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O Peso da Proteção e o Brilho do Ouro

O oitavo mês de gestação havia transformado o apartamento de Emanuel em um santuário de expectativa e luxo excessivo. O ar estava sempre carregado com o cheiro de óleos caros para estrias e o som de sacolas de compras sendo descarregadas. Sara, agora com uma barriga proeminente que parecia desafiar a gravidade, não havia perdido nem um grama de sua personalidade vibrante. Ela desfilava pela cobertura com camisolas de seda que mal escondiam suas curvas, tratando a gravidez como um acessório de alta costura.

Emanuel, por outro lado, parecia mais tenso do que nunca. Seus estúdios de tatuagem pelo mundo rendiam lucros recordes, mas sua mente estava dividida entre as duas mulheres que carregavam seu legado. Valentina e Amélie estavam a poucas semanas de chegar, e o instinto protetor dele havia se tornado uma força da natureza, beirando o sufocante.

Naquela tarde, Emanuel entrou na sala carregando uma sacola de veludo azul marinho. Sara estava esparramada no sofá de couro branco, com as pernas inchadas apoiadas em almofadas de veludo, enquanto folheava uma revista de moda internacional.

— Você demorou, Manu — disse ela, sem tirar os olhos da página. — A Valentina está chutando como se quisesse jogar futebol. Acho que ela herdou sua impaciência.

Emanuel aproximou-se e sentou-se na beirada do sofá, beijando a testa da esposa antes de depositar a sacola no colo dela.

— Tive uma reunião de última hora com os sócios de Berlim. Mas passei na joalheria no caminho de volta.

Os olhos de Sara brilharam. Ela abriu a sacola com a rapidez de um predador. Dentro, havia uma pulseira de ouro maciço com diamantes incrustados, formando o nome "Valentina" em uma caligrafia elegante.

— Meu Deus, Manu! — Sara exclamou, sentando-se com dificuldade, mas com um sorriso triunfante. — É maravilhosa. Você realmente sabe como pedir desculpas pela sua ausência.

— Não é um pedido de desculpas, Sara. É um presente para a mãe da minha filha. Você merece o melhor.

— Eu sei que mereço — ela disse, estendendo o pulso para que ele fechasse o fecho de ouro. — E a Duda? Você comprou algo para ela também? Sabe que ela fica toda sensível quando se sente deixada de lado.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. O relacionamento com Eduarda havia evoluído nos últimos meses. O que começou como uma proteção quase forçada transformou-se em um namoro doce e, ao mesmo tempo, complicado. Ele a amava, mas de uma forma diferente da que amava Sara. Eduarda era a paz que ele não sabia que precisava, enquanto Sara era a adrenalina que o mantinha vivo.

— Comprei um colar para ela. Mais discreto, do jeito que ela gosta — respondeu Emanuel. — Mas ela ainda se recusa a vir morar aqui, Sara. Eu já ofereci o quarto ao lado do nosso, já disse que contrato enfermeiras particulares para as duas, mas ela insiste em ficar na casa dos pais.

Sara soltou uma risada rouca e irônica, admirando o brilho dos diamantes em seu pulso.

— Ela é boba, Manu. Tem medo de ser "a outra", mesmo que eu já tenha dito mil vezes que não me importo. Ela quer a aprovação daqueles pais moderninhos dela. Mas não se preocupe, quando a Amélie nascer e ela passar a primeira noite em claro, ela vai vir correndo para cá buscar o seu conforto.

— Eu não quero que ela venha por necessidade, Sara. Quero que ela venha porque confia em mim.

— Então você vai ter que ser mais convincente, meu amor — Sara disse, puxando-o pela gola da camisa para um beijo possessivo. — Agora vá buscá-la. Hoje é noite de jantar em família, e eu quero que aquela bailarina esteja aqui para me ajudar a escolher as cores do chá de bebê unificado.

***

Emanuel dirigiu até a casa dos pais de Eduarda com a mente borbulhando. Aos oito meses, Eduarda parecia mais frágil e, ao mesmo tempo, mais radiante. O rosto estava mais arredondado, e os olhos castanhos pareciam carregar toda a melancolia do mundo.

Ele estacionou em frente à casa de estilo contemporâneo e subiu os degraus dois a dois. Foi recebido pela mãe de Eduarda, uma mulher jovem e de mente aberta que parecia aceitar a situação inusitada da filha com uma tranquilidade que às vezes irritava Emanuel.

— Ela está no quarto, Emanuel. Estava tentando organizar as roupinhas da Amélie, mas se cansou — disse a sogra com um sorriso gentil.

Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda. A porta estava entreaberta. Ele a viu sentada no tapete, cercada por pequenas peças de roupa cor-de-rosa e branca. Ela usava um vestido de malha leve que evidenciava o barrigão de oito meses. Ela parecia exausta.

— Você não deveria estar no chão, Duda — disse ele, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si.

Eduarda deu um leve sobressalto e sorriu, estendendo a mão para ele. Emanuel a ajudou a se levantar com todo o cuidado do mundo, sentando-a na cama e ajoelhando-se à sua frente.

— Eu só queria ver se estava tudo pronto — sussurrou ela, a voz manhosa. — O tempo está passando tão rápido, Emanuel. Tenho medo de não ser uma boa mãe.

— Você vai ser a melhor mãe que a Amélie poderia ter — ele afirmou, pegando a caixinha de veludo do bolso. — Trouxe algo para você.

Eduarda abriu a caixa e encontrou um colar de ouro com um pingente de uma pequena bailarina segurando um cristal. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.

— É lindo... obrigada, Manu. Mas você não precisa me dar joias o tempo todo.

— Eu quero te dar o mundo, Eduarda. Mas você não me deixa — ele aproveitou o momento para tocar no assunto que o atormentava. — Por que você ainda está aqui? Suas malas poderiam estar no meu carro agora. Eu tenho segurança, tenho espaço, tenho tudo o que você e a bebê precisam.

Eduarda baixou o olhar, brincando com o colar entre os dedos.

— Eu amo meus pais, Emanuel. E, apesar de eu amar você... é difícil. A Sara é incrível, ela me trata bem, mas entrar naquela cobertura é como entrar em um mundo que não é meu. Eu me sinto pequena lá.

— Você não é pequena, você é minha — ele disse, a voz subindo de tom com aquela possessividade característica. — Eu não suporto a ideia de você estar aqui e eu estar lá, a quilômetros de distância, se você entrar em trabalho de parto no meio da noite.

— Meus pais estão aqui — ela lembrou suavemente.

— Não é a mesma coisa! — Emanuel levantou-se, andando de um lado para o outro no quarto pequeno. — Eu quero estar lá. Eu quero ser o primeiro a segurar a Amélie, assim como serei o primeiro a segurar a Valentina. Eu quero as duas sob o meu teto.

Eduarda suspirou, sentindo a pressão que ele exercia. Emanuel era um homem de controle, e ela era a única peça de seu império que ele ainda não havia conseguido mover para onde queria.

— Emanuel, por favor, não vamos brigar hoje. Eu prometo que vou pensar nisso com mais carinho depois que elas nascerem. Mas agora, eu só quero um pouco de paz.

Ele parou de andar e olhou para ela. A vulnerabilidade de Eduarda sempre desarmava sua fúria. Ele voltou para o lado dela e a abraçou, sentindo Amélie chutar contra suas costelas.

— Você me deixa louco, bailarina — murmurou ele contra o cabelo dela. — Mas tudo bem. Vamos para a cobertura. Sara está nos esperando para o jantar.

***

O jantar na cobertura foi uma exibição de contrastes. Sara, usando sua pulseira nova e um vestido justo que brilhava sob as luzes do lustre, falava sem parar sobre os preparativos para o parto. Ela já havia reservado uma ala inteira do hospital mais caro da cidade.

— Eu quero flores brancas em todo o corredor — dizia Sara, enquanto cortava um pedaço de filé mignon. — E quero que o fotógrafo esteja lá desde o primeiro segundo. A Valentina vai nascer sendo uma estrela.

Eduarda comia silenciosamente, sentindo-se um pouco deslocada diante da exuberância de Sara. Emanuel dividia sua atenção, cortando a carne para Eduarda e servindo o vinho de Sara, agindo como o pivô central daquela engrenagem complexa.

— Duda, você está muito quieta — provocou Sara, lançando um olhar irônico para a outra. — O Manu já te contou que ele quer comprar um berço de ouro para a Amélie também? Ele está perdendo a noção.

— Eu não preciso de ouro, Sara — disse Eduarda, timidamente. — Só quero que ela nasça com saúde.

— Bobagem! — Sara riu, balançando o pulso para que os diamantes refletissem a luz. — Saúde é o básico. O resto é estilo. Você precisa aprender a exigir mais desse homem. Ele é rico, ele é poderoso e ele é louco por nós duas. Se você não pedir, eu peço por você.

Emanuel sorriu de canto, observando a interação. Ele adorava o jeito que Sara tentava "corromper" a inocência de Eduarda.

— Eu já disse a ela que a conta bancária está à disposição — disse Emanuel, colocando a mão sobre a mesa, entre as duas mulheres. — Mas a Eduarda é teimosa.

— Ela é orgulhosa, isso sim — corrigiu Sara. — Mas o orgulho cai por terra quando a fralda vaza e o sono aperta.

Após o jantar, eles foram para a varanda. A vista da cidade era deslumbrante, com as luzes dos prédios parecendo estrelas caídas. Emanuel sentou-se em uma poltrona grande, com Sara em um dos seus braços e Eduarda no outro. Era uma imagem que, para qualquer pessoa de fora, pareceria escandalosa, mas para ele, era a definição de sua realização pessoal.

— Vocês duas são o meu mundo — disse ele, a voz carregada de uma sinceridade rara.

— Nós sabemos, Manu — Sara respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — E você é o nosso. Mesmo sendo um chato controlador.

Eduarda apenas sorriu, sentindo-se protegida pelo calor do corpo dele. Por um momento, a insegurança de morar ali desapareceu.

No entanto, o clima de paz foi interrompido por um gemido baixo de Eduarda. Ela levou a mão ao baixo ventre, a expressão mudando de serenidade para dor.

— Duda? O que foi? — Emanuel perguntou instantaneamente, o corpo ficando rígido.

— Uma contração... — ela sussurrou. — Mas ainda é cedo, estou de oito meses.

Sara levantou-se num salto, a ironia sumindo de seu rosto, substituída por uma eficiência administrativa.

— Manu, pega a bolsa dela no carro. Eu vou levá-la para o quarto e monitorar o tempo. Pode ser apenas um alarme falso, mas com essas coisas não se brinca.

Emanuel hesitou por um segundo, olhando para as duas.

— Vá logo, Emanuel! — gritou Sara. — Deixe que eu cuido da minha menina.

Ele obedeceu, correndo em direção ao elevador. Enquanto isso, Sara ajudou Eduarda a caminhar para dentro.

— Calma, santinha — disse Sara, a voz surpreendentemente doce. — Respira fundo. Se a Amélie quiser vir agora, ela vai vir em um berço de luxo, cercada por nós. Você não está sozinha.

Eduarda olhou para Sara, vendo além da maquiagem forte e das roupas vulgares. Ela viu uma aliada. Uma mulher que, à sua maneira, também estava disposta a lutar por aquela família pouco convencional.

— Obrigada, Sara — sussurrou Eduarda, entre uma respiração e outra.

— Não me agradeça ainda. Você ainda me deve uma ajuda para escolher os sapatos da Valentina — Sara piscou, tentando aliviar a tensão.

Quando Emanuel voltou, ele encontrou as duas no quarto de hóspedes. O alarme era, de fato, falso — apenas contrações de treinamento, segundo o médico que Emanuel consultou por vídeo no celular. Mas o susto serviu para uma coisa.

Eduarda, ainda deitada na cama e segurando a mão de Emanuel, olhou para ele e depois para Sara, que estava sentada na poltrona ao lado, retocando o batom após o estresse.

— Emanuel... — começou Eduarda.

— Sim?

— Eu vou trazer minhas coisas amanhã.

Emanuel sentiu um peso sair de seus ombros. Ele beijou a mão de Eduarda com fervor.

— Você não vai se arrepender, Duda.

— É claro que não vai — interrompeu Sara, levantando-se e guardando o batom na bolsa. — Agora que estaremos todas sob o mesmo teto, as coisas vão ficar realmente interessantes. Manu, prepare o cartão de crédito. Amanhã vamos redecorar este quarto e torná-lo digno de uma princesa, porque a Amélie não vai ficar atrás da Valentina em nada.

Emanuel olhou para as duas mulheres de sua vida. Uma loira, siliconada e barulhenta; a outra morena, tímida e delicada. Ele tinha tudo o que queria. O império estava completo, e as herdeiras estavam prestes a chegar para governar ao seu lado. O caminho até ali fora tortuoso e cheio de gelo e fogo, mas, enquanto observava Eduarda e Sara começarem a discutir sobre tons de rosa para as paredes, ele soube que não mudaria uma única linha daquela história.

— Eu amo vocês — ele disse, mas as duas já estavam imersas demais na organização do novo mundo que compartilhariam para prestar atenção.

Emanuel sorriu, recostando-se na porta. Ele era o tatuador que desenhava destinos, e aquele era, sem dúvida, o seu desenho mais complexo e perfeito.