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O Pulsar sob a Névoa
O casarão vitoriano parecia respirar junto com a neblina que se adensava lá fora. Dentro, o calor da lareira criava um casulo de conforto que contrastava com o frio úmido de Paranapiacaba. Emanuel, apesar de ter a mente povoada pela imagem de Eduarda e pela conversa reveladora no cemitério, não negligenciou a mulher que estava ao seu lado há anos. Ele conhecia cada curva, cada manha e cada necessidade de Sara.
Ele a encontrou sentada em uma poltrona de veludo, lixando as unhas longas com uma precisão cirúrgica. Emanuel aproximou-se em silêncio e começou a massagear os ombros dela. Sara soltou um suspiro de satisfação, tombando a cabeça para trás para olhar para o marido.
— Você está tenso, tatuador — ela comentou, a voz carregada de uma malícia preguiçosa. — Relaxa. A menina não vai fugir. Ela está encantada por você, dá para ver nos olhos de corça assustada dela.
— Eu só quero que todos estejam bem, Sara — Emanuel respondeu, descendo as mãos para a barriga proeminente da esposa, onde Valentina crescia. — Como ela está? Chutou muito hoje?
— Valentina é como a mãe, Emanuel. Ela quer atenção o tempo todo — Sara riu, cobrindo a mão dele com a sua, as joias brilhando sob a luz fraca da sala. — Ela está calma agora, acho que gostou do chá que a mãe da Eduarda preparou.
Emanuel inclinou-se e beijou a testa de Sara, um gesto de carinho profundo e genuíno. Ele a amava com uma intensidade que beirava a possessividade, uma conexão forjada em anos de cumplicidade e na aceitação mútua de suas naturezas complexas. Ele começou a passar um creme importado nos pés dela, que estavam levemente inchados pela gravidez. Sara fechou os olhos, aproveitando o mimo.
— Você é um homem bom, Emanuel. Um pouco controlador, um pouco rústico, mas bom — ela murmurou. — Não se sinta culpado por querer a Eduarda também. O coração não é um gráfico de administração, ele não precisa dividir lucros. Ele só expande.
Enquanto o casal desfrutava daquele momento de intimidade, no andar de cima, o clima era diferente. Eduarda estava deitada em sua cama, sentindo um desconforto persistente no baixo ventre. Não era uma dor aguda, mas uma pressão incômoda que a deixava inquieta. Amélie parecia agitada.
— Duda? — A voz de sua mãe, uma mulher de quarenta anos, de aparência jovial e estilo despojado, ecoou na porta. — Você está muito quietinha. Está sentindo alguma coisa?
— É só uma pressão, mãe... acho que andei demais hoje — Eduarda respondeu, a voz fraca, tentando não transparecer a insegurança que a corroía.
O pai de Eduarda, um arquiteto moderno mas extremamente protetor, apareceu logo atrás da esposa. Ele olhou para a palidez da filha e não hesitou.
— Vamos para o hospital em Santo André. Paranapiacaba é linda, mas não tem estrutura para uma emergência obstétrica se essa pressão aumentar — disse ele, já pegando a chave do carro.
— Pai, não precisa de tanto... é só um desconforto — Eduarda tentou protestar, mas sua natureza manhosa e passiva cedeu rapidamente diante da autoridade carinhosa do pai.
— Sem discussão, Eduarda. É a minha neta aí dentro — ele afirmou, ajudando-a a se levantar. — Vamos, peguem os casacos.
Eles saíram pela porta lateral para não alardear o restante da família, que ainda jantava ou descansava nos outros cômodos. A névoa estava tão espessa que os faróis do carro mal conseguiam cortar o branco, mas o pai de Eduarda conhecia bem a estrada da serra.
Emanuel só percebeu a ausência deles cerca de uma hora depois. Ele tinha ido até a cozinha preparar um lanche para Sara quando notou o silêncio vindo da ala onde a família de Eduarda estava hospedada. Ele subiu as escadas, o coração batendo com uma estranha premonição. Bateu na porta do quarto dela, mas não houve resposta.
Ele encontrou o irmão de Eduarda no corredor, que parecia alheio à situação.
— Onde está a sua irmã? — Emanuel perguntou, a voz já subindo um tom, a rigidez de seu temperamento controlador começando a aflorar.
— Ah, o meu pai resolveu levar ela ao hospital. Ela estava sentindo umas dores, ou pressão, sei lá. Eles saíram faz um tempo — respondeu o rapaz, dando de ombros.
Emanuel sentiu uma onda de fúria fria percorrer sua espinha. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo.
— E por que ninguém me avisou? — A pergunta saiu ríspida, quase um rosnado.
— Cara, por que avisariam? Meus pais estão com ela. Eles dão conta — o irmão dela respondeu, confuso com a reação desproporcional do futuro cunhado de seu irmão.
Emanuel não respondeu. Ele desceu as escadas a passos largos, a respiração pesada. Sara, que estava vindo da sala de estar, percebeu imediatamente o estado do marido.
— Emanuel? O que foi? Você parece que vai quebrar algo.
— Eduarda passou mal. Os pais levaram ela para o hospital e ninguém me disse nada — ele disse, pegando a jaqueta de couro e as chaves de sua caminhonete. — Eu vou para lá agora.
— Emanuel, espera — Sara colocou a mão no peito dele, tentando acalmá-lo. — Os pais dela são responsáveis. Ela está em boas mãos. Você ir para lá agora, nesse estado, só vai causar um clima estranho com a família dela. Eles nem sabem o que você sente por ela.
— Eu não me importo com o clima, Sara! — ele explodiu, embora tenha baixado o tom logo em seguida por respeito à esposa. — Ela é frágil. Ela foi abandonada por aquele desgraçado que a engravidou. Ela precisa saber que tem alguém que vai assumir o controle quando as coisas ficarem difíceis. Eu deveria ter levado ela. Eu conheço os melhores médicos, eu tenho os contatos.
Sara suspirou, cruzando os braços sobre a barriga.
— Você e essa sua mania de querer carregar o mundo, meu amor. Mas tudo bem, eu entendo. Vá. Mas tente não parecer um louco possessivo na frente dos pais dela. Lembre-se: para eles, você é apenas o irmão do noivo.
Emanuel beijou Sara rapidamente, um beijo de despedida que carregava um pedido silencioso de desculpas pela grosseria, e saiu para a noite úmida.
A viagem até o hospital foi uma tortura de lógica e ansiedade. Emanuel socava o volante ocasionalmente, irritado com a lentidão imposta pela neblina. Ele se sentia falhando em algo que nem sequer tinha o direito formal de exercer: a proteção de Eduarda.
Quando ele finalmente chegou ao hospital particular em Santo André, encontrou os pais de Eduarda na sala de espera. O pai dela, ao ver Emanuel entrar, levantou-se surpreso.
— Emanuel? O que faz aqui? Como soube?
— Eu... eu perguntei por vocês no casarão — Emanuel tentou modular a voz para parecer apenas um anfitrião preocupado. — Fiquei preocupado. Eduarda é convidada da minha família, me sinto responsável pelo bem-estar de todos lá. Como ela está?
A mãe de Eduarda sorriu, tocada pela gentileza aparente do rapaz.
— Ela está bem, querido. Foi apenas um susto. Uma contração de treinamento um pouco mais forte devido ao estresse e à caminhada. O médico deu um sedativo leve para ela relaxar e ela está tomando soro. Pode ir vê-la, se quiser. Quarto 302.
Emanuel assentiu, sentindo a tensão diminuir apenas um milímetro. Ele caminhou pelos corredores assépticos até encontrar o quarto. A porta estava entreaberta.
Lá dentro, a luz era suave. Eduarda parecia ainda menor naquela cama de hospital, os cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro branco. Ela parecia uma pintura de um período romântico, pálida e etérea. Quando o ouviu entrar, ela abriu os olhos lentamente.
— Emanuel? — ela sussurrou, a voz manhosa pelo efeito do medicamento. — O que você está fazendo aqui? Está tão tarde... e a neblina...
Ele se aproximou da cama e, sem conseguir se conter, segurou a mão dela. A pele de Eduarda era macia e um pouco fria.
— Você me deu um susto, garota — ele disse, a voz rouca, a irritação de antes substituída por uma ternura protetora. — Por que não me chamou? Eu teria te trazido. Eu teria cuidado de tudo.
— Meus pais... eles estavam lá — ela respondeu, fechando os olhos por um momento, sentindo o calor da mão dele. — Eu não queria incomodar você e a Sara.
— Você nunca é um incômodo, Eduarda. Entenda isso de uma vez — Emanuel sentou-se na beira da cama, ignorando as normas de distanciamento. — De agora em diante, se você sentir um fio de cabelo fora do lugar, você me avisa. Eu não quero saber se seus pais estão perto ou não. Eu quero cuidar de você.
Eduarda olhou para ele, a sensibilidade de sua alma captando a intensidade quase assustadora nos olhos dele. Ela não era boba; História da Arte a ensinara a ler símbolos, e o modo como Emanuel a segurava era um símbolo de posse e proteção que ela nunca experimentara.
— Por que você faz isso? — ela perguntou, uma lágrima solitária escapando e rolando pelo rosto. — Você mal me conhece. Você tem a Sara... ela é tão incrível, tão cheia de vida. Eu sou só... eu.
Emanuel esticou a mão e limpou a lágrima com o polegar, deixando sua mão repousar no rosto dela.
— A Sara é o sol, Eduarda. Ela brilha, ela queima, ela comanda. Mas você... você é como essa neblina lá fora. Você é o mistério, a suavidade, a paz que eu não sabia que precisava. Eu não quero escolher entre o sol e a neblina. Eu quero os dois.
Eduarda prendeu a respiração. O sedativo a deixava emocionalmente vulnerável, e as palavras dele penetravam em suas defesas como se não houvesse barreiras.
— A Sara... ela realmente sabe?
— Ela sabe. E ela quer que você esteja conosco — ele se inclinou, aproximando o rosto do dela. — Ela gosta de você. E eu... eu estou ficando louco com a ideia de deixar você sozinha de novo.
— Eu tenho medo — ela confessou, a voz quase inaudível. — Eu sou insegura, Emanuel. Eu não sou forte como a Sara.
— Você não precisa ser forte. Eu sou forte por nós três — ele afirmou com uma convicção que não deixava margem para dúvidas. — Você só precisa ser você. Deixe que eu me preocupo com o resto.
Emanuel ficou ali, segurando a mão dela até que o soro terminasse e o médico desse a alta. Ele insistiu em levá-la de volta para Paranapiacaba em sua própria caminhonete, apesar dos protestos educados do pai de Eduarda. No final, a autoridade natural de Emanuel prevaleceu.
No caminho de volta, Eduarda acabou pegando no sono, com a cabeça encostada na janela. Emanuel dirigia com uma cautela extrema, olhando para ela a cada cinco minutos. Ele se sentia um predador que acabara de resgatar sua presa ferida, mas um predador que não queria devorar, e sim aninhar.
Ao chegarem no casarão, o dia já estava querendo amanhecer, mas o sol continuava escondido atrás das nuvens pesadas. Emanuel pegou Eduarda no colo, sentindo a leveza do corpo dela contra o seu. Ela murmurou algo entre sonhos e se aninhou no peito dele, buscando o calor de sua jaqueta de couro.
Sara estava na varanda, enrolada em um robe de seda caro, observando a cena com um sorriso enigmático. Ela não sentia ciúmes; sentia satisfação. Ela conhecia o marido e sabia que, para Emanuel estar em equilíbrio, ele precisava daquele senso de dever cumprido.
— Ela está bem? — Sara perguntou quando ele passou por ela com a jovem nos braços.
— Sim. Só precisa de repouso — Emanuel respondeu, o olhar fixo no caminho à frente.
— Ótimo. Coloque-a na cama e venha dormir um pouco também. Você está com olheiras, meu amor.
Emanuel subiu, acomodou Eduarda em seu quarto e cobriu-a com cuidado. Antes de sair, ele beijou o topo da cabeça dela.
Ao voltar para seu próprio quarto, Sara já o esperava deitada. Ele se despiu e deitou-se ao lado da esposa, sentindo o perfume forte dela inundar seus sentidos.
— Você conseguiu o que queria? — Sara perguntou, aninhando-se nele.
— Eu só comecei, Sara — ele respondeu, fechando os olhos. — Eu não vou deixar ela ir embora depois desse final de semana.
— Eu sei que não vai — Sara bocejou, vitoriosa. — E eu vou adorar ter uma companhia para fazer compras para os bebês. A Eduarda tem bom gosto, embora seja um pouco pálido demais para mim. Vamos dar um jeito nisso.
Sob o teto daquele casarão antigo, em meio ao silêncio gótico de Paranapiacaba, um novo arranjo começava a se solidificar. Emanuel, entre o sol e a neblina, finalmente sentia que o controle da situação estava voltando para suas mãos, mesmo que o mundo lá fora ainda estivesse mergulhado no mais profundo cinza.