Voltar ao resumo

D

O Pequeno Escudo de Seda e Manha

O sol da tarde incidia sobre o jardim de inverno da mansão, criando padrões geométricos no chão de mármore, mas o clima dentro da sala de estar estava longe de ser pacífico. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro favorita, tentava manter o foco em um relatório financeiro de um de seus estúdios em Berlim, mas seus olhos insistiam em se desviar para o tapete central.

Ali, Eduarda estava sentada com as pernas cruzadas, folheando um livro de ilustrações renascentistas para Amélie. A menina, que agora completava dois anos e meio, estava aninhada no colo da "mãe" como se fosse uma extensão do corpo de Eduarda. Amélie era a personificação da manha; seus cachos castanhos caíam sobre o rosto e seus olhos grandes seguiam cada movimento de Eduarda com uma adoração possessiva.

Emanuel sentiu aquele puxão familiar no peito. Ele amava aquela cena, mas a frustração começava a borbulhar sob sua superfície controlada. Desde que Amélie fora legalmente integrada à família, ela desenvolvera uma fixação absoluta por Eduarda. Para a pequena, Emanuel era o "Papai" que provia brinquedos e segurança, e Sara era a "Tia" divertida que trazia roupas brilhantes e fazia barulho, mas Eduarda... Eduarda era o seu mundo. E Amélie não estava disposta a compartilhar seu mundo com ninguém.

— Duda, você viu onde deixei meu carregador? — Emanuel perguntou, levantando-se e caminhando em direção a elas.

Eduarda levantou o rosto, sorrindo docemente.

— Está na gaveta do aparador, Manu. Eu guardei hoje cedo porque a Amélie estava tentando morder o fio.

Emanuel parou ao lado delas e inclinou-se para dar um beijo rápido no topo da cabeça de Eduarda. Foi o suficiente para o alarme soar.

— Não! — O grito de Amélie foi agudo e imediato. Ela se jogou para frente, empurrando o rosto de Emanuel com suas mãos gordinhas. — Minha Mamãe! Sai, Papai!

Emanuel recuou, surpreso com a força da pequena.

— Amélie, o papai só vai dar um beijo na mamãe. Calma.

— Não beijo! — Amélie protestou, os olhos castanhos faiscando de uma determinação que lembrava assustadoramente a de Emanuel. Ela abraçou o pescoço de Eduarda com força, escondendo o rosto ali. — Só eu. Minha Mamãe.

Eduarda soltou uma risadinha sem jeito, acariciando as costas da bebê.

— Ela está em uma fase muito possessiva, Manu. Acho que é o sono.

— Ela está nessa "fase" há três semanas, Eduarda — Emanuel rebateu, cruzando os braços e sentindo a irritação crescer. — Eu não consigo chegar a um metro de você sem que ela faça um escândalo.

— Deixe a menina, Emanuel! — A voz de Sara ecoou do topo da escada. Ela descia os degraus exibindo um conjunto de seda pink e saltos agulha, segurando uma bolsa de grife. — Ela tem bom gosto. Sabe que a Duda é a melhor parte desta casa e quer exclusividade.

— Não é engraçado, Sara — Emanuel rosnou, embora seus olhos suavizassem ao ver a esposa loira. — Eu sou o pai dela, mas pareço um intruso.

Sara chegou ao pé da escada e caminhou até o grupo, parando para dar um tchauzinho para Amélie.

— Oi, grudinho da tia! — Sara esticou a mão para apertar a bochecha da menina, que permitiu o toque com indiferença, contanto que Sara não tentasse tirar Eduarda dela. — Viu? Comigo ela não liga. O problema é com você, Manu. Ela sente que você quer roubar a atenção da Duda. E, sejamos honestos, você quer mesmo.

— É claro que eu quero. Ela é minha mulher — Emanuel afirmou, a voz subindo um tom.

Amélie, sentindo a tensão, começou a soluçar, preparando o terreno para um choro monumental. Eduarda imediatamente começou a balançá-la, lançando um olhar de reprovação para Emanuel.

— Por favor, não grite. Ela vai ficar agitada a noite toda.

Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para não explodir. Ele amava aquela criança, mas o seu lado controlador e possessivo estava entrando em colisão direta com a tirania infantil de Amélie. Ele saiu da sala sem dizer mais nada, os passos pesados ecoando pelo corredor até o seu escritório.

Sara observou o marido sair e depois voltou-se para Eduarda, que tentava acalmar a bebê com beijos e sussurros.

— Ele vai ter um colapso, Duda. O Emanuel não lida bem com a ideia de não ser a prioridade absoluta em um raio de dez quilômetros.

— Eu sei, Sara... mas o que eu posso fazer? Ela é tão pequena. Eu não tenho coragem de afastá-la quando ela chora assim.

— Você é mole demais, querida — Sara disse, sentando-se com elegância no sofá oposto. — Mas não se preocupe. O Emanuel é um estrategista. Ele vai dar um jeito de recuperar o território dele. Só espero que ele não compre um zoológico inteiro para distrair a menina.

No escritório, Emanuel não estava olhando relatórios. Ele estava parado diante da janela, observando o jardim, enquanto sua mente trabalhava. Ele aceitara Eduarda em sua vida com a benção de Sara, construíra um lar onde o desejo e a proteção caminhavam juntos, e agora uma criança de oitenta centímetros estava sabotando sua intimidade.

Ele sabia que Eduarda era manhosa e cedia facilmente aos apelos de Amélie. E sabia que Sara, embora o incentivasse, se divertia com a situação. Ele precisava de uma tática que não envolvesse gritos, mas que restabelecesse a hierarquia.

A oportunidade surgiu na noite seguinte.

Valentina fora passar o fim de semana na casa de uma amiguinha da escola de balé, e Sara tinha um evento de lançamento de uma nova coleção em sua loja. Eduarda estava em casa, cuidando de Amélie. Emanuel chegou mais cedo, dispensando o motorista e subindo diretamente para a suíte de Eduarda.

Ele a encontrou no banho com a bebê. O banheiro estava cheio de vapor e o som de risadas infantis e água espirrando preenchia o ambiente. Emanuel encostou-se no batente da porta, observando a cena. Eduarda estava com os cabelos presos em um coque desfeito, algumas mechas molhadas grudadas no pescoço, usando apenas uma camisola de alças finas que já estava ensopada pela brincadeira de Amélie.

— Papai! — Amélie gritou, batendo na água e molhando ainda mais a camisola branca de Eduarda, que se tornava perigosamente transparente.

— Oi, pequena — Emanuel disse, a voz suave, mas os olhos fixos na silhueta de Eduarda.

Eduarda sorriu para ele, um sorriso cansado mas genuíno.

— Ela não queria entrar na banheira sem os patinhos novos que a Sara trouxe.

— Eu ajudo a tirar ela — Emanuel ofereceu, aproximando-se.

Ele pegou a toalha felpuda e esperou. Eduarda levantou a bebê, entregando-a nos braços de Emanuel. Por um momento, Amélie pareceu confusa, mas o calor do pai e a maciez da toalha a distraíram. Emanuel a secou com agilidade, mas seus olhos nunca deixavam Eduarda, que saía da banheira com a camisola grudada ao corpo, revelando cada curva que ele tanto desejava.

— Vou vestir o pijama nela e colocá-la para dormir — Emanuel disse, o tom de voz mudando para algo mais denso. — Vá se trocar, Duda. Coloque algo seco.

Vinte minutos depois, Emanuel entrou no quarto de Amélie. A bebê estava em seu berço, abraçada a um coelho de pelúcia, lutando contra o sono. Emanuel sentou-se na poltrona ao lado e começou a cantarolar uma melodia baixa, uma música que sua própria mãe cantava para ele. Era uma técnica de ninar que ele raramente usava, mas que era infalível.

Assim que os olhos de Amélie fecharam e a respiração se tornou pesada, Emanuel não saiu imediatamente. Ele ficou ali, garantindo que o sono fosse profundo. Então, ele se levantou e caminhou até o quarto de Eduarda.

Ela estava sentada na cama, usando um pijama de seda azul-claro, lendo um livro. A luz do abajur criava uma aura dourada ao redor dela.

— Ela dormiu? — perguntou Eduarda em voz baixa.

— Como uma pedra — Emanuel respondeu, fechando a porta atrás de si e trancando-a com um clique seco.

Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia algo na postura de Emanuel — algo predatório e decidido.

— Manu?

Ele caminhou até a cama e sentou-se ao lado dela, tirando o livro de suas mãos e colocando-o na mesa de cabeceira.

— Eu amo a Amélie, Eduarda — ele começou, a voz baixa e vibrante. — Eu faria qualquer coisa por ela. Mas eu não vou passar mais um dia sendo exilado da minha própria mulher por uma menina de dois anos.

— Ela é só um bebê, Emanuel... ela não entende.

— Ela entende perfeitamente — Emanuel rebateu, aproximando o rosto do dela. — Ela sente a sua hesitação. Ela sente que, se gritar, você me afasta. E isso acaba hoje.

Ele segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas com uma pressão firme.

— Eu senti falta de você. Do seu cheiro, do seu corpo, de ter você sem interrupções.

Antes que Eduarda pudesse responder, ele a beijou. Não foi um beijo de boa-noite; foi um beijo de reivindicação. Emanuel explorou a boca dela com uma fome que a deixou sem fôlego, as mãos descendo para os ombros dela, puxando-a para mais perto.

De repente, um som baixo veio pela babá eletrônica. Um resmungo de Amélie. Eduarda tentou se afastar instintivamente, os ouvidos atentos ao menor sinal de choro.

— Ela está acordando... — sussurrou Eduarda.

Emanuel segurou os pulsos dela, prendendo-os gentilmente contra o colchão, mantendo seu corpo sobre o dela.

— Não, ela não está. Ela está apenas sonhando. E mesmo que acorde, ela tem a babá no quarto ao lado e o monitor ligado. Você não vai sair daqui, Eduarda.

— Mas se ela chorar...

— Se ela chorar, ela vai aprender que o papai e a mamãe também têm o tempo deles — Emanuel disse, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que a fazia tremer. — Você precisa parar de ser tão refém da manha dela, Duda. Você está me deixando louco.

Eduarda olhou para ele, vendo o estresse acumulado e o desejo bruto. Ela sabia que ele tinha razão, embora seu coração de mãe doesse um pouco. Emanuel inclinou-se e começou a beijar o pescoço dela, encontrando aquele ponto sensível que a fazia arquear as costas.

— Você é minha — ele murmurou contra a pele dela. — Antes de ser mãe, antes de ser professora, você é minha.

A resistência de Eduarda derreteu. Ela passou os braços pelo pescoço dele, puxando-o para baixo. O desejo que ela vinha reprimindo para focar na maternidade explodiu em seu peito. Ela queria Emanuel. Queria a força dele, o controle dele, a forma como ele a fazia se sentir pequena e protegida.

Emanuel desfez os botões do pijama dela com uma agilidade impaciente. Quando sua pele finalmente encontrou a dela, ele soltou um suspiro de satisfação. Suas mãos percorreram o corpo esguio de Eduarda, parando nos seios médios e macios que ele tanto adorava.

— Você está tão linda — ele elogiou, a voz rouca. — O corpo de uma mulher, mas o rosto de um anjo.

Ele a possuiu com uma intensidade que parecia querer compensar todas as semanas de abstinência forçada. Eduarda entregou-se totalmente, seus gemidos abafados pelo travesseiro para não ecoar pela casa. Naquele momento, não havia Amélie, não havia Valentina, não havia Sara. Havia apenas a conexão elétrica entre o tatuador e sua bailarina.

Horas depois, quando o suor esfriava em seus corpos e a respiração voltava ao normal, Emanuel estava deitado com Eduarda aninhada em seu peito. O silêncio da mansão era absoluto.

— Você foi duro com ela hoje — Eduarda comentou baixinho, desenhando círculos invisíveis nas tatuagens do braço dele.

— Eu fui necessário, Duda. Se não estabelecermos limites agora, ela vai mandar nesta casa antes dos cinco anos. E eu já tenho a Valentina para o cargo de patroa.

Eduarda riu, um som doce que aqueceu o coração de Emanuel.

— Eu só tenho medo de que ela se sinta rejeitada.

— Ela nunca será rejeitada. Ela é a nossa pequena Amélie. Mas ela precisa entender que o amor que eu sinto por você é a base de tudo o que ela tem. Sem nós dois bem, nada funciona.

A porta do quarto se abriu silenciosamente. Emanuel sentou-se rapidamente, pronto para proteger Eduarda, mas relaxou ao ver a silhueta loira de Sara. Ela acabara de chegar do evento, ainda usando o vestido longo e brilhante, mas com os saltos nas mãos.

— Ora, ora... — Sara sussurrou, fechando a porta e caminhando até a cama. — Parece que o leão finalmente retomou sua toca.

Emanuel sorriu para a esposa, estendendo a mão para ela.

— A pequena tirana dormiu. Tivemos um tempo de qualidade.

Sara sentou-se na beira da cama, olhando para Eduarda, que estava corada e com os olhos brilhando.

— Você está com uma carinha ótima, Duda. O Manu realmente sabe como tirar o estresse de uma mulher.

— Sara! — Eduarda escondeu o rosto no peito de Emanuel, morrendo de vergonha.

Sara riu, inclinando-se para dar um beijo na testa de Eduarda e depois um beijo demorado nos lábios de Emanuel.

— Eu passei no quarto da Amélie. Ela está desmaiada. Acho que o plano do papai funcionou.

— Funcionou por enquanto — Emanuel disse, puxando Sara para o meio deles. — Mas amanhã a batalha recomeça.

— Amanhã eu cuido dela — Sara prometeu, começando a tirar as joias. — Vou levar a Amélie para a loja. Vou dar a ela um dia de "tia e sobrinha" com direito a muita maquiagem de brinquedo e sapatos. Vamos ver se ela não esquece a mamãe por algumas horas para deixar vocês dois em paz.

Eduarda olhou para os dois, sentindo uma onda de gratidão. Ela vivia em uma configuração que muitos chamariam de escandalosa, mas ali, entre o controle firme de Emanuel e a vivacidade provocadora de Sara, ela encontrara o equilíbrio perfeito.

— Obrigada, Sara — Eduarda disse.

— Não me agradeça, querida. Eu faço isso pelo bem da minha própria sanidade. Um Emanuel frustrado é pior que três Valentinas em dia de prova de balé.

Emanuel abraçou as duas, sentindo-se o homem mais rico do mundo, não pelos seus estúdios ou contas bancárias, mas por ter aquelas duas mulheres tão diferentes e tão essenciais sob sua proteção.

Na manhã seguinte, como Emanuel previra, a batalha recomeçou. Assim que Eduarda desceu para o café da manhã, Amélie correu em sua direção, gritando "Mamãe!" e tentando escalar suas pernas.

Emanuel apareceu logo atrás, com uma expressão serena. Ele caminhou até Eduarda e, antes que Amélie pudesse protestar, ele a pegou no colo.

— Não! Papai solta! — Amélie começou a espernear.

Emanuel não a soltou. Ele a segurou firmemente, olhando nos olhos da menina.

— Amélie, o papai vai dar um beijo na mamãe. E você vai esperar.

Ele se inclinou e beijou Eduarda de forma lenta e possessiva. Amélie parou de gritar por um segundo, confusa com a autoridade calma do pai. Quando ele terminou, ele deu um beijo na ponta do nariz da bebê.

— Viu? Ninguém sumiu. Agora, vamos comer panquecas.

Amélie olhou de Emanuel para Eduarda, e depois para Sara, que observava tudo bebendo um café preto e rindo por trás da xícara. A menina soltou um suspiro manhoso, mas aceitou o beijo do pai.

O território fora marcado. A pequena escudo de seda e manha ainda tentaria suas táticas, mas agora ela sabia que, naquela casa, o amor de Emanuel por Eduarda era uma força da natureza que nem mesmo o choro mais alto poderia abalar. E Eduarda, sentindo a mão de Emanuel pousar em sua cintura enquanto tomavam café, soube que nunca mais precisaria escolher entre ser mãe e ser a mulher amada. Ela era tudo, e era deles.