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D

Tempestade sob o Mesmo Teto

O zumbido das máquinas de tatuar ainda ecoava nos ouvidos de Emanuel, mesmo após horas de ter deixado o seu estúdio principal. O dia tinha sido exaustivo: problemas com a exportação de pigmentos para a unidade de Paris e um fornecedor incompetente em Londres haviam drenado sua paciência. Agora, no luxuoso refúgio que chamava de lar, o silêncio que ele tanto desejava era uma miragem distante.

A sala de estar, decorada com móveis de design minimalista e obras de arte contemporânea, parecia um campo de batalha. Benício, em um de seus picos de energia inesgotável, corria em círculos ao redor da mesa de centro, gritando a plenos pulmões enquanto batia um caminhão de plástico contra o vidro. Amélie, assustada com o barulho do irmão, estava agarrada à perna de Eduarda, choramingando um som agudo e constante que perfurava o crânio de Emanuel.

Para completar o cenário, Valentina estava sentada no tapete de pele, cruzando os braços com uma expressão de puro desdém, recusando-se a comer a maçã picada que Sara tentava lhe oferecer.

— Eu já disse que não quero essa fruta, mamãe. Quero o doce que o papai trouxe — decretou a pequena Valentina, com uma autoridade que não cabia em seus dois anos.

Emanuel jogou a pasta de couro sobre o aparador e soltou um suspiro pesado, fechando os olhos com força. A tensão em seus ombros era visível, os músculos do pescoço rígidos, fazendo com que as tatuagens que subiam pela sua nuca parecessem pulsar.

— Benício, chega! — A voz de Emanuel saiu mais alta e áspera do que ele pretendia. O tom grave e autoritário reverberou pelas paredes altas, fazendo o menino parar instantaneamente.

Eduarda, sentindo a vibração carregada de estresse que emanava de Emanuel, empalideceu. Ela conhecia aquele olhar. Emanuel era o provedor, o porto seguro, o homem que mantinha tudo sob controle, mas quando ele atingia o seu limite, a aura de "macho alfa" tornava-se opressora.

— Manu... querido, você chegou cansado — murmurou Eduarda, aproximando-se com cautela. Ela pegou Amélie no colo, tentando abafar os soluços da bebê. — Deixa que eu cuido deles. Por favor, vai tomar um banho.

— Eu não consigo nem atravessar a porta sem ser recebido por essa gritaria, Eduarda — disse ele, a voz baixa, mas perigosa. — Eu trabalho doze horas por dia para garantir que nada falte aqui, e a única coisa que peço é um pouco de ordem.

Sara, que até então observava a cena com uma sobrancelha arqueada, levantou-se com a elegância de quem nunca perdia a pose, mesmo diante de um vulcão prestes a entrar em erupção. Ela não tinha a mesma timidez de Eduarda; ela enfrentava, mas sabia exatamente onde pisar quando Emanuel estava naquele estado.

— Valentina, para o seu quarto. Agora — ordenou Sara, sem tirar os olhos de Emanuel.

— Mas eu... — a menina começou a protestar.

— Agora, Valentina. Ou eu mesma vou guardar todos os seus vestidos novos — a voz de Sara era cortante.

A pequena, percebendo que a mãe não estava brincando e que o pai exalava uma energia que a intimidava, levantou-se e saiu com o nariz empinado, mas em silêncio.

Sara caminhou até Emanuel, ignorando o clima pesado. Ela parou a poucos centímetros dele, o perfume importado e marcante tentando mascarar o cheiro de tensão no ar.

— Você está uma pilha, Emanuel — disse ela, estendendo a mão para tocar o peito dele, sentindo a respiração acelerada sob a camisa de algodão caro. — A Eduarda tem razão. Vá se limpar. Nós vamos dar um jeito nesse caos.

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda, que permanecia em um canto, tentando acalmar Benício com um olhar suplicante. O contraste entre as duas era gritante: Sara, imponente e prática; Eduarda, frágil e emocional. Mas ambas, naquele momento, estavam unidas por um único objetivo: proteger os filhos da irritação do pai e proteger o próprio Emanuel de sua explosão.

— Eu vou para o escritório — disse Emanuel, virando as costas sem olhar para trás. — Não quero ser interrompido.

O som da porta do escritório batendo foi como um tiro no silêncio que se seguiu.

Eduarda soltou um suspiro trêmulo, sentindo os joelhos fraquejarem. Ela se sentou no sofá, puxando Benício para perto de si enquanto Amélie ainda fungava em seu ombro.

— Ele está muito bravo, Sara... — sussurrou Eduarda, os olhos úmidos. — Eu tento controlar o Benício, mas ele é tão agitado. Eu me sinto péssima quando o Manu chega assim.

Sara revirou os olhos, mas não havia maldade no gesto. Ela se sentou ao lado de Eduarda, cruzando as pernas bem torneadas.

— Deixa de ser mole, Duda. Ele não está bravo com você, ele está bravo com o mundo. O problema é que o Emanuel se cobra demais por ser o "homem da casa", o dono do império. Ele acha que tem que carregar o planeta nas costas.

— Mas ele gritou... — Eduarda insistiu, a voz manhosa.

— Ele gritou porque é um homem estressado e cercado de crianças barulhentas e uma namorada que chora por qualquer coisa — Sara disse, sendo brutalmente honesta, como sempre. — Agora, escuta. Se a gente não mantiver esses pequenos em silêncio, ele vai sair daquele escritório e o clima vai ficar insuportável para todo mundo.

Eduarda assentiu, limpando uma lágrima solitária.

— O que a gente faz?

— Você — Sara apontou para Eduarda — vai levar os gêmeos para o banho. Use aquele óleo de lavanda que você gosta. Deixe-os calmos. O Benício só sossega quando você o amamenta, então faça isso. Eu vou cuidar da Valentina e pedir o jantar. Algo que ele goste. Vinho e carne.

— Você acha que ele vai se acalmar? — perguntou Eduarda, buscando validação na confiança da outra.

— Ele sempre se acalma quando percebe que o reino dele está em ordem — Sara deu de ombros, levantando-se. — Vá logo, antes que o Benício resolva gritar de novo.

As duas mulheres, movidas por uma convivência que oscilava entre a tolerância e uma estranha cumplicidade, dividiram as tarefas. Eduarda subiu com os gêmeos. No quarto decorado em tons pastéis, ela se esforçou para ser a mãe doce que os filhos precisavam, apesar do coração acelerado. Benício, sentindo a urgência no toque da mãe, finalmente cedeu, deixando-se levar para a banheira. Amélie, como sempre, seguiu o ritmo da mãe, ficando quietinha enquanto a água morna relaxava seus pequenos membros.

Enquanto isso, Sara entrou no quarto de Valentina. A menina estava sentada na cama, brincando com uma tiara de cristais.

— Escuta aqui, mocinha — disse Sara, fechando a porta. — Seu pai está de mau humor. Se você der mais um show hoje, eu juro que cancelo a sua festa de aniversário. Entendido?

Valentina olhou para a mãe, medindo forças. Mas Sara era o espelho de sua própria personalidade, e a pequena sabia quando tinha perdido a batalha.

— Sim, mamãe.

— Ótimo. Agora, escolha um pijama e fique aqui lendo seus livros de princesa. Eu vou cuidar do seu pai.

Sara desceu para a cozinha, onde o serviço de entrega já deixava as sacolas de um dos restaurantes mais caros da cidade. Ela arrumou a mesa com precisão, escolhendo o melhor vinho da adega pessoal de Emanuel. Ela sabia que a sedução e a eficiência eram as suas melhores armas.

Cerca de uma hora depois, o apartamento estava mergulhado em um silêncio quase sobrenatural. Eduarda desceu as escadas lentamente, vestindo um robe de seda clara, os cabelos castanhos soltos e com cheiro de sabonete infantil. Ela parecia exausta, mas serena.

— Eles dormiram? — perguntou Sara, que estava servindo uma taça de vinho.

— O Benício finalmente apagou depois de mamar. A Amélie dormiu no meu colo — respondeu Eduarda, aproximando-se da mesa. — E a Valentina?

— Está no quarto, comportada como uma estátua. Eu sei lidar com ela — Sara sorriu de lado. — Agora, o prato principal.

Ela apontou para a porta do escritório.

— Você vai lá — disse Sara para Eduarda. — Você é a parte "mansa". Vá lá, diga que o jantar está pronto e use esse seu jeito de gatinha abandonada para desarmar ele. Se eu for agora, a gente vai acabar discutindo sobre negócios e ele não vai relaxar.

Eduarda hesitou, mas sabia que Sara tinha razão. Emanuel sempre suavizava quando ela se aproximava com sua doçura inerente.

Ela caminhou até a porta de carvalho maciço e bateu suavemente. Não houve resposta imediata, mas ela entrou assim mesmo. Emanuel estava sentado atrás da mesa, a cabeça apoiada nas mãos, a luz do abajur refletindo no metal de seus relógios e nos frascos de tinta decorativos.

— Manu? — chamou ela, a voz quase um sussurro.

Ele levantou o olhar. O cansaço em seus olhos era profundo.

— Eu disse que não queria ser interrompido, Eduarda.

Ela não recuou. Em vez disso, caminhou até ele e parou atrás de sua cadeira, colocando as mãos pequenas e frias sobre os ombros tensos dele. Começou a massagear a musculatura rígida, sentindo a resistência inicial dele diminuir aos poucos.

— As crianças já estão dormindo. A casa está calma — disse ela, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dele. — Sara pediu o jantar que você gosta. Vem comer, por favor. Não fica assim com a gente.

Emanuel soltou um longo suspiro, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás, apoiando-a no ventre macio de Eduarda.

— Eu perdi a mão com o Benício hoje. Eu não deveria ter gritado daquele jeito.

— Ele já esqueceu, Manu. Ele te ama. Todos nós amamos — ela murmurou, passando os dedos pelos cabelos curtos dele. — Mas você precisa descansar. Deixa a gente cuidar de você um pouco.

Emanuel segurou as mãos de Eduarda, trazendo-as para frente e beijando as palmas. O toque dela era como um bálsamo. Ele se levantou, sentindo o peso do dia começar a evaporar.

Quando os dois entraram na sala de jantar, Sara estava sentada à cabeceira, girando o vinho na taça. Ela olhou para Emanuel com um sorriso provocador.

— Sobreviveu ao próprio mau humor, grande chefe? — ironizou ela, mas havia um brilho de alívio em seus olhos.

Emanuel sentou-se, observando as duas mulheres à sua frente. Eduarda, sentada ao seu lado, servindo-lhe a comida com um cuidado quase devocional; e Sara, do outro lado, desafiando-o com o olhar, pronta para manter a conversa inteligente e ácida que o estimulava.

— Desculpem pelo comportamento de mais cedo — disse Emanuel, a voz agora firme e controlada, reassumindo seu papel de centro daquele universo. — O dia foi um inferno.

— Nós sabemos — disse Sara, cortando um pedaço de carne. — Por isso a Duda quase teve um colapso e eu tive que ameaçar a Valentina de exílio. Você é o eixo dessa casa, Emanuel. Se você desequilibra, todo mundo cai.

Emanuel olhou para Eduarda, que sorriu timidamente, e depois para Sara, que piscou para ele. Ele sabia que a dinâmica entre elas era incomum, talvez até incompreensível para o mundo lá fora. Mas ali, entre a doçura de uma e a força da outra, ele encontrava o equilíbrio que precisava para ser o homem que todos esperavam que ele fosse.

— O que seria de mim sem vocês duas? — murmurou ele, servindo-se do vinho.

— Você seria um tatuador rico, solitário e provavelmente com uma úlcera — respondeu Sara prontamente.

Eduarda soltou uma risadinha, encostando a cabeça no ombro de Emanuel.

— Você seria triste, Manu. Porque ninguém cuidaria de você como a gente cuida.

Emanuel sorriu, o primeiro sorriso verdadeiro daquele dia. A tensão havia passado. O império estava seguro, os herdeiros dormiam e as suas mulheres, cada uma à sua maneira, haviam domado a fera.

A noite continuou calma, uma trégua necessária em uma vida marcada por excessos. No topo daquela torre de luxo, o tatuador mais poderoso do mundo finalmente encontrou a paz, protegido pelo silêncio que Eduarda cultivava e pela estrutura que Sara mantinha. Ele era o alfa, o provedor, mas sabia, no fundo do coração, que eram elas que realmente detinham o controle.