, Helena, Sara e Eduarda observavam, paralisados.
Emanuel abriu o portão do cercadinho e entrou. Theo, sentindo a sombra imensa sobre ele, olhou para cima e seus olhos curiosos se encheram de medo. Ágata parou de brincar, sentindo a mudança no ambiente.
Ignorando completamente o menino, Emanuel foi até Maya. Ele a pegou no colo com uma possessividade feroz, aninhando-a contra seu peito como se a estivesse resgatando de um incêndio. Maya, sentindo a tensão no corpo do pai, começou a choramingar, confusa.
Só então Emanuel se virou para Lucas. Seus olhos eram duas lascas de gelo.
— Lucas — a voz dele saiu baixa, controlada, mas cortante como uma navalha. — Tira o seu filho daqui.
Lucas ficou de pé, chocado.
— Manu? O que foi? Eles só estavam brincando. O Theo só...
— Eu disse para tirar o seu filho daqui. Agora.
— Emanuel! — A voz de Eduarda finalmente quebrou o feitiço. Ela se levantou com dificuldade, a barriga pesando, e foi até ele. — Pelo amor de Deus, para com essa besteira! Eles são crianças!
Emanuel a ignorou, os olhos ainda fixos em Lucas.
— Você não ensina limites para o seu filho? Ele não pode sair por aí beijando os outros. Especialmente a minha filha.
— Limites? Manu, ele tem nem dois anos! — Lucas retrucou, a incredulidade dando lugar à irritação. — Ele deu um beijo de bebê nela! O que você queria que eu fizesse? Colocasse ele de castigo?
— Sim! — rosnou Emanuel. — Eu queria que você ensinasse a ele que ele não pode tocar no que não é dele!
A discussão estava escalando, e a festa havia se transformado em um tribunal. Maya chorava alto no colo de Emanuel, assustada com os gritos. Theo, vendo a confusão, começou a chorar também, correndo para os braços da mãe.
Foi Sara quem interveio. Ela se aproximou com seu andar de rainha, parou ao lado de Emanuel e colocou a mão em seu ombro.
— Querido — disse ela, a voz pingando sarcasmo. — Respire fundo. Você está parecendo um Neandertal protegendo a caverna. É patético. Peça desculpas ao Lucas e vamos voltar a beber nosso champanhe caríssimo.
— Eu não vou pedir desculpas por proteger a minha filha! — Emanuel se virou para ela, a fúria agora direcionada para a única pessoa que ousava desafiá-lo abertamente.
— Você não está protegendo ela, está sufocando! — Eduarda interveio, a voz ganhando uma força que surpreendeu a todos, inclusive a ela mesma. Ela parou na frente de Emanuel, forçando-o a olhá-la. — Me dá a Maya. Você está assustando ela.
— Ela vai ficar comigo!
— Emanuel, me dá a minha filha! — A voz de Eduarda não era mais um sussurro. Era uma ordem. A leoa que vivia adormecida dentro daquela mulher doce finalmente despertara, movida pelo choro de sua cria. — Foi só um beijo, um carinho! Ela gostou! Você que está transformando uma coisa inocente nesse circo de horror por causa do seu ego doente!
A palavra "ego" atingiu Emanuel como um soco. Ele olhou para Eduarda, para os olhos castanhos que agora brilhavam com lágrimas de raiva, não de tristeza. Viu a mão dela protetoramente sobre a barriga, onde Arthur se agitava, como se concordasse com a mãe.
— Eduarda...
— Para de besteira, Emanuel! — ela repetiu, mais alto. — Você adotou a Maya, você a ama, eu sei disso. Mas ela não é um objeto. Ela não é um carro de luxo que você guarda na garagem para ninguém encostar. Ela é uma pessoa! E um dia, ela vai beijar alguém, vai se apaixonar, vai ter a vida dela! E o que você vai fazer? Trancar ela numa torre?
O silêncio que se seguiu foi ainda mais pesado. Lucas e Helena já estavam na porta, prontos para ir embora, constrangidos e ofendidos.
— Acho melhor a gente ir — disse Lucas, a voz fria. — A gente se fala depois, Manu. Ou não.
Emanuel assistiu ao seu amigo mais antigo sair, levando consigo a família. A porta se fechou, e o som da festa morreu completamente. Sobrou apenas o som do choro de Maya e o vento assobiando no terraço.
Relutantemente, Emanuel passou Maya para os braços de Eduarda. A menina se agarrou ao pescoço da mãe, soluçando, buscando o refúgio familiar. Eduarda a abraçou com força, lançando um olhar de pura repreensão para Emanuel.
Sara soltou o ar em um assobio.
— Parabéns, Otelo. Você conseguiu. Expulsou os únicos amigos que tínhamos com filhos da idade dos nossos. Agora a Ágata vai ter que socializar com os filhos dos seus sócios russos, que provavelmente aprendem a atirar antes de aprender a falar. Estou orgulhosa do seu autocontrole.
Ela pegou sua taça de champanhe, deu um gole longo e se virou para Ágata, que observava tudo com olhos atentos.
— Vem, meu amor. A festa acabou porque o papai teve um ataque de testosterona. Vamos para dentro assistir a um desenho, que é mais inteligente.
Sara e Ágata entraram, deixando Emanuel e Eduarda sozinhos no terraço devastado.
Emanuel passou as mãos pelo cabelo, sentindo uma dor de cabeça latejar. Ele olhou para Eduarda, que balançava Maya suavemente, sussurrando palavras de consolo. Ele sabia, em algum lugar no fundo de sua mente racional, que ela estava certa. Que ele havia exagerado. Mas o sentimento que o dominou ao ver aquele menino tocar em sua filha... era irracional, visceral. Era o instinto de um predador que vê outro animal se aproximar de sua cria mais preciosa.
Ele se aproximou dela, o corpo ainda tenso de adrenalina.
— Duda...
— Não, Emanuel. Não diga nada — ela o cortou, a voz cansada. — Eu estou exausta. Eu não aguento mais ter que andar em ovos por causa do seu ciúme, da sua necessidade de controle. Eu te amo, mas isso... isso não é saudável. Nem para mim, nem para a Maya, e com certeza não será para o Arthur.
Ele a viu ali, forte e decidida, e um medo frio o percorreu. O medo de perdê-la. Não para outro homem, mas para a exaustão que ele mesmo estava causando.
— Eu não sei ser de outro jeito — admitiu ele, a voz rouca. Foi a confissão mais vulnerável que ele já fizera.
Eduarda suspirou, o rosto suavizando um pouco. Ela caminhou até ele, ainda com Maya em seu colo.
— Então você vai ter que aprender. Por nós. Por eles — disse ela, tocando a barriga.
Emanuel estendeu a mão e tocou o rosto de Maya, que agora o olhava com os olhos molhados de choro, mas sem medo. Apenas confusão. Ele limpou uma lágrima da bochecha dela com o polegar. A mesma bochecha que o outro menino havia beijado. A marca invisível.
— Me desculpa, minha princesa — sussurrou ele para a filha. E depois, olhando nos olhos de Eduarda, repetiu: — Me desculpem.
Ele a puxou para um abraço desajeitado, envolvendo mãe, filha e o filho ainda por vir. Sentiu o corpo de Eduarda relaxar minimamente contra o seu. Sentiu o peso de Maya e o volume de Arthur. Sentiu o peso do seu próprio império.
Ele sabia que Eduarda tinha razão. Ele precisava aprender. Mas enquanto abraçava sua família, a imagem daquele beijo inocente ainda queimava em sua retina. E a única promessa que ele conseguiu fazer a si mesmo não foi a de mudar, mas a de se tornar mais sutil em seu controle.
Ninguém mais tocaria em sua filha. Ninguém. Ele garantiria isso. Não com gritos e ameaças, mas com o poder silencioso e absoluto que ele possuía. O mundo aprenderia, de uma forma ou de outra, que havia territórios que simplesmente não podiam ser invadidos. E a família que ele construíra com suor, dinheiro e uma vontade de ferro era o mais sagrado de todos. A guerra estava apenas começando.