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O Labirinto de Vidro e as Batidas Silenciosas

O quarto de Eduarda na mansão de Emanuel era um santuário de tons pastéis e tecidos macios, mas para ela, parecia uma cela de vidro. A mudança fora rápida e impositiva. Emanuel não pediu; ele ordenou, e seus pais, confiando na solidez e na riqueza do primo, aceitaram a decisão como um gesto de proteção extrema.

Eduarda estava sentada na beira da cama, observando o movimento suave de Amélie em seu ventre. A gravidez de cinco meses, que antes era um segredo guardado sob sete chaves, agora era o centro das atenções de uma casa que pulsava em tensão. Sara, em contrapartida, vivia o ápice de sua gestação com Valentina. Emanuel a tratava como uma rainha absoluta. Ele trazia presentes caros, joias que brilhavam tanto quanto o sorriso irônico da loira, e fazia questão de massagear os pés dela todas as noites, enquanto discutiam os lucros da loja de roupas de Sara.

Para Sara, o amor de Emanuel era um troféu exibido com orgulho. Ela não se importava com a presença de Eduarda; na verdade, gostava da dinâmica. Sentia-se a matriarca de um império particular, onde Emanuel era o rei e Eduarda, a protegida delicada que servia para satisfazer o lado mais protetor e obsessivo do marido.

Mas a paz frágil foi estilhaçada naquela tarde de terça-feira.

Emanuel havia exigido que todos os exames de Eduarda fossem refeitos pelos melhores especialistas de sua confiança. Ele não confiava na clínica onde ela vinha se consultando escondida. Quando o envelope de couro com os resultados chegou ao seu escritório, o silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante do que qualquer grito.

Eduarda estava na sala de estar, tentando ler um livro sobre Renascimento Italiano, quando ouviu o som de algo quebrando no andar de cima. Um estrondo de vidro sendo arremessado contra a parede. Logo depois, os passos pesados de Emanuel ecoaram na escadaria de mármore.

Ele não desceu; ele desabou sobre o ambiente como um deus irado. O rosto de Emanuel estava vermelho, as veias do pescoço saltadas, e os olhos, antes apenas cansados, agora brilhavam com uma fúria cega.

— VOCÊ SABIA? — O grito dele fez Eduarda saltar do sofá, deixando o livro cair.

— Emanuel, o que... o que aconteceu? — A voz dela falhou, os olhos grandes e úmidos já se enchendo de pavor.

Emanuel atravessou a sala em três passos largos. Ele segurou o braço de Eduarda com uma força que a fez soltar um gemido de dor. Ele não estava medindo a própria força.

— Você sabia que ela está doente? — Ele rosnou, o rosto a centímetros do dela. — Você escondeu a gravidez por cinco meses, me privou de ser pai, e agora eu descubro que a Amélie tem uma cardiopatia congênita? Que a minha filha tem um defeito no coração que pode precisar de cirurgia assim que nascer?

Eduarda sentiu o mundo girar. O sangue fugiu de seu rosto, deixando-a pálida como o linho de suas vestes.

— Doença? — sussurrou ela, as pernas cedendo. — Não... o médico disse que estava tudo bem... eu... eu não sabia, Emanuel! Eu juro!

— MENTIRA! — Ele a sacudiu levemente, a irritação transbordando em um comportamento que beirava a violência. — Você escondeu a existência dela porque é uma criança, Eduarda! Uma menina mimada que teve medo das consequências! E enquanto você brincava de se esconder, a minha filha estava crescendo com o coração falhando e ninguém estava fazendo nada!

Sara apareceu no topo da escada, segurando o corrimão, a expressão de deboche habitual substituída por uma seriedade tensa. Ela conhecia Emanuel; sabia que, quando ele perdia o controle lógico, tornava-se perigoso.

— Emanuel, solta ela! — Sara gritou. — Você vai machucar o bebê!

— Ela já machucou o bebê! — Emanuel virou-se para Sara, mas não soltou Eduarda. — Ela negligenciou a saúde da Amélie por puro egoísmo! Se eu não tivesse forçado esses exames, quando saberíamos? No parto? Quando ela morresse nos meus braços?

Eduarda começou a hiperventilar. O choro era convulsivo, um som abafado de agonia.

— Eu não sabia... eu juro por Deus, Emanuel... eu nunca faria nada para prejudicar ela... — Ela tentou se apoiar nele, mas ele a empurrou para o sofá com um gesto brusco.

— Não toque em mim — ele disse, a voz agora num tom baixo e vibrante de ódio. — Você é irresponsável. Você é instável. Eu te dei tudo, eu te dei o meu afeto, eu te dei a minha proteção mesmo quando você não merecia, e você me paga colocando a vida da minha filha em risco?

Emanuel chutou a mesa de centro, fazendo os objetos de decoração voarem. Ele parecia um animal enjaulado. A raiva por ter perdido o controle da situação, por não ter podido intervir antes na saúde da filha, estava transformando-o em alguém que Eduarda não reconhecia.

Nesse momento, a porta da frente se abriu. O irmão mais novo de Emanuel, Gabriel, entrou na casa com o capacete da moto na mão. Ele parou imediatamente ao ver a cena: Eduarda encolhida no sofá soluçando, Sara tensa na escada e Emanuel prestes a destruir o que restava da sala.

— Mas que porra é essa? — Gabriel largou o capacete e correu para o meio da sala.

Emanuel avançou novamente em direção a Eduarda, a mão levantada em um gesto de frustração extrema, talvez para segurá-la novamente, talvez para extravasar a fúria. Gabriel foi mais rápido e se colocou entre os dois, empurrando o peito do irmão.

— Calma, Emanuel! Recua! — Gabriel gritou, mantendo a guarda alta. — Você enlouqueceu? Ela está grávida, cara! Olha o estado dela!

— Ela escondeu que a Amélie é cardiopata, Gabriel! — Emanuel tentou passar pelo irmão, os olhos fixos em Eduarda como se quisesse extrair dela cada segundo de silêncio dos últimos meses. — Ela quase matou a minha filha com essa negligência!

— E bater nela ou assustá-la até ela ter um colapso vai resolver o quê? — Gabriel rosnou, empurrando Emanuel com mais força para trás. — Sai daqui agora. Vai respirar. Se você encostar nela nesse estado, eu não vou me importar se você é meu irmão ou meu chefe. Sai!

Emanuel respirava de forma ruidosa, o peito subindo e descendo. Ele olhou para Eduarda, que estava encolhida em posição fetal, escondendo o rosto entre as mãos. O silêncio na sala era cortante, apenas interrompido pelos soluços dela.

— Eu não vou esquecer isso — disse Emanuel, a voz gélida, apontando o dedo para Eduarda. — Você queria ser a única dona dessa história? Pois agora você não é dona de nada. A partir de hoje, você não dá um passo fora desta casa sem um segurança e um enfermeiro. Você vai seguir cada milímetro do protocolo médico que eu decidir. E se algo acontecer com a Amélie... se ela sofrer por causa do seu atraso em me contar... eu nunca, nunca vou te perdoar.

Ele se virou e saiu pela porta da frente, batendo-a com tanta força que os vidros laterais vibraram. O som do motor de seu carro esportivo rugiu segundos depois, afastando-se em alta velocidade.

Gabriel suspirou, passando a mão pelo cabelo, e virou-se para Eduarda.

— Ei, pequena... calma. Respira.

Sara desceu o restante dos degraus, caminhando com a dificuldade que os cinco meses de Valentina impunham, mas mantendo a postura. Ela se aproximou do sofá e sentou-se ao lado de Eduarda. Para a surpresa de Gabriel, Sara não foi irônica. Ela puxou a cabeça de Eduarda para o seu ombro, permitindo que a menina chorasse em seu colo.

— Ele é um idiota quando perde o controle, Eduarda — disse Sara, a voz firme, mas sem a agressividade de antes. — Ele está com medo. O Emanuel não sabe lidar com o medo, então ele transforma tudo em raiva. É o jeito dele de não desmoronar.

— Eu não sabia da doença, Sara... eu juro... — Eduarda soluçava contra o tecido caro do vestido da loira.

— Eu sei que não sabia. Você mal sabe cuidar de si mesma, quanto mais esconder um diagnóstico médico desses — Sara comentou, voltando a um pouco de sua acidez natural, mas mantendo o carinho no toque. — Mas ele tem razão em uma coisa: agora o jogo mudou. Não é mais sobre você ou sobre o que você sentiu naquela noite. É sobre a Amélie.

Gabriel observava as duas, ainda em alerta.

— Eu vou atrás dele — disse Gabriel. — Vou garantir que ele não sofra um acidente ou quebre a cara de alguém na rua. Sara, cuida dela. Chama o médico da família para dar um calmante natural, ela está tremendo demais.

Sara assentiu, enquanto Gabriel saía apressado.

A sala mergulhou em uma penumbra conforme o sol se punha. Sara continuou ali, acariciando os cabelos castanhos de Eduarda, enquanto a loira pensava na ironia da situação. Ela, a mulher vulgar e siliconada que todos julgavam, era agora o único pilar de sanidade naquela casa.

— Escute bem, Eduarda — Sara disse baixinho, inclinando-se para o ouvido da menina. — O Emanuel ama você. Do jeito possessivo e doentio dele, mas ama. Ele está furioso porque você tirou dele o poder de proteger o que é dele. Ele te quer submissa, ele te quer por perto, e agora ele tem o motivo perfeito para te trancar aqui.

Eduarda levantou o rosto banhado em lágrimas, os olhos expressivos carregados de uma dor profunda.

— Ele me odeia agora... ele disse que não vai perdoar...

— Ele vai perdoar — Sara deu um sorriso de canto, um brilho de inteligência social em seus olhos. — Mas ele vai cobrar o preço. E o preço, querida, é a sua liberdade total. Você vai ser a boneca dele, a mãe da Amélie sob as ordens dele. Se você quer que ele volte a te olhar com doçura, você vai ter que aceitar as correntes. Você está disposta a isso?

Eduarda olhou para a própria barriga. Amélie, sua pequena Amélie, tinha um coração frágil. Emanuel era a força, o dinheiro, o poder que poderia salvá-la. Se para salvar sua filha e recuperar o homem que ela amava em segredo desde a infância ela precisasse se anular, ela o faria.

— Eu faço qualquer coisa — sussurrou Eduarda.

— Ótimo — Sara levantou-se, alisando o vestido sobre sua barriga proeminente. — Agora limpe esse rosto. Vou pedir para prepararem um chá e você vai para o banho. Amanhã começa a rotina de exames. E não se preocupe com o Emanuel... eu sei como amansar a fera quando ele voltar. Ele gosta de ser o salvador, e agora ele tem uma filha doente para salvar. Ele vai voltar para você, nem que seja para exercer o controle que ele tanto ama.

Eduarda ficou sozinha na sala por alguns instantes. O silêncio da mansão era opressor. Ela tocou o ventre, sentindo uma batida fraca, ou talvez fosse apenas sua imaginação. O medo da doença de Amélie era uma agonia nova, mas a fúria de Emanuel era uma cicatriz que já começava a arder.

Horas mais tarde, Emanuel retornou. O cheiro de álcool era leve, mas o de tinta fresca era forte; ele havia passado o tempo tatuando, descontando sua frustração na pele de algum cliente ou em si mesmo. Ele entrou no quarto de Eduarda sem bater.

Ela estava deitada, envolta em um robe de seda clara, os olhos inchados. Emanuel não disse uma palavra. Ele caminhou até a cama e sentou-se na borda. A luz do abajur revelava a rigidez de seu maxilar.

Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava violentamente com a brutalidade da tarde, tocou a barriga de Eduarda.

— Amanhã, às oito da manhã — ele disse, a voz rouca e sem emoção. — O cardiologista pediátrico estará aqui. Você não vai sair da cama até ele chegar.

— Emanuel... — ela tentou falar, buscando a mão dele.

Ele retirou a mão do ventre dela antes que ela pudesse tocá-lo.

— Não tente se aproximar emocionalmente agora, Eduarda. Você quebrou algo que não se conserta com desculpas. Eu vou cuidar da Amélie porque ela é meu sangue. E vou cuidar de você porque você é minha... quer queira, quer não. Mas não espere que eu esqueça que você me traiu no momento em que eu mais deveria estar presente.

Ele se levantou e caminhou até a porta. Antes de sair, ele parou e olhou para trás, a silhueta imponente contra a luz do corredor.

— Durma. Você vai precisar de forças para o que vem pela frente.

A porta se fechou com um clique seco. Eduarda abraçou o travesseiro, sentindo o perfume dele que ainda pairava no ar. Ela estava no centro de um furacão, protegida pelas paredes de uma mansão de luxo, mas à mercê da vontade de um homem que a amava tanto quanto desejava dominá-la. E, no meio de tudo, Sara observava, movendo as peças de um jogo onde a felicidade de Emanuel era o prêmio final, não importando quantas vidas precisassem ser entrelaçadas ou quantas vontades precisassem ser quebradas.

A jornada de Amélie e Valentina estava apenas começando, e o coração da pequena Amélie não era o único que corria perigo naquela casa de segredos e paixões absolutas.