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O Labirinto de Vidro e o Resgate da Alma
O choro de Valentina era agudo, potente e preenchia cada fresta da ala VIP do hospital. Ela havia chegado ao mundo três semanas antes do previsto, em uma cesariana de emergência que quase custou a sanidade de Emanuel. Sara, mesmo pálida e exausta, exibia um sorriso triunfante de quem havia vencido uma guerra. Ela era mãe. Valentina era perfeita, loira como a mãe e com os traços marcantes do pai.
Mas, enquanto uma vida florescia, a outra parecia murchar no quarto ao lado.
Eduarda assistia a tudo através da porta entreaberta, o coração disparado e a respiração curta. O nascimento de Valentina, em vez de trazer paz, havia transformado Emanuel em um ditador absoluto. Ele não dormia há setenta e duas horas. O cheiro de café forte e o estresse emanavam dele como uma aura tóxica. Ele alternava entre beijar a testa de Sara e entrar no quarto de Eduarda para verificar os monitores, conferir se ela havia bebido a água mineral na temperatura exata e exigir que as enfermeiras repetissem os sinais vitais de Amélie a cada hora.
— Você está sufocando ela, Emanuel — disse Gabriel, entrando no quarto de Eduarda e encontrando o irmão debruçado sobre os gráficos médicos. — A Valentina nasceu, ela está bem. Agora deixe a Eduarda respirar.
— Ela não está bem! — Emanuel rugiu, a voz rouca e perigosa. — A Amélie tem uma cardiopatia, Gabriel! A Eduarda tem arritmia! Você acha que eu vou relaxar agora que o risco dobrou?
Eduarda encolheu-se na cama. Ela sentia-se um pássaro ferido em uma gaiola de platina. Seus pais, Helena e Roberto, e os pais de Emanuel, Antônio e Vera, assistiam à cena da antessala com uma mistura de horror e preocupação. Eles eram pessoas modernas, valorizavam a liberdade, e ver a filha e a sobrinha sendo tratadas como prisioneiras médicas era o limite.
— Já chega — decretou Antônio, o pai de Emanuel, entrando no quarto. Ele era um homem de presença tão imponente quanto o filho, mas com uma sabedoria que a juventude e a obsessão haviam roubado de Emanuel. — Emanuel, saia deste quarto. Agora.
— Pai, não se meta. Você não entende a gravidade...
— Eu entendo que você está perdendo o juízo — cortou Antônio. — Helena e Roberto vão levar a Eduarda para a fazenda da família. Agora mesmo.
Emanuel soltou uma risada seca, desprovida de humor.
— Eles não vão levar ninguém. Ela fica aqui, onde eu posso ver. Onde o Arantes pode intervir em segundos.
— Ela vai morrer se ficar aqui, Emanuel! — gritou Helena, a mãe de Eduarda, aproximando-se da cama e segurando a mão gelada da filha. — Olhe para ela! Ela está cinza! O ar deste hospital está matando a minha filha mais do que qualquer cardiopatia!
— Ela não sai! — Emanuel deu um passo à frente, sua postura tornando-se violenta. Ele parecia um animal protegendo uma presa que considerava sua propriedade. — Se alguém tentar tirar ela daqui, eu juro que...
— Você jura o quê, meu filho? — Antônio se colocou na frente dele, peito contra peito. — Vai agredir seu pai? Vai impedir os pais dela de cuidarem da própria filha? Você não é o dono do mundo, Emanuel. Você é um homem apavorado que está transformando o amor em um crime.
— Eu estou salvando a vida dela! — Emanuel gritou, e o som fez Valentina chorar no quarto vizinho.
Sara, da sua cama, gritou com a força que lhe restava:
— Emanuel, deixe ela ir! Você está me deixando louca com esse controle! Se você não deixar a Eduarda sair para ver o sol, eu juro que peço o divórcio assim que tirar esses pontos!
A ameaça de Sara foi o estopim. Emanuel avançou para a porta, tentando impedir que Roberto pegasse a cadeira de rodas para Eduarda. O descontrole foi imediato. Ele segurou o braço do tio com força excessiva.
— Solte ele! — Gabriel tentou intervir, mas Emanuel o empurrou contra a parede.
Foi Antônio quem agiu. Com uma força que surpreendeu a todos, ele agarrou o filho pelo colarinho e o empurrou para longe de Eduarda, prensando-o contra a parede oposta.
— Acorde, Emanuel! — Antônio gritou, sacudindo o filho. — Você está agindo como um monstro! Olhe para a Eduarda! Ela está com medo de você! É isso que você quer? Que a mãe da sua filha te olhe com o mesmo pavor que se olha para um carrasco?
Emanuel tentou se soltar, os olhos injetados, a respiração vindo em espasmos.
— Ela... ela é minha... a Amélie é minha...
— Elas não são objetos! — Antônio deu um tapa firme no rosto do filho. Não foi um gesto de ódio, mas um choque de realidade. — Respire. Olhe para mim. Você vai sentar naquela poltrona, vai dormir e vai deixar que os pais dela a levem para a fazenda por uma semana. É uma ordem, não um pedido.
Emanuel paralisou. O impacto do tapa e a autoridade na voz do pai pareceram drenar a energia maníaca de seu corpo. Ele deslizou pela parede até sentar-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos tatuadas. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda.
— Levem ela — sussurrou Emanuel, a voz quebrada, sem olhar para cima. — Levem antes que eu mude de ideia.
Roberto e Helena não perderam tempo. Com a ajuda de Gabriel, acomodaram Eduarda na cadeira de rodas. Ela olhou para trás uma última vez, vendo a figura poderosa de Emanuel reduzida a um homem desmoronado no chão do hospital. Ela queria correr até ele, queria dizer que o amava, mas o medo de ser sufocada novamente era maior.
— Vamos, querida — disse Helena suavemente. — O ar puro está te esperando.
A viagem para a fazenda durou duas horas. Conforme os prédios altos de concreto eram substituídos por pastos verdes e árvores centenárias, Eduarda sentia o peso em seu peito diminuir. A fazenda dos seus pais era um lugar de memórias doces, de infância e de paz.
Ao chegar, ela foi instalada no quarto que sempre fora seu, com as janelas abertas para o pomar. O cheiro de terra molhada e jasmim era o melhor remédio que ela poderia receber.
— Você está segura aqui, Duda — disse Roberto, beijando-lhe a testa. — O Emanuel não vai entrar por aquela porteira sem a nossa permissão. O seu pai garantiu isso.
Nos primeiros dois dias, Eduarda apenas dormiu. Era um sono profundo, de exaustão emocional. Quando acordava, Helena estava lá com caldos caseiros, frutas frescas e, acima de tudo, silêncio. Não havia bipes, não havia enfermeiras, não havia o olhar vigilante e obsessivo de Emanuel.
No terceiro dia, Eduarda sentiu Amélie se mexer com uma suavidade que a fez sorrir. Ela caminhou lentamente até a varanda, sentindo a grama sob os pés descalços pela primeira vez em meses. O sol da manhã aquecia sua pele pálida.
— Como ela está hoje? — perguntou Gabriel, que havia vindo para a fazenda para fugir do clima pesado que permanecia no hospital.
— Ela está calma, Gabriel. Acho que ela gosta do som dos pássaros.
— Todos nós gostamos — Gabriel suspirou, sentando-se no degrau da varanda. — O hospital está um caos. O Emanuel está morando lá. Ele não sai do lado da Sara e da Valentina, mas é como se ele fosse um fantasma. Ele não fala, não come direito. Ele está processando o que aconteceu.
— Ele me odeia por ter ido embora? — perguntou Eduarda, a insegurança de sempre nublando seus olhos castanhos.
— Não, Duda. Ele está com ódio de si mesmo. O meu pai deu uma surra verbal nele que eu nunca tinha visto. Ele percebeu que quase te matou de estresse. A Sara também não está facilitando. Ela disse que, se ele não aprender a ser um homem e não um carcereiro, ela vai criar a Valentina sozinha.
Eduarda sentiu uma pontada de tristeza. Ela amava Emanuel, amava a intensidade dele, mas a intensidade havia se tornado uma arma.
— Eu sinto falta dele — confessou ela em um sussurro. — Mas sinto falta do Emanuel que me olhava com proteção, não do Emanuel que me olhava como se eu fosse um vidro prestes a quebrar.
— Ele precisa desse tempo, e você também.
Enquanto isso, no hospital, Emanuel estava sentado ao lado do berço de Valentina. Sara estava dormindo, mas ele permanecia desperto, observando o peito da filha subir e descer. O tapa de seu pai ainda parecia arder em seu rosto, mas a dor real era a ausência de Eduarda.
Ele pegou o celular e abriu a galeria de fotos. Havia uma foto de Eduarda dançando na sala de ballet, meses atrás. Ela parecia tão leve, tão etérea. Ele olhou para suas próprias mãos, cobertas de tinta e cicatrizes, e sentiu uma repulsa profunda. Ele havia tentado segurar a luz com as mãos sujas e acabou obscurecendo tudo.
— Eu sou um idiota, não sou, Valentina? — sussurrou ele para a bebê. — Eu quase destruí a única coisa pura que eu tinha.
Antônio entrou no quarto, trazendo um café que Emanuel não queria.
— Ela está melhor — disse o pai, sem preâmbulos. — Helena me mandou uma mensagem. A arritmia da Eduarda estabilizou. Ela está comendo bem.
Emanuel fechou os olhos, um suspiro de alívio escapando de seus lábios.
— Eu posso ir ver ela?
— Não — disse Antônio, firme. — Você vai ficar aqui. Vai cuidar da Sara e da Valentina. Vai trabalhar nos seus projetos. Vai provar que pode ser um pai e um marido, não um dono. Quando a semana acabar, se ela quiser te ver, ela vai ligar.
— E se ela não quiser?
— Então você vai ter que aprender a conquistar ela de novo. Do jeito certo desta vez. Sem correntes, Emanuel.
Os dias na fazenda passaram como um bálsamo. Eduarda recuperou a cor nas bochechas. Ela passava as tardes lendo sob a sombra de uma mangueira, conversando com Amélie, contando para a bebê sobre as cores das flores e o som da chuva no telhado. Ela se sentia conectada à filha de uma forma que o hospital impedia. Não era mais uma "gestação de risco", era uma vida em formação.
No quinto dia, Sara ligou por vídeo.
— Olhe para essa bochecha rosa! — exclamou a loira, segurando Valentina no colo. — O campo te fez bem, garota. O Emanuel está aqui do lado, parecendo um cão sem dono, mas eu não deixo ele falar com você ainda. Ele precisa sofrer mais um pouco para aprender.
Eduarda riu, uma risada genuína que não saía de sua garganta há muito tempo.
— Como está a Valentina, Sara?
— Está uma belezura vulgar, igual à mãe — Sara brincou, ajeitando o laço na cabeça da bebê. — Ela sente falta da irmãzinha, sabe? Ela chuta sempre que eu chego perto do quarto onde você estava.
— Eu também sinto falta de vocês. De todos vocês.
— O Emanuel quer pedir desculpas, Duda. Mas eu disse a ele que desculpas não valem nada se ele não mudar o chip daquela cabeça de tatuador obsessivo. Ele está fazendo terapia, acredita? O pai dele obrigou.
Eduarda ficou surpresa. Emanuel, o homem que acreditava ter o controle de tudo, aceitando que precisava de ajuda profissional era um passo gigantesco.
No sétimo dia, a porteira da fazenda se abriu. Não era o carro esportivo barulhento de Emanuel, mas o sedã discreto de Antônio. Eduarda estava na varanda, usando um vestido de flores miúdas, os cabelos castanhos soltos ao vento.
Antônio desceu do carro, mas não estava sozinho. Emanuel saiu do banco do passageiro. Ele parecia ter perdido peso, e a barba estava por fazer, conferindo-lhe um ar vulnerável que Eduarda nunca vira. Ele parou a alguns metros da varanda, as mãos nos bolsos, sem coragem de avançar.
Antônio acenou para Eduarda e entrou na casa para falar com Helena e Roberto, deixando os dois sozinhos no jardim.
O silêncio era preenchido apenas pelo balançar das árvores. Emanuel olhava para Eduarda como se ela fosse uma miragem.
— Você está linda — disse ele, a voz falhando.
— Eu estou respirando, Emanuel — respondeu ela, suavemente.
Ele deu um passo à frente, hesitante.
— Eu... eu não vim para te levar de volta. Pelo menos, não se você não quiser. Eu vim apenas para pedir que você me perdoe. Eu fiquei cego, Eduarda. O medo de perder você e a Amélie me transformou em algo que eu odeio.
Eduarda desceu os degraus da varanda, caminhando lentamente até ele. Ela parou diante dele e, pela primeira vez, não se sentiu pequena. A paz da fazenda havia lhe dado uma força nova.
— Você me assustou, Emanuel. Você me fez sentir que a Amélie era um problema médico e não a minha filha.
— Eu sei — ele baixou a cabeça, as lágrimas brilhando em seus olhos. — Eu nunca mais vou fazer isso. Eu juro pela vida da Valentina e da Amélie. Eu estou buscando ajuda. Eu quero ser o homem que você merece, não o monstro que te trancou naquele quarto.
Eduarda estendeu a mão e tocou o rosto dele. A pele era áspera pela barba, mas o toque dele agora era trêmulo, carregado de uma humildade que a desarmou.
— Eu te amo, Emanuel. Mas eu amo a minha liberdade também. Eu preciso que você confie em mim. Eu preciso que você confie na Amélie.
— Eu vou tentar — prometeu ele, fechando os olhos sob o toque dela. — Todos os dias. Eu vou lutar contra esse meu instinto de querer controlar o mundo. Só não me deixa, Eduarda. Eu não sou nada sem essa sua luz.
Ela o abraçou, e desta vez, não havia correntes. Havia apenas o cheiro de campo e a promessa de um recomeço. Emanuel a segurou com uma delicadeza extrema, como se estivesse segurando uma pétala de rosa, temendo que qualquer pressão excessiva pudesse machucá-la.
— Fique aqui mais uma semana — disse Emanuel, afastando-se para olhar nos olhos dela. — O Arantes disse que, se você estiver bem, pode fazer o restante do pré-natal aqui, com visitas semanais dele. Eu vou vir te ver, mas só se você me convidar.
Eduarda sorriu, sentindo um alívio imenso.
— Eu te convido para o jantar hoje, Emanuel. Mas você tem que ajudar a minha mãe na cozinha. Nada de ordens, apenas obediência.
Ele riu, um som que pareceu limpar o ar ao redor deles.
— Eu serei o melhor ajudante que essa fazenda já viu.
Naquela noite, a mesa da fazenda estava cheia. Sara havia vindo com Valentina, Gabriel estava lá, e os pais de ambos celebravam a trégua. Emanuel sentou-se ao lado de Eduarda, mantendo a mão discretamente sobre a dela, mas sem apertar. Ele observava Sara e Eduarda conversando sobre as bebês, as duas mulheres tão diferentes, mas agora unidas por um laço que ele finalmente entendia que não precisava controlar para que fosse real.
O labirinto de vidro havia sido estilhaçado, e em seu lugar, as rosas de campo começavam a florescer. O caminho para o nascimento de Amélie ainda teria seus desafios, mas agora, eles seriam enfrentados com a força da liberdade, e não com o peso das correntes. Emanuel olhou para o céu estrelado e, pela primeira vez em muito tempo, ele não tentou contar as estrelas; ele apenas apreciou a luz.