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Entre o Sangue e o Zelo

O hospital particular de elite tinha um aroma persistente de limpeza cítrica e o som constante, quase hipnótico, de sapatos de borracha contra o piso de granito polido. Para Emanuel, aquele ambiente era o ápice da perda de controle. Ele, que geria impérios de tatuagem e negócios internacionais com um olhar gélido e racional, sentia-se desarmado diante do choro manhoso de Valentina.

A pequena, geralmente tão altiva e cheia de si, estava murcha no colo do pai. A febre alta deixara suas bochechas rosadas de um jeito doentio, e o laço de fita impecável agora pendia torto em seu cabelo bagunçado.

— Papai, dói... eu quero ir embora. Esse lugar é feio — resmungou a menina, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel.

— Eu sei, meu amor. O médico só vai ver por que essa febre não passa e já vamos para casa — Emanuel murmurou, apertando-a contra o peito. Ele estava tenso, a mandíbula travada, os olhos observando cada enfermeira que passava como se fossem ameaças em potencial.

Ao seu lado, Sara era a personificação da ansiedade glamourosa. Mesmo em uma emergência pediátrica, ela não perdia a pose, embora o tremor em suas mãos denunciasse o nervosismo. Usava um conjunto de ginástica de grife, justo e decotado, que atraía olhares de todos os lados, mas sua atenção estava integralmente na filha.

— Se aquele médico demorar mais cinco minutos, eu vou invadir aquela sala — declarou Sara, cruzando os braços e batendo o salto da sandália no chão. — Emanuel, faça alguma coisa. Você paga uma fortuna de convênio para a nossa filha ser tratada como se fosse qualquer uma?

— Calma, Sara. Reclamar não vai baixar a temperatura dela — Emanuel respondeu, tentando manter a voz baixa, embora o estresse estivesse acumulado na base de seu pescoço. — Eles estão preparando o leito para a medicação.

— Eu odeio ver ela assim, me dá uma agonia — Sara confessou, aproximando-se e acariciando a perna da filha. Ela olhou para o marido, e por um breve momento, a máscara de mulher fatal e irônica caiu, revelando a mãe preocupada. — Você está bem? Está com aquela cara de quem vai explodir.

Emanuel suspirou, relaxando os ombros por um segundo enquanto olhava para a esposa.

— Só estou preocupado. Mas vai ficar tudo bem.

A enfermeira finalmente os chamou para a área de observação. Enquanto caminhavam pelo corredor longo que dividia a pediatria da ala de infusão geral, Emanuel manteve os olhos atentos. Foi então que, através de uma divisória de vidro entreaberta na ala ao lado, ele a viu.

O mundo pareceu desacelerar.

Eduarda estava sentada em uma poltrona reclinável de couro azul. Ela parecia ainda menor do que o habitual, quase engolida pelo estofado. Vestia um vestido de algodão leve, de um tom azul-claro que combinava com a palidez de sua pele. O braço esquerdo estava estendido, conectado a um cateter por onde descia, gota a gota, um líquido vermelho denso: uma bolsa de sangue.

Ela estava com os olhos fechados, a cabeça encostada em um pequeno travesseiro, os fones de ouvido isolando-a do burburinho do hospital. Parecia um anjo de porcelana em processo de restauração.

Emanuel parou abruptamente. O coração, que já batia acelerado por Valentina, deu um solavanco diferente. Era um puxão instintivo, uma necessidade quase física de atravessar aquele vidro e segurar a mão dela.

— Emanuel? — Sara chamou, percebendo a hesitação do marido. Ela seguiu a direção do olhar dele e seus olhos se arregalaram levemente. — É a Duda?

Emanuel não respondeu de imediato. Ele estava hipnotizado pela fragilidade de Eduarda. Sabia que ela tinha anemia, ela havia mencionado o cansaço na semana anterior, mas vê-la ali, dependente daquele suporte vital, despertou nele um instinto protetor que beirava a agressividade. Ele queria ser o sangue correndo naquelas veias; queria ser o suporte que a mantinha em pé.

— Ela está fazendo tratamento — murmurou Emanuel, a voz mais rouca que o normal. — Ela me disse que se sentia fraca, mas não imaginei que estivesse nesse nível.

Sara observou a cena com uma mistura de simpatia e uma análise prática. Ela não sentia uma ponta sequer de ciúmes; pelo contrário, ver Eduarda ali, tão vulnerável, só confirmava o que ela já sabia: aquela menina precisava deles. Precisava da força de Emanuel e da vivacidade dela.

— Coitada... ela parece tão sozinha, Manu — disse Sara, tocando o braço do marido. — Olha a carinha dela. Os pais devem estar trabalhando e ela veio por conta própria. Ela é muito boba, deveria ter avisado a gente.

— Eu vou lá — Emanuel disse, dando um passo, mas Sara o segurou.

— Agora não, meu amor. A Valentina está queimando de febre e a enfermeira está esperando. A Duda está medicada, ela está segura por enquanto. Vamos cuidar da nossa pequena primeiro, e depois você vai lá falar com ela. Eu fico com a Valentina no quarto.

Emanuel olhou para a filha em seus braços, que gemia baixinho, e depois para a mulher na poltrona. O conflito interno era visível em suas feições severas. Ele amava Sara com uma intensidade construída em anos de parceria, luxo e cumplicidade. Mas Eduarda... Eduarda era a peça que faltava para suavizar as arestas de sua alma bruta.

— Tudo bem — ele concordou, embora seus olhos permanecessem fixos em Eduarda por mais alguns segundos. — Vamos levar a Valentina.

Cerca de uma hora depois, após Valentina ter sido medicada com antitérmicos na veia e finalmente ter pegado no sono em um leito confortável, a tensão no quarto diminuiu. Sara estava sentada ao lado da cama da filha, mexendo no celular e conferindo as vendas de sua loja, agindo como se o ambiente hospitalar fosse apenas mais um cenário onde ela exercia seu domínio.

— Vai lá, Emanuel — disse Sara, sem tirar os olhos da tela. — Eu sei que você está tendo um treco. Vá ver como o seu "anjo barroco" está.

Emanuel a olhou, grato pela compreensão dela que beirava o sobrenatural.

— Tem certeza?

— Tenho, querido. Eu te conheço. Se você não for, vai acabar quebrando alguma coisa de tanto estresse acumulado. E aproveita e pergunta se ela quer que a gente leve ela para casa. Eu não vou deixar aquela menina pegar um Uber nesse estado.

Emanuel inclinou-se e beijou a testa de Sara, um beijo demorado que carregava todo o seu amor e respeito. Depois, beijou a mão pequena de Valentina e saiu do quarto.

Ele caminhou com passos firmes até a ala de infusão. Eduarda ainda estava lá, mas a bolsa de sangue estava quase no fim. Ela parecia ter despertado de um cochilo, pois guardava os fones de ouvido na bolsa com movimentos lentos e um tanto trêmulos.

— Eduarda.

A voz dele, profunda e carregada de uma autoridade carinhosa, fez com que ela desse um pequeno pulo na poltrona. Ela levantou o rosto, e os olhos castanhos, ainda um pouco nublados pelo sono e pela fraqueza, encontraram os dele.

— Emanuel? — Ela piscou, confusa, como se estivesse sonhando. — O que... o que você está fazendo aqui?

Ele se aproximou e, sem pedir permissão, puxou um mocho e sentou-se bem à frente dela, quebrando qualquer barreira de espaço pessoal.

— A Valentina teve uma crise de febre. Viemos para a emergência — explicou ele, seus olhos percorrendo o rosto dela, notando as olheiras suaves e a transparência da pele. — Mas eu te vi aqui. Por que não me contou que o tratamento era tão sério?

Eduarda sentiu o rosto esquentar, uma reação automática à presença esmagadora dele. Emanuel exalava um cheiro de perfume amadeirado e couro que parecia preencher todo o cubículo.

— É só anemia, Emanuel... eu faço isso de tempos em tempos. Meus pais queriam vir, mas eles tinham uma vernissage importante hoje e eu insisti que podia vir sozinha. Não queria incomodar ninguém.

— Você nunca incomoda — rebateu ele, a voz ficando mais baixa e firme. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que poucos conheceriam, tocou o rosto dela com as costas dos dedos. — Você é importante demais para estar aqui sozinha, Eduarda.

Ela estremeceu ao toque. A mão dele era grande, quente e levemente áspera por causa do trabalho com as máquinas de tatuagem, mas o gesto era de uma ternura que a desarmava completamente.

— Eu estou bem, de verdade. Já estou me sentindo melhor com o sangue novo — ela tentou brincar, mas sua voz saiu num sussurro manhoso.

— Você vai para casa com a gente — ele afirmou, não como um convite, mas como uma decisão tomada. — A Sara está lá em cima com a Valentina. Assim que a bolsa terminar e o médico te liberar, eu venho te buscar.

— Emanuel, não precisa... a Sara vai se importar, ela está com a filha doente, vocês têm mais o que fazer...

Emanuel soltou uma risada curta, sem humor.

— Foi a Sara quem me mandou aqui, Eduarda. Ela está tão preocupada com você quanto eu. Nós cuidamos do que é nosso, e você... — Ele fez uma pausa, o olhar fixo nos lábios dela por um segundo antes de voltar aos olhos. — Você entrou no nosso radar e não vai sair.

Eduarda sentiu o coração falhar uma batida. A forma como ele falava, incluindo Sara no sentimento, mas mantendo aquela intensidade direcionada apenas a ela, era algo que sua mente tímida ainda não conseguia processar totalmente.

— Por que vocês são assim comigo? — ela perguntou, a voz falhando. — Eu sou só a professora de balé da Valentina.

Emanuel inclinou-se para frente, reduzindo a distância entre eles a poucos centímetros. O ar parecia ter acabado na pequena sala.

— Você sabe que não é só isso. Eu sei que você sente, Eduarda. Sente quando eu entro na sala, sente quando eu te olho. Eu não sou um homem de meias palavras. Eu amo a minha mulher, e ela é a base de tudo o que eu construí. Mas o que eu sinto quando vejo você... é algo que eu não consigo e não quero ignorar. E a Sara sente a mesma coisa. Ela quer você por perto tanto quanto eu.

Eduarda estava paralisada. As palavras dele eram como tatuagens sendo gravadas em sua mente: definitivas, dolorosas e belas. Ela queria fugir daquela intensidade, mas ao mesmo tempo, sentia um desejo desesperado de se aninhar no peito dele e deixar que ele resolvesse todos os seus problemas.

— Eu... eu não sei o que dizer — ela sussurrou, as lágrimas começando a brotar nos olhos devido à sobrecarga emocional.

— Não diga nada. Só aceite o cuidado — ele disse, limpando uma lágrima que escapou com o polegar. — Vou ver como está a Valentina e volto em quinze minutos. Não saia daqui.

Ele se levantou, a figura alta e imponente bloqueando a luz do corredor por um momento antes de se afastar. Eduarda ficou ali, sentindo o lugar onde ele a tocara queimar de um jeito doce.

Quando Emanuel voltou ao quarto de Valentina, encontrou Sara de pé, olhando pela janela.

— E então? — perguntou ela, virando-se com um sorriso cúmplice. — Ela aceitou?

— Ela não teve muita escolha — Emanuel respondeu, aproximando-se da esposa e abraçando-a por trás, descansando o queixo em seu ombro. — Ela está assustada, Sara.

— É claro que está. Ela é uma bonequinha de porcelana, Manu. E a gente é um terremoto — Sara riu, encostando a cabeça na dele. — Mas ela vai se acostumar. Eu gostei da ideia dela vir para casa com a gente. Podemos cuidar das duas "crianças" ao mesmo tempo.

Emanuel sorriu levemente, apertando o abraço. A dinâmica entre eles era única. Outra mulher estaria fazendo uma cena, exigindo exclusividade ou sentindo-se traída. Mas Sara era segura demais, poderosa demais para se sentir ameaçada. Ela via em Eduarda não uma rival, mas uma adição, alguém que traria a doçura que muitas vezes faltava na vida agitada e bruta que eles levavam.

— Você é incrível, sabia? — murmurou Emanuel no ouvido de Sara.

— Eu sei — ela respondeu, com sua habitual modéstia irônica. — Agora vai lá buscar a nossa bailarina. Eu vou ligar para a loja e dizer que não vou amanhã. Temos uma doente e uma anêmica para alimentar com o melhor caldo de carne que o seu dinheiro pode comprar.

Emanuel saiu do quarto com o coração mais leve. A tensão que o acompanhava desde a manhã parecia ter encontrado um propósito.

Vinte minutos depois, ele ajudava Eduarda a caminhar pelo corredor. Ela estava trêmula, o efeito da transfusão ainda a deixando um pouco tonta. Emanuel passou o braço pela cintura dela, segurando-a com firmeza, sentindo a maciez do corpo dela contra o seu.

— Apoie-se em mim, Eduarda. Eu te seguro — ele disse, a voz sendo um porto seguro.

Ao chegarem ao carro, Sara já estava lá, tendo descido com Valentina no colo, que agora dormia profundamente em sua cadeirinha. Sara abriu a porta do passageiro para Eduarda com um sorriso radiante.

— Entra aí, boneca. Vamos tirar você desse cheiro de hospital.

— Sara, eu realmente não quero incomodar... — Eduarda tentou protestar uma última vez, mas Sara apenas revirou os olhos.

— Duda, querida, se você falar "incomodar" mais uma vez, eu vou ser obrigada a te dar um beijo só para você ficar quieta. E olha que eu uso um batom que não sai fácil — Sara provocou, piscando.

Eduarda ficou vermelha instantaneamente e entrou no carro, sentando-se entre a energia vibrante de Sara e a presença constante e protetora de Emanuel, que assumiu o volante.

Enquanto o carro de luxo deslizava pelas ruas da cidade, Eduarda olhava pela janela, sentindo o calor das duas pessoas ao seu lado. Ela pensou em seus pais, que sempre disseram que o amor era a arte de encontrar onde se encaixar. Pela primeira vez, ali, naquele carro, cercada pelo cheiro de couro, perfume caro e o som da respiração pesada de uma criança, a pequena bailarina sentiu que, talvez, tivesse encontrado um palco onde não precisaria dançar sozinha.

Emanuel olhou pelo retrovisor, capturando o olhar de Eduarda. Ele não disse nada, mas o leve aceno de cabeça e a firmeza com que segurava o volante diziam tudo. Ele a tinha. Eles a tinham. E dali em diante, o mundo de Eduarda nunca mais seria de cores pálidas e silêncios solitários. Seria um quadro pintado com o vermelho vibrante de Sara e o traço inabalável de Emanuel.