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O Peso do Sangue e o Laço do Afeto
O sol da tarde filtrava-se pelas cortinas de seda do amplo salão de jogos da mansão, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Era um dia de celebração, ou pelo menos deveria ser. Balões em tons de dourado e rosa pastel decoravam o ambiente, comemorando o primeiro aniversário de Valentina e Amélie, cujas datas de nascimento eram separadas por apenas alguns dias. O que antes fora um encontro tenso em uma festa infantil, agora era a rotina de uma família fora dos padrões, mas consolidada sob o comando firme de Emanuel e a exuberância de Sara.
Emanuel estava sentado no tapete de pelúcia, cercado por brinquedos educativos e caixas de presentes abertas. Ele havia deixado de lado o terno de corte impecável que usara mais cedo para os investidores de seus estúdios de tatuagem, vestindo agora apenas uma camiseta preta que deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Em cada joelho, ele tentava equilibrar uma criança.
Valentina, com seus cabelos loiros platinados herdados da mãe e olhos que já brilhavam com uma determinação precoce, não estava disposta a compartilhar. Ela empurrava o ombro de Amélie com sua mãozinha gorda, tentando conquistar o espaço exclusivo no colo do pai.
— Minha! — Valentina exclamou, uma das poucas palavras que já dominava, agarrando-se à camiseta de Emanuel com força.
— Valentina, comporte-se — Emanuel repreendeu com a voz grave, mas sem agressividade. — A Amélie também quer colo.
Do outro lado, Amélie, a pequena bailarina em miniatura de Eduarda, não revidou o empurrão. Em vez disso, seus grandes olhos castanhos se encheram de lágrimas instantâneas e seu lábio inferior começou a tremer de forma dramática. Ela era o retrato da mãe: sensível, intuitiva e profundamente manhosa. Sem emitir um som, ela inclinou a cabeça para o lado e estendeu os braços para Emanuel, soltando um ganido baixinho que parecia quebrar o ar.
Emanuel sentiu aquela fisgada familiar no peito. Ele amava Valentina com a intensidade de quem vê a própria continuação, mas Amélie despertava nele um instinto de proteção quase irracional. Talvez fosse pela saúde ainda delicada da menina, ou pela forma como ela parecia enxergar a alma dele através daqueles olhos doces.
— Venha cá, pequena — murmurou Emanuel, ignorando os protestos de Valentina e puxando Amélie para o centro de seu peito.
Amélie imediatamente se acalmou, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel e suspirando com satisfação, enquanto Valentina iniciava um protesto sonoro, chutando o ar com suas sandálias de grife.
— Vejo que o harém mirim está em pé de guerra novamente — a voz de Sara ecoou pela sala, acompanhada pelo som rítmico de seus saltos altos.
Ela entrou no recinto segurando uma taça de cristal com espumante. Sara estava deslumbrante em um vestido de bandagem neon que realçava cada curva de seu corpo siliconado. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito, e a maquiagem, como sempre, era impecável. Atrás dela, Eduarda caminhava com sua elegância discreta, vestindo um saia midi de tule lilás e uma sapatilha de ponta, parecendo ter acabado de sair de uma aula de ballet.
— Emanuel, você mima demais a Amélie — Sara comentou, sentando-se no braço do sofá de couro e observando a cena com um sorriso irônico. — Olhe para a Valentina, ela está prestes a ter um colapso nervoso porque foi trocada.
— Ela não foi trocada, Sara — Emanuel respondeu, tentando acalmar Valentina com uma das mãos enquanto a outra acariciava as costas de Amélie. — Mas a Amélie é mais sensível, você sabe disso.
Eduarda aproximou-se, ajoelhando-se ao lado de Emanuel no tapete. Ela tocou o braço dele timidamente, um gesto que ainda carregava a reverência de quem se sente imensamente grata por estar ali.
— Eu posso pegá-la, Emanuel — disse Eduarda com sua voz suave. — Não quero que a Valentina fique triste no aniversário dela. Amélie é manhosa, ela se aproveita de você.
— Deixe-a ficar — Emanuel disse, olhando nos olhos de Eduarda. — Eu dou conta das duas.
Sara soltou uma risada curta e deu um gole em sua bebida.
— O problema, Duda, é que o seu "projeto de bailarina" descobriu o ponto fraco do Emanuel. Ela faz esse olhar de gatinho abandonado e ele derrete. Se continuar assim, a Valentina vai crescer achando que precisa fazer um escândalo para ter atenção, enquanto a Amélie vai conseguir o mundo apenas piscando.
— Não fale assim, Sara — Eduarda pediu, corando levemente. — A Amélie só... ela se sente segura com ele.
— Todas nós nos sentimos, querida — Sara piscou para Eduarda, sem qualquer traço de malícia. — Mas vamos ao que interessa. Emanuel, os seus pais e os pais da Eduarda chegam em uma hora. A loja mandou os vestidos novos para a Duda e ela está se recusando a usar o que eu escolhi. Diga a ela que o roxo com brilhos é essencial para a festa de hoje à noite.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando socorro.
— Emanuel, é decotado demais... eu me sinto exposta.
Emanuel avaliou as duas mulheres à sua frente. Sara, o fogo que o mantinha alerta, e Eduarda, a paz que o permitia respirar.
— Sara, deixe a Eduarda usar o que a faz se sentir bem — Emanuel decidiu, embora seus olhos tenham brilhado com a ideia de ver Eduarda em algo escolhido por Sara. — Mas, Duda, tente algo um pouco mais festivo hoje. É o primeiro ano delas. É o nosso primeiro ano como... isso que somos.
Eduarda assentiu, sentindo o calor das palavras dele. Ela se inclinou e beijou a bochecha de Emanuel, e depois, num impulso de coragem que ainda a surpreendia, beijou também a bochecha de Sara. A loira sorriu, dando um tapinha afetuoso no rosto da bailarina.
— Você está ficando ousada, bailarina. Gosto disso.
De repente, o choro de Valentina cessou. Ela havia desistido de lutar e, num momento de rara trégua, encostou a cabeça no ombro de Amélie, que ainda estava agarrada a Emanuel. As duas bebês, tão diferentes em temperamento e aparência, pareciam finalmente ter encontrado um equilíbrio momentâneo no colo do homem que as unia.
— Olhem isso — sussurrou Eduarda, com os olhos brilhando.
Emanuel olhou para as duas meninas em seus braços. Valentina, a força; Amélie, a doçura. Ele sentiu um peso de responsabilidade que superava qualquer um de seus negócios globais.
— Eu quero que elas cresçam sabendo que não precisam competir — Emanuel disse, a voz carregada de uma seriedade profunda. — O que eu tenho é delas. O que eu sou é delas.
— Elas vão saber — Sara disse, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Emanuel. — Elas têm dois pais e duas mães que, de um jeito muito louco, funcionam.
O clima de ternura foi interrompido pelo toque do celular de Emanuel. Ele suspirou, reconhecendo o número de um de seus gerentes em Berlim.
— Preciso atender. Sara, pegue a Valentina. Duda, fique com a Amélie.
— Ah, não! — Sara reclamou, embora já estivesse pegando a filha. — Valentina está com cheiro de biscoito de polvilho e vai sujar meu vestido. Emanuel, você me deve uma joia nova por isso!
— Coloque na minha conta — ele respondeu com um meio sorriso, levantando-se.
Eduarda pegou Amélie, que protestou baixinho ao ser afastada do calor de Emanuel, mas logo se aninhou no colo da mãe, buscando o conforto familiar. Emanuel caminhou até a porta, mas parou e olhou para trás.
— Eduarda?
— Sim?
— O roxo com brilhos — ele disse, com um brilho possessivo no olhar. — Use para mim.
Eduarda sentiu o rosto queimar, mas assentiu. Sara soltou uma gargalhada vitoriosa.
— Viu só? Até o seu "protetor" quer te ver um pouco mais vulgar, querida! É o efeito da convivência comigo.
— Não é vulgar, Sara — Eduarda murmurou, tentando esconder o sorriso. — É só... diferente.
Quando Emanuel saiu da sala, o ambiente mudou. Sara sentou-se no tapete ao lado de Eduarda, deixando Valentina brincar com suas pulseiras de ouro.
— Duda, falando sério agora — Sara começou, seu tom de voz perdendo a ironia habitual. — Como está a Amélie? O cardiologista ligou enquanto você estava na faculdade.
O coração de Eduarda deu um salto. Ela apertou a filha um pouco mais forte.
— E o que ele disse? Ele não me ligou...
— Ele ligou para o Emanuel, mas eu atendi porque o bonitão estava no banho — Sara explicou, dando de ombros. — Ele disse que os exames mostram que o orifício está fechando. A cirurgia pode não ser necessária, se ela continuar ganhando peso e se mantendo calma.
Eduarda fechou os olhos, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto. O alívio foi tão intenso que ela sentiu as mãos tremerem.
— Meu Deus... eu tive tanto medo, Sara. Todos os dias, quando ela chora ou fica cansada, eu sinto que vou perder o chão.
Sara estendeu a mão e apertou o joelho de Eduarda.
— Você não vai perder nada. O Emanuel não deixaria. E eu também não. Aquela menina ali — Sara apontou para Amélie — é a única pessoa que consegue fazer a Valentina ficar quieta por mais de cinco minutos. Elas precisam uma da outra. E nós precisamos de você.
Eduarda olhou para Sara, vendo além da fachada de mulher fútil e siliconada. Havia uma lealdade feroz ali, uma proteção que ela nunca imaginou encontrar na mulher que, tecnicamente, deveria ser sua rival.
— Por que você é tão boa comigo? — perguntou Eduarda em voz baixa.
— Porque eu sou inteligente, Duda — Sara respondeu, voltando ao seu tom pragmático. — Eu conheço o Emanuel há anos. Eu sei que ele é um homem que carrega o mundo nas costas. Eu dou a ele o prazer, a diversão e a parceria nos negócios. Mas você... você dá a ele a humanidade. Você o faz baixar a guarda. Se ele está feliz e equilibrado, eu também estou. E, sejamos sinceras, você é adorável. É como ter um animalzinho de estimação que dança ballet e estuda história da arte.
Eduarda riu, limpando as lágrimas.
— Você não existe, Sara.
— Eu sei. Agora, vamos subir. Temos dois bebês para arrumar e eu preciso ter certeza de que você não vai prender esse cabelo em um coque de professora primária. Hoje você é uma das rainhas desta casa.
As duas mulheres se levantaram, cada uma carregando sua filha. Valentina tentava puxar o cabelo de Amélie, que por sua vez tentava pegar o brinco de Sara. No corredor, elas cruzaram com Emanuel, que terminava a ligação. Ele parou, observando as quatro pessoas mais importantes de sua vida.
Ele se aproximou e, num gesto raro de afeto coletivo, abraçou as duas mulheres simultaneamente, as bebês espremidas entre eles.
— O que foi agora? — Sara perguntou, embora estivesse sorrindo contra o ombro dele.
— Nada — Emanuel respondeu, a voz profunda ecoando no peito. — Apenas percebendo que, apesar de todo o caos, este é o único lugar onde eu realmente tenho controle de tudo o que importa.
— Menos da Valentina — Eduarda brincou, sentindo-se segura nos braços dele. — Dela, ninguém tem controle.
— E nem da Amélie — Emanuel completou, beijando a têmpora da pequena que já começava a bocejar, manhosa. — Ela já me tem na palma da mão.
Eles seguiram para os quartos, o som das risadas e dos balbucios infantis preenchendo a mansão. Para quem olhasse de fora, a cena poderia parecer confusa: a loira exuberante, a bailarina tímida e o tatuador rico. Mas, dentro daquelas paredes, o amor não seguia regras gramaticais ou sociais. Ele apenas existia, tão sólido quanto as tatuagens na pele de Emanuel e tão delicado quanto os passos de Eduarda em um palco de teatro. A festa estava apenas começando, e eles estavam prontos para celebrar cada batida, cada choro e cada pequena vitória de uma vida que haviam escolhido construir juntos.