Voltar ao resumo

D

O Labirinto de Vidro e a Fragilidade de Seda

O sol da manhã entrava pelas claraboias da mansão, mas para Eduarda, a luz parecia ter um peso excessivo. Ela sentiu o mundo girar levemente enquanto tentava prender o cabelo em um coque apressado. O espelho devolvia uma imagem que ela tentava ignorar: a palidez excessiva, o brilho opaco nos olhos e as olheiras que nem o corretivo mais caro da loja de Sara conseguia esconder totalmente.

— Mamãe! Colo! Agora! — O grito de Amélie veio do corredor, seguido pelo som rítmico de seus passos gordinhos.

Eduarda respirou fundo, sentindo uma pontada de náusea. Ela sabia o que era aquilo. A anemia severa, aquela velha conhecida que a assombrava desde a adolescência, estava batendo à porta novamente. Entre as provas finais da faculdade de História da Arte, o planejamento das novas coreografias de balé e a dedicação integral a Amélie e Valentina, Eduarda havia negligenciado a própria saúde. Ela pulava refeições, esquecia as vitaminas e ignorava o cansaço extremo, atribuindo-o à rotina agitada de uma mãe jovem.

— Já vou, meu anjinho — Eduarda respondeu, a voz saindo mais fraca do que pretendia.

Ela caminhou até a porta e se abaixou para pegar Amélie. No momento em que levantou o peso da menina de dois anos e meio, sua visão escureceu por um segundo. As extremidades de seus dedos formigaram, e um suor frio brotou em sua testa. Ela se apoiou no batente da porta, apertando a criança contra o peito.

— Duda? Você está bem? — Sara apareceu no corredor, deslumbrante em um conjunto de academia de cor neon que ressaltava seu corpo escultural e siliconado. Ela parou abruptamente ao ver o estado da morena. — Você está branca como um papel, garota. Solta essa menina.

— Eu estou bem, Sara. Só levantei rápido demais — Eduarda mentiu, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos.

— Não minta para uma mentirosa profissional — Sara retrucou, aproximando-se e colocando a mão na testa de Eduarda. — Você está gelada. E está tremendo. Cadê o Emanuel?

— Ele está no escritório, resolvendo uns problemas com os estúdios de Tóquio. Não o incomode, por favor. Ele já está estressado demais.

Sara soltou um suspiro impaciente, cruzando os braços.

— Eduarda, você é teimosa como uma mula de exposição. Se o Manu te vir assim, ele vai ter um colapso. E com razão.

— Eu só preciso de um café — insistiu Eduarda, tentando passar por Sara com Amélie no colo.

Mas o corpo de Eduarda não compartilhava da mesma teimosia que sua mente. Ao descer o primeiro degrau da escada, seus joelhos cederam. Ela não caiu, pois Sara foi rápida o suficiente para agarrá-la pelo braço, mas o susto fez Amélie começar a chorar.

— Chega! — Sara exclamou, pegando Amélie do colo de Eduarda com uma autoridade que não admitia réplicas. — Valentina! Venha aqui agora!

A filha mais velha apareceu correndo, com sua mini tiara de strass brilhando sob a luz.

— Leve a Amélie para a sala de brinquedos e chame a babá. Agora, Valentina!

— Mas a Duda está dodói? — perguntou a menina, os olhos arregalados.

— A Duda está sendo teimosa. Vá logo!

Sara ajudou Eduarda a se sentar em um banco de veludo no corredor e, sem perder tempo, caminhou até o escritório de Emanuel. Ela não bateu; apenas escancarou a porta.

Emanuel estava com o telefone no ouvido, gesticulando com irritação enquanto olhava para três monitores diferentes. Ele levantou os olhos, pronto para dar uma bronca em quem quer que tivesse interrompido sua conferência, mas a expressão de Sara o fez congelar.

— Desliga essa porcaria, Emanuel. Agora — ordenou ela.

Emanuel murmurou algo em inglês e desligou o computador com um movimento brusco.

— O que foi? A Valentina se machucou?

— Antes fosse — disse Sara, a voz carregada de uma ironia tensa. — É a sua "outra metade". A Eduarda está desmaiando no corredor. A anemia voltou e, pelo que eu vi, voltou com tudo. E a bonitinha está tentando esconder de você.

Emanuel levantou-se tão rápido que a cadeira de couro tombou para trás. Ele passou por Sara como um furacão, o rosto transformado em uma máscara de fúria e preocupação. Quando chegou ao corredor e viu Eduarda encolhida no banco, com a cabeça baixa, ele sentiu um aperto no peito que beirava o pânico.

— Eduarda! — A voz dele saiu como um trovão, fazendo-a pular de susto.

— Emanuel... eu estou bem, sério... — ela começou, mas ele já estava ajoelhado na frente dela, segurando suas mãos frias.

— Olhe para mim — ele ordenou, o tom autoritário vibrando de irritação. — Olhe para mim agora!

Eduarda levantou os olhos, e Emanuel sentiu a raiva borbulhar. As mucosas de seus olhos estavam quase brancas. Ele tocou as mãos dela, notando a falta de cor sob as unhas.

— Você parou com os suplementos? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.

— Eu... eu esqueci alguns dias. Tive muita coisa da faculdade, e a Amélie não queria dormir sem mim, e as aulas de balé...

— Esqueceu? — Ele soltou um riso seco e amargo. — Você esqueceu de se manter viva, Eduarda? Eu te dei tudo nesta casa para que você não tivesse que se preocupar com nada, e você decide brincar com a sua saúde?

— Eu não sou um objeto, Emanuel! — ela tentou reagir, a voz manhosa subindo um tom. — Eu tenho responsabilidades. A Amélie precisa de mim.

— A Amélie precisa de uma mãe que não desmaie enquanto a carrega na escada! — ele explodiu, levantando-se e pegando-a no colo com facilidade. — Se você tivesse caído com ela, Eduarda... você tem noção do que poderia ter acontecido?

Eduarda começou a chorar, o choro fraco e exausto de quem não tinha mais forças para lutar.

— Eu só queria ser uma boa mãe... como a Sara é. Ela faz tudo, ela é forte...

Sara, que observava a cena da porta, revirou os olhos e entrou no círculo.

— Querida, eu sou siliconada e vulgar, mas eu tomo minhas vitaminas e tenho três babás para não precisar carregar peso quando estou cansada. Você quer ser a super-heroína de um livro de arte, mas esqueceu que é feita de carne e osso. E osso bem frágil, por sinal.

Emanuel levou Eduarda para o quarto principal, deitando-a na cama imensa. Ele pegou o celular e discou o número do médico particular da família.

— Doutor, aqui é o Emanuel. Preciso de você na minha casa em quinze minutos. Traga o equipamento para infusão de ferro. Não me importa se você tem cirurgia, cancele. Eu pago o dobro.

Ele desligou e voltou sua atenção para Eduarda, que tentava se sentar.

— Fique deitada — ele rosnou.

— Eu preciso ver a Amélie, ela estava chorando...

— A Amélie está com a babá e com a Sara. Você não vai tocar naquela criança até que seu sangue tenha ferro suficiente para você não parecer um fantasma — Emanuel sentou-se na beira da cama, passando a mão pelo rosto, visivelmente abalado. — Por que você faz isso, Duda? Por que se esconde de mim?

— Porque você fica assim! — ela exclamou, as lágrimas escorrendo livremente. — Você fica controlador, fica bravo, quer me trancar em uma redoma. Eu sinto que perco minha liberdade.

— Sua liberdade para morrer de desnutrição? — Ele se inclinou sobre ela, a proximidade fazendo-a estremecer. — Eu te avisei desde o primeiro dia, Eduarda. Eu cuido do que é meu. E você é minha. Se eu tiver que te trancar neste quarto e te alimentar na boca para garantir que você fique bem, eu vou fazer.

Sara entrou no quarto trazendo um copo de suco de beterraba com laranja e um prato com bifes de fígado malpassados, que o cozinheiro preparara às pressas sob suas ordens.

— Coma — disse Sara, colocando a bandeja sobre o colo de Eduarda. — E não faça cara feia. O Manu está a um passo de te internar em um hospital, e eu garanto que a comida de lá é pior.

Eduarda olhou para o prato com repulsa, mas o olhar de Emanuel era como aço. Ele pegou o garfo e cortou um pedaço da carne.

— Abra a boca — ordenou ele.

— Emanuel, eu não sou uma criança...

— Aja como uma mulher responsável e eu te tratarei como tal. Por enquanto, você é uma menina teimosa que quase deixou minha filha cair. Abra. A. Boca.

Eduarda obedeceu, mastigando a contragosto enquanto as lágrimas continuavam a cair. Sara sentou-se do outro lado da cama, lixando as unhas com uma indiferença estudada, mas seus olhos brilhavam com uma preocupação genuína.

— Sabe, Duda — começou Sara —, o Emanuel me contou que gosta de você porque você traz paz para a gente. Mas se você continuar nos dando esses sustos, a única coisa que você vai trazer é um ataque cardíaco para esse brutamontes. E eu não quero ser viúva tão cedo, o seguro de vida dele é ótimo, mas ele é muito bom de cama para ser substituído.

— Sara! — Emanuel advertiu, mas o canto de sua boca se contraiu em um quase sorriso.

— O quê? É a verdade. Coma tudo, boneca. Depois que o médico sair daqui, nós vamos ter uma conversa séria sobre a sua agenda. Nada de faculdade por uma semana. Nada de aulas de balé. E a Amélie vai ficar no colo das babás ou no meu.

— Eu não posso ficar sem dar colo para ela! — Eduarda protestou, a voz subindo de tom. — Ela é manhosa, ela chora por mim!

— Ela vai sobreviver — Emanuel sentenciou, limpando uma gota de suco do canto da boca de Eduarda. — E se ela chorar, eu a acalmo. Você precisa entender, Eduarda, que você não está sozinha. Você tem a mim e tem a Sara. Pare de tentar provar que pode fazer tudo sozinha.

O médico chegou pouco depois. O diagnóstico foi o esperado: anemia ferropriva severa por estresse e má alimentação. O procedimento foi montado ali mesmo, na suíte. Eduarda observava o líquido escuro do ferro entrando em sua veia, sentindo-se pequena e derrotada.

Emanuel não saiu do lado dela. Ele segurava sua mão livre, enquanto Sara lia em voz alta algumas fofocas de celebridades para distraí-la. A dinâmica entre os três era estranha para qualquer observador externo, mas ali, naquele quarto, era a única coisa que fazia sentido.

— Duda? — Amélie apareceu na porta, segurando seu coelhinho de pelúcia. Ela parecia confusa ao ver a "mamãe" ligada a um tubo.

Eduarda tentou se levantar, mas Emanuel a pressionou gentilmente contra o travesseiro.

— Não — disse ele.

— Deixe ela vir, Emanuel... — pediu Eduarda, os olhos suplicantes.

— Ela pode vir, mas não vai para o seu colo — Emanuel pegou Amélie e sentou-a no pé da cama, longe do braço com a agulha. — A mamãe está recarregando as baterias, pequena. Você tem que ser boazinha.

Amélie olhou para Eduarda e depois para o tubo. Com a sensibilidade aguçada das crianças, ela percebeu que algo estava errado. Ela engatinhou até as pernas de Eduarda e encostou a cabecinha nelas, ficando quieta.

— Viu? Ela entende — sussurrou Sara, tocando o cabelo de Amélie.

A noite caiu e o silêncio se instalou na mansão. Eduarda estava mais corada, o ferro começando a fazer efeito, mas a fraqueza ainda era grande. Emanuel havia cancelado todas as suas reuniões do dia seguinte. Sara decidira que dormiria ali também, na cama king-size que comportava os três com folga.

— Eu me sinto um fardo — murmurou Eduarda, quando Amélie e Valentina já estavam devidamente acomodadas em seus quartos sob os cuidados das babás.

Emanuel, que estava terminando de preencher um formulário de saúde para Eduarda, parou e olhou para ela.

— Você não é um fardo, Eduarda. Você é o nosso equilíbrio. Mas para equilibrar os outros, você precisa estar de pé. Eu te amo, e a Sara te ama. Mas eu não vou tolerar esse tipo de negligência novamente. Se eu tiver que contratar um nutricionista para te seguir na faculdade com uma lancheira, eu vou fazer. Você me conhece.

— Ele vai fazer mesmo, Duda — confirmou Sara, saindo do banheiro com uma máscara facial dourada. — Ele já comprou um rastreador para o meu carro uma vez só porque eu esqueci de avisar que ia ao shopping. Imagine o que ele fará com você.

Eduarda soltou uma risada fraca, sentindo o calor dos dois ao seu redor.

— Eu prometo que vou me cuidar. Mas não tirem a Amélie de mim... ela é meu coração.

— Ninguém vai tirar nada de você — Emanuel disse, deitando-se ao lado dela e puxando-a para o seu peito. — Mas você vai aprender a dividir o peso. A partir de amanhã, você tem horários para comer, para dormir e para descansar. E se eu descobrir que você pulou um lanche que seja...

— O que você vai fazer? — ela perguntou, a manha voltando à voz.

— Eu vou te dar um castigo que vai te fazer esquecer até o próprio nome — ele sussurrou no ouvido dela, a voz carregada de uma promessa sensual e autoritária que a fez estremecer.

Sara deitou-se do outro lado de Eduarda, apagando a luz principal.

— Boa noite, boneca de porcelana. Tente não quebrar enquanto dormimos.

Eduarda fechou os olhos, sentindo a mão firme de Emanuel em sua cintura e o perfume caro de Sara ao seu lado. A anemia era um lembrete cruel de sua fragilidade, mas o cerco de proteção que Emanuel e Sara haviam construído ao seu redor era inexpugnável. Ela era teimosa, sim, mas sabia que, naquele labirinto de vidro e tinta, ela nunca teria que enfrentar a escuridão sozinha.

Emanuel ficou acordado por mais algum tempo, ouvindo a respiração de Eduarda se estabilizar. Ele sentia uma irritação latente, uma raiva direcionada à fragilidade dela que ele não conseguia controlar, mas por trás disso, havia uma devoção absoluta. Ele a queria saudável, queria a sua bailarina vibrante e a sua mãe dedicada, e não mediria esforços para garantir que Eduarda nunca mais esquecesse que, naquele mundo, ela era a joia mais preciosa e, como tal, seria guardada sob sete chaves, ferro e muito zelo.