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Entre o Tule e o Couro: O Banquete dos Opostos

A mansão de Emanuel e Sara exalava um luxo ostensivo que refletia perfeitamente a personalidade do casal. Móveis de design contemporâneo, obras de arte modernas e uma iluminação indireta que destacava as inúmeras fotografias de Valentina espalhadas pelas salas. Naquela noite, o ar estava impregnado com o aroma de especiarias finas e o perfume caro de Sara, que terminava de se produzir diante de um espelho de moldura dourada.

Sara usava um vestido de seda vermelha, tão justo que parecia uma segunda pele, com um decote profundo que valorizava seus seios siliconados. Seus cabelos loiros estavam ondulados com perfeição, e as unhas, longas e afiadas, brilhavam com um esmalte dourado.

— Manu, você acha que ela vem mesmo? — Sara perguntou, ajustando um brinco de diamantes. — Garotas sensíveis costumam fugir quando sentem o cheiro de poder.

Emanuel, que terminava de abotoar uma camisa polo preta que marcava seus ombros largos e deixava as tatuagens do pescoço à mostra, olhou para a esposa através do reflexo.

— Ela vem, Sara. Eu sinto que ela precisa disso. Ela está exausta, embora tente esconder.

— Ótimo. Porque a Valentina já está em pé de guerra. — Sara riu, apontando para o corredor.

No quarto ao lado, Valentina terminava de ser arrumada pela babá. A menina usava um vestido de grife com camadas de organza e sapatinhos de verniz. Ela segurava uma boneca que custava mais do que o aluguel de muitas pessoas e fazia um bico de impaciência.

— Eu não quero a menina que morde na minha casa, mamãe! — Valentina gritou, saindo do quarto e batendo o peito com a mãozinha. — Ela é um bebê chorão!

— Valentina, comporte-se — Emanuel disse, sua voz grave ecoando pelo corredor, fazendo a menina se calar imediatamente. — Elas são nossas convidadas. E você vai emprestar seus brinquedos se eu ordenar.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, o clima era de puro nervosismo. Eduarda estava sentada na beira da cama, tentando calçar as meias em Amélie. A bebê estava em um de seus dias mais difíceis. Talvez sentisse a ansiedade da "mãe", ou talvez fosse apenas o cansaço de uma rotina que ainda lhe parecia estranha após o abandono.

Amélie choramingava, a chupeta lilás caindo da boca repetidamente. Ela usava um vestido de algodão branco com pequenas flores bordadas, uma meia-calça grossa e uma fralda nova que a deixava com aquele andar balançante e fofo.

— Calma, meu amor... a Duda está aqui — Eduarda sussurrou, a voz trêmula. — Nós só vamos jantar na casa de um amigo.

Eduarda olhou-se no espelho. Ela optara por um vestido midi de cor creme, de alças finas, que ressaltava sua pele clara e a delicadeza de seus ombros de bailarina. Não usava quase nada de maquiagem, apenas um brilho labial e um pouco de rímel que destacava seus olhos expressivos e úmidos. Ela se sentia pequena, uma formiga prestes a entrar no covil de gigantes.

Quando o Uber parou em frente aos portões automáticos da mansão, o coração de Eduarda quase saltou pela boca.

— É aqui, Amélie. — Ela pegou a bebê no colo, que imediatamente escondeu o rosto em seu pescoço, segurando o coelhinho de pelúcia encardido.

Emanuel abriu a porta antes mesmo que elas tocassem a campainha. Ele ficou parado no umbral, a figura imponente bloqueando a luz que vinha de dentro. Ao ver Eduarda, seu olhar suavizou-se instantaneamente.

— Você veio — ele disse, com um meio sorriso que raramente mostrava a alguém.

— Boa noite, Emanuel — Eduarda respondeu, a voz quase um sussurro. — Desculpe o atraso, a Amélie está muito manhosa hoje. Ela não quis largar o colo nem por um segundo.

— Não se preocupe com isso. Entrem.

Ao entrar na sala, Eduarda sentiu o impacto da presença de Sara. A loira estava parada no centro do recinto, com uma taça de vinho na mão, observando-as como se estivesse analisando uma peça rara de museu.

— Mas que coisinha mais mimosa! — Sara exclamou, aproximando-se com passos decididos. O cheiro do perfume dela era inebriante. — E você, Eduarda, é ainda mais bonita de perto. Parece que saiu de um livro de contos de fadas.

Eduarda sentiu as bochechas queimarem.

— Obrigada, Sara. Você... você está deslumbrante.

— Eu sei, querida. Dá trabalho ser eu — Sara piscou, rindo de forma franca, o que surpreendentemente tranquilizou um pouco Eduarda. — E essa é a pequena agressora?

Amélie, ao ouvir a voz alta de Sara, soltou um gemido baixo e sugou a chupeta com mais força, apertando o braço de Eduarda.

— Ela é muito tímida — explicou Eduarda, balançando o corpo levemente para ninar a bebê. — E está muito apegada à chupeta hoje.

Nesse momento, Valentina apareceu, descendo as escadas com a pompa de uma princesa. Ela parou a dois degraus do chão, olhando para Amélie de cima para baixo.

— Ela ainda usa fralda, mamãe? — Valentina perguntou, com um tom de superioridade que faria qualquer adulto se sentir desconfortável. — Eu já uso calcinha de seda.

— Valentina! — Emanuel repreendeu, mas Sara apenas riu.

— Deixe a menina, Manu. Ela só está marcando território. Venham, o jantar está servido.

A mesa de jantar era um espetáculo à parte. Cristais, prataria e uma comida que parecia saída de um restaurante com estrelas Michelin. Emanuel sentou-se na cabeceira, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda. Valentina sentou-se ao lado da mãe, e uma cadeira alta foi providenciada para Amélie ao lado de Eduarda.

No entanto, Amélie se recusou a sentar na cadeira alta. Ela começou a chorar, um choro manhoso e sofrido, esticando os braços para Eduarda.

— Eu sinto muito... ela não vai ficar na cadeira — Eduarda disse, visivelmente constrangida, tentando acalmar a bebê.

— Coloque-a no seu colo, Eduarda — Emanuel interveio, sua voz transmitindo uma autoridade calma. — Não queremos que ela sofra.

— Mas vai atrapalhar o seu jantar... — Eduarda começou a dizer, mas Emanuel já estava se levantando.

Ele caminhou até ela e, para surpresa de todos, pegou Amélie do colo de Eduarda. A bebê, que normalmente estranharia qualquer homem, olhou para as tatuagens nos braços de Emanuel. Ela esticou a mãozinha gorda e tocou o desenho de uma fênix no antebraço dele.

— Ela gosta de desenhos? — Emanuel perguntou, a voz num tom baixo e doce que Eduarda nunca imaginou que um homem daquele porte pudesse ter.

Amélie soltou a chupeta, que ficou pendurada pelo prendedor no vestido, e deu um sorriso úmido.

— Gosta... ela sempre tenta desenhar nas minhas pernas com canetinha — Eduarda sorriu, sentindo uma onda de gratidão percorrer seu corpo.

Sara observava a cena com um brilho de satisfação nos olhos. Ela via como Emanuel olhava para Eduarda enquanto segurava a bebê. Havia ali uma harmonia estranha: o homem bruto e marcado, a loira exuberante e poderosa, e a morena frágil e doce.

— Sabe, Eduarda — Sara começou, cortando um pedaço de lagosta —, o Manu me contou a sua história. Sobre sua prima e como você assumiu a Amélie. Eu acho isso de uma coragem absurda. Eu mal dou conta da Valentina com três babás, e você faz tudo sozinha enquanto estuda e dança?

Eduarda baixou os olhos, mexendo na comida.

— Eu não me sinto corajosa. Eu só... eu não podia deixar ela sozinha. Ela não tem culpa de nada.

— Você é uma alma boa — Sara disse, e dessa vez não havia ironia em sua voz. — E almas boas são raras. O Manu tem um olho clínico para o que é autêntico. Por isso ele ficou tão... impressionado com você.

Emanuel devolveu Amélie para o colo de Eduarda, mas manteve sua mão sobre o encosto da cadeira dela, uma proximidade física que fazia Eduarda se sentir protegida por uma muralha.

— Eu quero que você se sinta em casa aqui, Eduarda — Emanuel disse, olhando-a nos olhos. — Não apenas por causa da mordida na escola. Mas porque eu quero que nossas vidas se cruzem.

Eduarda sentiu um frio na barriga.

— Eu... eu não sei o que dizer.

— Não diga nada — Sara interrompeu, levantando sua taça. — Apenas aproveite. Nós somos pessoas intensas, Eduarda. Quando queremos algo, nós conseguimos. E o Emanuel quer que você faça parte do nosso mundo. E eu, como uma boa esposa, concordo plenamente.

O jantar prosseguiu com uma mistura de conversas sobre arte, que encantaram Emanuel ao ver o conhecimento de Eduarda, e histórias engraçadas de Sara sobre o mundo da moda e sua loja de roupas. Valentina, percebendo que não era o único centro das atenções, tentou provocar Amélie algumas vezes, mas a bebê estava ocupada demais comendo pedacinhos de pão e olhando para Emanuel.

— Ela está com sono — Eduarda notou, quando Amélie começou a esfregar os olhos e a procurar a chupeta novamente. — Acho que já abusamos da hospitalidade de vocês.

— De jeito nenhum — Emanuel disse, levantando-se. — Eu levo vocês em casa.

— Não precisa, eu peço um carro...

— Eu levo — ele repetiu, de uma forma que não admitia discussões.

Sara levantou-se e foi até Eduarda. Para surpresa da jovem, a loira lhe deu um abraço apertado, o cheiro de perfume caro e o toque dos seios firmes contra os seus fazendo Eduarda estremecer.

— Volte logo, bonequinha — Sara sussurrou no ouvido dela. — A Valentina precisa aprender a ser menos soberba, e acho que sua bebê pode ensinar algo a ela. E você... bom, você tem muito a ensinar para o meu marido.

Eduarda saiu da mansão em transe. No carro de luxo de Emanuel, o silêncio era confortável. Amélie já havia dormido na cadeirinha que Emanuel, previdente, já havia instalado no banco de trás.

— Ela é incrível — Eduarda disse, referindo-se a Sara. — Eu achei que ela me odiaria.

— Sara não odeia o que eu amo — Emanuel disse, mantendo os olhos na estrada, mas sua mão direita buscou a de Eduarda sobre o banco.

As mãos se tocaram. A mão dele, grande, calejada e coberta de tinta; a dela, pequena, macia e delicada. O contraste era absoluto, mas o encaixe parecia perfeito.

— Você a ama muito, não é? — Eduarda perguntou, a voz falhando.

— Sim. Eu amo a Sara com cada fibra do meu ser. Ela é minha parceira, minha força, a mãe da minha filha. Nada vai mudar isso.

Eduarda sentiu uma pontada de tristeza, que foi imediatamente dissipada pelas próximas palavras dele.

— Mas o que eu senti quando te vi na escola... foi algo que eu não sabia que existia. É um tipo diferente de amor. Um desejo de proteger, de cuidar, de ter essa paz que você carrega. Eu não quero escolher entre o fogo e a brisa, Eduarda. Eu quero os dois.

Eduarda apertou a mão dele. Ela era insegura, sentia-se pequena perto daquele estilo de vida, mas pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu sozinha.

— Eu nunca tive ninguém que cuidasse de mim — ela confessou, as lágrimas finalmente caindo. — Desde que a Amélie chegou, eu sou a força de todo mundo. Meus pais me apoiam, mas eles têm a vida deles. Eu só... eu estou tão cansada de ser forte.

Emanuel parou o carro em frente ao prédio simples onde Eduarda morava. Ele se inclinou e beijou a testa dela, um beijo demorado e casto.

— Agora você tem a mim. E tem a Sara. Nós vamos cuidar de vocês duas.

Eduarda subiu para seu apartamento com Amélie nos braços, sentindo como se estivesse flutuando. Ela trocou a fralda da bebê, que nem acordou, e a colocou no berço. Enquanto se deitava, seu celular vibrou.

Era uma mensagem de um número desconhecido, mas ela sabia de quem era.

"Durma bem, minha bailarina. Amanhã passo no estúdio para ver você e a Valentina. Sara já está planejando um dia de compras para nós quatro. Prepare-se, sua vida vai ficar muito barulhenta de agora em diante. Com amor, Emanuel."

Eduarda fechou os olhos, abraçando o travesseiro. O barulho de Emanuel e Sara era exatamente o que o silêncio de sua vida precisava para se tornar uma melodia. Naquela noite, a bailarina e a loira vulgar não eram rivais, mas partes de um quebra-cabeça que um homem tatuado estava decidido a montar. E Amélie, com sua chupeta e suas fraldas, tinha encontrado, enfim, um castelo onde não precisaria mais ter medo de morder para ser notada.