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Beijos de Algodão e Punhos de Ferro
O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da cobertura, refletindo-se no mármore impecável da sala. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa, com um tablet em uma mão e uma xícara de café preto na outra. Ele parecia o retrato da eficiência: o cabelo curto e bem cortado, a barba aparada e as tatuagens subindo pelo pescoço, desaparecendo sob o colarinho da camisa social sob medida. No entanto, sua concentração estava sendo severamente testada.
Do outro lado da sala, no tapete de atividades de luxo, Valentina e Amélie, agora com um ano de idade, protagonizavam uma cena que se tornara comum, mas não menos caótica. Valentina, já demonstrando a personalidade exuberante e mandona de Sara, tentava organizar seus blocos de montar com uma determinação feroz, soltando gritinhos de comando sempre que algo não saía como planejado. Já Amélie, a cópia fiel da doçura de Eduarda, estava sentada perto da janela, observando o movimento lá fora.
— Manu, você viu o novo catálogo da coleção de verão? — Sara entrou na sala, deslumbrante em um robe de seda rosa choque, os cabelos loiros perfeitamente ondulados. Ela se inclinou e deixou um beijo rápido nos lábios de Emanuel antes de pegar um pedaço de mamão. — Eu estava pensando em fazer o lançamento no terraço do novo estúdio de tatuagem. O que acha?
— Acho que você faz o que quiser, Sara — respondeu Emanuel, com um sorriso de canto, fechando o tablet. — Você sabe que eu nunca digo não para os seus planos de expansão. Mas, antes disso, temos um problema maior.
— Problema? — Sara arqueou uma sobrancelha, olhando para as filhas. — As meninas estão ótimas. Valentina só mordeu o controle remoto uma vez hoje.
— O problema não é a Valentina — disse Emanuel, sua voz ficando subitamente séria e um tanto tensa. — O problema é a Amélie.
Nesse momento, Eduarda apareceu, descendo as escadas com seu jeito leve e quase etéreo. Ela usava um vestido de algodão claro e trazia um par de sapatinhos de laço nas mãos. Ao ouvir o nome da filha, ela parou, com um olhar de preocupação doce.
— O que tem a Amélie, Emanuel? — perguntou ela, aproximando-se e sentando-se ao lado dele, buscando automaticamente o contato físico, encostando o ombro no dele. — Ela está com febre?
— Não, Duda. Ela está com uma... mania — Emanuel soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto. — Ontem, levei ela comigo para o estúdio da Oscar Freire. Eu precisava assinar uns contratos e a babá teve um imprevisto.
— E? — Sara incentivou, achando graça no tom de drama do marido.
— E que um dos novos tatuadores, um sujeito de vinte e poucos anos, passou por nós — Emanuel estreitou os olhos, a mandíbula travando. — Amélie simplesmente parou o que estava fazendo, olhou para ele com aqueles olhos gigantes, levou a mãozinha à boca e... soltou um beijo.
Sara soltou uma gargalhada alta, quase engasgando com o suco. Eduarda, por outro lado, cobriu a boca com a mão, tentando conter um sorriso tímido.
— Emanuel, ela tem um ano! — disse Eduarda, com sua voz suave. — Ela é carinhosa, você sabe disso. Ela vê a gente trocando carinho o tempo todo.
— Não para por aí — continuou Emanuel, ignorando a risada de Sara. — Depois que ela soltou o beijo, ela apontou o dedinho para o rapaz e disse, com todas as letras: "moço bonito".
O silêncio reinou na sala por três segundos antes de Sara explodir em uma nova crise de riso, batendo palmas.
— Eu não acredito! — Sara exclamou, limpando uma lágrima do canto do olho. — Minha enteada é uma prodígio! Ela já sabe selecionar a mercadoria!
— Isso não tem graça, Sara — rosnou Emanuel, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Ela não pode sair por aí distribuindo beijos e elogios para qualquer idiota que passe na rua. Ela é uma bebê! Minha bebê!
Eduarda levantou-se e foi até Amélie, pegando-a no colo. A menina, ao sentir o abraço da mãe, aninhou-se em seu pescoço, soltando um suspiro manhoso.
— Você está sendo possessivo, Emanuel — disse Eduarda, balançando a filha gentilmente. — Ela é apenas uma criança doce. Ela não entende o que isso significa. Ela só está sendo... ela mesma.
— Ela é manhosa como você, Eduarda — Emanuel parou na frente delas, o olhar suavizando apenas um pouco ao ver a cena. — Mas essa doçura é perigosa. Eu não quero homens olhando para ela, nem agora, nem daqui a vinte anos.
— Pois eu acho que ela puxou a minha visão de mercado — interveio Sara, aproximando-se e fazendo cócegas na barriga de Amélie, que soltou uma risadinha cristalina. — Se ela vê algo bonito, ela reconhece. É marketing pessoal, Manu.
Emanuel bufou, pegando Valentina do chão, que já começava a reclamar por não ser o centro das atenções.
— Vamos sair hoje — anunciou ele, em seu tom autoritário de sempre. — Vamos ao shopping. Quero comprar uns brinquedos novos para o quarto de brincar. E eu vou observar. Se ela fizer isso de novo, vamos ter uma conversa séria sobre limites sociais.
***
O shopping era um dos mais luxuosos da cidade, um ambiente que Emanuel controlava com sua simples presença. Ele caminhava no centro, com Sara de um lado, empurrando o carrinho duplo de grife, e Eduarda do outro, segurando sua mão com aquela timidez que ele tanto amava proteger.
Emanuel estava em estado de alerta máximo. Seus olhos escuros escaneavam o corredor como se estivesse em uma missão de segurança de alto risco. Qualquer homem que se aproximasse a menos de dois metros recebia um olhar gélido que dizia claramente: "mantenha distância".
— Você vai acabar assustando os clientes, Emanuel — sussurrou Eduarda, notando como um senhor de idade recuou ao cruzar com eles. — Relaxa um pouco.
— Estou relaxado — mentiu ele, a postura rígida como mármore.
Eles pararam em frente a uma vitrine de joias. Sara, é claro, precisava dar uma olhada. Enquanto ela discutia com a vendedora sobre a pureza de um diamante, e Eduarda observava uns quadros em uma galeria ao lado, Emanuel ficou encarregado de vigiar o carrinho.
Foi então que aconteceu.
Um rapaz jovem, provavelmente um modelo ou ator de comercial, parou perto do carrinho para ajustar o cadarço do tênis. Ele era, objetivamente, o que as pessoas chamariam de "bonito". Amélie, que estava brincando com um mordedor de silicone, parou instantaneamente. Seus olhos castanhos brilharam.
Emanuel viu o movimento em câmera lenta. A mãozinha de Amélie subiu à boca. O som de um "estalo" de beijo ecoou no corredor silencioso.
— Moço... bonito! — a voz de Amélie saiu clara, doce e carregada de uma admiração infantil pura.
O rapaz levantou o olhar, surpreso, e abriu um sorriso encantado.
— Ah, mas que coisa mais linda! — disse o jovem, esticando a mão para acenar para a bebê. — Você que é linda, pequena!
Emanuel sentiu o sangue ferver. Antes que o rapaz pudesse dizer mais qualquer coisa, Emanuel deu um passo à frente, bloqueando a visão do carrinho. Ele era muito mais alto, mais largo e infinitamente mais ameaçador com suas tatuagens e seu olhar de predador.
— Algum problema aqui? — a voz de Emanuel saiu tão baixa e perigosa que o rapaz perdeu a cor instantaneamente.
— N-não, senhor. Eu só... a bebê foi muito fofa, eu só ia... — O jovem gaguejou, recuando dois passos.
— Ela é fofa. Eu sou o pai. E eu não sou fofo — disse Emanuel, dando um passo intimidante na direção do rapaz. — Siga seu caminho. Agora.
O rapaz não esperou uma segunda ordem. Ele praticamente correu pelo corredor, desaparecendo na primeira escada rolante que encontrou.
— Emanuel! — Eduarda se aproximou, com o rosto corado de vergonha. — O que foi isso? Você quase bateu no menino!
— Ele estava interagindo com a minha filha, Eduarda — respondeu Emanuel, voltando-se para o carrinho, onde Amélie agora o olhava com uma expressão confusa, quase pronta para chorar ao ver a agressividade do pai.
— Ele estava sendo gentil! — Eduarda pegou Amélie no colo, sentindo a menina tremer levemente. — Olha o que você faz, ela fica assustada.
Sara chegou logo atrás, carregando uma sacola pequena, mas pesada. Ela viu a cena e soltou um suspiro, embora seus olhos brilhassem com diversão.
— De novo, Manu? Você expulsou o pretendente da Amélie?
— Não era pretendente, era um estranho — rebateu ele, tentando recuperar o controle sobre suas emoções. — Eu não gosto dessa mania. É... é inapropriado.
— Inapropriado é esse seu ciúme doente — disse Sara, cruzando os braços. — Amélie é uma criança de luz, Emanuel. Ela vê beleza no mundo. Se você tentar apagar isso com esse seu jeito de "macho alfa" irritado, ela vai acabar ficando retraída e triste. Você quer uma filha que tenha medo de sorrir para as pessoas?
Emanuel olhou para Amélie. A menina estava com o rosto escondido no ombro de Eduarda, a mesma posição que a própria Eduarda assumia quando se sentia acuada. Aquela imagem o atingiu como um soco no estômago. Ele percebeu que, em seu afã de proteger, ele estava se tornando a sombra que assustava a própria luz que ele queria preservar.
Ele respirou fundo, soltando o ar lentamente. Aproximou-se de Eduarda e, com uma delicadeza que contrastava com sua explosão anterior, tocou as costas da pequena Amélie.
— Me dá ela aqui — pediu ele, a voz agora suave e rouca.
Eduarda hesitou, mas entregou a bebê. Emanuel acomodou Amélie em seu braço forte, sentindo o cheiro de bebê e baunilha que o acalmava instantaneamente.
— Desculpe, pequena — sussurrou ele, beijando a bochecha macia da filha. — O papai é um ogro às vezes. Você pode achar as pessoas bonitas, tudo bem. Mas o papai sempre vai ser o seu moço bonito favorito, certo?
Amélie olhou para ele, os olhos ainda úmidos, e soltou uma risadinha, levando a mãozinha à boca de Emanuel.
— Papai... bonito — disse ela, puxando levemente a barba dele.
— Viu só? — Sara sorriu, vitoriosa. — Ela sabe como te dobrar, Manu. Você não tem chance contra essas três mulheres.
— Eu nunca tive chance — admitiu ele, olhando de Sara para Eduarda.
Eles decidiram almoçar em um restaurante reservado no último andar do shopping. Emanuel fez questão de escolher uma mesa de canto, onde pudesse ter uma visão de toda a entrada. O controle era algo difícil de abandonar completamente, mas ele estava tentando.
Durante o almoço, enquanto Valentina tentava comer macarrão sozinha — criando uma bagunça artística que fazia Sara rir e tirar fotos para o Instagram —, Amélie permanecia em seu cadeirão, observando os garçons passarem.
— Lá vem você de novo... — murmurou Emanuel, ao ver Amélie começar a sorrir para um garçom que trazia as bebidas.
Desta vez, no entanto, ele não se levantou. Ele apenas observou. Amélie soltou um beijo para o garçom, um senhor de meia-idade que abriu um sorriso de avô e agradeceu com um aceno.
— Moço... bonito! — Amélie repetiu sua frase de efeito.
O garçom riu e olhou para Emanuel.
— O senhor tem uma filha encantadora. Ela alegrou o meu dia.
Emanuel apenas assentiu com a cabeça, um gesto curto de respeito. Ele sentiu a mão de Eduarda sobre a sua, por baixo da mesa.
— Viu? — sussurrou ela. — O mundo não é tão perigoso quanto você pensa, Emanuel. Às vezes, um beijo de uma criança é tudo o que alguém precisa.
— Eu ainda vou comprar uma ilha e nos mudar para lá — resmungou ele, mas havia um brilho de aceitação em seus olhos. — Sem homens bonitos num raio de mil quilômetros.
— E você vai viver sozinho lá? — provocou Sara, bebendo um gole de vinho. — Porque eu e a Duda não vamos para lugar nenhum que não tenha um shopping e uma galeria de arte.
Emanuel riu, sentindo-se, pela milésima vez, completamente rendido. Ele era o dono de um império de tatuagens, um homem rico, mandão e temido por muitos. Mas ali, naquela mesa, ele era apenas o homem que amava duas mulheres opostas e duas filhas que, de formas diferentes, o ensinavam que o controle absoluto era uma ilusão — e que a verdadeira força estava em saber quando baixar a guarda.
A tarde seguiu tranquila. No caminho de volta para o carro, Valentina acabou dormindo no carrinho, exausta de sua própria energia. Amélie, por outro lado, estava bem acordada no colo de Emanuel.
Ao passarem pelo espelho da entrada do shopping, Emanuel parou. Ele olhou para o próprio reflexo: o homem tatuado, com uma expressão geralmente séria, carregando uma bebê que parecia feita de luz.
— Amélie — chamou ele.
A menina olhou para o espelho.
— Quem é o moço bonito no espelho? — perguntou ele, apontando para o próprio reflexo.
Amélie olhou para a imagem, depois para o pai, e soltou um beijo estalado para o espelho.
— Papai... bonito! — exclamou ela, abraçando o pescoço dele com força.
Emanuel sorriu, um sorriso verdadeiro e aberto que raramente mostrava em público. Ele olhou para Sara e Eduarda, que caminhavam ao seu lado, e percebeu que, apesar de todas as suas defesas e de todo o seu império, ele era o homem mais rico do mundo por causa daquelas pequenas e grandes manhas que o rodeavam.
A "mania" de Amélie ainda o deixaria louco por muitos anos, ele sabia disso. Mas, enquanto ela voltasse para os seus braços no final do dia e o chamasse de seu moço bonito, ele aguentaria todos os beijos que ela decidisse distribuir para o resto do mundo. Porque, no fundo, ele sabia que o trono de seu coração já tinha donas permanentes, e nenhuma delas pretendia abdicar da coroa.