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O Equilíbrio das Sombras e das Cores

A mansão de Emanuel nunca pareceu tão cheia, apesar de seu tamanho colossal. O silêncio austero das paredes decoradas com arte moderna e o eco dos passos no mármore haviam sido substituídos por uma sinfonia caótica de necessidades infantis. De um lado, o choro agudo e exigente de Valentina; do outro, o ganido baixo, quase um suspiro, da pequena Amélie.

Eduarda caminhava pelo corredor do segundo andar com Amélie aninhada em seu pescoço. A bebê, ainda debilitada pelo episódio no hospital, recusava-se a ficar no berço ou no carrinho. Ela era uma extensão do corpo da mãe, um pequeno ser que parecia sugar a energia de Eduarda para se manter estável. A bailarina, por sua vez, parecia uma sombra de si mesma. O rosto pálido e os olhos sempre úmidos denunciavam o medo constante que a habitava.

— Ela não dorme, Emanuel — sussurrou Eduarda, ao encontrar o homem no topo da escada. — Se eu a coloco na cama, ela começa a tossir e chora até ficar roxa. Eu estou com tanto medo do coração dela não aguentar esse esforço.

Emanuel, que carregava Valentina no braço esquerdo, aproximou-se. Valentina, percebendo a proximidade da outra bebê, começou a se debater, empurrando o peito do pai com as mãozinhas gorduchas e soltando um grito de protesto.

— Calma, Tina! — Emanuel exclamou, a voz firme, mas carregada de cansaço. — Duda, me dá a Amélie. Você precisa comer alguma coisa. Você não toma café desde que chegamos do hospital.

— Não, ela vai chorar... — Eduarda recuou um passo, o instinto materno aguçado pela insegurança. — E a Valentina está brava. Ela sabe que você está dando atenção para nós. Eu sinto que estou invadindo, Emanuel. Talvez fosse melhor eu voltar para a casa dos meus pais.

Emanuel sentiu a irritação borbulhar, não com Eduarda, mas com a situação. Ele era um homem de controle, e ali, entre duas bebês e uma mulher à beira de um colapso nervoso, ele sentia as rédeas escaparem.

— Você não vai a lugar nenhum — sentenciou ele. — Sara!

O grito ecoou pela casa. Segundos depois, Sara apareceu no final do corredor, saindo de seu closet cinematográfico. Ela usava um robe de seda pink com plumas nos punhos e saltos agulha, mesmo dentro de casa. O contraste entre a exuberância vulgar de Sara e a fragilidade melancólica de Eduarda era quase cômico.

— Que gritaria é essa? Parece que o estúdio de tatuagem mudou para o meu corredor — Sara disse, caminhando com sua confiança inabalável. Ela viu a cena: Emanuel equilibrando Valentina furiosa e Eduarda tremendo com Amélie. — Ah, pelo amor de Deus. Dá essa pimenta aqui para mim.

Sem esperar resposta, Sara pegou Valentina do colo de Emanuel. A bebê, surpresa com a manobra brusca e o cheiro forte do perfume da mãe, calou-se por um instante, olhando para os cílios postiços de Sara com fascinação.

— Pronto, Manu. Leva a bailarina para o quarto e faz ela deitar. Eu cuido da Tina e mando a governanta subir com um caldo para a Eduarda. E você, Amélie — Sara estendeu o dedo com uma unha de gel impecável e tocou a ponta do nariz da bebê no colo de Eduarda —, trate de colaborar. Mamãe Sara não tem paciência para drama, ouviu?

Eduarda soltou um riso nervoso, uma mistura de alívio e espanto.

— Obrigada, Sara. Eu realmente... eu não sei o que faria.

— Você faria uma bagunça, querida — Sara piscou, virando as costas e descendo as escadas com Valentina, que já começava a puxar os brincos de argola da mãe. — Agora vai! O Emanuel está com aquela cara de quem vai ter um infarto se não cuidar de você.

Emanuel guiou Eduarda até o quarto de hóspedes, que agora estava repleto de aparelhos médicos de última geração que ele fizera questão de comprar. Ele ajudou a jovem a se sentar na cama e, com uma paciência que surpreenderia qualquer um de seus funcionários, retirou Amélie dos braços dela. A bebê resmungou, buscando o calor da mãe, mas Emanuel a acomodou contra seu peito largo. O contraste era brutal: a mão dele, coberta por tatuagens de caveiras e padrões geométricos, cobria quase todas as costas da menina.

— Ela é tão pequena — Emanuel murmurou, observando o peito de Amélie subir e descer de forma irregular.

— Emanuel... — Eduarda começou, sentando-se na beira da cama, os dedos entrelaçados com força. — Por que você está fazendo isso?

Ele desviou o olhar da bebê para a mulher.

— Porque eu quero. Já te disse isso.

— Mas é mais do que querer — ela insistiu, a voz ganhando uma nota de desespero. — Você está colocando a gente dentro da sua vida, da sua casa. A Amélie... ela não é sua filha. E ela é doente. O pai dela fugiu porque não queria o "fardo". Eu tenho medo de que, quando a poeira baixar, você perceba que isso é demais para você. E se a Amélie se apegar a você? E se eu me entregar totalmente e depois você decidir que a Sara é o suficiente?

Emanuel colocou Amélie cuidadosamente no berço ao lado da cama, garantindo que ela estivesse na posição recomendada pelos médicos. Ele se virou para Eduarda e caminhou até ela, ajoelhando-se entre suas pernas.

— Olhe para mim, Eduarda.

Ela obedeceu, as lágrimas finalmente transbordando.

— Eu não sou o covarde que te deixou — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Eu construí um império do nada. Eu lido com dor, com sangue e com negócios brutos todos os dias. Você acha que um bebê com um problema de saúde vai me assustar? Ou que a sua timidez vai me cansar?

— Eu sou complicada, Emanuel. Eu sou manhosa, eu preciso de atenção, eu não sou decidida como a Sara...

— Exatamente — ele a interrompeu, segurando suas mãos. — A Sara é o meu fogo. Ela me desafia, ela me incendeia. Mas você... você é o meu pouso. Quando eu olho para você, eu sinto que o mundo lá fora pode parar de girar. Eu não quero que você seja como ela. Eu quero você exatamente assim, sensível e doce.

— E a Valentina? Ela odeia a gente aqui — Eduarda soluçou. — Ela sente que eu estou tirando o pai dela.

— Valentina é uma criança de oito meses, Eduarda. Ela vai aprender a dividir. E ela vai ter uma irmã. Eu decidi que Amélie é minha também. O sangue não importa. O que importa é que ela é sua, e você é minha.

Eduarda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A possessividade de Emanuel era assustadora, mas, para alguém que fora abandonada no momento mais vulnerável da vida, era também o porto seguro mais desejado do mundo.

— Eu tenho medo de falhar com você — ela sussurrou, inclinando-se para frente até que sua testa tocasse a dele.

— Você não vai falhar. Apenas deixe que eu cuide da parte pesada. Continue sendo a professora de ballet, continue estudando sua arte. Deixe que eu e a Sara cuidemos do resto.

Naquele momento, a porta se abriu levemente. Sara entrou, desta vez sem os saltos, carregando uma bandeja com sopa e suco. Ela observou a cena — Emanuel ajoelhado diante de uma Eduarda fragilizada — e não sentiu um pingo de ciúme. Para Sara, o amor era uma conta de soma, não de subtração.

— Chega de melodrama — Sara anunciou, colocando a bandeja na mesa de cabeceira. — Emanuel, saia daí. Deixe a menina comer. E Eduarda, se você chorar mais uma gota dentro dessa sopa, eu vou te obrigar a usar um dos meus vestidos de paetês no próximo jantar de negócios.

Eduarda soltou uma risada entre as lágrimas, limpando o rosto com as costas das mãos.

— Você é terrível, Sara.

— Eu sou prática, meu bem — Sara sentou-se na beira da cama, do outro lado de Eduarda. — Ouça, eu já liguei para o meu personal stylist. Ele vai trazer algumas opções de roupas mais... "vivas" para você. Esse bege todo dia está me dando depressão. E não aceite um não como resposta. Se você vai morar aqui, vai brilhar um pouco também.

— Sara, eu não sei se... — Eduarda começou a protestar, mas foi silenciada pelo olhar de Emanuel.

— Deixe ela fazer isso, Duda. É o jeito dela de dizer que você pertence a este lugar.

Eduarda olhou de um para o outro. Emanuel, o homem forte e protetor, e Sara, a mulher vibrante e sem filtros. Ela se sentia como uma pequena nota musical em meio a uma orquestra poderosa, mas, pela primeira vez em meses, o peso em seu peito — aquele medo constante de que o mundo desabasse sobre sua cabeça e a de Amélie — parecia um pouco mais leve.

— Eu vou tentar — prometeu Eduarda, pegando a colher com a mão trêmula.

— Ótimo — disse Sara, levantando-se. — Agora, Manu, venha comigo. A Valentina jogou o purê de abóbora no meu tapete persa e você vai me ajudar a decidir se eu demito a babá ou se eu apenas dou um banho de mangueira na sua filha.

Emanuel revirou os olhos, mas havia um brilho de satisfação neles. Ele deu um último beijo na testa de Eduarda antes de sair.

— Coma tudo. Eu volto mais tarde para ver como a Amélie está.

Quando o quarto ficou em silêncio novamente, apenas com o som suave da respiração de Amélie no berço, Eduarda olhou para a sopa e depois para a porta. A insegurança ainda estava lá, um sussurro persistente em sua mente dizendo que aquilo era bom demais para ser verdade. Mas, ao olhar para a pulseira de diamantes que Sara havia "esquecido" propositalmente sobre a mesa de cabeceira — um presente silencioso de boas-vindas —, Eduarda permitiu-se fechar os olhos e respirar.

Ela não sabia o que o futuro reservava para o coração de Amélie, nem como aquela tríade amorosa funcionaria a longo prazo. No entanto, pela primeira vez, ela não estava sozinha na escuridão. Ela tinha o fogo de Sara para iluminar o caminho e a força de Emanuel para carregar o fardo quando suas pernas de bailarina estivessem cansadas demais para dançar.