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Sussurros de Cetim e Sombras de Carvalho
A estrada para a casa de campo dos Albuquerque era cercada por uma vegetação densa que parecia abraçar o asfalto conforme o carro subia a serra. Emanuel dirigia com uma mão firme no volante e a outra repousando sobre a coxa de Sara, que ocupava o banco do carona. No banco de trás, Eduarda observava a paisagem com os olhos grandes e curiosos, sentindo-se protegida pelo conforto luxuoso do SUV, mas ainda processando a velocidade com que sua vida havia se transformado.
A propriedade, uma construção imponente de pedra e madeira nobre, surgiu entre a neblina matinal como um refúgio de outro século. Emanuel estacionou e, antes mesmo que o motor esfriasse, já estava do lado de fora para abrir a porta para suas duas mulheres. Ele ajudou Eduarda a descer primeiro, com um cuidado quase exagerado, segurando-a pela cintura para garantir que ela não perdesse o equilíbrio.
— É lindo aqui, Emanuel — sussurrou Eduarda, ajustando o cardigã sobre a barriga de cinco meses. O ar puro da montanha fazia suas bochechas ganharem um tom rosado natural.
— É o meu lugar favorito no mundo — respondeu ele, depositando um beijo na testa dela antes de se virar para ajudar Sara.
Sara saiu do carro com seus óculos escuros de grife e um conjunto de moletom de veludo que, embora casual, gritava riqueza. Ela olhou para a fachada da casa e estremeceu levemente, cruzando os braços.
— É lindo, Manu, mas você sabe que esse lugar me dá arrepios. É muito... isolado. E essa floresta parece que está olhando para a gente.
Emanuel riu, um som grave que ecoou pelo pátio de cascalho, e puxou Sara para um abraço possessivo, mantendo Eduarda próxima ao seu lado.
— Você só diz isso porque não gosta de silêncio, Sara. Mas aqui o controle é meu, nada vai te assustar.
Eles entraram na casa, onde uma lareira já estalava na sala principal, preparada pelos funcionários antes da chegada. Enquanto Sara se ocupava em inspecionar a cozinha e reclamar, de forma brincalhona, da falta de sinal de celular estável, Eduarda caminhava lentamente pela biblioteca, tocando a lombada dos livros antigos. Foi ali que ela encontrou uma governanta idosa, Dona Zilda, que limpava o pó de um busto de mármore.
— A senhora deve ser a menina bailarina de quem o patrão falou — disse Zilda, com um sorriso gentil. — Cuidado com os degraus, querida. A gravidez nos deixa sem eixo.
— Obrigada, Dona Zilda — respondeu Eduarda, com sua doçura habitual. — Esta casa parece ter muitas histórias, não tem?
A senhora olhou ao redor, certificando-se de que Emanuel e Sara estavam em outro cômodo, e baixou o tom de voz.
— Ah, se tem. A mais famosa é a da Noiva do Lago. Dizem que era uma antepassada dos Albuquerque, prometida a um homem que não amava. Na noite do casamento, ela fugiu em direção ao lago nos fundos da propriedade, com o vestido de seda branca brilhando sob a lua. Ela nunca mais foi vista, mas nas noites de neblina, dizem que ela aparece no coreto do jardim, esperando pelo verdadeiro amor que nunca chegou.
Os olhos de Eduarda brilharam. Para uma estudante de História da Arte e uma alma romântica, aquela tragédia era fascinante.
— Uma noiva fantasma? — Eduarda perguntou, encantada. — Que imagem mais triste e poética...
— Poética? — A voz de Sara surgiu da porta, carregada de desdém e um pavor genuíno. — É aterrorizante, isso sim! Manu, você ouviu isso? Sua funcionária está assustando a Duda com histórias de assombração!
Emanuel entrou na sala logo atrás, com uma expressão séria, mas os olhos entregavam o divertimento.
— Zilda, não encha a cabeça delas com essas lendas de família. A "Noiva" é apenas um efeito da neblina sobre a água do lago.
— Mas Emanuel, imagine o figurino! — Eduarda disse, aproximando-se dele com aquele jeito manhoso que sempre o desarmava, segurando a mão tatuada dele entre as suas. — O contraste do branco no meio da escuridão... deve ser uma cena magnífica.
— Magnífica para um quadro, talvez — interveio Sara, agarrando o outro braço de Emanuel. — Para a vida real, eu prefiro luzes de LED e segurança privada. Manu, você prometeu que eu ia relaxar, não que eu ia ter um infarto antes da Valentina nascer.
Emanuel envolveu as duas em seus braços, sentindo o calor de Sara e a delicadeza de Eduarda.
— Ninguém vai ter infarto. É apenas uma história. Agora, vamos almoçar. Eu mandei prepararem aquele risoto que vocês duas adoram.
O resto do dia passou de forma tranquila, mas a semente da curiosidade havia germinado em Eduarda. Durante o jantar, ela permaneceu quieta, observando a neblina que começava a lamber as janelas de vidro da sala de jantar. Sara, por outro lado, estava inquieta, pedindo a Emanuel que verificasse as trancas das portas duas vezes.
— Você está muito tensa, Sara — comentou Emanuel, servindo um pouco de suco para Eduarda. — O que houve com a mulher destemida que enfrenta qualquer concorrente de mercado?
— Eu enfrento pessoas, Emanuel. Pessoas eu posso processar ou gritar. Fantasmas não seguem as regras — respondeu ela, bufando e bebendo um gole de água.
Eduarda apenas sorriu, sentindo Amélie chutar em seu ventre. Ela sentia uma conexão estranha com aquela história. Talvez fosse a sensação de ter sido, também, uma mulher "abandonada" pela sorte até Emanuel aparecer.
Mais tarde, quando a casa mergulhou no silêncio da madrugada, Emanuel dormia profundamente. Ele estava exausto pela semana de trabalho e pela viagem. Sara, após tomar um chá relaxante, também havia caído em um sono pesado, abraçada a um travesseiro de corpo.
Eduarda, porém, estava totalmente desperta.
Ela se levantou com cuidado para não ranger as molas da cama. Vestiu um robe longo de seda clara sobre a camisola e calçou seus chinelos de lã. O coração batia acelerado, não de medo, mas de uma expectativa quase infantil. Ela precisava ver o coreto. Precisava ver se a neblina realmente criava a ilusão da noiva.
Caminhando na ponta dos pés, como se estivesse em uma apresentação de ballet, ela atravessou os corredores escuros. A casa de campo, com seus móveis de madeira que estalavam ocasionalmente, parecia respirar junto com ela. Eduarda encontrou a porta lateral que dava para o jardim e a abriu silenciosamente.
O frio da noite a atingiu, mas ela mal sentiu. O jardim estava imerso em uma névoa leitosa e espessa. Ao longe, a estrutura circular do coreto de ferro batido parecia flutuar sobre o gramado.
Eduarda caminhou lentamente, sentindo a grama úmida sob os pés. Ela parou a poucos metros do coreto. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som de sua própria respiração.
— Você está aí? — sussurrou ela para o vazio, sentindo-se um pouco boba, mas imensamente conectada ao momento.
De repente, um estalo de galho seco ecoou atrás dela. Eduarda deu um sobressalto, levando a mão ao peito.
— O que você pensa que está fazendo aqui fora a esta hora, Eduarda?
A voz era baixa, vibrante de autoridade e uma irritação contida. Eduarda girou o corpo e deu de cara com Emanuel. Ele estava sem camisa, usando apenas uma calça de moletom escura, os braços e o peito cobertos por tatuagens que pareciam ganhar vida sob a luz pálida da lua. Ele parecia um deus antigo e furioso emergindo das sombras.
— Emanuel! Que susto... — ela arquejou, encolhendo os ombros.
Ele caminhou até ela com passos largos e predatórios, parando a centímetros de seu rosto. O calor que emanava do corpo dele era um contraste violento com o frio da noite.
— Você tem noção do perigo? — ele perguntou, segurando-a pelos ombros com firmeza, mas sem apertar. — Está frio, o chão está escorregadio e você está grávida de cinco meses. Se você caísse, se algo acontecesse com você ou com a bebê...
Eduarda olhou para baixo, assumindo sua postura mais manhosa, os olhos começando a brilhar com lágrimas de ansiedade.
— Eu só queria ver... a história da noiva. Eu achei que, se eu visse, eu entenderia melhor...
— Entenderia o quê? — interrompeu ele, sua voz suavizando ligeiramente ao ver a fragilidade dela, mas mantendo o tom de comando. — Que é uma lenda para assustar crianças? Eduarda, eu sou o responsável por você. Eu sou o homem desta casa. Quando eu digo que algo é perigoso, eu espero que você me escute.
— Desculpe, Manu... — ela murmurou, encostando a cabeça no peito nu dele. — Eu não queria te irritar. É que aqui é tudo tão diferente da minha vida de antes. Eu me senti... atraída pelo mistério.
Emanuel suspirou, sentindo a resistência sumir. Ele a envolveu em seus braços, cobrindo-a com seu próprio calor, sentindo o cheiro de baunilha que o embriagava desde o primeiro dia.
— Você é uma menina muito curiosa e muito teimosa para o seu próprio bem — disse ele, beijando o topo da cabeça dela. — A Sara quase teve um colapso quando eu acordei e vi que você não estava na cama. Ela está lá dentro, trancada no quarto com uma lanterna, achando que o fantasma te levou.
Eduarda soltou uma risadinha tímida, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Ela vai ficar brava comigo?
— Ela vai te dar um sermão de uma hora sobre segurança e moda para fantasmas — Emanuel sorriu, embora o olhar permanecesse protetor. — Mas agora, você vai entrar. E não vai sair do meu lado até o sol nascer.
Ele a pegou no colo, ignorando os protestos baixos de que ela estava pesada por causa da gravidez. Emanuel a carregou como se ela fosse o tesouro mais valioso de seu império, atravessando o jardim de volta para a segurança da casa.
Ao entrarem no quarto principal, Sara estava sentada na cama, com os olhos arregalados e uma almofada no colo como escudo.
— Graças a Deus! — exclamou Sara, levantando-se e correndo até eles. — Eduarda, sua maluca! Eu quase chamei a polícia, o exército e um exorcista! O que você estava fazendo lá fora?
Emanuel colocou Eduarda cuidadosamente na cama.
— Ela foi procurar a noiva, Sara — disse ele, cruzando os braços e olhando para as duas.
Sara parou, piscou duas vezes e colocou as mãos nas coxas, encarando Eduarda.
— Você foi atrás de um encosto? No meio da neblina? Grávida? — Sara balançou a cabeça, mas logo sua expressão mudou para uma de simpatia divertida. — Pelo menos você tem coragem, garota. Eu não colocaria o pé naquele jardim nem que a Chanel estivesse fazendo um desfile exclusivo lá fora.
Eduarda se encolheu sob os lençóis, parecendo uma boneca delicada.
— Eu só achei que ela estaria sozinha... e eu sei como é se sentir assim.
O quarto ficou em silêncio por um momento. Sara sentou-se na beira da cama e pegou a mão de Eduarda.
— Escuta aqui, "Dudinha". Você não está mais sozinha. Você tem esse ogro tatuado aqui para te mandar fazer as coisas, e tem a mim para te ensinar a mandar nele de volta. Fantasmas são passado. Nós somos o presente.
Emanuel aproximou-se e sentou-se atrás de Eduarda, puxando-a para encostar em seu peito, enquanto Sara se acomodava à frente dela. Ele era o centro de gravidade daquelas duas mulheres tão diferentes, mas que agora formavam o seu mundo.
— Chega de histórias por hoje — decretou Emanuel, a voz autoritária voltando ao normal. — Amanhã, vamos passear a cavalo, se o tempo permitir. E nada de fugidas noturnas. Se eu encontrar você fora da cama de novo, Eduarda, vou ter que ser muito mais rígido com as regras desta casa. Entendido?
Eduarda assentiu, sentindo-se segura e estranhamente feliz com a bronca. Ela gostava de como ele assumia o controle, de como ele se importava com cada passo que ela dava.
— Entendido, Emanuel — sussurrou ela.
— Ótimo — disse Sara, apagando o abajur. — Agora, se algum fantasma tentar entrar aqui, Manu, você usa essas suas tatuagens de dragão para assustar ele, ok?
Emanuel soltou uma risada baixa na escuridão, acomodando-se entre as duas. A pequena Valentina e a pequena Amélie pareciam quietas agora, como se também sentissem a paz que finalmente se instalava. O império de Emanuel não era feito apenas de estúdios e dinheiro; era feito daquele equilíbrio improvável entre a força, a exuberância e a delicadeza. E naquela casa de campo, cercada por lendas e neblina, ele sabia que não havia nada que ele não pudesse proteger.