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O Segredo de Amélie e o Caos do Rei
O domingo de sol em São Paulo parecia o cenário perfeito para uma tarde tranquila. Emanuel, após uma semana exaustiva gerenciando a abertura de um novo estúdio em Milão via videoconferências, decidiu que precisavam de um momento em família no parque privativo do condomínio de luxo. No entanto, "tranquilidade" era uma palavra que raramente sobrevivia por muito tempo na órbita de sua vida.
Enquanto Benício corria atrás de uma bola, fazendo Eduarda suar para acompanhá-lo com seu vestido floral leve, e Valentina insistia que Sara a balançasse no balanço — mas apenas se Sara não estragasse o penteado da filha —, a pequena Amélie estava sentada em um banco próximo ao tanque de areia. Ela era a imagem da mãe: silenciosa, observadora e com um jeito dengoso que derretia o coração de Emanuel.
Quando voltaram para a cobertura, a pequena Amélie carregava algo escondido nas mãos pequenas. Ela caminhava com passos tímidos, a cabeça baixa, mas com um brilho diferente nos olhos castanhos.
— O que você tem aí, minha boneca? — perguntou Emanuel, sentando-se no sofá de couro e puxando a filha para o seu colo.
Amélie se encolheu, escondendo o rosto no pescoço do pai, o cheiro de baunilha de Eduarda misturado ao suor infantil do parquinho.
— Nada, papai... — sussurrou ela, com a voz falhando de timidez.
— Nada? — Emanuel arqueou uma sobrancelha, seus instintos protetores disparando instantaneamente. — Deixa o papai ver.
Com um movimento suave, mas firme, ele abriu as mãozinhas da filha. Lá estava um pedaço de papel dobrado de forma desajeitada, com alguns desenhos de corações feitos com giz de cera e algo escrito em letras trêmulas, típicas de uma criança que estava apenas começando a rascunhar o mundo.
Emanuel desdobrou o papel. Seus olhos percorreram as palavras: "Para Amélie. Você é bunitinha. Quer brincar de mão dada?" Assinado: "Léo".
O silêncio que se seguiu foi denso. Emanuel sentiu o sangue subir para o rosto. Suas mãos, as mesmas que tatuavam com precisão milimétrica, tremeram levemente.
— Quem... quem é Léo? — A voz de Emanuel saiu baixa, num tom que fez Eduarda parar de arrumar os brinquedos de Benício e olhar para ele com preocupação.
— É o amiguinho do parquinho, Manu — disse Eduarda, aproximando-se e tentando suavizar a situação. — Um menino loirinho, muito educado. Ele deu o papel para ela perto do escorregador. Não é fofo?
— Fofo? — Emanuel levantou-se abruptamente, colocando Amélie no sofá. Ele começou a andar de um lado para o outro na sala, o papel amassado em sua mão. — Eduarda, ela tem dois anos! Dois anos! Que tipo de delinquente precoce aborda uma menina de dois anos com uma carta de amor?
Sara, que atravessava a sala segurando uma taça de champanhe e retocando o batom, soltou uma gargalhada alta e debochada.
— Ah, por favor, Emanuel! É uma criança de três anos, no máximo. Deixe de ser dramático. Valentina recebe olhares assim o tempo todo e eu já estou ensinando ela a escolher apenas os que têm os melhores brinquedos.
— Isso não tem graça, Sara! — Emanuel rugiu, virando-se para a loira. — "Mão dada"? Ele quer andar de mãos dadas com a minha filha? Onde estão os pais desse garoto? Que tipo de criação permite que um sedutor de jardim de infância saia por aí distribuindo cartas?
— Manu, querido, calma — pediu Eduarda, tentando tocar o braço dele. — É só uma brincadeira de criança. Amélie ficou toda feliz, ela é tão sensível...
— Feliz? — Emanuel olhou para a pequena Amélie, que agora estava com os olhos cheios de lágrimas, assustada com a reação do pai. — Viu só? Ela já está sofrendo por causa desse... desse Léo!
Ele se ajoelhou na frente da filha, tentando controlar a respiração, embora seus olhos ainda chispassem de indignação.
— Amélie, escute o papai. Você é muito pequena para cartas. Você não vai dar a mão para o Léo. Você não vai dar a mão para ninguém que não seja eu, a mamãe Duda ou a Sara. Entendido?
Amélie soltou um soluço baixo e correu para as pernas de Eduarda, escondendo o rosto.
— Você está assustando ela, Emanuel! — Eduarda exclamou, sua voz ganhando uma rara nota de firmeza. — É apenas uma demonstração de carinho. Você é tão controlador que não consegue ver a doçura de nada?
— Eu sou protetor, Eduarda! Existe uma diferença — ele rebateu, passando a mão pelo cabelo, visivelmente perturbado. — Hoje é uma carta de giz de cera. Amanhã é um convite para o baile de formatura. Depois é um marmanjo querendo tirar ela de casa. Eu não vou permitir. Vou falar com o síndico. Quero saber quem é a família desse tal de Léo.
Sara revirou os olhos, sentando-se com as pernas cruzadas no sofá, observando a cena como se fosse um reality show de alta qualidade.
— Se você for reclamar com o síndico por causa de uma cartinha de amor de uma criança, Emanuel, eu juro que gravo e posto na internet. Vai ser o fim da sua reputação de "tatuador durão". O grande Emanuel, o mestre das agulhas, derrotado por um desenho de coração e um menino chamado Léo.
— Cale a boca, Sara — disse ele, embora a fúria estivesse começando a dar lugar a uma frustração ridícula. Ele olhou para o papel novamente. — "Bunitinha". Ele nem sabe escrever "bonitinha" direito! É um analfabeto funcional!
— Ele tem três anos, seu idiota! — Sara riu, quase engasgando com o champanhe.
Eduarda, enquanto isso, pegou Amélie no colo e começou a balançá-la, sussurrando palavras de conforto.
— Não liga para o papai, meu amor. Ele só está com ciúmes porque você é a princesinha dele.
Emanuel parou no meio da sala, sentindo o peso do olhar das duas mulheres. Eduarda o olhava com uma mistura de pena e reprovação; Sara o olhava com puro divertimento. E havia Benício, que aproveitando a distração geral, estava tentando escalar a estante de livros, e Valentina, que observava tudo com um ar de superioridade, como se as emoções da irmã fossem algo abaixo de sua dignidade.
— Eu não estou com ciúmes — mentiu Emanuel, a voz agora mais baixa. — Só acho que temos que estabelecer limites. A Amélie é... ela é muito delicada. Ela não sabe se defender de... de predadores.
— Predadores de fralda, Emanuel? Sério? — Sara levantou-se e caminhou até ele, ajeitando a gola da camisa dele com um toque possessivo e provocante. — Você é rico, poderoso e tem metade do corpo tatuado com desenhos que fariam esse tal de Léo chorar por uma semana. Relaxa. Se ele chegar perto demais, você mostra as tatuagens e faz cara de mau. Mas agora, pare de assustar a menina.
Emanuel olhou para Sara, sentindo a tensão diminuir um pouco sob o toque dela, mas logo seu olhar se voltou para Eduarda. Ela estava sentada na poltrona, com Amélie quase dormindo em seu colo, o rosto ainda marcado pelas lágrimas. O peito de Emanuel apertou. Ele odiava ser o motivo da tristeza de Eduarda ou das crianças.
Ele caminhou até elas e se agachou ao lado da poltrona.
— Me desculpa, Duda — disse ele, a voz rouca. — Eu só... eu não estou pronto para isso. Ver ela com aquela carta... foi como se o tempo estivesse correndo rápido demais.
Eduarda sorriu, aquele sorriso suave que sempre desarmava Emanuel. Ela estendeu a mão e acariciou o rosto dele, sentindo a barba por fazer.
— Eu sei, Manu. Mas ela vai crescer. E ela sempre vai precisar que você seja o porto seguro dela, não o carcereiro. Deixa ela guardar a cartinha. É a primeira memória de que alguém além de nós a acha especial.
Emanuel suspirou, derrotado pela lógica emocional de Eduarda.
— Tudo bem. Ela pode guardar. Mas — ele levantou um dedo, voltando o olhar para Sara — se eu vir esse tal de Léo tentando dar as mãos para ela de novo, eu vou ter uma conversa séria com o pai dele na academia do prédio.
— Ai, que medo — zombou Sara, caminhando em direção à cozinha. — Vou pedir pizza. E antes que você pergunte, não, não vou pedir uma de "coração" para homenagear o genro que você acabou de ganhar.
— Sara! — Emanuel e Eduarda gritaram em uníssono.
A noite caiu sobre o apartamento, e o caos habitual retomou seu curso. Benício finalmente foi capturado por Emanuel antes de derrubar uma escultura de cristal; Valentina exigiu que sua pizza fosse servida em um prato diferente porque o dela "tinha uma cor comum demais"; e Amélie, já de pijama, segurava a cartinha amassada contra o peito enquanto bebia seu leite no colo de Eduarda.
Emanuel observava a cena da varanda, o vento frio da noite batendo em seu rosto. Ele era um homem que lidava com o controle, com a dor da agulha na pele, com grandes negócios e decisões rápidas. Mas ali, naquela sala, ele era apenas um pai apavorado com a ideia de que o mundo, eventualmente, tentaria levar um pedaço do que ele mais amava.
Sentiu dois perfumes diferentes se aproximarem. Eduarda encostou-se em seu lado esquerdo, o cheiro de sabonete e baunilha trazendo uma paz imediata. Sara parou do lado direito, o cheiro de perfume caro e a presença vibrante lembrando-o de que a vida era uma luta constante por espaço e poder.
— Você vai sobreviver, tatuador — disse Sara, oferecendo-lhe um gole de vinho. — Mas prepare o coração. Se a Amélie é o alvo agora, imagine quando a Valentina começar a escolher os pretendentes. Ela não vai aceitar cartas de giz de cera. Ela vai querer diamantes.
Emanuel soltou uma risada amarga, bebendo o vinho.
— Eu vou precisar de muito mais do que estúdios de tatuagem para sustentar o ego daquela menina.
— Você vai ser um ótimo pai para elas em todas as fases, Manu — murmurou Eduarda, segurando a mão dele. — Porque você se importa. Mesmo que seja um pouco exagerado às vezes.
— Um pouco? — Sara riu. — Ele quase declarou guerra a uma criança de três anos!
Emanuel puxou as duas para mais perto, um braço ao redor da cintura de cada uma. Naquele momento, no topo da cidade, cercado pela timidez doce de Eduarda e pela audácia vulgar de Sara, ele percebeu que a cartinha de Léo era apenas o começo de uma longa jornada. Uma jornada onde ele não teria o controle total, por mais que tentasse.
— Eu só quero que elas sejam felizes — disse ele, olhando para as luzes da cidade.
— Elas já são, querido — respondeu Eduarda, fechando os olhos e aproveitando o calor dele.
— E se não forem, a gente compra a felicidade delas ou destrói quem ousar deixá-las tristes — completou Sara, com um sorriso predatório.
Emanuel sorriu. Entre o amor incondicional e a proteção feroz, ele sabia que sua família era um ecossistema estranho, mas indestrutível. E, quanto ao tal Léo... bem, Emanuel ainda pretendia descobrir quem era o garoto, só por precaução. Afinal, um pai nunca baixa a guarda totalmente.
Lá dentro, na gaveta da mesa de cabeceira de Eduarda, a cartinha de giz de cera repousava, protegida. O primeiro segredo de Amélie, guardado em um lar onde o amor era tão complexo e profundo quanto as tatuagens na pele de seu pai.