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O Ultimato do Protetor

A sala de espera do Hospital Santa Catarina estava mergulhada em um silêncio tenso, interrompido apenas pelo som abafado de bipes de equipamentos médicos e o murmúrio distante de passos no corredor. Emanuel estava sentado em uma das poltronas de couro sintético, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas sob o queixo. Ele parecia uma estátua de granito, imperturbável por fora, mas por dentro, uma tempestade de decisões práticas e impulsos emocionais colidiam.

Sara estava ao seu lado, as pernas cruzadas com elegância, folheando uma revista de moda sem realmente ler uma única linha. Ela era a âncora dele, a personificação da realidade que ele conhecia, mas ambos sabiam que a dinâmica de suas vidas estava prestes a sofrer uma mutação definitiva.

Quando os pais de Eduarda, Ricardo e Heloísa, saíram do quarto de repouso da filha e caminharam em direção à recepção, Emanuel se levantou. Sua postura era ereta, a jaqueta de couro preta conferindo-lhe um ar de autoridade que contrastava com o ambiente hospitalar.

— Ricardo, Heloísa — chamou Emanuel, sua voz grave ressoando com uma firmeza que não admitia interrupções. — Precisamos conversar. Agora.

Ricardo, o arquiteto de traços modernos e olhar cansado, parou e encarou o jovem tatuador. Ele já havia notado a presença constante de Emanuel nos últimos dias, a preocupação que excedia a de um simples conhecido de família.

— Emanuel, estamos exaustos. A Eduarda precisa descansar e nós também — disse Ricardo, tentando manter a polidez.

— O que tenho a dizer não pode esperar — Emanuel deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — É sobre o futuro da Eduarda. E o da Amélie.

Heloísa olhou de Emanuel para Sara, percebendo a cumplicidade silenciosa entre o casal. Como uma mulher intuitiva, ela sentia que algo monumental estava para ser revelado.

— Vamos até a cafeteria — sugeriu Heloísa, a voz suave mas cautelosa. — Está vazia a esta hora.

Minutos depois, os quatro estavam acomodados em uma mesa de canto, longe dos ouvidos curiosos. Emanuel não perdeu tempo com preliminares. Ele era um homem de negócios, um homem que lidava com a dor e a marcação definitiva na pele alheia; ele sabia que a verdade, por mais dolorosa que fosse, era a única forma de cicatrização.

— Eu vou ser direto — começou Emanuel, os olhos fixos nos de Ricardo. — Eu amo a Eduarda. E eu não vou permitir que ela saia deste hospital para voltar a uma rotina de solidão e insegurança.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Ricardo piscou, atordoado, enquanto Heloísa levava a mão à boca.

— Emanuel, você é casado — Ricardo disse, a voz subindo um tom, a indignação começando a aflorar. — Você tem uma esposa grávida. O que você está sugerindo é... é um absurdo. Um insulto à minha filha e à sua própria mulher.

— Não é um insulto se eu estou aqui, apoiando cada palavra dele — interveio Sara, sua voz cortante e confiante. — Eu conheço o meu marido, Ricardo. Sei como o coração dele funciona. Ele ama a mim, e ele ama a Eduarda. E eu, por incrível que pareça para pessoas com mentes tão "modernas" quanto as de vocês, não me importo. Eu quero a felicidade dele, e se a felicidade dele inclui cuidar da Eduarda e daquela bebê, então essa é a minha vontade também.

Ricardo balançou a cabeça, rindo sem humor.

— Isso é loucura. É uma perversão. Eduarda é uma menina sensível, ela acabou de passar por um trauma, foi abandonada pelo pai da criança...

— Exatamente! — Emanuel bateu levemente com a mão na mesa, a intensidade de seu olhar fazendo Ricardo recuar. — Ela foi abandonada. Ela está quebrada, Ricardo. Ela finge que é forte com o ballet e a faculdade, mas ela chora quando acha que ninguém está vendo. Ela precisa de proteção. Ela precisa de alguém que assuma o controle quando ela não tiver forças para se levantar. E esse alguém sou eu.

— Você está propondo o quê? — perguntou Heloísa, tentando entender a logística daquela confissão. — Que ela viva nas sombras? Que seja sua amante?

— Nunca — Emanuel respondeu com uma convicção feroz. — Eu quero que ela more conosco. No meu apartamento nos Jardins. Ela terá o melhor acompanhamento médico, enfermeiras, segurança. Amélie será criada junto com Valentina. Elas serão irmãs. A Eduarda não será uma sombra; ela será parte da minha família. Oficialmente, diante de quem quiser ver.

Ricardo encarou Emanuel por um longo tempo. Ele via a tensão nos ombros do rapaz, o modo como ele protegia Sara ao mesmo tempo em que lutava por Eduarda. Havia uma verdade ali que transcendia a moralidade convencional, uma força de natureza que Ricardo, como pai, não conseguia ignorar totalmente.

— Você fala de proteção, de provisão, de logística — Ricardo disse, inclinando-se para frente, sua voz agora baixa e carregada de uma dúvida paternal. — Mas me diga uma coisa, Emanuel. Olhe nos meus olhos e seja homem o suficiente para responder.

Emanuel sustentou o olhar, sem piscar.

— Diga.

— Você ama a Amélie? — perguntou Ricardo, a voz trêmula. — Você ama essa criança que ainda nem nasceu, que não tem o seu sangue, que é fruto de um homem que a rejeitou? Ou ela é apenas um acessório no seu desejo de possuir a Eduarda?

Emanuel sentiu o impacto da pergunta. Ele fechou os olhos por um breve segundo, e a imagem da ultrassonografia que Eduarda lhe mostrara em Paranapiacaba veio à sua mente. Ele se lembrou da mão dela sobre a barriga no cemitério, do medo que sentira quando soube da queda.

— Eu não vejo a Amélie como o fruto de outro homem — Emanuel disse, a voz rouca de emoção. — Eu a vejo como a extensão da pureza da Eduarda. Eu já a amo porque ela é parte dela. E eu a amarei porque eu decidi ser o pai dela. O sangue pode ser de outro, mas o nome, a proteção e o futuro serão meus. Eu vou amar a Amélie com a mesma força com que vou amar a Valentina.

Heloísa começou a chorar silenciosamente. Ela via a sinceridade brutal naquelas palavras. Ricardo, por sua vez, parecia estar processando um novo mundo de possibilidades.

— Eduarda sabe disso? — perguntou Heloísa. — Ela sabe dessa sua... proposta?

— Ela sabe que eu a amo — Emanuel respondeu. — Ela sabe que eu quero cuidar dela. Mas ela é tímida, ela tem medo de magoar as pessoas, de ser um peso. Por isso eu estou falando com vocês primeiro. Eu quero a bênção de vocês, ou pelo menos a não interferência. Eu vou levá-la comigo.

— E se dissermos não? — Ricardo desafiou.

— Então eu vou conquistá-la dia após dia, até que ela mesma diga sim e venha por conta própria — Emanuel afirmou, sem hesitar. — Mas seria muito mais fácil para o emocional dela se ela soubesse que os pais entendem que ela não está sendo levada para o mal, mas sim para um porto seguro.

Sara se levantou, ajeitando o casaco.

— Pensem bem — disse ela, olhando para Ricardo e Heloísa. — Vocês querem que ela volte para o quarto dela, no apartamento de vocês, para ficar olhando para as paredes e se sentindo uma mãe solteira abandonada? Ou querem que ela floresça em um lugar onde será amada por dois adultos que têm todos os recursos do mundo para fazê-la feliz? Eu não sou uma ameaça para a filha de vocês. Eu sou a aliada dela.

Emanuel levantou-se também, a conversa estava encerrada para ele. Ele já havia plantado a semente.

— Eu vou voltar para o quarto dela agora — disse Emanuel. — Vou esperar que ela acorde. E quando ela acordar, eu vou contar exatamente o que eu disse a vocês.

Ele caminhou em direção ao elevador, deixando os pais de Eduarda para trás em um estado de choque contemplativo. Sara o seguiu, mas antes de entrar no elevador, ela se virou para trás uma última vez.

— Ricardo — chamou ela. — Ele nunca mentiu para mim. E ele não mentiu para você sobre a Amélie. O Emanuel não sabe amar pela metade.

***

No quarto 302, a penumbra era quebrada apenas pelo brilho suave dos monitores. Eduarda estava despertando do sedativo, o corpo pesado e a mente ainda envolta em névoa. Ela sentiu uma pressão quente em sua mão e, ao abrir os olhos, encontrou Emanuel sentado ao seu lado.

— Emanuel... — sussurrou ela, a voz frágil.

— Estou aqui, pequena. Shhh... não se esforce.

— Meus pais... eles estão bravos? Eu ouvi vozes...

Emanuel sorriu, um sorriso raro e terno que transformava seu rosto severo.

— Eu conversei com eles, Eduarda. Abri o jogo. Contei tudo.

Eduarda arregalou os olhos, a respiração ficando um pouco mais curta.

— Tudo? Sobre... sobre nós? Sobre a Sara?

— Sobre tudo — ele confirmou, levando a mão dela aos lábios. — Contei que amo você. Que amo a Amélie. E que você vai morar comigo e com a Sara assim que sair daqui.

Eduarda sentiu uma lágrima escorrer pelo canto do olho. A ideia de não ter mais que esconder o que sentia, de não ter que enfrentar a gravidez sozinha em seu quarto, parecia um sonho bom demais para ser verdade.

— O que meu pai disse? — perguntou ela, temerosa.

— Ele me perguntou se eu amava a Amélie — Emanuel contou, olhando no fundo dos olhos dela. — E eu disse a ele a verdade. Que ela já é minha filha no meu coração. Que eu vou protegê-la de tudo, assim como vou proteger você.

Eduarda soltou um soluço baixo, um misto de alívio e gratidão. Ela se inclinou levemente, ignorando a dor no tornozelo, e encostou a testa no ombro de Emanuel.

— Eu tive tanto medo, Emanuel... medo de que você desistisse de mim por causa da confusão que é a minha vida.

— Eu não desisto do que me pertence, Eduarda — ele disse, abraçando-a com cuidado, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. — E você e a Amélie me pertencem agora.

A porta do quarto se abriu suavemente e Sara entrou. Ela não disse nada, apenas caminhou até o outro lado da cama e colocou a mão sobre o ombro de Eduarda. O toque era firme, mas não agressivo. Era um reconhecimento.

— Temos muito o que planejar, Duda — disse Sara, com seu tom prático. — O quarto da Amélie precisa de tons de lavanda e cinza, combina com esse seu jeito de bailarina melancólica. E eu já contratei a melhor obstetra de São Paulo para assumir o seu caso.

Eduarda olhou para Sara, depois para Emanuel. Ela se sentia como se estivesse no centro de um furacão, mas, pela primeira vez em meses, o furacão não a assustava. Ele a isolava do resto do mundo, criando um espaço onde ela podia simplesmente ser ela mesma: manhosa, sensível e cuidada.

— Eu quero ir... — sussurrou Eduarda. — Eu quero ir com vocês.

Emanuel apertou a mão dela, o olhar vitorioso encontrando o de Sara por cima da cabeça de Eduarda. O pacto estava selado.

Lá fora, a chuva de São Paulo continuava a cair, lavando as ruas e escondendo os segredos da cidade. Mas dentro daquele quarto, o destino de três adultos e duas crianças que ainda nem haviam nascido estava sendo traçado com a mesma permanência das tatuagens que cobriam os braços de Emanuel. O controle fora estabelecido. A família, em toda a sua forma atípica e intensa, estava começando. E para Eduarda, a neblina de Paranapiacaba finalmente havia dado lugar a um porto seguro, onde o amor não precisava de explicações, apenas de aceitação.