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Linhas Cruzadas e Pulsos Acelerados
O sol da manhã entrava pelas janelas de vidro do chão ao teto da cobertura, refletindo-se nos detalhes dourados da decoração que Sara tanto amava. Emanuel estava sentado à mesa de mármore, um tablet à sua frente com planilhas de lucros de seus estúdios em Londres e Tóquio, mas sua atenção estava dividida.
Sara, envolta em um robe de seda rosa choque que se abria estrategicamente sobre sua barriga de cinco meses, terminava de aplicar uma camada generosa de gloss labial enquanto esperava que ele terminasse de servir o café.
— Manu, querido, você viu o conjunto de joias que a Cartier lançou? — ela perguntou, a voz carregada daquela ironia doce que só ela possuía. — Acho que a Valentina merece um presente de "mesversário" dentro da barriga, não acha?
Emanuel soltou um curto riso nasalado, fechando o tablet e levantando-se para contornar a mesa. Ele a abraçou por trás, as mãos grandes e tatuadas repousando sobre o silicone e o calor da pele dela.
— Você quer o conjunto inteiro ou só o colar, Sara? — ele murmurou contra o pescoço dela, sentindo o perfume doce e invasivo que era sua marca registrada.
— O conjunto, óbvio. Não seja pão-duro logo hoje — ela se virou nos braços dele, enlaçando o pescoço do marido. — E quero que você me leve para almoçar naquele restaurante novo no porto. Quero ostras. E quero que você me carregue se meus pés incharem.
— Eu te dou o que você quiser, você sabe disso — Emanuel respondeu, beijando-a com uma intensidade que demonstrava que, apesar de qualquer nova complicação em sua vida, Sara ainda era sua rainha, a mulher que dominava seus instintos mais básicos.
Ele a soltou relutante quando o celular vibrou no bolso. Era uma mensagem de sua irmã, Luísa. O conteúdo, porém, fez o sangue de Emanuel gelar e, em seguida, ferver.
*"A Duda acabou de sair com as meninas da faculdade. Elas inventaram de ir fazer aquela trilha da Pedra do Elefante. Tentei avisar que era perigoso no estado dela, mas ela disse que precisava de ar puro e de se sentir 'viva'. Boa sorte tentando falar com ela, o sinal lá é péssimo."*
Emanuel apertou o aparelho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A imagem de Eduarda — frágil, grávida de cinco meses, com aquele equilíbrio precário de bailarina que agora carregava um peso extra no ventre — subindo pedras escorregadias e trilhas íngremes sob o sol escaldante, fez sua visão escurecer.
— O que foi? — Sara perguntou, notando a mudança imediata na postura dele. — Você ficou com aquela cara de quem vai matar alguém.
— Eduarda — rosnou Emanuel, já pegando as chaves do carro e a jaqueta. — Ela foi fazer uma trilha. Com cinco meses de gravidez. Aquela garota perdeu o juízo de vez?
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, pegando um morango da fruteira.
— Uma trilha? Que corajosa. Ou que burra. Provavelmente um pouco de cada — ela deu de ombros, sem demonstrar ciúme, apenas uma curiosidade divertida. — Vai lá, Manu. Antes que ela tropece e você tenha um ataque cardíaco. Mas não esquece as minhas ostras.
Emanuel nem respondeu. Ele saiu do apartamento como um furacão, o som dos pneus de seu SUV de luxo cantando na garagem do prédio enquanto ele acelerava em direção à reserva florestal.
O trajeto, que normalmente levaria quarenta minutos, foi feito em vinte. A mente de Emanuel era um campo de batalha. Ele estava furioso. Furioso com a irresponsabilidade dela, furioso com o pai da criança que a deixara naquele estado de carência que a levava a provar sua independência de formas estúpidas, e, acima de tudo, furioso consigo mesmo por se importar tanto.
Quando ele chegou à base da trilha, o estacionamento estava quase vazio. Ele avistou o carro popular de uma das amigas de Eduarda. Sem hesitar, ele começou a subir o caminho de terra. Ele não estava vestido para aquilo; usava sapatos sociais e uma calça de corte impecável, mas não se importava.
Depois de quinze minutos de subida rápida, ele ouviu risadas. Vozes femininas ecoavam entre as árvores. E então, ele a viu.
Eduarda estava sentada em uma pedra grande, limpando o suor da testa com as costas da mão. Ela usava um short de lycra que marcava a barriga redonda e uma regata leve. Ela sorria para uma amiga, mas parecia ofegante, o rosto mais corado do que o normal.
— Eduarda! — O grito de Emanuel cortou o ar como um chicote.
As três garotas deram um pulo. Eduarda olhou para trás, os olhos castanhos arregalando-se em puro choque ao ver a figura imponente e sombria de Emanuel avançando em sua direção.
— Emanuel? O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz falhando, voltando instantaneamente ao seu jeito manhoso e acuado.
Ele parou a poucos centímetros dela, a respiração pesada, os olhos faiscando. As amigas de Eduarda recuaram um passo, intimidadas pela aura de autoridade e pela riqueza óbvia que ele exalava, mesmo suado no meio do mato.
— O que *eu* estou fazendo aqui? — ele repetiu, a voz baixa e perigosa. — A pergunta é: o que você, grávida de cinco meses, está fazendo no meio de uma floresta, subindo pedras? Você tem noção do que pode acontecer se você escorregar?
— Eu... eu estou bem — ela gaguejou, encolhendo os ombros. — As meninas estão comigo. É só uma caminhada, Emanuel. O médico disse que exercícios leves fazem bem.
— Exercícios leves são caminhar no plano, não subir uma trilha de nível moderado sob o sol do meio-dia! — ele explodiu, gesticulando para a barriga dela. — Você não está sozinha, Eduarda. Você tem a Amélie. Se você não tem juízo por você, tenha por ela.
Uma das amigas criou coragem para intervir:
— Olha, a gente estava cuidando dela...
— Silêncio — cortou Emanuel, sem sequer olhar para a garota. Seu foco era total em Eduarda, que agora tinha os olhos marejados. — Você vai descer agora. Comigo.
— Não! — Eduarda disse, uma súbita onda de teimosia atingindo-a. — Você não manda em mim, Emanuel. Você não é meu marido, você não é o pai da minha filha. Você é só... o irmão da minha amiga.
O silêncio que se seguiu foi tenso. Emanuel deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, forçando-a a olhar para cima para encará-lo.
— Eu sou o homem que disse que ia cuidar de você — ele disse, a voz agora num sussurro que apenas ela podia ouvir, carregado de uma possessividade que a fez tremer. — E se cuidar de você significa te carregar à força daqui para garantir que você e a bebê cheguem em casa em segurança, é exatamente o que eu vou fazer. Escolha: você caminha ou eu te levo no colo?
Eduarda sentiu o calor emanando dele. A frieza que ele costumava usar para tratá-la tinha sido substituída por uma chama de controle que a deixava sem defesas. Ela olhou para as amigas, buscando apoio, mas elas pareciam igualmente paralisadas.
— Você está sendo um bruto — ela sussurrou, uma lágrima escorrendo.
— Eu estou sendo necessário — rebateu ele. Ele estendeu a mão, não para ajudá-la, mas como uma ordem. — Vamos. Agora.
Derrotada e sentindo o peso do cansaço que ela tentava ignorar, Eduarda aceitou a mão dele. Os dedos de Emanuel se fecharam em torno dos dela com uma força que era, ao mesmo tempo, um aprisionamento e uma âncora.
A descida foi feita em um silêncio sepulcral. Emanuel não a soltou um segundo sequer. Em trechos mais íngremes, ele praticamente a suspendia, garantindo que seus pés tocassem o chão da forma mais suave possível. Quando chegaram ao carro dele, ele abriu a porta do carona com um movimento brusco.
— Entra.
— Minhas amigas... — ela começou.
— Elas têm carro. Elas sabem o caminho de volta — ele sentenciou, fechando a porta assim que ela se sentou.
Dentro do veículo, o ar-condicionado no máximo começou a resfriar a pele quente de Eduarda. Emanuel entrou no lado do motorista, mas não deu partida imediatamente. Ele socou o volante com força, fazendo-a dar um sobressalto.
— Por que você faz isso? — ele perguntou, olhando para o para-brisa. — Por que você me obriga a agir dessa forma?
— Eu não te obrigo a nada! — Eduarda exclamou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Você aparece, grita comigo, me trata como se eu fosse uma criança incapaz... Eu só queria um dia normal com as minhas amigas. Eu perdi tudo, Emanuel! O pai da minha filha sumiu, minha carreira de bailarina está em pausa, meu corpo está mudando... Eu só queria me sentir eu mesma por algumas horas!
Emanuel virou o rosto para ela. A raiva em seus olhos suavizou-se ao ver o desespero genuíno no rosto dela. Ele viu a fragilidade que tanto o encantava e que ele tanto tentava sufocar com sua frieza.
— Você não perdeu tudo — ele disse, a voz mais calma, mas ainda firme. — Você tem a mim. E eu não sou um homem que faz as coisas pela metade, Eduarda. Se eu decidi que você faz parte da minha vida, eu vou te proteger até de você mesma.
— Mas por quê? — ela perguntou, a voz manhosamente triste. — Você tem a Sara. Ela é linda, ela é forte, ela é tudo o que você gosta. Por que você perde seu tempo vindo atrás de mim em uma trilha?
Emanuel estendeu a mão, acariciando o cabelo castanho dela, retirando uma pequena folha que havia ficado presa no coque frouxo.
— Porque a Sara é o meu fogo — ele confessou, os olhos fixos nos dela —, mas você... você é algo que eu não consigo explicar. Você é doce, é irritante na sua passividade, e é a coisa mais delicada que eu já tive vontade de guardar em uma caixa. Eu amo a minha mulher. Mas eu não vou deixar você ir embora. Entendeu?
Eduarda não respondeu, mas seu coração batia num ritmo frenético. Ela não entendia a dinâmica daquele homem, nem como Sara podia aceitar aquilo, mas a segurança que sentia ao lado dele era inegável.
— Vamos passar na farmácia — ele disse, ligando o motor. — Vou comprar vitaminas novas para você e um daqueles cremes caros para as pernas. E depois, você vai para a minha casa.
— Para a sua casa? Meus pais estão me esperando...
— Eu já avisei a sua mãe que você vai almoçar conosco. Sara quer te mostrar as roupas que comprou para a Amélie.
— Sara comprou roupas para a minha filha? — Eduarda piscou, confusa.
— Ela comprou um berço também — Emanuel acrescentou, com um meio sorriso cínico. — Ela decidiu que as meninas vão ser como irmãs. E o que a Sara decide, geralmente acontece.
O trajeto de volta foi diferente. A tensão ainda estava lá, mas era uma tensão carregada de uma aceitação tácita. Eduarda encostou a cabeça no banco de couro, sentindo o cansaço da trilha finalmente cobrar seu preço. Ela acabou pegando no sono antes mesmo de chegarem à cidade.
Emanuel aproveitou o sinal vermelho para olhá-la. Ela dormia com a boca levemente aberta, a mão repousando sobre a barriga. Ela era o oposto de Sara. Sara era barulhenta, visual, impactante. Eduarda era silêncio e suavidade. E ele, em sua ganância racional, percebeu que não estava disposto a abrir mão de nenhuma das duas.
Quando chegaram à cobertura, ele a acordou com um toque leve no ombro.
— Chegamos, bailarina.
Eles subiram e, assim que a porta do elevador se abriu, o cheiro de comida sofisticada invadiu o ambiente. Sara estava sentada em uma poltrona, lixando as unhas, usando um conjunto de lingerie de renda preta sob um robe transparente — ela não tinha filtros, mesmo com visitas.
— Olha só quem sobreviveu à selva! — Sara exclamou, levantando-se com uma agilidade surpreendente para uma grávida. Ela caminhou até Eduarda e, para surpresa da menina, deu-lhe um beijo no rosto. — Você está horrível, Duda. Toda suada e descabelada. Manu, leva ela para o quarto de hóspedes e manda ela tomar um banho. Vou emprestar um dos meus vestidos para ela.
— Eu não quero incomodar... — Eduarda começou.
— Não é um incômodo, é uma ordem — Sara piscou, rindo. — Depois do almoço, vamos abrir os presentes da Valentina e da Amélie. Eu comprei uns sapatinhos com cristais que você vai amar.
Emanuel observava as duas. Sara, com sua vulgaridade confiante, guiando Eduarda, que parecia um cervo assustado, em direção ao corredor. Ele sentiu uma satisfação sombria. O mundo lá fora poderia considerar aquela situação um escândalo, uma loucura, mas ali, dentro daquelas paredes, ele era o mestre.
Mais tarde, após o almoço de ostras e champanhe (para ele e Sara, enquanto Eduarda bebia um suco natural de frutas vermelhas), o clima era de uma estranha harmonia. Sara tinha Eduarda sentada ao seu lado no sofá, mostrando fotos de decorações de quartos de bebê em um iPad de última geração.
— Veja este, Duda. Podemos fazer o seu quarto em tons de pérola, para combinar com esse seu jeito de santa — Sara provocava, soltando uma fumaça imaginária de um cigarro que ela parara de fumar pela gravidez.
— Eu não sei se meus pais deixariam eu redecorar o quarto assim... — Eduarda comentou, admirando o luxo das imagens.
— Seus pais são modernos, eles vão adorar — Emanuel interveio, aproximando-se com uma caixa de joias. — Sara, aqui está o que você pediu.
Ele entregou o conjunto da Cartier para a esposa, que soltou um gritinho de alegria. Mas então, ele tirou do bolso uma caixinha menor, de veludo azul. Ele se aproximou de Eduarda, que o olhou com expectativa.
— Para você não dizer que eu só sei brigar — ele disse, abrindo a caixa. Dentro, havia um pingente de ouro em formato de sapatilhas de ballet, com uma pequena pedra de brilhante no centro. — Para a Amélie. Ou para você. Use como quiser.
Eduarda sentiu as lágrimas voltarem. Ela tocou o pingente com a ponta dos dedos.
— É lindo, Emanuel. Obrigada.
— Agora, chega de choro — Sara decretou, batendo palmas. — Manu, a Duda está cansada da trilha idiota dela. Leva ela para deitar um pouco no quarto. Eu vou terminar de escolher os papéis de parede.
Emanuel obedeceu. Ele conduziu Eduarda até o quarto de hóspedes, que já estava sendo preparado com alguns itens de bebê. O ambiente era fresco e silencioso.
— Deita aí — ele ordenou, mas o tom era de cuidado.
Eduarda sentou-se na beira da cama, olhando para ele.
— Por que a Sara é assim? Por que ela não me odeia?
Emanuel sentou-se ao lado dela, a proximidade fazendo o ar ficar pesado novamente.
— Porque a Sara sabe que ela é única. E ela sabe que eu a amo. Ela não teme você, Eduarda, porque ela sabe que o que eu sinto por você não tira o que eu sinto por ela. Ela quer que eu esteja satisfeito. E ela sabe que, para eu estar satisfeito, eu preciso garantir que você esteja sob meus olhos.
— Isso é... loucura — ela sussurrou.
— Talvez — ele concordou, inclinando-se e beijando a testa dela, um gesto de carinho que contrastava com a fúria de horas atrás. — Mas é a nossa realidade agora. Durma um pouco. Eu vou estar na sala se precisar de qualquer coisa.
Ele saiu e fechou a porta, deixando Eduarda mergulhada em seus pensamentos. Ela tocou o pingente em seu pescoço e a barriga onde Amélie descansava. Ela sabia que estava entrando em um labirinto sem saída, cercada por um homem possessivo e uma mulher imprevisível. Mas, pela primeira vez desde que fora abandonada, a solidão parecia algo muito distante.
Na sala, Emanuel encontrou Sara admirando seu novo colar no espelho.
— Ela está dormindo? — Sara perguntou, sem se virar.
— Sim.
— Você foi muito duro com ela na trilha, Manu. Mas eu gosto disso. Mantém ela na linha. Ela precisa de um dono, e você nasceu para isso.
Emanuel abraçou a esposa por trás, olhando para o reflexo dos dois.
— Eu não sou dono de ninguém, Sara.
— Ah, é sim — ela riu, virando-se para beijá-lo. — E o melhor de tudo é que nós dois sabemos disso. Agora, venha me ajudar a escolher a cor do tapete. Quero algo que seja macio o suficiente para as nossas filhas engatinharem juntas.
Emanuel sorriu. O caos estava apenas começando, mas ele nunca se sentira tão no controle de seu próprio destino. O império estava crescendo, e ele não deixaria nada, nem uma trilha perigosa, nem as convenções sociais, ameaçar o que ele decidira que era seu.