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D

O Crepúsculo das Sombras e das Pedras

A luz da manhã entrava pelas janelas amplas do estúdio de tatuagem de Emanuel, refletindo-se nas superfícies de aço inoxidável e nos frascos de tinta negra. Ele estava concentrado no desenho de uma fênix, mas sua mente, habitualmente pragmática, vagava entre dois polos distintos. De um lado, a solidez vibrante de Sara; do outro, a fragilidade etérea de Eduarda.

Naquela tarde, ele decidiu que precisava reafirmar o que Sara significava para ele. Emanuel não era um homem de grandes discursos românticos, mas era um homem de gestos caros e definitivos. Ele saiu do estúdio e foi até uma joalheria exclusiva na rua Oscar Freire. Ao entrar, não hesitou. Escolheu um bracelete de ouro branco cravejado de diamantes negros, algo que combinava perfeitamente com a estética luxuosa e levemente agressiva de sua esposa.

Ao chegar em casa, encontrou Sara provando sapatos novos no closet imenso. Ela usava um robe de seda transparente que deixava à mostra as curvas acentuadas e a barriga de Valentina, que já começava a ganhar um formato bem definido.

— Para que esse olhar de quem está tramando algo, Emanuel? — perguntou ela, sem desviar a atenção do espelho.

— Só queria te lembrar que você é a rainha deste império — disse ele, aproximando-se e entregando a caixa de veludo.

Sara abriu a joia e seus olhos brilharam. Ela soltou uma risada satisfeita, jogando os braços ao redor do pescoço do marido.

— Você sabe como me mimar, tatuador. É por isso que eu deixo você ter seus caprichos.

— Não é um capricho, Sara. É você. Eu te amo — ele sussurrou, beijando-a com uma intensidade que selava o pacto silencioso entre eles.

— Eu sei, meu amor. Eu também te amo. E agora, como está a nossa "neblina"? Você falou com a Eduarda hoje?

Emanuel se afastou levemente, a expressão ficando séria.

— Mandei uma mensagem. Ela disse que teria uma aula externa da faculdade de História da Arte hoje à noite.

— À noite? Que tipo de faculdade leva os alunos para a rua à noite? — Sara franziu a testa.

— É uma aula prática sobre arquitetura funerária e simbolismo gótico — Emanuel respondeu, a voz carregada de uma irritação crescente. — No Cemitério da Consolação. Às dez da noite.

Sara soltou uma gargalhada alta, genuinamente divertida.

— Ai, Emanuel, que irônico! A menina que parece um anjo vai passear entre os túmulos no escuro. É a cara dela.

— Não tem graça, Sara. Ela está grávida de cinco meses. O chão daquele lugar é irregular, é escuro, e a Consolação não é a região mais segura do mundo a essa hora. Eu disse que não era uma boa ideia, mas ela foi evasiva.

— Ela é teimosa, Emanuel. Aquela carinha de santa esconde uma vontade própria que você ainda não mapeou — comentou Sara, voltando a admirar o bracelete no pulso. — Se você está tão preocupado, por que não vai lá?

Emanuel não respondeu, mas o brilho em seus olhos denunciava que ele já havia tomado essa decisão.

***

No apartamento de Eduarda, o clima era de uma liberdade ansiosa. Seus pais haviam viajado para um congresso de arquitetura no Rio de Janeiro e só voltariam no dia seguinte. Ela se olhou no espelho, vestindo um vestido longo de veludo azul-escuro e uma capa de lã preta. Amélie estava calma em seu ventre, mas Eduarda sentia o coração acelerado.

Ela amava o clima gótico, a melancolia das estátuas de mármore que pareciam chorar sob a luz da lua. Aquela aula era o ponto alto do semestre para ela. Quando o celular vibrou com uma nova mensagem de Emanuel, ela sentiu um frio na barriga.

"Eduarda, me diga que você desistiu dessa ideia louca. Eu posso te levar para ver o cemitério de dia no próximo sábado."

Ela digitou rapidamente, com os dedos trêmulos.

"Não posso perder, Emanuel. É uma oportunidade única com o professor. Eu vou ficar bem, prometo."

Ela guardou o celular na bolsa e saiu antes que ele pudesse responder. O trajeto de Uber até o Cemitério da Consolação foi rápido. Quando chegou ao portão principal, encontrou seu grupo de faculdade. O professor, um homem excêntrico de meia-idade, começou a guiar os alunos pelas alamedas silenciosas, explicando o significado das tochas invertidas e das ampulhetas aladas nos jazigos das famílias tradicionais paulistas.

Eduarda estava fascinada. O cheiro de terra úmida e o silêncio interrompido apenas pelo farfalhar das folhas das árvores a faziam se sentir em paz. Ela se afastou um pouco do grupo para observar de perto uma escultura de um anjo que parecia proteger um túmulo infantil.

— Você sempre escolhe os lugares mais perigosos para se perder nos seus pensamentos, não é?

Eduarda deu um pulo, soltando um pequeno grito abafado. Ao se virar, viu a silhueta alta e imponente de Emanuel emergindo da escuridão de uma alameda lateral. Ele vestia uma jaqueta de couro preta e tinha as mãos nos bolsos, a expressão endurecida pela irritação.

— Emanuel! Você me assustou! O que está fazendo aqui? — sussurrou ela, tentando controlar a respiração.

— O que eu estou fazendo aqui? — Ele deu um passo à frente, sua presença parecendo ocupar todo o espaço entre as lápides. — Eu estou aqui porque você é teimosa demais para entender que uma mulher grávida não deveria estar tropeçando em raízes de árvores em um cemitério às dez e meia da noite.

— Eu estou com o meu grupo, Emanuel. O professor está logo ali — ela apontou para as lanternas que brilhavam a uns vinte metros de distância.

— O seu professor está dando uma aula, Eduarda. Ele não está olhando para onde você pisa — Emanuel se aproximou mais, segurando o braço dela com firmeza, mas sem machucar. — Eu fiquei louco de preocupação. Você não atendeu a minha última chamada.

— Eu deixei o celular no silencioso para não atrapalhar a explicação — ela disse, fazendo um biquinho manhoso que costumava desarmar qualquer um. — Não briga comigo... olha como este lugar é lindo.

Emanuel olhou ao redor, para as sombras projetadas pelos monumentos, e depois voltou a olhar para ela. A luz da lua filtrava-se pelas árvores, iluminando a pele pálida de Eduarda e seus olhos grandes e expressivos. A raiva dele começou a se dissipar, sendo substituída por aquela necessidade visceral de proteção.

— Você é impossível — ele disse, a voz agora mais baixa e rouca. — Você sabe que eu não consigo ficar bravo com você por muito tempo quando você me olha desse jeito.

— Então você vai me deixar terminar a aula? — perguntou ela, aproximando-se e apoiando a mão no peito dele, sentindo o batimento firme do coração de Emanuel.

— Eu vou ficar aqui — ele decretou, cobrindo a mão dela com a sua. — Vou seguir o grupo à distância. Se você tropeçar, eu vou estar atrás de você para te segurar.

Eduarda sorriu, uma expressão doce que iluminou o ambiente sombrio.

— Você é muito mandão, sabia?

— Alguém tem que ser, já que você parece flutuar acima da realidade — ele retrucou, permitindo-se um sorriso raro.

Eles seguiram o grupo pelo restante da visita. Emanuel mantinha-se como uma sombra protetora, sempre a alguns passos de Eduarda. O professor falava sobre a transitoriedade da vida, mas Emanuel só conseguia pensar no futuro. Ele imaginava Eduarda e Sara juntas, cuidando de Valentina e Amélie. Ele via a casa cheia, o contraste entre o brilho de uma e a suavidade da outra, e sentia que aquele caos emocional era o seu destino.

Ao final da aula, quando os alunos começaram a se dispersar em direção aos seus carros, Emanuel conduziu Eduarda até sua caminhonete, que estava estacionada logo na entrada.

— Eu te levo para casa — disse ele, abrindo a porta para ela.

— Emanuel, meus pais não estão em casa... eles viajaram — ela comentou timidamente enquanto se acomodava no banco.

Emanuel parou com a mão na porta, olhando para ela. O silêncio da rua deserta parecia amplificar a tensão entre eles.

— E por que você está me contando isso? — ele perguntou, a voz carregada de um novo tipo de intensidade.

— Porque... eu não queria ficar sozinha hoje. Depois de andar pelo cemitério, a casa parece muito grande — ela confessou, baixando o olhar, a insegurança voltando a aflorar.

Emanuel entrou no carro e deu a partida. Ele dirigiu em silêncio por alguns minutos, processando a informação.

— Você não vai ficar sozinha — ele disse finalmente. — Eu vou ficar com você até você pegar no sono. E depois, eu preciso voltar para a Sara. Ela está me esperando.

— Eu sei — Eduarda disse, sentindo uma pontada de tristeza, mas também de alívio. — Eu gosto que você ame ela tanto assim. Isso me faz sentir que... que você é um homem em quem eu posso confiar.

Emanuel esticou a mão e acariciou o rosto dela enquanto parava no sinal vermelho.

— Você pode confiar em mim com a sua vida, Eduarda. E com a da Amélie também.

Ao chegarem no apartamento dela, o ambiente era silencioso e moderno. Eduarda acendeu algumas luzes indiretas, criando uma atmosfera acolhedora. Ela se sentou no sofá, sentindo o cansaço da caminhada pesar em suas pernas.

— Quer que eu prepare um chá? — perguntou ela.

— Não. Quero que você descanse — Emanuel sentou-se ao lado dela e, de forma natural, puxou as pernas de Eduarda para o seu colo, começando a massagear seus pés, repetindo o gesto que fizera com Sara horas antes.

Eduarda soltou um suspiro de satisfação, fechando os olhos.

— Você faz isso muito bem...

— Eu tenho prática — ele sorriu. — Sara exige massagens diárias. Ela diz que carregar uma Valentina não é para amadoras.

— Ela é tão forte — Eduarda murmurou. — Às vezes eu queria ser como ela. Sem medo de nada, falando o que pensa.

— O mundo não precisa de duas Saras, Eduarda. O mundo precisa da sua delicadeza. Eu preciso dela.

Eles ficaram assim por um longo tempo. Emanuel falava sobre seus estúdios de tatuagem, sobre suas viagens e sobre como imaginava o quarto das bebês. Eduarda ouvia, encantada pela visão de mundo dele, tão focada em prover e proteger.

Quando Eduarda começou a cochilar, Emanuel a pegou no colo e a levou para o quarto. Ele a deitou com cuidado, tirando seus sapatos e cobrindo-a com o edredom macio.

— Emanuel? — ela chamou, com a voz embargada pelo sono.

— Oi.

— Obrigada por ter ido ao cemitério. Eu me senti segura sabendo que você estava nas sombras.

Emanuel beijou a testa dela, sentindo o cheiro suave de flores que emanava de seus cabelos.

— Eu sempre estarei nas sombras por você, pequena. Durma bem.

Ele saiu do apartamento e entrou na caminhonete. O relógio no painel marcava quase duas da manhã. Ele ligou para Sara.

— Já estou voltando, meu amor — disse ele assim que ela atendeu.

— Ela está bem? — a voz de Sara soava sonolenta, mas atenta.

— Está. Ficou exausta, mas está segura em casa.

— Ótimo. Venha logo. Valentina está chutando e eu preciso que você diga para ela ficar quieta para a mãe dela dormir.

Emanuel sorriu, sentindo o coração cheio. Ele dirigiu pelas ruas desertas de São Paulo, sentindo-se o homem mais rico do mundo. Ele tinha a joia de diamantes negros em casa e a pérola de porcelana protegida em seu ninho. Para muitos, aquilo seria um escândalo ou um erro. Para Emanuel, era apenas a construção da sua própria verdade.

Ao entrar em seu quarto, ele encontrou Sara dormindo com o bracelete novo brilhando no pulso. Ele se deitou ao lado dela, sentindo o calor de seu corpo. Antes de fechar os olhos, sua mente voou por um instante até o cemitério, onde um anjo de mármore guardava o silêncio, e depois voltou para aquele quarto, onde sua realidade era vibrante, complexa e absoluta.

A neblina e o sol finalmente haviam encontrado um equilíbrio no horizonte de sua vida.