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O Despertar do Cisne sob Vigília
O silêncio na cobertura de Emanuel tinha um peso diferente para Eduarda. Não era o silêncio da paz, como o da fazenda dos avós, mas um silêncio de museu, onde ela se sentia uma estátua de porcelana valiosa, porém inanimada. Nos últimos dois meses, desde que fora trazida para a "segurança" do apartamento, a vitalidade da jovem bailarina parecia ter escorrido por entre os dedos. A barriga de seis meses, agora nitidamente proeminente com a presença de Amélie e Benício, era o único sinal de que algo ainda crescia dentro dela, pois, em seus olhos, a luz estava se apagando.
Eduarda passava os dias sentada na poltrona da biblioteca, olhando para os livros de História da Arte sem realmente ler uma linha. Ela não chorava mais com a frequência de antes; em vez disso, mergulhara em uma apatia profunda que assustava até mesmo a vibrante Sara.
Emanuel, por mais que tentasse manter sua fachada de controle absoluto, sentia o estresse corroer sua racionalidade. Ele era um homem que marcava a pele das pessoas com tinta e agulhas, mas não conseguia suportar a ideia de que estava apagando a alma da mulher que amava.
Naquela manhã, Emanuel entrou na sala e encontrou Eduarda na mesma posição de três horas atrás. Ela usava um vestido de algodão leve, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo, e olhava fixamente para a janela blindada.
— Duda? — chamou ele, a voz mais suave do que o habitual.
Ela não respondeu de imediato. Apenas após alguns segundos, seus olhos focaram lentamente no rosto do primo.
— Oi, Emanuel. Você já voltou?
Emanuel sentiu um aperto no peito. Onde estava a Eduarda manhosa que buscava o seu colo? Onde estava a menina que se perdia em passos de dança? Aquela versão apática dele mesma era uma acusação silenciosa de que seu excesso de proteção estava sufocando-a.
Ele se ajoelhou à frente dela e pegou suas mãos frias.
— O médico ligou ontem à noite — disse ele, observando-a de perto. — Ele está preocupado com a sua pressão e com o seu estado emocional. E eu também estou.
Eduarda soltou um suspiro longo, desviando o olhar.
— Eu estou bem. Só estou cansada. O apartamento é... grande demais.
Sara apareceu no arco da porta, usando um conjunto de ginástica de oncinha que realçava seu barrigão de quase nove meses. Ela mastigava uma maçã com audácia, mas seu olhar para Eduarda era de genuína preocupação.
— Ela está morrendo de tédio, Emanuel — disparou Sara, sem filtro. — E você está agindo como um carcereiro medieval. Se você não deixar essa menina ver o sol e o mundo real, ela vai murchar antes dos gêmeos nascerem. E eu não quero uma depressiva morando comigo. Quero a minha Duda de volta.
Emanuel lançou um olhar severo para Sara, mas não havia convicção em sua irritação. Ele sabia que ela tinha razão.
— Eu tomei uma decisão — anunciou Emanuel, voltando sua atenção para Eduarda. — Mas quero que você me ouça com atenção, Duda.
Eduarda finalmente pareceu interessada, uma faísca de esperança surgindo em suas pupilas.
— Você vai voltar para a faculdade. E para o estúdio de balé.
O choque foi tão grande que Eduarda soltou um pequeno arquejo.
— O quê? Você... você está falando sério?
— Sim — Emanuel apertou as mãos dela, a voz firme. — Mas sob condições estritas. Eu já conversei com a reitoria. Você terá um esquema especial de segurança. O motorista te deixará na porta da sala e ficará no corredor. Nada de sair para lanchar fora do campus ou se desviar do trajeto. E quanto ao balé... você só dará aulas teóricas e fará exercícios leves de barra. Nada de saltos ou piruetas arriscadas. O médico deu o aval, desde que você não se esforce fisicamente.
Eduarda não conseguiu conter as lágrimas, mas desta vez eram lágrimas de alívio. Ela se lançou nos braços de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Obrigada, Emanuel! Eu prometo que vou seguir todas as regras. Eu juro!
Emanuel a abraçou com força, sentindo o calor do corpo dela voltar a irradiar vida.
— Eu só quero que você seja feliz, Duda. Se para isso eu preciso dividir o seu tempo com o mundo, eu vou fazer. Mas não me dê motivos para me arrepender.
Sara, assistindo à cena, sorriu e deu uma mordida ruidosa na maçã.
— Viu só? Às vezes, ser um ditador não funciona, querido. Agora, Duda, vá se arrumar. Eu mandei comprar umas roupas novas para você. Nada desses seus vestidos de camponesa. Você é a mulher de um império agora, precisa parecer uma.
— Sara... — Emanuel advertiu, mas Eduarda riu. Foi o primeiro riso genuíno que ele ouviu em semanas.
— Tudo bem, Sara. Eu aceito as roupas. Só quero poder ver meus alunos de novo.
O primeiro dia de volta à rotina foi como um renascimento. O campus da faculdade de História da Arte parecia mais vibrante do que nunca. Eduarda caminhava pelos corredores sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, como uma pessoa e não apenas como um "recipiente" para os filhos de Emanuel.
Claro, a presença constante de um segurança alto e de expressão fechada a poucos metros de distância atraía olhares, mas ela não se importava. Ela estava rodeada de livros, de discussões intelectuais e do cheiro de café e papel antigo que tanto amava.
À tarde, o motorista a levou ao estúdio de balé. Quando ela entrou na sala de espelhos, o cheiro de resina e o som das sapatilhas batendo no chão de madeira a fizeram chorar de emoção.
— Professora Eduarda! — As pequenas alunas correram em sua direção, abraçando suas pernas com cuidado por causa da barriga.
— Senti tanta saudade de vocês — murmurou ela, acariciando os cabelos de uma das meninas.
Ela se sentou em uma cadeira alta, conduzindo a aula com a voz e pequenos gestos, corrigindo a postura das alunas. Ela se sentia útil. Sentia-se Eduarda novamente.
Enquanto isso, Emanuel não conseguia se concentrar no trabalho. Ele passava o dia checando o rastreador no celular e ligando para o segurança a cada hora. Sua necessidade de controle ainda estava lá, pulsando sob a pele, mas ver as fotos que o segurança enviava — Eduarda sorrindo na biblioteca, Eduarda gesticulando no estúdio — acalmava seu espírito possessivo.
Ao final do dia, ele mesmo foi buscá-la. Quando Eduarda entrou no carro, ela estava radiante. Suas bochechas tinham um tom rosado saudável e ela não parava de falar sobre a aula de Barroco que tivera pela manhã.
— Foi maravilhoso, Emanuel. Obrigada por confiar em mim.
Emanuel a puxou para perto, beijando o topo de sua cabeça.
— Eu não confio no mundo, Duda. Mas confio no que você sente por mim. E se você está feliz, eu consigo lidar com a minha paranoia.
Ao chegarem em casa, a cena que os esperava era de puro caos doméstico. Sara estava sentada no chão da sala, cercada por caixas de sapatinhos de bebê e roupas de grife, bufando de calor.
— Finalmente! — exclamou a loira. — Emanuel, me ajude a levantar. A Valentina decidiu que hoje é dia de usar minhas costelas como saco de pancadas. E você, bailarina, venha aqui. Preciso que você me ajude a escolher o que levar para a maternidade. O médico disse que pode ser a qualquer momento agora.
Eduarda sentou-se ao lado de Sara, sentindo uma conexão profunda com a mulher que, apesar de tão diferente dela, tornara-se sua aliada e porto seguro.
— Você está bem, Sara? — perguntou Eduarda, tocando a mão da loira.
— Estou enorme, vulgar e cansada — Sara riu, ajeitando o decote generoso. — Mas estou feliz. E ver você com essa cara de quem ganhou na loteria me deixa melhor. Emanuel é um chato, mas ele nos ama do jeito torto dele.
Emanuel observava as duas mulheres de sua vida. A loira siliconada e desbocada que era sua rocha, e a bailarina delicada e tímida que era sua alma. Ele se aproximou e sentou-se entre as duas, envolvendo cada uma com um braço.
— Eu sou o homem mais sortudo e mais louco do mundo — admitiu ele, a voz rouca.
— É sim — concordou Sara, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas você tem sorte que nós duas nos damos bem. Se a gente se unisse contra você, você não teria chance.
Eduarda riu, apoiando-se no outro ombro de Emanuel.
— Eu nunca me uniria contra ele, Sara. Ele é o meu protetor.
— Eu sei, querida. Você é muito boazinha. Deixe a parte de dar bronca nele comigo.
A noite caiu sobre a cobertura com uma leveza que não existia antes. A depressão que ameaçava levar Eduarda fora dissipada pela liberdade vigiada, e o estresse de Emanuel fora mitigado pela felicidade dela.
No entanto, a madrugada trouxe uma mudança brusca. Emanuel foi acordado por um gemido alto vindo do quarto ao lado. Ele saltou da cama, o instinto de proteção em alerta máximo.
Ao entrar no quarto de Sara, encontrou-a sentada na beira da cama, as mãos agarradas aos lençóis, o rosto suado.
— Emanuel... — ela ofegou, tentando manter a ironia mesmo na dor. — Acho que a Valentina... decidiu que o apartamento está pequeno para ela. A bolsa estourou.
Emanuel sentiu a adrenalina disparar. Ele correu para o lado dela, pegando o celular para ligar para o médico e para o motorista.
— Calma, Sara. Eu estou aqui.
Eduarda apareceu na porta, o rosto sonolento, mas rapidamente ficando alerta ao ver a cena.
— Sara! O que eu posso fazer?
— Pegue a bolsa dela, Duda! — comandou Emanuel, sua voz assumindo o tom de autoridade que usava nos negócios. — E chame meus tios. Diga que estamos indo para o hospital agora.
O trajeto para a maternidade foi um borrão de luzes da cidade e a voz de Sara xingando Emanuel a cada contração, enquanto Eduarda segurava a mão dela no banco de trás, tentando transmitir uma calma que ela mesma não sentia.
— Se você... me engravidar de novo... Emanuel... eu corto o seu... — Sara gritava, interrompida por uma dor aguda.
— Eu sei, meu amor. Eu sei — Emanuel respondia, tenso ao volante, mas com um brilho de emoção nos olhos.
No hospital, tudo foi rápido. Emanuel entrou na sala de parto com Sara, enquanto Eduarda ficou na sala de espera com seus pais, que chegaram logo em seguida. A tensão era palpável. Eduarda acariciava sua própria barriga, sentindo Amélie e Benício se mexerem, como se soubessem que a irmã estava chegando.
Horas depois, a porta da área de parto se abriu. Emanuel saiu, ainda usando a roupa cirúrgica verde. Ele parecia exausto, mas havia um sorriso radiante em seu rosto que Eduarda nunca vira antes.
— Ela nasceu — disse ele, a voz falhando levemente. — A Valentina é linda. E a Sara está bem, embora esteja dormindo agora de tanto cansaço.
Eduarda correu para os braços dele, celebrando a nova vida.
— Parabéns, Emanuel! Eu posso vê-la?
— Em breve. Eles estão limpando-a.
Quando finalmente puderam entrar no quarto, a cena era de uma ternura inesperada. Sara, com o cabelo loiro bagunçado e sem maquiagem, parecia mais humana e vulnerável do que nunca, segurando um pequeno embrulho cor-de-rosa.
— Olhe só para ela — sussurrou Sara, quando Eduarda se aproximou. — Tem o nariz do Emanuel. Coitada da menina.
Eduarda riu baixinho, olhando para o rosto minúsculo de Valentina.
— Ela é perfeita, Sara.
Emanuel aproximou-se e beijou a testa de Sara, depois a de Eduarda. Ele estava cercado por suas mulheres. A filha recém-nascida, a esposa guerreira e a prima que carregava seus próximos herdeiros.
— Nós vamos cuidar uns dos outros — prometeu Emanuel, a voz profunda e decidida. — Nada vai faltar para vocês. Nunca.
Nos dias que se seguiram, a dinâmica na cobertura mudou novamente. A chegada de Valentina trouxe um novo propósito. Sara, embora continuasse vulgar e mandona, revelou-se uma mãe leoa e surpreendentemente atenciosa. Eduarda, sentindo-se mais segura do que nunca, dividia seu tempo entre os estudos, o balé e o auxílio a Sara com o bebê.
A depressão de Eduarda tornara-se uma lembrança distante. Ela descobriu que a liberdade não era apenas o ato de ir e vir, mas o ato de ser aceita e amada em toda a sua complexidade. Emanuel, embora mantivesse a segurança e o monitoramento, começara a relaxar os ombros. Ele percebera que, ao dar espaço para Eduarda respirar, ela se tornara ainda mais devota a ele.
Uma tarde, enquanto Valentina dormia no berço e Sara tirava um cochilo, Emanuel encontrou Eduarda praticando alguns passos de balé na sala, sob a luz do pôr do sol que entrava pelas grandes janelas.
Ela se movia com uma leveza angelical, seus braços desenhando arcos no ar. Emanuel aproximou-se silenciosamente e a abraçou por trás, suas mãos encontrando o ventre onde Amélie e Benício cresciam fortes.
— Você parece um anjo, Duda — sussurrou ele.
— Eu me sinto viva, Emanuel — respondeu ela, encostando a cabeça em seu ombro. — Obrigada por me deixar voltar para o meu mundo.
— O seu mundo é o meu mundo agora — disse ele, virando-a para que pudesse beijá-la. — E eu vou garantir que ele seja sempre o lugar mais seguro da Terra para você.
Eduarda sorriu, entregando-se ao beijo. Ela sabia que a vida deles era fora dos padrões, que haveria julgamentos e desafios, mas ali, naquele abraço, ela tinha tudo. Tinha a proteção do homem que amava, a amizade da mulher que a aceitava e a promessa de um futuro onde a arte, o amor e a família se fundiam em uma dança perfeita.
Entre o feno da fazenda e o asfalto da cidade, a história deles encontrara seu ritmo. E enquanto Emanuel a segurava com firmeza, Eduarda sabia que, mesmo sendo um cisne sob vigília, ela nunca fora tão livre para voar.