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O Labirinto de Vidro e a Dança das Herdeiras

A mansão de Emanuel nunca fora tão barulhenta, e ao mesmo tempo, tão dividida. Um ano havia se passado desde o nascimento traumático de Amélie e a recuperação milagrosa de Eduarda. O tempo, no entanto, não apagara as marcas daquela noite; ele apenas as transformara em personalidades distintas que agora corriam pelos corredores de mármore e tapetes persas.

Valentina, a filha de Sara, já demonstrava ser a herdeira legítima da presença magnética e da arrogância da mãe. Aos doze meses, ela não engatinhava; ela marchava. Vestida com roupas de grife em miniatura, muitas vezes com brilhos e cores vibrantes que Sara escolhia a dedo em sua loja, Valentina olhava para o mundo como se fosse a dona dele. Se não recebesse o que queria no instante em que apontava o dedo gordinho, o grito era agudo e imperioso, ecoando pelos estúdios de tatuagem que Emanuel agora mantinha em uma ala isolada da casa.

Amélie, por outro lado, era o oposto absoluto. A pequena, que sobrevivera a uma cirurgia cardíaca complexa logo nos primeiros meses de vida, era a imagem da delicadeza. Com os olhos castanhos expressivos de Eduarda e uma pele alva que parecia brilhar, ela era silenciosa e observadora. Amélie não buscava o centro das atenções; ela buscava o refúgio. Quase sempre estava grudada na barra do vestido da mãe ou escondida entre os braços de Eduarda, observando o mundo com uma cautela que partia o coração de Emanuel.

Naquela tarde de sábado, a casa estava cheia. Emanuel havia organizado uma pequena comemoração para celebrar o sucesso de sua nova linha de estúdios na Ásia, mas a verdade era que ele queria apenas ver suas duas famílias reunidas.

— Valentina, desça desse sofá agora! — exclamou Sara, embora houvesse um tom de orgulho em sua voz. A menina estava em pé sobre o estofado de couro branco, balançando um colar de pérolas que havia puxado do pescoço da mãe.

— Não! Meu! — respondeu a bebê, com uma dicção surpreendente para a idade, batendo o pé e encarando Sara com um desafio que fazia os convidados rirem.

— Ela é a sua cara, Sara — comentou Gabriel, servindo-se de um drinque. — Tem o mesmo olhar de quem vai dominar o mundo ou incendiar tudo se for contrariada.

— E ela vai dominar — disse Emanuel, aproximando-se e pegando Valentina no colo, apesar dos protestos da menina que queria continuar sua performance. Ele a beijou na bochecha, mas seus olhos logo varreram a sala em busca da outra metade de seu coração.

Eduarda estava sentada em um canto mais reservado, perto da janela que dava para o jardim. Amélie estava em seu colo, com o rosto escondido no pescoço da mãe, as mãozinhas apertando o tecido leve do vestido de Eduarda.

— Ela ainda está assustada com o barulho? — perguntou Emanuel, aproximando-se e agachando-se ao lado da poltrona.

— Ela só precisa de um tempo, Emanuel — respondeu Eduarda, acariciando os cabelos finos da filha. — Você sabe que ela não gosta de multidões.

Emanuel estendeu a mão para tocar Amélie, mas a pequena se encolheu ainda mais contra Eduarda. Uma pontada de frustração e dor atingiu o peito de Emanuel. Ele amava Amélie com uma intensidade quase dolorosa, talvez por causa do medo que sentira de perdê-la, mas a menina parecia sentir a energia densa e possessiva do pai, preferindo sempre a suavidade de Eduarda.

— Ela precisa se acostumar, Duda — disse ele, a voz baixando para aquele tom de controle que ele ainda lutava para moderar. — Ela é uma de nós. Não pode viver escondida.

— Ela vai no tempo dela, Emanuel — interveio Sara, aproximando-se com Valentina ainda agitada em seus braços. — Nem todo mundo nasce querendo chutar a porta como a minha rainha aqui. Deixe a bonequinha de vidro em paz.

Emanuel suspirou, levantando-se. A dinâmica entre as duas mulheres havia se estabilizado em uma amizade pragmática e profunda. Sara era a força externa, a administradora da vida social e dos negócios, enquanto Eduarda era o centro emocional, o porto seguro para onde todos voltavam. Emanuel continuava querendo as duas, e de forma estranha e moderna, ele as tinha. Mas a diferença entre as filhas trazia à tona suas próprias inseguranças.

— Vamos para o jardim — sugeriu Emanuel. — O ar livre fará bem para elas.

No jardim, a diferença entre as irmãs ficou ainda mais evidente. Valentina foi colocada na grama e imediatamente correu em direção ao Golden Retriever da família, tentando montar no cachorro como se fosse um pônei, gritando de alegria.

— Olha só — riu Bianca, a irmã de Sara, que observava da varanda. — Aquela ali vai dar trabalho para os seguranças em dez anos.

Amélie, no entanto, permaneceu sentada em uma manta estendida sob a sombra de um carvalho. Ela segurava um pequeno livro de pano e olhava para as flores, ocasionalmente apontando para uma borboleta e sussurrando algo que só Eduarda conseguia entender.

— Ela é tão doce — comentou Helena, a mãe de Eduarda, sentando-se ao lado da filha. — Ela tem a sua alma, Duda. Mas vejo o Emanuel nela também... naquela forma como ela observa tudo, analisando antes de agir.

Emanuel observava de longe, conversando com o pai, Antônio.

— Você ainda tenta controlar o vento, meu filho — disse Antônio, observando o olhar fixo de Emanuel em Eduarda e Amélie. — Veja como elas estão bem. A Eduarda floresceu desde que você parou de trancá-la. E a Amélie... ela é o equilíbrio que esta casa precisava.

— Eu só tenho medo, pai — confessou Emanuel em voz baixa. — O coração dela... o médico diz que está bem, mas cada vez que ela fica pálida ou se cansa rápido, eu sinto que vou enlouquecer de novo.

— O medo é um conselheiro ruim, Emanuel. Ele te transformou em um monstro uma vez. Não deixe que ele te transforme em um estranho para a sua própria filha.

Mais tarde, quando os convidados começaram a sair, a tensão familiar voltou a subir. Valentina, exausta, começou uma birra monumental porque queria continuar brincando com a mangueira do jardim. Seus gritos ecoavam pela propriedade.

— Valentina, chega! — Sara tentava segurar a menina, que se debatia. — Você vai tomar banho agora!

— NÃO! PAPAI! — gritou a pequena, estendendo os braços para Emanuel.

Emanuel a pegou, e a menina imediatamente parou de chorar, lançando um olhar de triunfo para a mãe enquanto escondia o rosto no ombro do pai.

— Viu só? — bufou Sara, ajeitando o vestido justo. — Ela sabe exatamente como te manipular, Emanuel. Você a mima demais porque ela te enfrenta.

— Ela é decidida, Sara. É uma qualidade.

Enquanto Emanuel lidava com a soberba de Valentina, Eduarda entrou na sala com Amélie adormecida em seus braços. A menina parecia um anjo, a respiração calma e profunda.

— Eu vou colocá-la na cama — disse Eduarda, a voz suave.

— Eu vou com você — disse Emanuel, entregando Valentina para Sara, que revirou os olhos e levou a filha para o banho.

No quarto de Amélie, que era um santuário de cores pastéis e brinquedos de madeira, o silêncio era absoluto. Eduarda colocou a pequena no berço com uma delicadeza infinita. Emanuel ficou parado na porta, observando a cena. A luz do abajur criava sombras suaves no rosto de Eduarda, que parecia mais bonita do que nunca, com uma serenidade que fora conquistada a duras penas.

— Ela está tão bem, não está? — sussurrou Emanuel, aproximando-se e abraçando Eduarda por trás, as mãos repousando sobre o ventre dela, um gesto instintivo que ele nunca perdera.

— Ela está perfeita, Emanuel. Só é diferente da Valentina.

— Eu sei. É que às vezes eu sinto que ela me teme. Como se ela soubesse o que eu fiz... como eu agi quando ela estava na sua barriga.

Eduarda virou-se nos braços dele, colocando as mãos no rosto de Emanuel.

— Ela não sabe de nada disso. Ela só sente a sua intensidade. Você é como um trovão, Emanuel, e ela é como uma brisa. Vocês precisam aprender a coexistir sem que um abafe o outro.

Emanuel beijou a testa de Eduarda, sentindo a maciez da pele dela.

— Eu amo vocês. As quatro. Às vezes sinto que meu peito vai explodir com tanto sentimento.

— Eu sei que ama — disse ela. — Mas amar também é deixar ser. Deixe a Valentina ser o vulcão que ela é, e deixe a Amélie ser o lago tranquilo.

Eles ficaram ali por um tempo, observando a filha dormir. Mas a paz foi interrompida pelo som de algo caindo no quarto ao lado, seguido por uma risada alta de Sara e um protesto de Valentina.

— Parece que a rainha não quer dormir — sorriu Eduarda.

Emanuel caminhou até o quarto de Valentina. Sara estava sentada no chão, cercada por brinquedos espalhados, enquanto Valentina tentava colocar uma coroa de plástico na cabeça da mãe.

— Ela decidiu que eu sou a súdita agora — disse Sara, olhando para Emanuel com um brilho divertido nos olhos. — Venha aqui, "Grande Rei", sua filha exige a sua presença para o chá imaginário.

Emanuel sentou-se no chão com elas. O contraste era gritante: a energia vibrante e caótica de Sara e Valentina, e a paz profunda que ele acabara de deixar no quarto de Eduarda e Amélie. Ele olhou para Sara, com seus cabelos loiros sempre impecáveis e seu jeito vulgar e confiante, e sentiu uma gratidão imensa por ela ter permitido que aquela família existisse.

— Você está pensativo hoje — notou Sara, servindo uma xícara de plástico vazia para ele. — O que foi? O império está calmo demais?

— Só estava pensando no quanto eu tenho sorte — respondeu ele, bebendo o "chá". — E no quanto eu fui idiota por achar que precisava de correntes para manter tudo isso junto.

— Você sempre foi um pouco dramático, Emanuel — Sara deu de ombros, sorrindo. — Mas a gente gosta assim. Uma vida comum seria entediante demais para nós três.

Valentina subiu no colo de Emanuel e puxou sua orelha, exigindo atenção.

— Papai! Conta! — ordenou a menina.

— Contar o quê, princesa?

— História! De... de dragão!

Emanuel começou a contar uma história, enquanto Sara se encostava em seu ombro. Pouco depois, Eduarda apareceu na porta, observando-os com um sorriso doce. Ela entrou e sentou-se ao lado de Emanuel, completando o círculo.

Ali, na penumbra do quarto de brinquedos, o homem que um dia tentou dominar o destino de duas mulheres e duas crianças entendeu que o verdadeiro poder não estava na posse, mas na convivência das diferenças. Valentina, a soberba e corajosa; Amélie, a doce e resiliente; Sara, a força indomável; e Eduarda, o amor que cura.

— Um dia — disse Emanuel, a voz baixa enquanto Valentina começava a bocejar —, elas vão entender o quanto foram desejadas.

— Elas já sabem — respondeu Eduarda, segurando a mão dele.

— E se esquecerem, eu lembro a elas com um grito bem alto — completou Sara, fazendo todos rirem baixo.

A noite avançou sobre a mansão. O tatuador possessivo finalmente dormiu, não como um carcereiro vigiando suas presas, mas como um homem que, cercado pelas quatro mulheres de sua vida, finalmente encontrara a paz no meio do seu próprio e complexo labirinto de vidro. Valentina adormeceu sonhando com coroas e dragões, enquanto no quarto ao lado, Amélie dormia o sono tranquilo daqueles que são amados pela sua essência, e não pela sua utilidade. A vida, com todas as suas cicatrizes e vulgaridades, era, enfim, perfeita.