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O Equilíbrio das Sombras e a Fragilidade do Vidro
A manhã na mansão de Emanuel não trazia a promessa de um novo começo, mas sim a reiteração de um domínio absoluto. O sol que atravessava as grandes vidraças da sala de jantar parecia frio, apesar do brilho. Emanuel estava sentado à cabeceira, o tablet aberto em planilhas de seus estúdios de Londres, mas seus olhos não processavam os números. Ele estava atento a cada ruído que vinha do andar de cima.
Sara desceu primeiro. Ela usava um conjunto de seda pink, justo o suficiente para exibir a barriga de Valentina com orgulho, e saltos que, embora menores que os habituais, ainda eram audaciosos para uma grávida de cinco meses. Ela se aproximou de Emanuel e depositou um beijo possessivo em seu pescoço, deixando a marca de um batom vibrante.
— Bom dia, meu rei — disse ela, sentando-se ao lado dele. — Você quase não dormiu. Se continuar assim, vai acabar descontando o cansaço na pele de algum cliente importante.
— Tenho muita coisa na cabeça, Sara — respondeu Emanuel, fechando o tablet e segurando a mão dela. — Como está a Valentina hoje?
— Chutando como se quisesse sair e ir direto para o shopping — ela riu, pegando uma torrada. — Ela é forte, Emanuel. Uma legítima herdeira sua.
Emanuel esboçou um sorriso raro, mas logo sua expressão voltou à rigidez habitual quando viu Eduarda aparecer no topo da escada. A bailarina parecia uma sombra de si mesma. O vestido de algodão branco, largo e leve, enfatizava sua palidez. Ela descia os degraus segurando o corrimão com as duas mãos, a insegurança transbordando em cada passo.
— Sente-se, Eduarda — ordenou Emanuel, sem se levantar. — O Dr. Arantes já está a caminho. E espero que você tenha seguido a dieta que deixei com a governanta.
— Sim, Emanuel — sussurrou ela, ocupando o lugar mais afastado da mesa. Ela olhou para Sara, buscando algum conforto, e a loira piscou para ela, um gesto silencioso de "eu cuido disso".
Antes que o café da manhã terminasse, um dos seguranças anunciou a chegada do médico. O Dr. Arantes era o melhor cardiologista pediátrico do país, um homem de cabelos grisalhos e olhar clínico que Emanuel pagava o triplo para ter exclusividade.
A consulta foi realizada no consultório particular que Emanuel mandara montar dentro da mansão. Sara fez questão de estar presente, sentada em uma poltrona de veludo, observando tudo com sua curiosidade afiada. Eduarda estava deitada na maca, o gel frio sobre a barriga fazendo-a estremecer.
O silêncio na sala era pontuado apenas pelo som rítmico e acelerado do coração de Amélie através do doppler. Era um som que trazia lágrimas aos olhos de Eduarda e uma tensão quase insuportável aos ombros de Emanuel.
— O septo ainda apresenta a abertura que vimos nos exames anteriores — explicou o Dr. Arantes, movendo o transdutor com precisão. — Mas a boa notícia é que a Amélie é uma guerreira. O desenvolvimento físico dela está perfeito. Peso, tamanho, formação dos órgãos... ela está crescendo bem, apesar da cardiopatia. O fluxo sanguíneo está compensado por enquanto.
Emanuel soltou um suspiro audível, fechando os olhos por um segundo.
— E depois do nascimento? — perguntou ele, a voz firme.
— Monitoramento constante. Se ela continuar ganhando peso assim, a cirurgia corretiva terá um prognóstico excelente. Ela tem chances reais de uma vida normal, Emanuel.
Eduarda sorriu pela primeira vez em dias, uma luz suave iluminando seu rosto doce. Mas o médico não havia terminado. Ele desligou o aparelho, limpou o gel da barriga de Eduarda e pediu que ela se sentasse. Seu olhar, antes focado no monitor, agora pousava sobre a jovem bailarina com uma nota de profunda preocupação.
— No entanto — continuou o médico, baixando o tom de voz —, precisamos falar sobre a mãe.
Emanuel franziu o cenho, dando um passo à frente.
— O que tem a Eduarda? Ela é jovem, saudável, sempre foi bailarina...
— Exatamente por ser bailarina, Emanuel — o médico interrompeu. — Eduarda tem uma estrutura física extremamente esguia, uma bacia muito estreita e, o que é mais preocupante, detectamos uma fragilidade vascular e uma arritmia materna que parece ter sido desencadeada pelo estresse e pela própria gestação.
Eduarda sentiu o coração falhar uma batida. Emanuel endureceu a postura.
— O que você está dizendo, Arantes? Seja direto.
— O corpo da Eduarda está chegando ao limite para sustentar essa gravidez. O esforço que o coração dela está fazendo para bombear sangue para ela e para uma bebê com cardiopatia é imenso. Se não formos extremamente cautelosos, as chances de uma pré-eclâmpsia grave ou de uma hemorragia incontrolável no parto são... preocupantes.
— Números, Arantes. Eu quero números — exigiu Emanuel, a voz vibrando de uma raiva contida.
O médico hesitou, olhando para Eduarda, que parecia prestes a desmaiar.
— As chances de Eduarda não resistir ao parto, se não houver uma intervenção perfeita e um repouso absoluto, são altas. Diria que estamos em uma zona de risco de quarenta por cento.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Eduarda sentiu como se o chão tivesse desaparecido. Ela olhou para as próprias mãos, pequenas e trêmulas. Quarenta por cento de chance de morrer para dar a vida à Amélie.
Emanuel deu um soco na parede lateral, não com força suficiente para quebrar o gesso, mas o bastante para fazer Sara saltar da poltrona.
— ISSO NÃO VAI ACONTECER! — rugiu ele. — Você vai fazer o que for preciso. Contrate quem precisar. Eu quero as duas vivas!
— Emanuel, acalme-se — Sara interveio, levantando-se e caminhando até ele. Ela colocou a mão no peito do marido, sentindo a batida descompassada. — O médico disse que com repouso e cuidado...
— Ela escondeu isso de mim! — Emanuel virou sua fúria para Eduarda, que agora chorava silenciosamente. — Se você tivesse me contado no primeiro mês, teríamos preparado seu corpo! Você entende agora o que o seu silêncio causou? Você não colocou apenas a Amélie em risco, você se colocou em uma sentença de morte!
— Eu não sabia... — soluçou Eduarda, cobrindo o rosto. — Eu só queria que ela ficasse bem...
— Saia daqui, Arantes — ordenou Emanuel, sem desviar os olhos de Eduarda. — Deixe as prescrições com a Sara.
Assim que o médico saiu, Emanuel caminhou até a maca. Ele não a abraçou. Ele segurou os ombros dela com uma possessividade terrível, obrigando-a a olhar para ele.
— Você não vai morrer, Eduarda. Eu não permito. Você me ouviu? Você vai ficar trancada neste quarto, vai comer o que eu mandar, vai tomar cada vitamina. Se você ousar se esforçar, se você ousar dançar um passo que seja, eu juro que...
Ele não terminou a frase. A dor e o medo de perdê-la eram tão grandes quanto a raiva. Ele a beijou com uma força desesperada, um beijo que não tinha nada de carinho, mas tudo de reivindicação. Era como se ele tentasse transferir sua própria força vital para ela através do toque.
Sara observava a cena da porta. Ela não sentia ciúmes; sentia uma fria determinação. Ela precisava manter aquela estrutura de pé.
— Emanuel — chamou Sara, a voz suave, mas autoritária. — Deixe-a descansar. Você está assustando a menina e isso só piora o coração dela. Venha comigo. Tenho algo para te mostrar na sala.
Emanuel soltou Eduarda bruscamente.
— Repouso absoluto. Se eu souber que você levantou dessa cama para qualquer coisa que não seja o banheiro, haverá consequências.
Ele saiu do quarto seguido por Sara. No corredor, Sara o conduziu até a suíte principal. Sobre a cama king-size, havia várias sacolas de marcas de luxo internacionais.
— O que é isso, Sara? Não estou com cabeça para compras.
— É para você se lembrar de quem nós somos — disse ela, abrindo uma das caixas e revelando um relógio de edição limitada, cravejado de diamantes negros, e uma pulseira de ouro maciço que combinava com a que ela usava. — Eu comprei para você. E recebi as joias que você encomendou para mim.
Ela pegou um colar de diamantes e esmeraldas que Emanuel havia mandado fazer para celebrar os cinco meses de Valentina. O brilho das pedras era quase vulgar de tão intenso, combinando perfeitamente com a personalidade de Sara.
— Você é o homem mais poderoso que eu conheço, Emanuel — disse Sara, aproximando-se e colocando o relógio no pulso dele. — Você tem o controle de tudo. A Eduarda é frágil, sim, mas ela tem você. E você tem a mim. Não deixe o medo te transformar em um monstro que ela vai passar a temer em vez de amar.
Emanuel olhou para o relógio caro, depois para a mulher loira e exuberante à sua frente. Sara era sua âncora na realidade bruta, na ambição, no prazer carnal e direto. Eduarda era seu refúgio de pureza, a delicadeza que ele sentia necessidade de esmagar e proteger simultaneamente.
— Ela pode morrer, Sara — sussurrou ele, a voz finalmente quebrada.
— Ela não vai — afirmou Sara, com uma confiança inabalável. — Porque se ela morrer, você morre junto, e eu não vou permitir que nada destrua o meu império. Nós vamos cuidar dela. Eu vou cuidar dela. Vou garantir que ela coma, que ela durma e que ela se sinta amada. E você... você vai dar a ela o que ela precisa: segurança.
Emanuel puxou Sara para um abraço apertado, enterrando o rosto em seus cabelos loiros que cheiravam a perfume caro e fixador.
— O que eu faria sem você?
— Você seria apenas um tatuador rico e mal-humorado — brincou ela, embora o brilho em seus olhos fosse sério. — Agora, coloque o seu colar em mim e vamos descer. Quero que você ligue para o seu melhor arquiteto. Se a Eduarda vai ficar em repouso, o quarto dela precisa ser transformado em um palácio. Quero que ela tenha tudo o que a História da Arte pode oferecer sem precisar levantar um dedo.
Enquanto isso, no quarto de hóspedes, Eduarda permanecia encolhida na cama. O diagnóstico do médico ecoava em sua mente como um sino fúnebre. Quarenta por cento. Ela tocou a barriga, sentindo Amélie se mexer.
— Você vai ficar bem, pequena — sussurrou Eduarda para o silêncio do quarto. — Se um de nós tiver que lutar para ficar, que seja você. O seu pai... ele tem a Sara. Ele tem a Valentina. Eles são fortes. Eu sou apenas... eu.
A porta se abriu levemente e Gabriel, o irmão de Emanuel, entrou com um copo de suco natural e um livro de poesias.
— Ei, bailarina — disse ele, com um sorriso triste. — Ouvi a confusão. O Emanuel é um trator, mas ele está apavorado.
— Gabriel... o médico disse que eu posso não resistir — Eduarda confessou, as lágrimas voltando a cair.
Gabriel sentou-se na beira da cama e segurou a mão dela. Diferente de Emanuel, o toque de Gabriel era leve, sem a pressão da posse.
— O Emanuel não aceita perder, Eduarda. Ele vai mover o céu e a terra. Ele já está comprando metade do hospital e contratando enfermeiras particulares. Você é a joia dele, mesmo que ele a trate como se fosse um objeto de estudo às vezes.
— Eu não quero ser uma joia trancada em um cofre, Gabriel. Eu quero viver para ver a Amélie dançar.
— E você vai — prometeu ele, embora seus olhos mostrassem que ele também temia a fúria do destino.
Lá embaixo, Emanuel já estava ao telefone, dando ordens, comprando equipamentos médicos, transformando sua mansão em uma fortaleza hospitalar de luxo. Ele alternava entre o carinho ostensivo para com Sara, presenteando-a com mais joias e mimos vulgares que ela adorava, e a vigilância tirânica sobre Eduarda.
Ele queria as duas. Ele precisava das duas. Sara era o seu sol, ardente e visível. Eduarda era sua lua, pálida e necessária para as suas marés emocionais. E ele não permitiria que a morte, o destino ou a fragilidade humana lhe roubassem qualquer parte do que ele considerava seu por direito.
A noite caiu sobre a mansão, e enquanto Sara dormia o sono tranquilo dos justos, adornada com suas novas esmeraldas, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ele se sentou na poltrona ao lado da cama e ficou observando-a dormir.
Ele tirou o novo relógio de diamantes negros e o colocou sobre a mesa de cabeceira dela. Um lembrete de que o tempo agora era o seu maior inimigo, e que ele estava disposto a comprar cada segundo da vida daquela mulher, não importava o preço em ouro ou em sangue.
— Você não vai a lugar nenhum — murmurou ele na escuridão, sua mão tatuada roçando a testa da bailarina. — Eu ainda não terminei com você, Eduarda. E eu nunca perco o que é meu.
O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo bip discreto de um monitor cardíaco que Emanuel já havia mandado instalar, monitorando a vida que ele amava e que, pela primeira vez, ele não tinha certeza absoluta se conseguiria controlar.