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Capítulo 2: Desejos à Meia-Noite e o Peso do Zelo

O sol daquela tarde de quinta-feira entrava pelas janelas da suíte principal da mansão de Emanuel, refletindo-se nas superfícies de mármore e vidro. Sara estava sentada na beira da cama king-size, os olhos brilhando enquanto abria uma caixa de veludo azul-marinho. Dentro, um colar de diamantes negros e ouro branco reluzia, uma peça exclusiva que Emanuel havia encomendado de um designer europeu.

— Você realmente sabe como manter uma mulher interessada, Manu — disse Sara, soltando uma risada irônica e vitoriosa enquanto erguia a joia contra a luz. — É maravilhoso. Combina com o meu humor hoje: caro e perigoso.

Emanuel, que estava terminando de ajustar as abotoaduras de sua camisa social cinza-chumbo, aproximou-se dela. Ele parou atrás da esposa, observando o reflexo dos dois no espelho. A loira, com suas curvas acentuadas e aquele ar de quem domina o mundo, era o seu porto seguro de adrenalina. Ele inclinou-se e beijou o pescoço dela, sentindo o perfume doce e marcante.

— Você merece, Sara. Gosto de ver você usando o que há de melhor — murmurou ele, a voz grave vibrando contra a pele dela. — E gosto ainda mais de saber que fui eu quem deu.

Sara virou-se nos braços dele, passando as unhas perfeitamente feitas pela nuca do marido, onde uma tatuagem de corvo desaparecia sob a gola da camisa.

— Eu sei que você gosta de marcar território, meu amor. Seja com diamantes em mim ou com aquele olhar de "dono do mundo" que você lança para a nossa bailarina — ela provocou, os lábios pintados de um vermelho vibrante curvando-se num sorriso malicioso. — Falando nela, como a Duda está? A febre da Valentina passou, mas a "anemia" da Eduarda parece que deixou ela ainda mais dengosa.

— Ela está melhor — respondeu Emanuel, sua expressão tornando-se imediatamente mais séria e protetora ao ouvir o nome de Eduarda. — Mandei entregar algumas cestas de frutas e suplementos na casa dela hoje cedo. Os pais dela são legais, mas parecem viver em outra dimensão com aquela coisa de "arte e liberdade". Alguém precisa garantir que ela coma direito.

Sara riu, afastando-se para colocar o colar.

— Você é um trator, Manu. Cuidado para não sufocar a menina. Ela é sensível, lembra? Não é igual a mim, que bato de frente. Se você apertar demais, ela quebra.

— Eu sei o que estou fazendo — ele retrucou, embora o estresse latente em seus ombros sugerisse que a situação de "querer as duas" estava começando a cobrar seu preço em sua mente controladora.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, no apartamento de decoração moderna e minimalista de seus pais, Eduarda estava tendo um tipo diferente de crise. Eram quase onze e meia da noite. Seus pais haviam saído para uma festa de encerramento de uma exposição e provavelmente só voltariam ao amanhecer.

Eduarda estava deitada no sofá, tentando ler um livro sobre o Renascimento, mas sua mente não conseguia se concentrar. Desde a transfusão de sangue, seu corpo parecia estar em um estado de alerta estranho. E, naquele momento, uma vontade avassaladora, quase irracional, tomou conta dela.

Ela precisava de um espetinho de carne. Não um jantar sofisticado, não as frutas orgânicas que Emanuel enviara, mas um espetinho de rua, daqueles com farofa e molho à campanha, que ela costumava comer perto da faculdade.

— É ridículo, Eduarda — sussurrou para si mesma, olhando para o relógio. — Está tarde. Amanhã você compra um.

Mas a vontade era física. Era manhosa. Era como se seu corpo estivesse exigindo aquela dose de sal e gordura para compensar o cansaço dos últimos dias. Ela tentou beber água, tentou comer uma maçã, mas nada resolvia.

Com a impulsividade típica de quem raramente quebra as regras, ela pegou o celular. Seus pais sempre a incentivaram a ser independente, mas sua timidez geralmente a mantinha em casa. Naquela noite, porém, a necessidade falou mais alto. Ela abriu o aplicativo de transporte, ignorando o frio na barriga, e chamou um Uber para um ponto conhecido da cidade que funcionava até tarde.

Vinte minutos depois, Eduarda estava parada em uma esquina movimentada, vestindo um moletom largo e calças legging, sentindo-se completamente fora de lugar sob a luz amarelada dos postes. O cheiro da fumaça do churrasco a atraiu até uma barraca onde um homem de avental suado virava os espetos.

— Um de carne com bastante farofa, por favor — pediu ela, a voz sumindo no barulho do trânsito.

Enquanto esperava, seu celular vibrou. Era uma mensagem de Emanuel.

"Como você está se sentindo agora à noite? Conseguiu descansar?"

Eduarda sentiu um calafrio. Ela não queria mentir, mas também não queria que ele soubesse que ela estava na rua àquela hora. Emanuel era... intenso. Ela ainda estava processando o que ele dissera no hospital.

"Estou bem, Emanuel. Só perdendo o sono um pouco", ela respondeu, tentando ser vaga.

O celular tocou imediatamente. Era uma chamada de vídeo. Eduarda entrou em pânico. Se ela não atendesse, ele ficaria desconfiado. Se atendesse, ele veria onde ela estava. Ela olhou para o espetinho fumegante que o homem acabara de lhe entregar e, num impulso de ingenuidade, atendeu, tentando manter a câmera focada apenas em seu rosto.

— Oi, Emanuel — disse ela, tentando sorrir.

Do outro lado da tela, Emanuel estava em seu escritório particular, a luz do abajur acentuando os traços duros de seu rosto. Ele franziu o cenho instantaneamente. O fundo atrás de Eduarda não era o papel de parede claro de seu quarto. Era escuro, com luzes de neon piscando ao longe e o som inconfundível de buzinas.

— Eduarda, onde você está? — A voz dele saiu como um chicote, fria e autoritária.

— Eu... eu saí rapidinho. Estava com um desejo de comer uma coisa — ela gaguejou, sentindo-se como uma criança pega em uma travessura.

Emanuel levantou-se da cadeira, o movimento brusco fazendo a câmera balançar.

— Você está na rua? À meia-noite? Sozinha? — O tom dele subiu uma oitava, carregado de uma irritação que beirava a fúria. — Ficou maluca? Você acabou de sair de um hospital, está anêmica e está no meio da rua esperando o quê?

— É só um espetinho, Emanuel! — ela tentou se defender, a voz ficando manhosa e chorosa pela pressão. — Eu peguei um Uber, não tem perigo.

— Não tem perigo? — Ele soltou um riso seco, amargo. — Você não tem noção do mundo, Eduarda. Me mande sua localização agora. Agora!

— Não precisa, eu já estou voltando...

— Eduarda, não me faça repetir. Mande a localização ou eu vou ligar para o seu pai e perguntar por que a filha dele está desprotegida na calçada a essa hora.

Eduarda sentiu os olhos arderem. A agressividade dele a assustava, mas havia algo naquele controle que também a fazia se sentir estranhamente cuidada, como se ela fosse algo valioso demais para ser deixado ao acaso. Com as mãos tremendo, ela enviou a localização.

— Fique exatamente onde você está. Não se mova — ordenou ele antes de desligar.

No quarto ao lado, Sara, que estava terminando de tirar a maquiagem, ouviu os gritos. Ela caminhou até o escritório e encontrou Emanuel pegando as chaves do carro com uma expressão que poderia matar alguém.

— O que aconteceu? A Valentina acordou? — perguntou Sara, cruzando os braços sobre o robe de seda.

— A Eduarda aconteceu — rosnou Emanuel, passando por ela como um furacão. — Aquela menina está na rua, sozinha, no meio da noite, para comer a droga de um espetinho. Ela não tem juízo nenhum.

Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa, mas logo soltou uma risada alta.

— Um espetinho? Sério? Nossa bailarina tem desejos de grávida e coragem de leão. Eu não disse que ela era uma fofa, Manu?

— Isso não é engraçado, Sara! — ele explodiu, parando na porta. — Ela está fraca, está sozinha. Se alguém mexer com ela...

Sara aproximou-se e tocou o peito dele, sentindo o coração de Emanuel batendo descompassado.

— Eu sei, meu amor. Você está possesso porque não pode controlar o que acontece com ela o tempo todo. Vai lá. Busca a nossa garota. Traz ela para cá se for preciso, ou deixa ela em casa, mas garante que ela chegue inteira. Eu fico aqui cuidando da Valen.

Emanuel respirou fundo, tentando acalmar a mente racional que estava sendo obliterada pelo instinto de proteção.

— Eu vou acabar com o juízo dela — ele murmurou.

— Não, você não vai — Sara piscou para ele. — Você vai dar uma bronca, ela vai fazer aquela carinha de choro e você vai acabar comprando mais dez espetinhos para ela só para ver ela sorrir. Eu te conheço.

Emanuel não respondeu. Saiu de casa e entrou em seu SUV preto, dirigindo pelas ruas da cidade com uma pressa perigosa. Quando chegou ao local indicado, viu a pequena figura de Eduarda sentada em um banco de concreto, segurando o saco de papel com o espetinho como se fosse um tesouro, parecendo encolhida sob o moletom.

Ele parou o carro bruscamente e saiu. Eduarda levantou os olhos, e o medo que viu na expressão dele a fez se levantar rapidamente.

— Emanuel...

Ele parou na frente dela, as mãos nos quadris, respirando pesadamente. O silêncio entre eles era tenso, carregado de toda a eletricidade dos últimos dias.

— Você tem ideia do que passou pela minha cabeça vindo para cá? — ele perguntou, a voz baixa agora, o que era muito mais assustador do que o grito. — Você tem ideia de como é fácil para alguém te levar daqui?

— Eu só estava com fome... — ela sussurrou, os olhos fixos nos pés. — Meus pais sempre me deixaram sair, eu não achei que...

— Seus pais são uns irresponsáveis se acham que uma menina como você pode andar sozinha a essa hora — ele a interrompeu, dando um passo para dentro do espaço pessoal dela. — Você não é qualquer uma, Eduarda. Você é... você é minha. E eu não admito que você se coloque em risco dessa forma.

O uso da palavra "minha" fez o estômago de Eduarda dar voltas. Não era um "minha" romântico tradicional; era algo possessivo, denso, que vinha acompanhado de uma responsabilidade que ela nunca sentira antes.

— Eu não sou sua — ela tentou dizer, mas a voz saiu sem força, quase como um convite para ser refutada.

Emanuel soltou um suspiro pesado e, antes que ela pudesse reagir, ele a puxou para um abraço apertado. Não era um abraço carinhoso; era um abraço de alívio, de quem recupera algo que achou ter perdido. Eduarda congelou por um segundo, mas o calor que emanava dele, o cheiro de tabaco e perfume caro, e a firmeza de seus braços a fizeram relaxar. Ela enterrou o rosto no peito dele, sentindo-se protegida de uma forma que seus pais "modernos" nunca conseguiram proporcionar.

— Entra no carro — disse ele, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Agora.

Ela obedeceu em silêncio. Dentro do carro, o ar condicionado estava gelado, mas o clima estava fervendo. Emanuel ligou o motor e começou a dirigir, não em direção à casa dela, mas para uma área mais calma.

— Você comeu? — ele perguntou depois de alguns minutos, o tom ainda rígido.

— Não... eu estava esperando o Uber de volta.

Ele olhou para o saco de papel no colo dela e sentiu uma mistura de raiva e uma ternura que ele odiava admitir.

— Coma. Antes que esfrie.

Eduarda abriu o saco e começou a comer o espetinho, sentindo-se a pessoa mais ridícula do mundo por estar jantando comida de rua em um carro de luxo enquanto um dos homens mais ricos e perigosos da cidade a vigiava como um falcão.

— A Sara sabe que você veio? — perguntou ela, timidamente.

— Foi ela quem me acalmou para eu não chegar aqui quebrando tudo — Emanuel admitiu, apertando o volante. — Ela gosta de você, Eduarda. Ela se preocupa. Nós dois nos preocupamos.

— Eu não entendo por que vocês fazem isso — ela disse, limpando o canto da boca com um guardanapo. — Vocês têm uma vida perfeita. Uma filha linda, dinheiro, sucesso... Por que eu?

Emanuel estacionou o carro em uma rua deserta, sob a sombra de uma árvore frondosa. Ele desligou o motor e virou-se para ela. A luz da lua entrava pelo para-brisa, iluminando apenas metade do rosto dele, deixando o outro lado em sombras, destacando as tatuagens em seu pescoço.

— Porque perfeição é um conceito vazio, Eduarda — ele explicou, a voz suavizando-se pela primeira vez naquela noite. — Eu e a Sara somos fogo e ferro. A gente se entende, a gente se ama, a gente domina o que quer. Mas falta a suavidade. Falta o que você tem. Essa sua pureza, esse seu jeito de olhar o mundo como se tudo fosse uma pintura... isso nos mantém humanos.

Ele estendeu a mão e tocou o cabelo dela, prendendo uma mecha atrás da orelha.

— A Sara não te vê como uma ameaça porque ela sabe que o que eu sinto por você não tira nada do que eu sinto por ela. Pelo contrário, só aumenta. Eu quero cuidar de você, Eduarda. Quero que você tenha tudo o que quiser, mas quero que seja sob a minha proteção.

Eduarda sentiu uma lágrima escapar. Era muita informação, muita intensidade para alguém que sempre viveu nas sombras da própria timidez.

— E se eu não conseguir ser o que vocês querem? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Você já é — Emanuel respondeu. — Agora, eu vou te levar para casa. E você vai me prometer, por tudo o que é mais sagrado, que nunca mais vai sair sozinha a essa hora. Se tiver um desejo, se quiser a lua, você me liga. Eu busco para você. Entendido?

Eduarda assentiu, sentindo um peso enorme sair de seus ombros, substituído por uma segurança que ela nunca soubera que desejava.

— Entendido, Emanuel.

Durante o trajeto de volta, o silêncio era mais confortável. Quando ele parou em frente ao prédio dela, Emanuel não a deixou sair imediatamente. Ele inclinou-se e beijou a testa dela, um gesto longo e carregado de promessas.

— Durma bem, pequena bailarina. Amanhã a Sara vai passar na sua casa. Ela decidiu que você precisa de um guarda-roupa novo para as suas "aventuras noturnas", algo que não inclua esse moletom três vezes maior que você.

Eduarda sorriu, uma risada curta e doce.

— Ela não desiste, não é?

— Nunca — Emanuel sorriu de volta, um sorriso raro que iluminou seu rosto severo. — E eu também não.

Eduarda subiu para seu apartamento sentindo o coração em festa. Ela olhou para o espetinho frio que sobrara e sorriu. Naquela noite, ela descobrira que, para Emanuel e Sara, ela não era apenas uma distração. Ela era uma necessidade. E, pela primeira vez em sua vida, a timidez de Eduarda começou a dar lugar a uma curiosidade vibrante sobre como seria viver naquele mundo de diamantes, tatuagens e um amor que não conhecia fronteiras.

Lá embaixo, Emanuel observou a luz do apartamento dela se acender. Ele pegou o celular e enviou uma mensagem para Sara.

"Ela está em casa. Segura. Você estava certa, ela me dobrou com aquela carinha de choro."

A resposta de Sara veio segundos depois, acompanhada de um emoji de coração e uma risada.

"Eu sempre estou certa, Manu. Amanhã começa a fase dois. Prepare o cartão de crédito, porque a nossa boneca vai brilhar."

Emanuel guardou o celular, sentindo uma satisfação profunda. O controle fora restabelecido, e o futuro, embora complexo e fora dos padrões, parecia mais brilhante do que qualquer diamante que ele pudesse comprar.