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Segredos em Tons de Azul e Rosa

O asfalto de São Paulo parecia mais cinza e impessoal do que nunca após os meses de idílio na fazenda. Três meses haviam se passado desde aquela noite no celeiro, e a vida de Emanuel havia se transformado em um malabarismo complexo de afetos e responsabilidades. Ele agora vivia em uma cobertura espaçosa, onde o luxo moderno de seus estúdios de tatuagem se refletia em cada móvel de design. Sara, com seus oito meses de gestação, reinava no apartamento como uma rainha loira e exuberante, sua barriga de Valentina agora uma esfera perfeita que ela exibia em vestidos de seda justos.

Eduarda, por outro lado, tentava manter sua rotina entre a faculdade de História da Arte e as aulas de ballet. Ela estava mais pálida, mais silenciosa. O brilho nos olhos que Emanuel acendera na fazenda agora parecia turvo, velado por uma nuvem de ansiedade que ela não conseguia dissipar.

Emanuel, com seu instinto protetor e sua mente racional, percebia a mudança. Ele a visitava quase todos os dias na pequena edícula que ela ocupava nos fundos da casa dos pais. Ele a amava com uma intensidade que o assustava; se Sara era o seu porto seguro e sua parceira de vida, Eduarda era sua joia de cristal, algo que ele sentia que poderia quebrar se não segurasse com cuidado suficiente.

Naquela tarde, o estresse de Emanuel estava no limite. Um de seus estúdios em Londres havia sofrido um problema burocrático sério, e ele passara a manhã gritando ao telefone. Quando chegou ao apartamento de Sara, ele esperava encontrar a paz provocante da esposa, mas encontrou algo diferente.

Sara estava sentada no sofá de couro branco, lendo alguns papéis. Ela não parecia zangada, mas havia um brilho de diversão irônica em seus olhos quando olhou para o marido.

— Você está com uma cara péssima, querido — disse Sara, fechando a pasta. — O mundo das tatuagens está desmoronando ou é apenas o peso de carregar duas mulheres nas costas?

Emanuel jogou a chave sobre a mesa de centro e desabotoou os primeiros botões da camisa preta.

— Londres está um caos. E a Duda... ela não atende minhas ligações há três horas. Ela está estranha, Sara. Esguia demais, quieta demais.

Sara soltou uma risada curta, um som que misturava deboche e uma estranha cumplicidade.

— Ah, Emanuel. Você é um gênio para negócios, mas às vezes é tão cego para o que está debaixo do seu nariz. A "sua" Duda não está estranha. Ela está apavorada.

Emanuel franziu o cenho, o corpo tencionado.

— Apavorada com o quê? Eu dou tudo a ela. Proteção, carinho, dinheiro...

— Ela não quer seu dinheiro, seu idiota — Sara levantou-se com certa dificuldade, ajeitando o vestido curto que mal cobria as coxas siliconadas. — Ela quer coragem. Mas como ela não teve, eu tomei a liberdade de conferir as coisas. Você sabe que eu não gosto de mistérios na nossa dinâmica.

Ela estendeu a pasta para ele. Eram exames laboratoriais e um ultrassom recente, feito em uma clínica particular.

Emanuel pegou os papéis. Seus olhos percorreram os termos técnicos até pararem no resultado. Positivo. E não era apenas um. O laudo descrevia claramente: gestação gemelar. Dois sacos gestacionais. Dois corações.

O silêncio que se seguiu foi pesado. A racionalidade de Emanuel, aquela que ele usava para mediar conflitos e gerenciar impérios, simplesmente evaporou. O que restou foi uma possessividade bruta e uma irritação que subiu por sua garganta como bile.

— Três meses — rosnou Emanuel, a voz soando como um trovão baixo. — Ela sabe disso há semanas e não me disse nada?

— Ela é uma menina, Emanuel — ponderou Sara, embora sem muita paciência. — Ela tem medo de você. Tem medo de como isso muda as coisas. Eu não esconderia, eu jogaria na sua cara no primeiro enjoo, mas a Eduarda... ela é feita de açúcar e medo.

Emanuel não ouviu o resto. Ele virou as costas e saiu do apartamento, batendo a porta com uma força que fez os quadros nas paredes tremerem.

O trajeto até a casa dos tios foi feito em tempo recorde. Ele entrou pelos fundos, usando a chave que tinha desde a infância, e caminhou direto para o estúdio de balé improvisado onde Eduarda passava as tardes.

O som de um piano suave preenchia o ambiente. Eduarda estava de costas, usando um collant preto e uma saia de tule leve. Ela tentava executar um *pirouette*, mas parou no meio do movimento, levando a mão à base do ventre, uma expressão de cansaço e náusea cruzando seu rosto delicado.

— Amélie e Benício. Nomes bonitos — a voz de Emanuel cortou o ar como uma lâmina.

Eduarda deu um salto, o coração disparando tanto que ela sentiu a pulsação no pescoço. Ela se virou e encontrou Emanuel parado na porta. Ele parecia maior do que o normal, a aura de controle completamente substituída por uma fúria fria.

— Emanuel... — ela sussurrou, a voz falhando. — Você... você não devia estar aqui agora.

— Onde eu deveria estar, Eduarda? — Ele caminhou em direção a ela, cada passo ecoando no piso de madeira. — No escritório? No estúdio? Esperando que você decidisse, por bondade, me contar que está carregando dois filhos meus?

— Eu ia contar! — Ela recuou até que suas costas batessem na barra de alongamento. — Eu juro que ia. Eu só... eu precisava de tempo. Eu estava com medo.

Emanuel parou a poucos centímetros dela. Ele era uma parede de músculos e tensão. Ele esticou o braço e segurou o queixo dela com força, não para machucar, mas com uma rigidez que a impediu de desviar o olhar.

— Medo de quê? — Ele perguntou, os dentes cerrados. — Eu sou o homem que tirou sua virgindade. O homem que sustenta seus sonhos. O homem que disse que cuidaria de você. Você achou que eu era o quê? Um estranho que você pode enganar?

— Não é enganar! — Lágrimas começaram a escorrer pelos olhos castanhos dela. — É que a Sara já está para ter a Valentina... eu não queria causar um problema. Eu não sou como ela, Emanuel! Eu não sei ser essa mulher forte que aceita tudo e fala tudo!

— Exatamente! Você não é como ela! — Ele soltou o queixo dela e deu um soco na parede lateral, o estrondo fazendo Eduarda encolher-se e soltar um soluço. — A Sara nunca esconderia o sangue dela de mim. Ela é vulgar, ela é barulhenta, mas ela é leal! E você, com esse seu jeito de santa, de bailarina frágil... você me traiu da pior forma possível. Você me negou o direito de saber dos meus filhos!

— Me perdoa... — ela implorou, as mãos trêmulas buscando o braço dele. — Por favor, Emanuel, não fica assim. Eu escolhi os nomes... Amélie e Benício... eu achei que você ia gostar...

Emanuel a segurou pelos ombros, sacudindo-a levemente. O estresse acumulado de meses, a pressão de manter duas vidas paralelas e a descoberta súbita de que seria pai de três crianças em um intervalo de meses o levaram ao limite.

— Você não escolhe nada sem mim! — A voz dele subiu de tom, assustando os pássaros nas árvores do lado de fora. — Você é minha, Eduarda. Cada centímetro desse seu corpo de boneca me pertence. E esses filhos são meus. Se você acha que vai levar essa gravidez escondida no seu mundinho de arte e sapatilhas, você está muito enganada.

Ele a puxou para um abraço que não tinha nada de carinhoso. Era um abraço de posse, quase violento em sua intensidade. Eduarda chorava contra o peito dele, sentindo o cheiro de perfume caro e o calor da raiva que emanava de sua pele.

— Você vai arrumar suas coisas — ordenou ele, afastando-a apenas o suficiente para olhar em seus olhos vermelhos. — Agora.

— Para onde? Meus pais... eles não sabem de tudo ainda...

— Seus pais são modernos, não são? — Emanuel deu um sorriso amargo, desprovido de humor. — Pois eles que lidem com a modernidade de ter uma filha grávida do primo. Você vai para a cobertura. Vai morar comigo e com a Sara. Eu não vou deixar você fora da minha vista nem por um segundo.

— Com a Sara? — Eduarda arregalou os olhos. — Emanuel, ela vai me odiar... a casa é dela...

— A casa é minha! — Ele gritou, perdendo a paciência novamente. — E a Sara tem mais caráter em um dedo do que você teve nesses últimos meses de silêncio. Foi ela quem me contou. Foi ela quem teve a decência de me mostrar o que você estava escondendo.

Eduarda sentiu um choque de realidade. Sara sabia. Sara, a mulher que ela tanto admirava e temia, tinha sido a responsável por aquela explosão. Mas, ao mesmo tempo, sentiu um estranho alívio. O segredo havia acabado.

Emanuel passou a mão pelo cabelo, tentando recuperar um pouco do controle, mas seus olhos ainda brilhavam com uma possessividade perigosa.

— Amélie e Benício — ele repetiu os nomes, sua voz suavizando apenas um tom, mas mantendo a autoridade. — São nomes aceitáveis. Mas não pense que isso apaga o que você fez. Você vai ser punida pelo seu silêncio, Duda. Vou garantir que você sinta cada segundo dessa gravidez sob o meu controle.

Ele a conduziu para fora do estúdio, segurando seu pulso com firmeza. Eduarda, em sua natureza manhosa e dependente, não lutou. Ela se apoiou nele, mesmo temendo sua fúria, porque, no fundo, era exatamente aquela proteção absoluta — ainda que sombria — que ela buscava.

Quando chegaram à cobertura, Sara os esperava na porta. Ela usava um robe de seda vermelho e segurava uma taça de água com limão. Ao ver Eduarda chorosa e Emanuel transtornado, ela soltou um riso baixo.

— Ora, ora. A princesinha do balé finalmente saiu da torre — disse Sara, aproximando-se e analisando o rosto de Eduarda. — Pare de chorar, garota. Você está grávida, não está morrendo. E o Emanuel só está latindo porque você feriu o ego de "macho alfa" dele.

— Ela fica aqui, Sara — Emanuel sentenciou, soltando o pulso de Eduarda. — No quarto de hóspedes que vamos transformar em suíte. Eu quero médicos, dietas e vigilância total.

Sara caminhou até Eduarda e, para surpresa da jovem, passou o braço pelos seus ombros delicados.

— Relaxa, Emanuel. Eu cuido dela. Você é bruto demais para lidar com alguém que tem a consistência de um marshmallow — Sara olhou para Eduarda com uma cumplicidade quase predatória. — Vamos, Duda. Vou te mostrar onde você vai colocar suas roupas de boneca. E depois, você vai me contar tudo sobre esses gêmeos. Se vamos dividir o mesmo homem e a mesma casa, é bom que você aprenda que, aqui, a única regra é a verdade.

Emanuel ficou parado na sala, observando as duas mulheres. Sara, loira, curvilínea e dominante; Eduarda, esguia, morena e submissa. Valentina estava a caminho, e agora, Amélie e Benício também. O peso da responsabilidade era imenso, mas, enquanto via Sara guiar Eduarda pelo corredor, ele sentiu uma satisfação sombria.

Ele tinha tudo o que queria. O fogo e a paz. A força e a fragilidade. E, embora a raiva ainda pulsasse em suas veias pelo segredo de Eduarda, ele sabia que, a partir daquele momento, ninguém mais sairia do seu controle. Ele era o centro daquele universo peculiar, e ele governaria com mão de ferro e um amor que não conhecia limites ou normas.

Naquela noite, enquanto o sol se punha sobre os arranha-céus de São Paulo, o silêncio na cobertura era carregado de promessas e tensões. Emanuel entrou no quarto de Eduarda e a encontrou deitada, ainda abalada. Ele se sentou na beira da cama e tocou a barriga dela, ainda imperceptível sob o tecido fino.

— Nunca mais — sussurrou ele, a voz agora calma, mas fria. — Nunca mais esconda nada de mim.

— Nunca mais — prometeu ela, fechando os olhos e entregando-se à mão que, embora o tivesse assustado horas antes, agora era seu único chão.

A família estava completa, da forma mais caótica e intensa possível. E o jogo, para Emanuel, estava apenas começando.