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Entre Sombras e Sapatilhas: O Ciúme sob os Holofotes

O aroma de breu e laquê preenchia os bastidores do grande teatro municipal. Para Eduarda, aquele era o cheiro da ansiedade e do êxtase. Ela estava sentada diante de um espelho iluminado por lâmpadas amareladas, retocando a maquiagem pálida e etérea de Giselle. Seu rosto, naturalmente doce, ganhava contornos dramáticos sob o pincel. Ela não havia contado a Emanuel sobre a apresentação. A insegurança a consumia; temia que ele a achasse pretensiosa ou que Sara, com seu mundo de luxo e administração prática, visse o ballet como um passatempo infantil.

— Mamãe! Mamãe, olha! — A voz abafada pela chupeta lilás veio de baixo.

Amélie estava em pé, segurando-se na saia de tule de Eduarda. A bebê usava um par de orelhinhas de coelho e uma fralda limpa que fazia um volume fofo sob o seu vestidinho de ensaio. Eduarda a pegou no colo, sentindo o peso reconfortante da menina que, embora fosse sua prima biológica, era sua filha em todos os sentidos que importavam.

— A mamãe vai dançar agora, meu amor. Você vai ficar com o vovô, está bem? — Eduarda beijou a testa da pequena, que respondeu com um resmungo manhoso e um abraço apertado no pescoço da "mãe".

Enquanto isso, na entrada principal do teatro, o clima era de puro impacto. Emanuel e Sara caminhavam pelo tapete vermelho como se fossem os donos do edifício. Ele estava impecável em um terno de corte italiano, sem gravata, deixando as tatuagens do pescoço subirem de forma rebelde contra o colarinho branco. Sara era uma visão em dourado: um vestido de paetês curtíssimo, saltos que faziam suas pernas parecerem infinitas e um decote que desafiava as leis da gravidade.

— Eu ainda não acredito que aquela coisinha fofa escondeu isso da gente, Manu — comentou Sara, ajeitando o batom no reflexo de uma das colunas de mármore. — Se eu não tivesse visto o panfleto na bolsa dela quando ela esqueceu na loja ontem, teríamos perdido o show da nossa bailarina.

— Ela é insegura, Sara. — A voz de Emanuel era um trovão contido. — Ela acha que não é importante o suficiente para nos tirar de casa. Mal sabe ela que eu cancelaria uma convenção em Tóquio para vê-la respirar no palco.

— Ai, que romântico! — Sara deu um tapa leve no braço dele, rindo. — Mas concordo. Ela precisa entender que agora tem donos. E donos presentes.

Eles entraram na plateia de veludo, atraindo olhares de todos os lados. A presença de Emanuel emanava poder, e a vulgaridade sofisticada de Sara era magnética. Eles se sentaram nas poltronas centrais, mas Emanuel sentia um incômodo. Ele queria vê-la antes. Queria sentir o perfume de talco e flores dela antes que as luzes se apagassem.

— Vou atrás do palco — sussurrou Emanuel para a esposa. — Quero ver se ela precisa de algo.

— Vai lá, garanhão. Mas não a deixe nervosa demais antes de entrar. — Sara piscou, já pegando o celular para filmar a entrada da "sua" protegida.

Emanuel usou sua influência e alguns maços de notas para passar pela segurança dos bastidores sem ser questionado. Ele caminhava entre cabos e cenários de papelão, procurando pelo rosto angelical de Eduarda. No entanto, o que ele viu ao dobrar o corredor dos camarins fez seu sangue ferver instantaneamente.

Eduarda estava de costas, terminando de ajustar as sapatilhas. Mas Amélie não estava com os pais de Eduarda. A bebê estava no colo de um homem jovem, de aparência atlética, que usava uma camiseta justa de dançarino. Ele ria enquanto fazia cócegas na barriga de Amélie, que soltava gargalhadas altas, deixando a chupeta cair no chão.

— Você vai ser a melhor Giselle que este teatro já viu, Duda — disse o homem, com uma intimidade que atingiu Emanuel como um soco. — A Amélie sabe disso, não é, pequena? O papai de mentirinha aqui vai cuidar de você enquanto a mamãe brilha.

Emanuel sentiu a mandíbula travar. O termo "papai de mentirinha" ecoou em sua mente como um insulto pessoal. Ele deu um passo à frente, sua sombra se projetando sobre o trio, transformando o ambiente de camaradagem em uma zona de tensão pura.

— Emanuel? — Eduarda virou-se, os olhos arregalados, a mão indo ao peito. — O que... o que você está fazendo aqui?

— Eu vim ver a minha mulher dançar — disse ele, a voz tão fria que parecia capaz de congelar o suor dos bailarinos ao redor. — Mas parece que o camarim está cheio de "familiares" que eu não conhecia.

O homem jovem se levantou, ainda segurando Amélie com uma facilidade irritante. Ele não se intimidou com o porte físico de Emanuel, o que só piorou a irritação do tatuador.

— Ah, você deve ser o Emanuel de quem a Duda falou — disse o rapaz, estendendo a mão livre. — Sou o Felipe, parceiro de dança dela e, nas horas vagas, babá oficial da Amélie.

Emanuel ignorou a mão estendida. Seus olhos estavam fixos em Amélie, que agora esticava os bracinhos para Felipe, parecendo extremamente confortável naquele colo estranho.

— Eduarda, por que a bebê não está com seus pais? — perguntou Emanuel, ignorando Felipe completamente.

— Meus pais tiveram um imprevisto com o carro, eles estão chegando... o Felipe se ofereceu para segurá-la enquanto eu me trocava — explicou ela, a voz trêmula, aproximando-se de Emanuel com aquele jeito manhoso e inseguro. — Eu não queria incomodar você, Manu. Eu achei que você estaria ocupado com o estúdio...

— Nunca estou ocupado demais para você. E nunca estou ocupado demais para a Amélie. — Ele deu um passo para dentro do espaço de Eduarda, forçando Felipe a recuar. — Me dá a menina.

Felipe hesitou, olhando para Eduarda, mas o olhar de Emanuel era uma promessa de violência silenciosa se ele não obedecesse.

— Tudo bem, cara. Calma. — Felipe passou Amélie para os braços de Emanuel.

Assim que sentiu o contato com o peito largo e firme de Emanuel, Amélie se aninhou. Ela reconhecia aquele cheiro de couro e perfume amadeirado. Emanuel a segurou com uma possessividade evidente, os dedos tatuados contrastando com a pele alva da bebê.

— Pode ir para o palco, Felipe — disse Emanuel, sem olhar para o rapaz. — Minha esposa está na plateia e eu estou aqui. A Amélie não precisa de mais ninguém.

Felipe deu de ombros, lançou um olhar preocupado para Eduarda e se retirou. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda olhava para o chão, as pontas dos dedos brincando com o tule da saia.

— Você está bravo? — sussurrou ela, as lágrimas começando a turvar a maquiagem pesada.

— Estou — admitiu ele, aproximando-se dela até que suas respirações se misturassem. — Estou bravo porque você achou que precisava esconder isso de mim. E estou possesso porque vi outro homem ocupando um lugar que é meu. Eu sou o homem da sua vida, Eduarda. Eu sou quem cuida de você e da Amélie. Ficou claro?

Eduarda assentiu rapidamente, sentindo aquela mistura de medo e segurança que só Emanuel provocava.

— Sim, Manu... desculpa.

— Agora, olhe para mim. — Ele usou a mão livre para erguer o queixo dela. — Você vai entrar naquele palco e vai ser perfeita. Porque você é minha. E depois que as cortinas caírem, você, a bebê e a Sara vamos para casa. Juntos.

Eduarda sorriu timidamente, o coração batendo forte. O ciúme dele, embora assustador para alguns, para ela era a prova de que ela finalmente pertencia a algum lugar.

Nesse momento, Sara entrou no camarim como um furacão dourado.

— Mas o que é isso? Reunião de família e ninguém me avisou? — Ela olhou para a cena: Emanuel segurando a bebê com cara de poucos amigos e Eduarda parecendo uma boneca de porcelana prestes a quebrar. — Manu, pare de assustar a menina! Ela tem que entrar em cena em cinco minutos.

Sara aproximou-se de Eduarda e, sem a menor cerimônia, deu um tapa estalado em sua nádega, fazendo a bailarina dar um pulinho de susto.

— Entra lá e arrasa, docinho. Se aquele tal de Felipe encostar a mão na sua cintura com muita vontade durante o pas de deux, o Manu cuida dele depois, mas agora você é a estrela.

— Sara! — Eduarda corou violentamente.

— Vá, Eduarda — disse Emanuel, sua voz suavizando apenas um pouco. — Estaremos na primeira fila.

Eduarda deu um beijo rápido no rosto de Emanuel e outro na bochecha de Amélie, que já estava quase dormindo de novo com a chupeta na boca. Com um último olhar para Sara, que lhe lançou um beijo no ar, ela correu para as coxias.

A apresentação foi um triunfo. No palco, Eduarda deixava de ser a menina tímida e insegura para se tornar uma força da natureza. Seus movimentos eram leves, precisos, carregados de uma emoção que fazia a plateia prender a respiração. Emanuel, sentado entre Sara e a bolsa de fraldas de Amélie, não conseguia tirar os olhos dela. Ele sentia um orgulho possessivo, uma vontade de gritar para todos naquele teatro que aquela mulher magnífica era sua.

Sara, ao seu lado, aplaudia de pé a cada solo.

— Ela é boa, Manu. Muito boa — comentou Sara, os olhos brilhando. — Imagine o que ela poderia fazer com o investimento certo. Já estou pensando em abrir um centro de artes para ela administrar.

— Ela não precisa administrar nada, Sara. Ela só precisa dançar. Eu cuido do resto.

— Você é tão protetor que chega a ser irritante — Sara riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas é por isso que eu te amo. E é por isso que ela vai te amar também.

Quando o espetáculo terminou e os aplausos cessaram, Emanuel não esperou que Eduarda viesse até eles. Ele pegou Amélie, que agora estava acordada e agitada, e foi direto para a saída do palco.

Eduarda estava saindo, suada e exausta, segurando um buquê de flores que Felipe lhe entregara segundos antes. Ao ver Emanuel, ela hesitou.

Emanuel caminhou até ela e, sem dizer uma palavra, tirou as flores da mão dela e as entregou a um funcionário qualquer que passava por ali.

— Flores de estranhos não entram no meu carro — sentenciou ele.

— Manu, eram só flores de agradecimento pelo ensaio... — Eduarda tentou argumentar, mas foi silenciada por um beijo intenso e profundo de Emanuel, ali mesmo, na frente de todos os outros bailarinos e técnicos.

Era um beijo que marcava território, que reivindicava posse. Quando ele se afastou, Eduarda estava sem fôlego e com os lábios vermelhos.

— Vamos para casa — disse ele.

No estacionamento, Sara já os esperava encostada na SUV de luxo. Ela abriu a porta traseira para Eduarda.

— Entra aí, Giselle. A Valentina ficou em casa com a babá reclamando que queria vir, mas eu disse que hoje a noite era das mamães.

Eduarda sentou-se no banco de trás, e Emanuel colocou Amélie no colo dela. A bebê, sentindo o calor de Eduarda, soltou a chupeta e murmurou:

— Mamãe... Duda...

As lágrimas de Eduarda caíram livremente. Ela olhou para Emanuel, que assumia o volante, e para Sara, que retocava o batom no banco do passageiro.

— Eu estava com tanto medo — confessou Eduarda baixo.

— Medo de quê, boneca? — perguntou Sara, virando-se para trás com um sorriso malicioso.

— De que eu não coubesse na vida de vocês. De que a Amélie fosse um fardo.

Emanuel olhou pelo retrovisor, seus olhos encontrando os de Eduarda.

— Você não cabe na nossa vida, Eduarda. Você é a nossa vida agora. Você, a Amélie e a Valentina. Somos um caos, mas somos um caos completo.

Sara esticou a mão e apertou o joelho de Eduarda.

— E se prepare, porque amanhã eu vou na sua casa. Seus pais precisam saber que a guarda da Amélie agora tem reforços. Ninguém mexe com as minhas meninas.

Enquanto o carro ganhava a estrada, Eduarda sentiu uma paz que nunca conhecera. Ela tinha o fogo de Sara, a proteção inabalável de Emanuel e o amor puro de Amélie. O ciúme de Emanuel no teatro não era uma corrente, mas uma âncora. E para uma bailarina que passava a vida flutuando, ter onde ancorar era o maior de todos os luxos.

Amélie adormeceu novamente, o som rítmico de sua respiração preenchendo o carro, enquanto Emanuel acelerava, levando sua família peculiar para o abrigo da noite, onde as sombras das tatuagens e o brilho do ouro se fundiam em uma só promessa de pertencimento.