D
O Peso de um Toque e o Silêncio de Amélie
A mudança para o apartamento nos Jardins aconteceu com uma eficiência que beirava o militarismo, orquestrada pela mão de ferro de Sara e executada sob o olhar vigilante de Emanuel. Os pais de Eduarda, Ricardo e Heloísa, após noites em claro e muitas discussões, acabaram cedendo. Não foi uma rendição total, mas um voto de confiança pragmático: eles viam que a filha florescia sob os cuidados de Emanuel e que a presença de Sara, longe de ser um conflito, era um suporte estrutural que Eduarda jamais tivera.
O apartamento era um duplex vasto, com janelas que iam do chão ao teto, revelando a selva de pedra de São Paulo. Mas, lá dentro, o clima era de uma harmonia atípica. Eduarda agora tinha um quarto ao lado do de hóspedes, transformado em um refúgio romântico com tons pastéis, mas passava a maior parte do tempo na sala de estar, aninhada entre Emanuel e Sara.
A dinâmica das gravidezes, no entanto, era o grande tópico das noites silenciosas.
— Valentina vai ser uma jogadora de futebol ou uma lutadora de MMA — exclamou Sara, soltando um gemido baixo enquanto se ajeitava no sofá de linho. — Emanuel, sinta isso. Ela está tentando chutar minhas costelas para fora.
Emanuel, que estava sentado com um tablet revisando o faturamento de seus estúdios, largou o aparelho imediatamente. Ele deslizou para o lado de Sara e espalmou a mão grande e tatuada sobre o ventre proeminente da esposa. No mesmo instante, um calombo nítido se formou sob a pele de Sara, empurrando a palma de Emanuel com força.
— Ela é forte — comentou Emanuel, com um sorriso de orgulho que raramente mostrava. — Tem o seu temperamento, Sara. Não aceita ser ignorada por um segundo sequer.
— Ela é um furacão — concordou Sara, rindo e olhando para Eduarda, que estava sentada em uma poltrona próxima, lendo um livro sobre a Renascença italiana. — E a sua pequena, Duda? Amélie já deu o ar da graça hoje?
Eduarda fechou o livro lentamente, com aquele jeito calmo e manhoso que era sua marca registrada. Ela acariciou a própria barriga, que, embora estivesse com o mesmo tempo de gestação que a de Sara, parecia muito mais discreta e suave.
— Ela está aqui, quietinha — respondeu Eduarda com um sorriso doce. — Amélie é muito pacífica. Ela se mexe como se estivesse dançando um adagio, bem devagar. Às vezes, sinto apenas uma borboleta batendo as asas por dentro.
Emanuel franziu a testa, a expressão de preocupação obscurecendo seus traços. Ele se levantou e caminhou até Eduarda, ajoelhando-se no tapete felpudo à frente dela.
— Você sentiu ela hoje? — perguntou ele, a voz carregada daquela seriedade protetora que às vezes beirava o controle excessivo.
— Senti, Emanuel. Ela está bem. Só não é... exibida como a Valentina — brincou Eduarda, passando a mão pelos cabelos dele.
— Deixe-me ver — pediu ele.
Emanuel colocou as duas mãos sobre a barriga de Eduarda. Ele ficou em silêncio absoluto por quase dois minutos. Seus olhos estavam fechados, toda a sua concentração voltada para a percepção de qualquer movimento sob a pele delicada da jovem. Mas nada aconteceu. Amélie permanecia em seu estado de contemplação profunda, imersa em um silêncio que desesperava o homem habituado a resolver tudo com ação e força.
— Nada — disse ele, frustrado, retirando as mãos. — Eu nunca consigo sentir. Todas as vezes que eu tento, ela para. Ou ela simplesmente não se mexe.
— Ela é tímida como a mãe, Emanuel — disse Sara da poltrona, achando graça da frustração do marido. — Você chega com essa energia de quem quer dominar o mundo, e a pobre da Amélie deve pensar: "Melhor eu ficar aqui no meu canto, esse homem é intenso demais".
— Não é engraçado, Sara — rebateu Emanuel, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — E se houver algo errado? E se ela for calma demais porque está fraca? Eduarda, você tem certeza de que ela está bem?
Eduarda soltou uma risadinha baixa, o que fez Emanuel parar e encará-la.
— Emanuel, o médico disse na última ultrassonografia que ela é perfeitamente saudável. Ela só é tranquila. Ela gosta de silêncio, de música clássica... e de quando eu tomo chá de camomila.
— Eu sinto a Valentina o tempo todo — insistiu ele, a voz ríspida pela ansiedade acumulada. — Sinto os chutes, sinto as reviravoltas. Com a Amélie, parece que estou tocando em uma estátua. Eu quero sentir a minha filha, Eduarda. Eu preciso saber que ela está ali.
Eduarda sentiu uma pontada de carinho pela vulnerabilidade dele. Emanuel era um homem rico, poderoso e respeitado, mas ali, diante de uma barriga de cinco meses que se recusava a chutar sua mão, ele parecia um menino perdido.
— Venha aqui — chamou ela, estendendo a mão.
Emanuel voltou a se aproximar, sentando-se na beirada da poltrona, quase invadindo o espaço de Eduarda.
— Tente relaxar — instruiu ela. — Se você ficar tenso assim, ela percebe. Amélie é muito sensível às suas emoções, Emanuel. Ela sente quando você está estressado.
Ele suspirou, tentando baixar os ombros. Eduarda pegou a mão dele e a colocou exatamente onde sentia um leve peso.
— Agora, espere. Sem pressão. Só o calor da sua mão.
Passaram-se mais alguns minutos. O relógio de parede da sala parecia ticar mais alto. Sara observava a cena com um sorriso enigmático, apreciando como aquelas duas energias tão diferentes — a força bruta de Emanuel e a suavidade de Eduarda — tentavam encontrar um ponto de equilíbrio.
De repente, Eduarda sentiu. Foi um movimento sutil, como se Amélie estivesse se espreguiçando no útero, um rolar suave que pressionou levemente a palma de Emanuel.
— Ela se mexeu! — sussurrou Eduarda, os olhos brilhando. — Você sentiu?
Emanuel ficou imóvel. Seus olhos se arregalaram.
— Eu... eu achei que senti algo. Mas foi tão leve. Parecia um pulso. Tem certeza de que não foi o seu coração?
— Não foi o meu coração, Emanuel — ela riu, balançando a cabeça. — Foi ela. Ela te deu um "oi" bem discreto.
— Isso não foi um chute — reclamou ele, embora o tom de voz estivesse mais calmo. — Foi um nada. Valentina me deu um chute na costela hoje que quase me deixou sem fôlego. Por que a Amélie é assim?
— Porque ela é a minha paz — disse Eduarda, puxando o rosto dele para um beijo rápido e doce na bochecha. — A Valentina é a sua força, a sua energia, o reflexo da Sara. Mas a Amélie... ela é o seu descanso.
Emanuel olhou para Eduarda e depois para Sara. Ele se sentia dividido e, ao mesmo tempo, estranhamente completo. A frustração por não sentir os chutes vigorosos de Amélie ainda estava lá, uma pequena farpa em seu instinto de controle, mas a explicação de Eduarda fizera sentido em sua mente racional.
— Eu só quero que ela saiba que eu estou aqui — murmurou ele, a mão ainda repousando sobre Eduarda. — Que eu nunca vou deixar nada acontecer com ela.
— Ela sabe — afirmou Sara, levantando-se com certa dificuldade e caminhando até eles. Ela colocou a mão sobre o ombro de Emanuel. — Ela sabe tanto que se sente segura o suficiente para dormir enquanto você está por perto. Ela não precisa lutar por atenção, Emanuel. Ela sabe que já ganhou a sua alma.
Emanuel relaxou finalmente, permitindo que o silêncio da noite o envolvesse.
— Amanhã vamos ao médico de novo — decretou ele, voltando ao seu tom de comando. — Quero que ele faça um doppler detalhado. Quero ouvir o coração dela. Se eu não posso sentir os chutes, quero ouvir o ritmo dela.
— Tudo bem, senhor controlador — Eduarda brincou, fechando os olhos e encostando a cabeça no ombro dele. — Nós vamos.
Naquela noite, sob o céu nublado de São Paulo que tanto lembrava o clima de Paranapiacaba onde tudo começara, o apartamento dos Jardins abrigava uma configuração de família que o mundo dificilmente entenderia. Mas ali, entre o movimento frenético de Valentina e o silêncio profundo de Amélie, Emanuel encontrava o único tipo de controle que realmente importava: o de saber que, independentemente do ritmo de cada batida de coração, todas elas pertenciam a ele.
— Emanuel? — chamou Sara, já da porta do quarto, com um brilho malicioso nos olhos.
— Sim?
— Pare de encarar a barriga da Duda como se fosse um enigma de História da Arte. Venha dormir. Valentina decidiu que quer massagem nas costas agora, e eu não aceito não como resposta.
Emanuel sorriu, levantando-se e ajudando Eduarda a se levantar também.
— Parece que o meu turno de trabalho nunca acaba — comentou ele, mas havia uma satisfação profunda em sua voz.
— É o preço de querer o mundo inteiro nos braços, meu amor — respondeu Sara, enquanto os três caminhavam para a ala dos quartos, deixando para trás o silêncio da sala e levando consigo a promessa de um amanhã onde cada chute e cada silêncio seriam celebrados com a mesma intensidade.