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O Peso do Amanhã e a Promessa do Asfalto

A neblina de Paranapiacaba parecia se despedir com uma densidade ainda maior, como se quisesse aprisionar os segredos e as tensões que haviam florescido entre as paredes do casarão vitoriano. O casamento da irmã de Eduarda com o irmão de Emanuel tinha sido um evento impecável, realizado sob o murmúrio da garoa e o brilho das velas na igreja antiga, mas para os três protagonistas daquele triângulo silencioso, o fim da celebração não significava um desfecho, mas o início de uma complexa jornada.

No jardim da fazenda, onde a festa havia se estendido até as primeiras horas da madrugada, os funcionários já desmontavam as estruturas. Emanuel observava o movimento da varanda, com uma xícara de café preto e forte entre as mãos. Ele não havia dormido quase nada. Seus olhos, sempre tão focados e práticos, buscavam constantemente a figura pequena e delicada de Eduarda em meio à movimentação de malas e despedidas.

Sara apareceu logo atrás dele, vestindo um conjunto de moletom de grife amarelo-ferrugem que gritava atenção mesmo naquele cenário acinzentado. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e impecável, e o batom vermelho, sua marca registrada, estava perfeitamente aplicado.

— O café está amargo, querido? — Sara perguntou, deslizando as mãos pelas costas de Emanuel, sentindo a rigidez dos músculos dele através da camisa de flanela. — Ou é só o gosto da partida que está te incomodando?

— Eu estava pensando no trânsito para São Paulo — Emanuel mentiu, embora soubesse que com Sara as mentiras eram apenas um exercício fútil. — A serra vai estar perigosa com essa umidade.

— Deixe de ser cínico — Sara riu, contornando o corpo dele para ficar de frente, forçando-o a olhar para ela. — Você está pensando na "boneca de museu". Está com medo de que, assim que cruzarmos o limite da vila, ela desapareça na vida dela e você perca o controle que acha que tem.

Emanuel suspirou, deixando os ombros caírem levemente.

— Ela é instável, Sara. O emocional dela está em frangalhos. Ontem, durante o brinde, vi como ela olhava para a própria barriga. Ela se sente sozinha.

— E é por isso que você vai oferecer a carona, não é? — Sara piscou, ajeitando a gola da camisa dele. — Eu já falei com os pais dela. Disse que nossa caminhonete é mais espaçosa e segura para uma grávida de cinco meses. Eles aceitaram na hora. São pessoas tão... modernas e práticas. Gostei deles.

Emanuel olhou para a esposa com uma mistura de admiração e espanto. A capacidade de Sara de manipular a realidade para que ele obtivesse o que desejava era, ao mesmo tempo, fascinante e assustadora.

— Você não existe, Sara.

— Eu existo e sou muito real, Emanuel. E quero o meu marido inteiro, não metade dele sonhando com uma bailarina enquanto dirige. Vá buscar as malas dela. Eu vou terminar de organizar as nossas coisas.

Enquanto isso, no quarto que ocupara durante o final de semana, Eduarda fechava sua mala com movimentos lentos. Ela se sentia exausta. O susto no hospital havia passado, mas a sensação de que algo fundamental havia mudado dentro dela permanecia. O toque de Emanuel, as palavras dele no hospital, a aceitação bizarra e magnética de Sara... tudo parecia um roteiro de um filme que ela não sabia se tinha talento para atuar.

— Duda, tem certeza de que quer ir com eles? — perguntou sua irmã, entrando no quarto com o vestido de noiva já devidamente guardado em uma capa. — Nós podemos apertar as coisas no carro do papai.

— A Sara insistiu muito, Elisa — Eduarda respondeu, sem olhar para a irmã. — E o Emanuel dirige com muito cuidado. O papai corre um pouco na descida da serra, e eu ainda estou me sentindo meio enjoada.

— Eles são... diferentes, não são? — Elisa sentou-se na beira da cama, observando a irmã. — O Emanuel parece que te vigia o tempo todo. E a Sara... bem, a Sara é um furacão. Mas eles parecem gostar de você.

Eduarda sentiu o rosto esquentar.

— Eles são gentis, só isso.

— Sei... — Elisa sorriu, sem querer pressionar a irmã, sabendo de sua timidez extrema.

Pouco tempo depois, o grupo se reuniu no pátio de cascalho. O pai de Eduarda apertou a mão de Emanuel com firmeza.

— Obrigado por cuidar dela no trajeto, Emanuel. A gente se vê em São Paulo para o jantar de retorno dos noivos, certo?

— Com certeza — Emanuel respondeu, sua voz assumindo aquele tom de autoridade natural que acalmava os que o cercavam. — Ela chegará em casa em segurança. Eu garanto.

Emanuel pegou a mala de Eduarda. Ao fazer isso, seus dedos roçaram nos dela deliberadamente. Eduarda estremeceu de leve, baixando os olhos castanhos, mas não recuou. Ela buscou o apoio do braço dele enquanto caminhava para a caminhonete preta e imponente.

No carro, a disposição era estratégica. Emanuel dirigia, Sara ocupava o banco do passageiro com o rádio sintonizado em uma estação de pop agitado, e Eduarda estava acomodada no banco de trás, cercada por almofadas que Sara fizera questão de arrumar para o conforto da "gravidinha".

— Pode dormir se quiser, Duda — Sara disse, virando-se para trás com um sorriso brilhante. — O trajeto é longo e o Emanuel dirige como um motorista de limusine quando quer.

— Obrigada, Sara. Você está sendo muito cuidadosa — Eduarda murmurou, sentindo-se pequena sob o olhar das duas personalidades tão fortes à sua frente.

— Nós cuidamos do que é precioso, querida — Sara retrucou, e a frase ficou pairando no ar, carregada de significados que Eduarda ainda tentava decifrar.

A descida da serra foi silenciosa. A neblina finalmente começou a ceder lugar ao cinza urbano de São Paulo. Emanuel observava Eduarda pelo retrovisor interno. Ela olhava pela janela, a expressão melancólica que tanto o encantava parecia fundir-se com a paisagem das fábricas e dos prédios que começavam a surgir.

— Você tem aulas de ballet amanhã? — Emanuel perguntou, quebrando o silêncio. Sua voz era baixa, feita para não assustar.

— Tenho — Eduarda respondeu, despertando de seus pensamentos. — Dou aula para as turmas infantis na segunda à tarde. E de manhã tenho faculdade. A rotina volta com tudo.

— Onde é a sua escola de ballet? — Sara perguntou, interessada. — Eu conheço quase todas as academias boas da zona sul.

Eduarda deu o endereço de um estúdio charmoso na Vila Mariana. Sara assentiu, digitando algo no celular.

— Ótimo. É perto de uma das lojas de decoração que eu frequento. Vou passar lá para te ver um dia desses. E o Emanuel também pode passar, já que ele tem um estúdio de tatuagem a poucas quadras dali. Não é, amor?

Emanuel sorriu de canto, entendendo a deixa de Sara.

— Sim. O estúdio da Vila Mariana é o meu favorito. Passo muito tempo lá. Se você precisar de carona depois das aulas, ou se Amélie decidir que quer sair antes da hora de novo, você tem o meu número.

— Eu não quero incomodar o trabalho de vocês — Eduarda disse, o coração disparando. A ideia de tê-lo por perto em sua rotina normal em São Paulo era, ao mesmo tempo, um alívio e um perigo.

— Eduarda — Emanuel disse, o tom agora mais sério, os olhos encontrando os dela pelo espelho. — Tire a palavra "incomodar" do seu vocabulário quando se tratar de nós. Nós decidimos que você faz parte do nosso círculo. E eu não volto atrás em minhas decisões.

O resto da viagem seguiu com Sara contando histórias engraçadas sobre os clientes de sua loja de roupas, tentando descontrair o ambiente. Ela era mestre em quebrar o gelo, usando sua vulgaridade refinada e sua confiança para fazer Eduarda rir timidamente. Aos poucos, a jovem bailarina começou a se soltar, sentindo que, talvez, aquela configuração estranha não fosse um erro, mas uma tábua de salvação.

Quando a caminhonete finalmente parou em frente ao prédio de classe média alta onde Eduarda morava com os pais, o sol de fim de tarde tentava timidamente aparecer entre os prédios de São Paulo.

Emanuel desceu para tirar a mala do porta-malas. Eduarda desceu logo em seguida, sentindo o ar pesado da cidade.

— Entregue em segurança — Emanuel disse, parando à frente dela. Ele era muito mais alto, e a sombra que projetava sobre ela parecia um abraço protetor.

— Obrigada, Emanuel. Por tudo — ela disse, olhando para cima.

Ele não resistiu. Levou a mão ao queixo dela, erguendo seu rosto um pouco mais.

— Eu vou te ligar amanhã. Quero saber como foi a primeira aula da semana.

— Tudo bem — ela sussurrou, sentindo a eletricidade entre eles.

Sara baixou o vidro do carro e acenou, jogando um beijo no ar.

— Tchau, Duda! Se cuida, e não esquece de passar o hidratante que eu te dei na barriga! Valentina e Amélie precisam de peles macias!

Eduarda riu, acenando de volta. Ela ficou na calçada observando a caminhonete se afastar no trânsito paulistano. Por um momento, sentiu um vazio súbito. O silêncio de seu apartamento pareceria ensurdecedor depois da presença avassaladora daquele casal.

Dentro do carro, Emanuel dirigia em direção ao apartamento luxuoso onde morava com Sara nos Jardins.

— Ela está fisgada, Emanuel — Sara disse, relaxando no banco de couro. — Ela está assustada, mas está fisgada. Você viu como ela segurou sua mão quando você a ajudou a descer?

— Eu vi — ele respondeu, a mente já trabalhando em como integraria Eduarda em sua vida diária. — Eu quero que ela se sinta segura, Sara. O pai daquela criança a destruiu emocionalmente. Eu quero reconstruir.

— E nós vamos — Sara afirmou, colocando a mão sobre a de Emanuel no câmbio. — Mas lembre-se, eu sou a primeira. Sempre.

— Você é a base, Sara. Sem você, não haveria espaço para mais nada — ele disse com sinceridade, levando a mão da esposa aos lábios.

— Ótimo. Agora, vamos para casa. Estou exausta de Paranapiacaba. Preciso de um banho de banheira e de você massageando meus pés antes que eu desmaie. E amanhã... amanhã começamos o plano "Eduarda".

Emanuel sorriu. Ele amava a praticidade implacável de Sara. Enquanto o carro cortava a Avenida Paulista, ele sabia que a neblina de Paranapiacaba tinha ficado para trás, mas o sentimento que nascera sob ela estava apenas começando a ganhar raízes no asfalto quente de São Paulo. Ele teria as duas. Ele teria sua família, sua proteção e sua paz. E nada, nem ninguém, ficaria em seu caminho.