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O Eco dos Passos e o Toque do Sangue

A manhã na casa de campo dos Albuquerque não começou com o silêncio que Emanuel esperava. Em vez disso, o som de saltos altos ecoando pelo piso de madeira nobre e o tilintar de joias caras anunciavam que a paz do seu refúgio particular havia sido invadida.

Emanuel desceu as escadas terminando de abotoar uma camisa de linho preta, as mangas dobradas revelando as tatuagens que serpenteavam por seus antebraços. Ao chegar à sala principal, deparou-se com uma cena que faria qualquer homem menos firme recuar: sua mãe, Dona Beatriz, e suas duas tias, as onipresentes e ruidosas Constança e Margot, estavam cercadas por uma montanha de caixas de grife, papéis de presente de seda e sacolas que transbordavam rendas e bordados.

— Emanuel, meu filho! — Beatriz se levantou, vindo em sua direção para um beijo perfumado de Chanel. — Soubemos que você trouxe as meninas para a serra e não pudemos resistir. Afinal, Valentina e Amélie precisam estar devidamente preparadas para o mundo.

Emanuel suspirou, mas um sorriso de canto surgiu em seu rosto. Ele amava sua mãe, embora a intensidade dela às vezes rivalizasse com a de Sara.

— Vocês não perdem uma oportunidade, não é? — Ele olhou para o volume de presentes. — Elas ainda nem nasceram e já têm mais roupas do que eu.

— Roupa? — Margot exclamou, levantando um sapatinho de cristal com detalhes em ouro. — Isso aqui é investimento, querido!

Nesse momento, Sara e Eduarda apareceram no topo da escada. Sara, radiante em um vestido amarelo que realçava sua loirice e a barriga de cinco meses, desceu com a confiança de uma rainha. Eduarda vinha logo atrás, usando um vestido de tricô cor de areia, o cabelo castanho preso em uma trança lateral, parecendo uma pintura renascentista que ganhou vida.

— Minhas noras! — Beatriz abriu os braços.

Sara aceitou o abraço com a naturalidade de quem já fazia parte da família há anos, mas Eduarda hesitou por um segundo, a timidez característica fazendo-a apertar as mãos contra a barriga. Para Eduarda, toda aquela opulência ainda era um pouco esmagadora. Embora seus pais fossem modernos e lhe dessem todo o apoio financeiro e emocional na faculdade e na gravidez, a escala da riqueza de Emanuel era outra realidade.

— Venha aqui, Eduarda — chamou Beatriz, com uma doçura que surpreendeu até Emanuel. — Quero ver como está a pequena Amélie.

As horas seguintes foram um turbilhão de fitas e risadas. Sara estava em seu elemento, analisando a qualidade dos tecidos e discutindo tendências com as tias de Emanuel. Eduarda, sentada em uma poltrona de veludo, recebia cada presente com um "obrigada" sussurrado e um brilho de gratidão nos olhos.

— Veja isso, Duda — disse Sara, aproximando-se com um macacão de seda pura. — Vai ficar perfeito na Amélie. Valentina e ela vão ser as bebês mais bem vestidas do país.

Emanuel observava tudo de longe, encostado no batente da porta com os braços cruzados. Ele sentia um orgulho possessivo. Ter Sara e Eduarda sob o mesmo teto, aceitas por sua família, era a validação definitiva do seu controle sobre o destino. No entanto, algo o incomodava.

Ele se aproximou e sentou-se no braço da poltrona de Eduarda, colocando a mão grande e pesada sobre a barriga dela. Era um gesto que ele repetia várias vezes ao dia, esperando por um sinal. Valentina, na barriga de Sara, era agitada, respondendo aos seus toques com chutes vigorosos. Mas Amélie... Amélie era como a mãe: doce, quieta e esquiva. Toda vez que Emanuel tentava senti-la, a bebê parecia se esconder, ficando imóvel sob a palma de sua mão.

— Ela ainda está quietinha? — perguntou ele, a voz grave perto do ouvido de Eduarda.

— Ela é tímida, Emanuel — respondeu Eduarda, inclinando a cabeça para o ombro dele, buscando aquele conforto que só ele proporcionava. — Acho que ela gosta de paz.

Beatriz se aproximou, deixando uma caixa de lado.

— Deixe-me tentar, querido. Às vezes é o toque de uma avó que elas esperam.

Emanuel retirou a mão, sentindo um pontada de frustração. Beatriz ajoelhou-se diante de Eduarda e colocou as mãos delicadas sobre o ventre da jovem. O silêncio caiu sobre o grupo por alguns segundos.

— Oh! — Beatriz arregalou os olhos, um sorriso iluminando seu rosto. — Ela se mexeu! Uma volta completa, Eduarda! Que força!

Eduarda soltou uma exclamação de surpresa, levando as mãos por cima das de Beatriz.

— Ela está chutando muito! — disse a bailarina, com os olhos brilhando. — Acho que ela gostou da sua voz, Dona Beatriz.

Emanuel sentiu um nó no estômago. Um sentimento irracional e puramente territorialista subiu por sua garganta. Ele, o homem que provia tudo, o homem que as protegia, o pai que estava ali todos os dias, nunca tinha recebido um chute sequer. E bastou sua mãe chegar para Amélie decidir dar um show?

— Deixe-me ver — disse ele, tentando não deixar transparecer o ciúme, voltando a colocar a mão na barriga de Eduarda.

No instante em que a pele tatuada de Emanuel tocou o tecido do vestido, o movimento cessou. Amélie voltou ao seu estado de repouso absoluto, como se nunca tivesse se movido.

— Ela parou — constatou Emanuel, a mandíbula travada.

— Ela sabe quem manda, Manu — brincou Sara, soltando uma risada irônica enquanto examinava um par de brincos para Valentina. — Ela já está te testando. Meninas são assim, você devia saber.

Emanuel se levantou abruptamente, a irritação crescendo. Ele não gostava de ser deixado de fora, especialmente quando se tratava de algo que ele considerava seu.

— Vou verificar alguns e-mails no escritório — anunciou ele, a voz seca.

Ele caminhou pelo corredor, mas não foi para o escritório. A sensação de falta de controle sobre a própria filha o deixava inquieto. Ele precisava de ar. Precisava de algo que pudesse dominar.

***

Enquanto a tarde caía e a família Albuquerque se perdia em chás e fofocas, Eduarda sentia a inquietação de Emanuel vibrar pelo ar. Ela era sensível, emocionalmente intuitiva, e sabia que ele estava ferido em seu orgulho. Mas havia outra coisa que a chamava.

A neblina começou a descer novamente, envolvendo os pinheiros como um manto fantasmagórico. A lenda da Noiva do Lago, contada por Dona Zilda, ainda ecoava em sua mente. Eduarda não era uma pessoa de confrontos, mas era persistente em seus desejos silenciosos. Ela queria ver. Queria provar para si mesma que a beleza e a melancolia podiam coexistir sem medo.

Aproveitando que as tias haviam arrastado Sara e Beatriz para o andar de cima para ver o enxoval completo, Eduarda escapou pela porta dos fundos.

O jardim estava frio, o ar úmido fazendo seus pulmões despertarem. Ela caminhou em direção ao coreto, a silhueta de ferro surgindo da bruma como um esqueleto elegante. Ela se sentou no banco de pedra, sentindo-se pequena diante da imensidão da propriedade.

— Você está aqui? — sussurrou ela, fechando os olhos. — Você também se sentiu sozinha antes de ser encontrada?

O silêncio foi quebrado por passos pesados e determinados. Eduarda não precisou abrir os olhos para saber quem era. O cheiro de couro e perfume amadeirado o precedia.

— Eu sabia que te encontraria aqui — a voz de Emanuel era como um trovão baixo.

Eduarda abriu os olhos e o viu parado na entrada do coreto. Ele parecia uma sombra imponente contra o cinza da neblina.

— Eu não estou fazendo nada de errado, Manu — disse ela, com aquele tom manhoso que costumava dobrar a vontade dele. — Só estou respirando.

Emanuel entrou no coreto e sentou-se ao lado dela, o peso de seu corpo fazendo o banco parecer menor. Ele não olhou para ela de imediato. Ficou encarando o lago invisível além da bruma.

— Minha mãe conseguiu o que eu não consigo em meses — disse ele, finalmente, a voz carregada de uma vulnerabilidade que raramente mostrava. — Amélie me ignora.

Eduarda sentiu o coração apertar. Ela deslizou a mão para o braço dele, os dedos pequenos traçando o desenho de uma fênix tatuada em sua pele.

— Ela não te ignora, Emanuel. Ela te respeita.

Emanuel soltou um suspiro curto, uma risada sem humor.

— Respeito não é o que eu quero de um bebê, Eduarda. Eu quero... conexão. Eu protejo vocês, eu movo o mundo para que nada falte. Por que ela se esconde de mim?

— Porque você é o porto seguro dela — explicou Eduarda, inclinando-se para ele, buscando o calor de seu corpo. — Quando você toca na minha barriga, Emanuel, eu sinto uma calma tão grande que acho que ela sente também. Ela para de se mexer porque se sente protegida. Com a sua mãe, era a novidade, a agitação. Com você... é o lar.

Emanuel virou o rosto para ela, os olhos escuros e intensos analisando cada traço do rosto doce de Eduarda. Ele a puxou para o seu colo, ignorando o desconforto do banco de pedra, e a envolveu em um abraço esmagador.

— Você sempre tem uma resposta delicada para as minhas grosserias, não é? — murmurou ele contra o pescoço dela.

— Eu só vejo o que você não vê — respondeu ela, fechando os olhos e aproveitando o balanço suave que ele começou a fazer, como se a estivesse ninando.

Eles ficaram assim por um longo tempo, dois mundos opostos colidindo no meio de uma lenda antiga. Emanuel sentiu a tensão deixar seus ombros. Ele ainda estava com ciúmes, ainda queria ser o primeiro em tudo, mas a presença de Eduarda era um bálsamo que ele não conseguia explicar logicamente.

De repente, um movimento suave, quase como o bater de asas de uma borboleta, aconteceu contra a palma da mão de Emanuel, que estava apoiada no ventre de Eduarda por puro instinto.

Ele congelou.

— Ela... — ele começou, a voz falhando.

— Shhh — sussurrou Eduarda, sorrindo contra o peito dele.

Amélie se mexeu novamente. Não foi um chute brusco como os que dera para a avó. Foi uma pressão lenta, constante, como se a bebê estivesse encostando as costas ou a mão contra a mão do pai, reconhecendo a presença dele.

Emanuel fechou os olhos, sentindo uma onda de emoção que ele tentou desesperadamente controlar. Naquele momento, no silêncio do coreto, cercado pela neblina e pela mulher que ele aprendera a amar de uma forma tão diferente de Sara, ele entendeu.

— Ela sabe quem eu sou — afirmou ele, mais para si mesmo do que para Eduarda.

— Ela sempre soube, Emanuel.

Eles foram interrompidos por um grito vindo da varanda da casa.

— EMANUEL! DUDA! — Era a voz de Sara, estridente e claramente irritada. — Se vocês dois viraram fantasmas e me deixaram sozinha com as tias e esses catálogos de fraldas de seda, eu juro que vou vender todos os estúdios de tatuagem!

Emanuel riu, um som livre que pareceu dissipar um pouco da neblina ao redor. Ele ajudou Eduarda a se levantar, mantendo-a firme em seus braços.

— É melhor voltarmos. Se a Sara ficar nervosa, a Valentina vai nascer antes da hora só para reclamar com a gente.

Enquanto caminhavam de volta para a luz quente da casa, Eduarda olhou uma última vez para trás, em direção ao lago. Por um breve segundo, ela jurou ter visto um vulto branco, uma mancha de seda entre as árvores. Mas ela não sentiu medo.

— O que foi? — perguntou Emanuel, percebendo a hesitação dela.

— Nada — disse ela, apertando a mão dele. — Só acho que a Noiva do Lago também está feliz por nós.

Emanuel não acreditava em fantasmas, mas acreditava no poder que tinha de manter aquelas duas mulheres seguras. Ele entrou em casa com Eduarda ao seu lado, pronto para enfrentar a energia vulcânica de Sara e a adoração de sua mãe. Ele era Emanuel Albuquerque, o dono de um império, o protetor de uma família incomum, e agora, o pai que finalmente fora reconhecido por sua pequena Amélie.

A noite na serra estava apenas começando, e sob o teto daquela casa, entre rendas caras e lendas antigas, o controle de Emanuel nunca pareceu tão absoluto, e seu coração, nunca tão rendido.