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Velas, Agulhas e Arrependimento

A tensão no apartamento de Emanuel não era mais o barulho estridente de Benício ou os caprichos de Valentina. Era algo muito pior: o silêncio. Um silêncio gélido, pesado e carregado de mágoa que se arrastava por dois dias. Emanuel, em um momento de estresse absoluto após perder um contrato milionário em Tóquio, tinha explodido. Ele não gritara apenas com as crianças; ele descontara nas duas mulheres que eram os pilares de sua vida.

Para Eduarda, ele tinha dito que sua passividade era irritante e que ela precisava "crescer e parar de agir como uma criança dependente". Para Sara, o golpe fora na vaidade e na utilidade: ele a chamara de fútil, dizendo que ela era "apenas um gasto extravagante que não somava nada à rotina da casa". O resultado foram duas mulheres magoadas. Eduarda se recolhera em um choro silencioso e convulsivo no quarto dos gêmeos; Sara, por sua vez, respondera com um olhar de puro ódio antes de se trancar em seu closet, onde os soluços foram abafados por cabides de grife.

Emanuel agora encarava o reflexo no espelho do seu estúdio particular em casa. Ele se sentia um lixo. A racionalidade que tanto pregava tinha falhado. Ele sabia que Eduarda não era infantil, era sensível; e sabia que Sara não era inútil, era a força que mantinha a engrenagem social de sua vida girando.

— Eu sou um idiota — rosnou ele para o próprio reflexo, ajustando a camisa preta.

Ele tinha um plano. Não era apenas um pedido de desculpas verbal; Emanuel sabia que, para essas duas mulheres tão diferentes, ele precisava de abordagens distintas, mas que convergissem para o mesmo ponto: o reconhecimento de que ele não era nada sem elas.

A primeira parte do plano começou à tarde. Ele contratou uma equipe de babás de extrema confiança para levar os gêmeos e Valentina para a casa de campo da família por uma noite. O apartamento precisava estar vazio.

Quando a noite caiu, o ambiente estava transformado. O cheiro de tinta e couro, típico de Emanuel, foi substituído por uma mistura estratégica: incenso de sândalo e o aroma de pratos sofisticados sendo finalizados na cozinha por um chef particular que ele dispensara minutos antes de elas chegarem.

Eduarda foi a primeira a sair do quarto. Ela vestia um pijama de seda simples, os olhos ainda um pouco inchados, o cabelo castanho preso em um coque frouxo. Ela parou no topo da escada, surpresa ao ver a sala iluminada apenas por velas.

— Manu? — chamou ela, a voz falha e tímida.

— Aqui embaixo, Duda — respondeu ele, de pé junto à mesa de jantar.

Logo depois, o som de saltos baixos anunciou Sara. Ela estava impecável, como sempre, mas o brilho agressivo em seus olhos estava opaco. Ela usava um vestido preto justo, mas não havia o sorriso irônico de sempre.

— Se isso for uma tentativa barata de evitar que eu peça o divórcio antes mesmo de casarmos, Emanuel, saiba que está funcionando apenas 10% — disse Sara, cruzando os braços, a voz tingida de uma amargura que ela tentava esconder com arrogância.

Emanuel respirou fundo e caminhou até o centro da sala, ficando entre as duas.

— Eu não chamei vocês aqui para dar desculpas vazias — começou ele, olhando primeiro para Eduarda, que parecia prestes a chorar de novo, e depois para Sara, que mantinha o queixo erguido. — Eu chamei vocês porque eu falhei. Eu fui cruel, fui injusto e usei as inseguranças de vocês como armas para aliviar o meu próprio estresse. Isso é imperdoável.

— Você me chamou de inútil, Emanuel — disse Sara, a voz tremendo levemente, algo raro para ela. — Eu administro essa casa, eu cuido da imagem da sua marca, eu lido com as pessoas que você odeia para que você possa ficar no seu estúdio sendo o "artista gênio".

— E você disse que eu sou um fardo — sussurrou Eduarda, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu dou tudo de mim para os nossos filhos, Manu. Eu tento ser a paz que você diz que precisa... e você me jogou isso na cara como se fosse um defeito.

Emanuel sentiu um aperto no peito que nenhuma agulha de tatuagem jamais conseguiria replicar. Ele deu um passo à frente, pegando a mão de Eduarda e, surpreendentemente, estendendo a outra para Sara. No início, Sara hesitou, mas acabou cedendo.

— Duda — disse ele, voltando-se para a morena —, sua doçura não é fraqueza. É o que me mantém humano. Sem você, eu seria apenas uma máquina de ganhar dinheiro e fazer arte fria. Você é a alma dessa família. Eu fui um covarde ao atacar a sua sensibilidade.

Ele beijou a mão de Eduarda, que soluçou baixinho, encostando a testa no ombro dele. Emanuel então se virou para Sara.

— E Sara... você é a força que eu não tenho. Você é brilhante, agressiva e protetora. Chamar você de fútil foi a maior mentira que já saiu da minha boca. Você é o motor que faz tudo funcionar. Eu te ataquei porque você é o único espelho que me mostra quando eu estou sendo fraco, e eu não agüentei ver a verdade.

Sara desviou o olhar, uma lágrima solitária estragando sua maquiagem perfeita. Ela limpou o rosto rapidamente com as costas da mão.

— Você é um desgraçado quando quer, Emanuel — murmurou ela, mas o tom não era mais de ódio.

— Eu sei. E é por isso que eu preparei algo.

Ele as conduziu até a mesa, mas não era apenas para o jantar. No centro, havia duas caixas de veludo negro.

— Abram — pediu ele.

Eduarda abriu a sua primeiro. Dentro, um colar de ouro delicado com um pingente de pincel e uma pequena paleta de cores, adornada com diamantes minúsculos. No verso, gravado: "Minha inspiração".

— Para você nunca esquecer que sua arte de viver é o que me guia — disse ele.

Sara abriu a caixa dela. Era um relógio de edição limitada, cravejado de safiras, uma peça de engenharia e luxo que exalava poder. No verso, a gravação dizia: "Minha Rainha, meu Norte".

— Para você saber que eu reconheço cada segundo do seu esforço por nós — Emanuel completou.

Eduarda abraçou o colar contra o peito, os olhos brilhando. Sara olhou para o relógio e depois para Emanuel, soltando um suspiro longo.

— Você acha que joias resolvem tudo? — perguntou Sara, embora já estivesse colocando o relógio no pulso.

— Não — respondeu Emanuel seriamente — , eu sei que não. Por isso, eu tomei outra decisão. Eu cancelei minhas viagens pelos próximos dois meses. Vou ficar aqui. Vou levar as crianças na escola, vou estar presente nos jantares e vou ouvir vocês. Eu não quero ser apenas o provedor rico que chega em casa e explode. Eu quero ser o homem que merece vocês duas.

Eduarda ergueu o rosto e o beijou suavemente, um beijo que cheirava a perdão e alívio. Sara, sem querer ficar atrás, puxou Emanuel pelo colarinho da camisa e o beijou com a intensidade de sempre, marcando o território, mas também aceitando a trégua.

— É bom que você cumpra isso, Emanuel — disse Sara, recuperando um pouco de sua postura habitual. — Porque a próxima vez que você me chamar de fútil, eu vendo metade das suas máquinas de tatuagem e gasto o dinheiro em sapatos.

Emanuel riu, um som genuíno que quebrou o restante da tensão na sala.

— Eu não duvido disso.

— E eu... — começou Eduarda, limpando os olhos — eu vou tentar ser mais forte, Manu. Mas por favor, não me peça para deixar de ser quem eu sou.

— Nunca mais — prometeu ele, abraçando as duas simultaneamente.

Eles se sentaram para o jantar. A conversa começou a fluir, primeiro sobre as crianças, depois sobre os planos para os próximos meses de calmaria. Sara, em um gesto raro, serviu vinho para Eduarda e comentou sobre como o novo colar combinava com o tom de pele dela. Eduarda, por sua vez, elogiou a firmeza de Sara ao lidar com a Valentina na ausência de Emanuel.

A convivência entre as duas nunca seria de "melhores amigas", mas havia um respeito mútuo forjado na necessidade de manter aquele homem equilibrado. Elas sabiam que eram as duas metades de um todo que Emanuel precisava para não desmoronar.

— Onde as crianças estão exatamente? — perguntou Eduarda, sentindo falta do peso de Amélie em seu colo.

— Estão na fazenda com as babás e os seguranças — explicou Emanuel. — Valentina provavelmente está tentando dar ordens aos cavalos e Benício deve estar tentando escalar o celeiro.

— E a Amélie? — Eduarda sorriu com a imagem.

— A Amélie deve estar colhendo flores e perguntando quando a mamãe chega — Emanuel tocou a mão de Eduarda sobre a mesa.

— Amanhã cedo vamos buscá-los — disse Sara, bebericando seu vinho. — Mas hoje... hoje o Emanuel vai ter que se esforçar muito para compensar o estresse que nos fez passar.

Emanuel olhou para as duas, a luz das velas refletindo em seus olhos. Ele sabia que o caminho para a redenção total seria longo, mas aquela noite era o primeiro passo.

— Eu farei o que for preciso — afirmou ele.

Após o jantar, eles se mudaram para a área externa, onde a piscina refletia as luzes da cidade. O silêncio agora era confortável. Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, enquanto Sara se sentou do outro lado, descansando a perna sobre a dele, um gesto de posse que ele não contestou.

— Sabe, Manu... — começou Eduarda, observando as estrelas — às vezes eu acho que a gente vive em um mundo só nosso. As pessoas não entenderiam.

— As pessoas não precisam entender — Sara interveio, a voz baixa e rouca. — Elas só precisam saber que ninguém mexe com o que é nosso.

Emanuel sentiu uma onda de gratidão. Ele era um homem de sorte, e pela primeira vez em muito tempo, a racionalidade deu lugar ao sentimento puro. Ele não precisava controlar tudo o tempo todo. Ele só precisava amar aquelas mulheres e ser a rocha que elas esperavam que ele fosse.

— Eu amo vocês — disse ele, as palavras saindo pesadas de sinceridade.

Eduarda apertou a mão dele. Sara apenas deu um sorriso de canto de boca, mas o modo como ela apertou o braço dele dizia tudo.

A noite terminou com a promessa de um novo começo. Emanuel sabia que as tempestades voltariam — Benício cresceria, Valentina se tornaria ainda mais difícil e Amélie continuaria a atrair "Léos" com suas cartinhas de giz de cera. Mas, enquanto ele tivesse a doçura de Eduarda para acalmá-lo e a garra de Sara para impulsioná-lo, ele sabia que seu império, e seu coração, estariam em boas mãos.

Naquela noite, as lágrimas secaram, as joias brilharam e o tatuador rico e poderoso aprendeu que a tatuagem mais profunda e permanente não era feita com agulhas, mas com as palavras que se escolhe dizer — ou calar — para aqueles que amamos.