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O Sangue da Redenção e a Sombra do Passado
O silêncio na suíte presidencial do hospital era interrompido apenas pelo bipe rítmico e insistente dos monitores. O cheiro de antisséptico, que Emanuel normalmente associava à limpeza de seus estúdios de tatuagem, agora parecia sufocante, um lembrete metálico da fragilidade humana. Ele estava de pé junto à janela, os braços cruzados sobre o peito, as tatuagens nos antebraços tensas sob a pele. Seus olhos, geralmente frios e calculistas, estavam fixos na pequena figura deitada na cama hospitalar.
Amélie, com pouco mais de dois anos, parecia ainda menor cercada por lençóis brancos. Uma anemia súbita e severa, desencadeada por uma infecção rara, a deixara pálida, com olheiras profundas que contrastavam com sua pele de porcelana. Ela precisava de uma transfusão de sangue urgente, e o banco de sangue do hospital estava em falta para o seu tipo sanguíneo específico.
— O hematologista disse que o quadro é estável, mas não podemos esperar mais do que vinte e quatro horas — a voz de Sara quebrou o silêncio.
Ela estava sentada em uma das poltronas, a mão espalmada sobre a barriga de seis meses. Sara estava grávida novamente, desta vez de Ágata. Mesmo naquelas circunstâncias, ela não perdia sua aura de força; usava um conjunto de linho impecável, embora o brilho de preocupação em seus olhos loiros fosse inegável.
— Eu já chamei todos os meus funcionários, Sara — Emanuel disse, a voz rouca de cansaço. — Mandei um jato buscar doadores compatíveis em outros estados. Mas o tempo está contra nós. Eu não sou compatível. Meu sangue é o oposto do dela.
Eduarda, sentada na beira da cama de Amélie, acariciava os cabelos castanhos da filha. Ela estava visivelmente exausta. Sua gravidez de gêmeos — Maya e Arthur — já estava no quinto mês e pesava sobre seu corpo delicado. Na última ultrassonografia, o médico brincara que Maya seria uma bailarina calma como a mãe, enquanto Arthur não parava de chutar, mostrando a agitação típica dos Albuquerque. Mas agora, Eduarda mal sentia os chutes. Toda a sua energia estava voltada para a primogênita.
— Emanuel... — Eduarda chamou, a voz falhando. — Tem uma pessoa. Uma pessoa que com certeza é compatível.
Emanuel virou-se lentamente. Ele sabia do que ela estava falando, e o simples pensamento fazia seu sangue ferver.
— Não — disse ele, curto e grosso.
— Emanuel, por favor, ouça — Eduarda levantou-se devagar, segurando a barriga com uma mão e estendendo a outra para ele. — Eu não posso doar. O médico proibiu por causa dos gêmeos e do meu próprio estado anêmico na gravidez. Você não pode. Sara não pode. Mas o pai biológico dela... ele tem o mesmo tipo sanguíneo. Ele me disse isso uma vez, quando ainda achava que a gravidez não seria um "problema".
— Aquele canalha não vai chegar perto da minha filha — Emanuel rosnou, dando um passo à frente. — Ele a abandonou. Ele te deixou grávida e sozinha. Ele perdeu qualquer direito de ser chamado de pai no momento em que virou as costas para você.
— Eu sei! — Eduarda exclamou, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu o odeio tanto quanto você. Mas Amélie está morrendo, Emanuel! Se o sangue dele for a única coisa que pode salvá-la, eu não me importo com o orgulho. Eu não me importo com o passado. Eu só quero a minha filha viva.
Sara levantou-se e caminhou até Emanuel, colocando a mão em seu ombro.
— Manu, ela tem razão. O controle da situação agora não é sobre quem é o melhor pai. É sobre sobrevivência. Se esse homem for a chave, nós vamos usá-lo. E depois, nós o descartamos como o lixo que ele é.
Emanuel fechou os olhos, respirando fundo. O instinto de proteção rugia dentro dele. Ele odiava a ideia de dever algo àquele homem. Ele odiava que uma parte daquele sujeito ainda corresse nas veias de Amélie. Mas ele amava a menina mais do que a sua própria vida.
— Quem é ele, Eduarda? — perguntou Emanuel, a voz fria como gelo. — Eu sei que você nunca me disse o nome dele por medo da minha reação. Mas agora eu preciso saber.
Eduarda hesitou, limpando o rosto.
— O nome dele é Bernardo Vilela. A família dele é dona de uma rede de hotéis de luxo. Eles são... muito ricos, Emanuel. Ele achou que eu era uma interesseira querendo dar um golpe. Por isso ele fugiu.
Emanuel soltou uma risada seca e sem humor.
— Rico? Ele não faz ideia do que é riqueza de verdade. Vou fazer algumas ligações.
***
Duas horas depois, o saguão do hospital foi tomado por uma presença tensa. Emanuel não enviou um convite; ele enviou seus advogados e dois seguranças armados para "escoltar" Bernardo Vilela até ali.
Quando a porta da suíte se abriu, um homem jovem, de aparência polida e roupas de grife, entrou com uma expressão de pânico e indignação. Bernardo Vilela estava acostumado a privilégios, mas nunca fora confrontado pelo poder bruto de alguém como Emanuel.
— O que significa isso? — Bernardo começou, tentando manter a postura. — Vocês me tiraram de uma reunião! Eu vou processar...
Ele parou de falar no momento em que Emanuel se aproximou. Emanuel era mais alto, mais forte e exalava uma aura de perigo que fez Bernardo recuar até bater as costas na porta.
— Você vai calar a boca e ouvir — Emanuel disse, a voz baixa, quase um sussurro, o que era muito mais aterrorizante do que um grito. — Aquela menina ali na cama é Amélie. Ela é sua filha biológica, embora você não mereça nem respirar o mesmo ar que ela. Ela precisa de sangue. Agora.
Bernardo olhou para a cama e depois para Eduarda, que o encarava com um desprezo profundo. Ele parecia desconfortável, como se a realidade de suas ações estivesse finalmente batendo à porta.
— Eduarda... eu não sabia que era tão sério — Bernardo gaguejou.
— Você não sabia porque não quis saber — Sara interveio, aproximando-se com seu andar de rainha, o olhar loiro cortante como uma navalha. — Você fugiu como um rato. Agora, você vai entrar naquela sala de doação e vai dar cada gota que for necessária. Se você hesitar, se você reclamar, eu pessoalmente farei com que a rede de hotéis da sua família seja reduzida a cinzas no mercado financeiro antes do pôr do sol. E acredite, eu tenho os contatos para isso.
Bernardo engoliu em seco. Ele olhou para Emanuel e viu que não havia saída.
— Eu... eu vou doar. Tudo bem.
— Ótimo — Emanuel segurou-o pelo colarinho da camisa cara, puxando-o para perto. — E entenda uma coisa: você está doando sangue para a *minha* filha. No momento em que a agulha sair do seu braço, você desaparece da vida dela para sempre. Se eu te vir a menos de dez quilômetros de qualquer uma das minhas mulheres ou das minhas filhas, eu não vou usar advogados. Fui claro?
Bernardo assentiu freneticamente, o rosto pálido.
***
A transfusão foi realizada imediatamente. Durante o processo, Emanuel não saiu do lado de Amélie, enquanto Sara e Eduarda esperavam na sala de estar da suíte.
Eduarda sentia Arthur chutar com força, como se o pequeno guerreiro em seu ventre soubesse da batalha que a irmã estava enfrentando. Maya, por outro lado, permanecia calma, um peso reconfortante em seu útero.
— Você está bem, Duda? — Sara perguntou, oferecendo-lhe um copo de água.
— Estou com medo, Sara. E se o corpo dela rejeitar? E se...
— Não vai — Sara afirmou, com uma certeza inabalável. — Amélie é uma Albuquerque por escolha, e os Albuquerque nunca perdem. Além disso, ela tem você e o Manu. O destino não seria tão estúpido de tentar tirar ela de nós.
Algumas horas depois, o médico entrou na sala com um sorriso cauteloso.
— O sangue foi aceito sem intercorrências. Os níveis de hemoglobina já começaram a subir. Ela vai precisar de repouso e observação, mas o perigo imediato passou.
Eduarda desabou em choro, um choro de alívio puro. Emanuel entrou na sala logo em seguida. Ele parecia ter envelhecido dez anos nas últimas horas, mas havia um brilho de vitória em seus olhos.
— Ele já foi embora? — Eduarda perguntou.
— Foi — Emanuel respondeu, sentando-se ao lado dela e puxando-a para um abraço, enquanto Sara se aninhava do outro lado. — Eu me certifiquei de que ele entendesse que o "sangue" foi o pagamento final de uma dívida que ele nunca poderá quitar. Ele nunca mais vai incomodar vocês.
— Obrigada, Emanuel — sussurrou Eduarda. — Por passar por cima do seu orgulho por ela.
Emanuel beijou a testa de Eduarda e depois a de Sara.
— Eu faria qualquer coisa por vocês. Meu império não vale nada se o meu coração estiver vazio.
***
Três dias depois, Amélie estava de volta em casa. A cor havia retornado às suas bochechas, e ela já pedia para brincar com Valentina. A cobertura, que estivera sombria, voltou a se encher de vida.
Emanuel estava no berçário, observando as duas meninas no tapete. Valentina tentava ensinar Amélie a empilhar cubos de madeira, agindo com a proteção de uma irmã mais velha, embora tivessem quase a mesma idade.
Eduarda entrou no quarto, movendo-se com cuidado por causa do peso dos gêmeos. Ela parou ao lado de Emanuel, observando a cena.
— Arthur está impossível hoje — ela disse, pegando a mão de Emanuel e colocando-a sobre sua barriga.
No mesmo instante, um chute vigoroso atingiu a palma da mão de Emanuel. Ele riu, um som raro e genuíno.
— Ele vai ser um problema, não vai? — Emanuel comentou, sentindo o movimento.
— E Maya vai ser a que vai colocar ordem no caos — Eduarda sorriu, sentindo a movimentação suave da menina. — Ela é tão calma, Emanuel. Às vezes eu esqueço que tem dois aqui dentro, até que o Arthur resolve lutar boxe.
Sara apareceu na porta, segurando um tablet e um par de sapatinhos de bebê feitos de couro legítimo.
— Ágata também está agitada — Sara disse, juntando-se a eles. — Acho que ela ouviu o barulho do Arthur e resolveu participar da festa. Manu, a campanha da nova linha de joias foi um sucesso absoluto. O mercado está aos nossos pés.
Emanuel olhou para as duas mulheres grávidas, para a filha que acabara de ser salva e para a outra que era sua pequena força da natureza. Ele pensou no homem que fora um ano atrás — amargo, vingativo e controlador. Ele ainda era mandão, ainda gostava de ter o controle, mas agora entendia que a verdadeira autoridade vinha da capacidade de amar incondicionalmente.
— Eu estava pensando... — Emanuel disse, a voz grave ecoando no quarto decorado com suavidade. — Quando os gêmeos e a Ágata nascerem, vamos precisar de uma casa maior. Talvez aquela mansão em Angra. Quero que eles cresçam com o mar na frente e a montanha atrás.
— Angra soa perfeito — Sara concordou, já planejando a decoração em sua mente. — Mas eu quero um heliponto. Não vou ficar presa no trânsito com cinco crianças.
— Cinco? — Eduarda perguntou, arregalando os olhos.
— Valentina, Amélie, Maya, Arthur e Ágata — Sara contou nos dedos, piscando para Eduarda. — Somos uma tribo agora, Duda. Aceite.
Eduarda riu, sentindo-se imensamente feliz. Ela olhou para Amélie, que agora sorria para o pai, e sentiu que todo o sofrimento do passado fora apenas o caminho necessário para chegar àquele momento de plenitude.
Emanuel puxou as duas para perto de si. Ele era o centro daquela constelação improvável. Um tatuador rico, uma loira exuberante e uma bailarina doce. O mundo poderia tentar julgá-los, mas dentro daquelas paredes, sob a proteção de seus braços tatuados, o amor era a única lei que importava.
— Eu amo vocês — Emanuel disse, em um raro momento de entrega total. — E eu vou proteger este império com cada gota do meu sangue.
Amélie, do tapete, olhou para cima e soltou um beijo estalado para o ar.
— Papai... bonito! — ela exclamou, fazendo todos rirem.
A sombra do pai biológico fora dissipada pela luz de um homem que escolhera ser pai por amor. E naquele momento, Emanuel soube que, não importa quantos gêmeos ou novos bebês chegassem, seu coração sempre teria espaço para expandir, assim como o seu império. A vida era o seu desenho mais complexo, e ele estava finalmente orgulhoso da obra de arte que estava criando.