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O Cárcere de Veludo

A atmosfera na cobertura de Emanuel nunca esteve tão carregada. O ar condicionado central zumbia silenciosamente, mas não era capaz de resfriar a tensão que emanava do escritório, onde Emanuel estava trancado há horas. O luxo do mármore e o brilho dos metais pareciam frios, quase hostis.

Sara estava sentada na ampla varanda gourmet, com as pernas inchadas descansando em um pufe de couro. Ela observava o movimento da cidade lá embaixo, alheia ao drama que se desenrolava nos quartos internos. Para ela, a presença de Eduarda era um fato consumado, uma peça que finalmente se encaixara no tabuleiro. Mas para Emanuel, a descoberta da gravidez gemelar de Eduarda, mantida em segredo por semanas, fora uma afronta à sua natureza controladora.

Eduarda estava sentada na beira da cama do quarto de hóspedes, que agora cheirava a flores frescas e produtos de bebê caros. Ela usava um pijama de seda clara, abraçando os próprios joelhos, sentindo-se pequena e deslocada. O silêncio da casa a apavorava mais do que os gritos de Emanuel no estúdio de balé.

A porta se abriu com um clique seco. Emanuel entrou. Ele não estava mais com a aparência desgrenhada de horas atrás; tinha tomado banho e vestia uma calça de linho e uma camiseta escura que marcava seus ombros largos. Seus olhos, no entanto, mantinham a mesma frieza de aço.

— Levante-se — ordenou ele, a voz baixa e monocórdica.

Eduarda obedeceu imediatamente, seus pés descalços tocando o tapete felpudo. Ela caminhou até ele, a postura encolhida, os olhos castanhos suplicantes.

— Emanuel, por favor... — começou ela, a voz embargada. — Eu já pedi desculpas. Eu não queria...

— Suas desculpas não mudam o fato de que você tentou me excluir da vida dos meus filhos — interrompeu ele, segurando-a pelos ombros e conduzindo-a para fora do quarto. — Você acha que a vida é um espetáculo de balé, Duda? Que você pode ensaiar seus segredos e só apresentá-los quando a coreografia estiver perfeita?

Ele a levou até a sala de jantar, onde Sara os observava com um sorriso enigmático, segurando um copo de suco de cranberry.

— Ela ainda está tremendo, Emanuel? — Sara perguntou, a voz carregada de ironia. — Deixe a menina respirar. Valentina está chutando só de sentir essa energia pesada.

— Ela vai aprender o que significa pertencer a esta família, Sara — Emanuel disse, forçando Eduarda a se sentar em uma das cadeiras de design. — Se você quer os benefícios da minha proteção, Eduarda, você tem que aceitar as minhas regras. E a primeira regra é que você não tem mais privacidade.

Eduarda olhou para ele, confusa e assustada.

— O que você quer dizer com isso?

Emanuel tirou do bolso um dispositivo pequeno e elegante, colocando-o sobre a mesa.

— Este é um novo celular. O seu antigo foi descartado. Este tem rastreamento em tempo real e acesso total às suas mensagens. Suas redes sociais serão gerenciadas pela equipe de marketing dos meus estúdios. E, a partir de amanhã, você não sai deste apartamento sem um motorista e um segurança que respondem diretamente a mim.

— Mas... e a faculdade? E as aulas de balé? — Eduarda sentiu o pânico subir pela garganta. — Eu sou professora, Emanuel! Meus alunos dependem de mim.

— Você está grávida de gêmeos, Eduarda. Sua saúde é frágil e sua lealdade é questionável — Emanuel inclinou-se sobre ela, apoiando as mãos na mesa, cercando-a. — Você vai terminar o semestre de forma remota. Quanto ao balé, as aulas acabaram. Você vai praticar aqui, sob a supervisão de um fisioterapeuta que eu contratei.

— Você está me prendendo? — As lágrimas finalmente transbordaram. — Emanuel, isso é cruel!

— Isso é cuidado — corrigiu ele, a voz endurecendo. — Ou talvez seja a punição que você merece por ter me tratado como um estranheiro. A Sara nunca faria isso. Ela é vulgar, ela grita, ela briga, mas ela é transparente. Você se esconde atrás dessa imagem de pureza para manipular as situações.

Sara levantou-se e caminhou até eles, parando ao lado de Emanuel. Ela colocou a mão sobre a barriga dele, um gesto de domínio e posse, antes de tocar o rosto de Eduarda.

— Não seja dramática, Duda — disse Sara, os dedos longos e bem feitos acariciando a bochecha da prima. — Pense no lado bom. Você tem o melhor pré-natal do país, roupas de grife, e o homem que você ama te vigiando 24 horas por dia. Muitas mulheres matariam por esse "cárcere".

— Eu só queria ser normal... — soluçou Eduarda.

— Você nunca foi normal, querida — Sara riu, um som seco. — Você é a amante e a prima do homem mais rico e possessivo que eu conheço. E agora é a mãe dos herdeiros dele, assim como eu. Aceite o seu papel. É muito mais fácil quando você para de lutar contra a corrente.

Emanuel observava a interação. Ele sentia uma satisfação perversa em ver Eduarda subjugada, mas ao mesmo tempo, a visão de suas lágrimas ainda provocava aquele instinto protetor que ele não conseguia desligar. Ele a amava, mas aquele amor agora estava manchado pela necessidade de reeducá-la.

— Vá para o quarto — ordenou Emanuel. — Sara e eu vamos jantar. Amanhã cedo o médico virá aqui para uma bateria completa de exames. Se eu descobrir que você omitiu qualquer detalhe sobre a saúde da Amélie ou do Benício, as restrições serão ainda maiores.

Eduarda levantou-se, sentindo-se derrotada. Ela olhou para Emanuel, esperando encontrar um resquício daquele homem doce que a beijara no celeiro, mas encontrou apenas o tatuador implacável, o empresário que não aceitava perdas.

Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou na porta, virando-se uma última vez.

— Você ainda me ama, Emanuel? Ou eu sou apenas mais uma propriedade sua agora?

Emanuel sustentou o olhar dela por um longo tempo. O silêncio na sala era quase ensurdecedor.

— Eu te amo tanto que não suporto a ideia de você ter um pensamento que eu não conheça, Eduarda — respondeu ele, a voz carregada de uma obsessão sombria. — Agora vá.

Quando Eduarda desapareceu no corredor, Emanuel soltou um suspiro pesado e sentou-se na cadeira que ela ocupara. Sara aproximou-se e começou a massagear os ombros dele.

— Você foi duro com ela — comentou Sara, sem qualquer sinal de reprovação. — Ela vai ficar melancólica.

— Ela precisa entender, Sara. Eu não sou um brinquedo. Eu não sou alguém que se avisa sobre gêmeos meses depois do fato — Emanuel fechou os olhos, aproveitando o toque da esposa. — Como você está? A Valentina está quieta?

— Ela está agitada. Acho que gosta do drama — Sara sorriu, sentando-se no colo dele, apesar da barriga volumosa. — Eu não me importo que ela esteja aqui, Emanuel. Mas você sabe que agora a sua atenção vai ser dividida por três crianças e duas mulheres. Você dá conta?

Emanuel envolveu a cintura de Sara, sentindo a firmeza do silicone e o calor da pele dela.

— Eu sempre dou conta, Sara. Você sabe disso.

— Eu sei. Só não deixe a Duda quebrar. Ela é o seu equilíbrio, lembra? Se ela ficar triste demais, o balé dela perde a graça, e você fica insuportável — Sara beijou o canto da boca dele. — Eu vou conversar com ela depois. Vou ensinar a ela como lidar com você sem precisar mentir.

— Faça isso. Ela confia em você, por incrível que pareça.

Naquela noite, Emanuel não foi ao quarto de Eduarda. Ele ficou no quarto principal com Sara, buscando o conforto da mulher que o conhecia sem filtros. Mas, no meio da madrugada, ele se levantou e caminhou silenciosamente até o quarto de hóspedes.

Eduarda estava dormindo, ou fingindo dormir. O abajur estava aceso, lançando uma luz suave sobre seu rosto pálido. Emanuel sentou-se na beira da cama e observou-a. Ela parecia tão jovem, tão frágil. Ele estendeu a mão e tocou a barriga dela, sentindo um leve movimento sob a seda do pijama.

Eram seus filhos. Amélie e Benício. E Valentina, no quarto ao lado.

A possessividade borbulhou em seu peito novamente. Ele não se arrependia das restrições. Ele queria que Eduarda fosse dele, inteiramente dele, sem interferências externas, sem segredos, sem o mundo lá fora para contaminar a pureza que ele tanto admirava nela.

— Você vai me agradecer um dia, Duda — sussurrou ele, inclinando-se e beijando a testa dela. — Vou te dar um mundo onde nada pode te ferir. Nem mesmo você mesma.

Eduarda não abriu os olhos, mas uma única lágrima escorreu pelo canto de sua pálpebra, molhando o travesseiro. Ela sabia que sua liberdade tinha sido o preço pago pelo amor de Emanuel, e que agora, naquele apartamento de luxo, ela era tanto uma rainha quanto uma prisioneira.

Os dias que se seguiram foram uma rotina de controle absoluto. Emanuel monitorava cada refeição, cada hora de sono. Sara, por sua vez, tornou-se uma espécie de mentora irônica para Eduarda, ensinando-a a navegar pelo temperamento de Emanuel.

— Veja bem, querida — dizia Sara enquanto provavam roupas de gestante que haviam sido entregues no apartamento —, o segredo com o Emanuel é deixá-lo pensar que ele sabe de tudo primeiro. Se você tiver um desejo de comer morangos às três da manhã, não guarde para você. Acorde-o. Faça-o sentir que ele é o único que pode resolver o seu problema.

Eduarda ouvia, absorvendo a sabedoria vulgar e prática de Sara. Ela começou a perceber que a dinâmica entre eles não era uma competição, mas uma simbiose estranha. Sara era a força que Emanuel precisava para enfrentar o mundo, e ela, Eduarda, era a suavidade que ele buscava para fugir dele.

No entanto, a saudade do balé e da vida simples na faculdade ainda doía. Às vezes, Eduarda se posicionava diante da grande vidraça da sala e fazia alguns passos de *port de bras*, os braços movendo-se com a fluidez de um cisne, enquanto observava os carros lá embaixo.

Emanuel a observava das sombras do corredor. Ele via a tristeza nela, mas sua raiva pelo segredo ainda não havia se dissipado completamente. Ele queria que ela sentisse a falta da liberdade, para que, quando ele decidisse devolvê-la — em pequenas doses controladas —, ela a valorizasse mais do que a própria vida.

Certa noite, após um jantar silencioso, Emanuel chamou Eduarda ao seu escritório. O ambiente era masculino, com cheiro de couro e tabaco caro, as paredes decoradas com esboços de tatuagens complexas.

— Sente-se — disse ele, apontando para a poltrona à frente de sua mesa.

Eduarda sentou-se, as mãos entrelaçadas sobre a barriga.

— O médico disse que você está ganhando peso conforme o esperado — Emanuel começou, analisando alguns relatórios no tablet. — Mas ele mencionou que você parece... apática.

— Eu sinto falta das minhas aulas, Emanuel. Sinto falta de ver o sol sem ser através de um vidro blindado.

Emanuel levantou o olhar.

— A apatia é um risco para os bebês. Por isso, decidi aliviar uma das punições.

Eduarda sentiu um lampejo de esperança.

— Eu posso voltar para a faculdade?

— Não — a resposta foi imediata e seca. — Mas eu mandei reformar uma das salas deste andar. Transformei-a em um estúdio de balé completo. Barra, espelhos, piso flutuante. Você terá um professor particular, escolhido por mim, que virá três vezes por semana.

Eduarda piscou, as lágrimas ameaçando voltar. Era um gesto de generosidade, mas envolto em correntes.

— Obrigada, Emanuel.

— Não me agradeça ainda — ele se levantou e caminhou até ela, parando por trás da poltrona e inclinando-se para sussurrar em seu ouvido. — O professor vai me reportar cada minuto da sua aula. E se eu sentir que você está escondendo qualquer desconforto, ou se você tentar usar o celular dele, o estúdio será fechado permanentemente. Entendido?

— Sim, entendido.

Ele a puxou da poltrona e a abraçou por trás, suas mãos espalmadas sobre o ventre dela, onde os gêmeos agora se moviam com mais vigor.

— Eu faço isso porque te amo, Duda. Porque você é preciosa demais para ser deixada ao acaso.

Eduarda encostou a cabeça no peito dele, fechando os olhos. Ela sabia que aquele era o seu destino. Entre a vulgaridade vibrante de Sara e o controle obsessivo de Emanuel, ela encontraria seu espaço. O balé seria sua fuga, o estúdio sua gaiola dourada, e Emanuel seu mestre e protetor.

Lá fora, a cidade de São Paulo continuava seu ritmo frenético, mas dentro daquela cobertura, o tempo parecia seguir as batidas do coração de Emanuel. Um coração que batia por três crianças e duas mulheres, em um equilíbrio precário que ele estava determinado a manter, custasse o que custasse.

Sara apareceu na porta do escritório, observando a cena com um sorriso de satisfação.

— O jantar está esfriando, família — anunciou ela. — E a Valentina quer atenção.

Emanuel soltou Eduarda, mas manteve uma mão possessiva em sua cintura enquanto caminhavam para a sala. O segredo da fazenda havia se transformado em uma realidade urbana complexa, onde o amor não era livre, mas era absoluto. E para Eduarda, a bailarina tímida que sempre buscou proteção, aquele cárcere de veludo estava começando a parecer, assustadoramente, com um lar.