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D

O Trono de Tinta e o Reino de Vidro

A manhã de domingo na mansão de Emanuel sempre tinha um peso diferente. O sol atravessava as claraboias do grande salão, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre os móveis de design italiano e as inúmeras telas de arte contemporânea que Eduarda havia ajudado a escolher. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro favorita, com um tablet em mãos, revisando o faturamento do seu estúdio de tatuagem em Tóquio, mas sua mente estava longe dos números.

Aos vinte e seis anos, Emanuel sentia que havia envelhecido uma década no último ano. A fúria controladora que quase o fizera perder Eduarda fora substituída por uma vigilância silenciosa e, de certa forma, exausta. Ele amava Sara com a intensidade carnal e a parceria de quem divide um império; ele amava Eduarda com a devoção protetora de quem guarda uma joia que já viu se quebrar. E, acima de tudo, ele amava as filhas que cada uma lhe dera.

O silêncio da manhã foi interrompido pelo som de passos rápidos e desajeitados sobre o mármore.

— Papai! Meu papai! — O grito agudo veio de Valentina.

A filha de Sara, agora com pouco mais de um ano, era a personificação da energia da mãe. Usava um vestido de seda vermelha com babados exagerados e pequenos sapatos de verniz que faziam um barulho autoritário a cada passo. Valentina não caminhava; ela avançava. Seus cabelos loiros estavam presos em dois rabos de cavalo altos, e seus olhos azuis brilhavam com uma determinação que Emanuel reconhecia muito bem.

Ela chegou à poltrona e, sem pedir licença, começou a escalar as pernas do pai, usando as calças de linho de Emanuel como apoio.

— Colo! Valentina colo agora! — ordenou a pequena, batendo a mãozinha no peito tatuado do pai.

Emanuel sorriu, deixando o tablet de lado. Ele a ergueu com facilidade, sentindo o cheiro de perfume infantil caro que Sara insistia em borrifar na menina.

— Você acabou de acordar e já está dando ordens, Valentina? — Emanuel a acomodou em seu joelho esquerdo. — Onde está sua mãe?

— Mamãe... sapato! — Valentina gesticulou, indicando que Sara provavelmente estava ocupada em seu closet monumental. — Papai é da Valentina.

— É mesmo? — Uma voz suave veio do corredor lateral.

Eduarda apareceu, vestindo um robe de algodão branco, simples e delicado. Em seus braços, ela carregava Amélie. A segunda filha de Emanuel, nascida da união com a prima, era o oposto da irmã. Amélie era pequena para a idade, com traços finos e uma palidez que sempre mantinha Emanuel em alerta. Seus olhos castanhos, profundos e observadores, fixaram-se imediatamente no pai.

— Bom dia, Emanuel — disse Eduarda, aproximando-se com a timidez que ainda a habitava, apesar de morar naquela casa há tanto tempo. — A Amélie acordou procurando por você. Ela teve um pesadelo.

Ao ver a irmã no colo do pai, os lábios de Amélie tremeram. Ela esticou os braços finos em direção a Emanuel, uma súplica silenciosa que ele nunca conseguia ignorar.

— Venha cá, minha pequena — disse Emanuel, estendendo o braço livre.

Eduarda entregou Amélie a ele, que a acomodou no joelho direito. Agora, Emanuel era o centro de um cabo de guerra silencioso. De um lado, Valentina, sólida, barulhenta e possessiva; do outro, Amélie, leve como uma pluma, agarrando-se à sua camiseta como se temesse que ele pudesse desaparecer.

— Não! — Valentina protestou imediatamente, tentando empurrar a perna da irmã com o pé calçado no verniz. — Papai meu! Sai, Méli!

— Valentina, comporte-se — repreendeu Emanuel, embora sua voz não tivesse a dureza de outrora. — Há espaço para as duas.

Amélie não gritou. Ela apenas escondeu o rosto no pescoço de Emanuel, soltando um suspiro trêmulo. Aquela era a sua forma de lutar: a vulnerabilidade. Ela sabia que, toda vez que parecia frágil, o instinto protetor do pai se voltava inteiramente para ela.

— Ela está dodói, papai? — perguntou Valentina, mudando taticamente o tom de voz para uma falsa preocupação, enquanto tentava puxar o rosto de Emanuel para que ele olhasse apenas para ela.

— Ela está bem, Valentina. Só quer carinho — respondeu Emanuel, beijando o topo da cabeça loira de uma e a testa morena da outra.

— Parece que o trono está disputado hoje — comentou Sara, surgindo no topo da escada.

Ela estava impecável, como sempre. Usava um conjunto de cetim champanhe, o cabelo loiro perfeitamente alinhado e joias que brilhavam mesmo à luz da manhã. Sara desceu os degraus com a confiança de quem sabia que, não importava quem estivesse no colo de Emanuel, ela era quem comandava a dinâmica daquela casa.

— Bom dia, Eduarda — Sara disse, passando a mão pelo ombro da prima ao chegar à sala. — Você parece cansada. A Amélie deu trabalho à noite?

— Um pouco — respondeu Eduarda, sentando-se no sofá em frente a Emanuel. — Ela ainda se assusta com os trovões.

— Ela precisa de um pouco mais de "sangue nos olhos", como a Valentina — Sara riu, aproximando-se da poltrona e inclinando-se para beijar Emanuel nos lábios, ignorando solenemente o fato de que as duas crianças estavam entre eles. — Não é, meu rei? Suas herdeiras vão acabar com a sua coluna antes dos trinta.

— Eu aguento — murmurou Emanuel, sentindo o peso das duas vidas que ele ajudara a criar.

Valentina, vendo a mãe se aproximar, decidiu que o colo do pai não era mais suficiente. Ela queria a atenção total.

— Papai, olha! — Ela começou a pular no joelho dele. — Valentina dança! Igual a Duda!

Ela escorregou do colo de Emanuel e começou a girar desajeitadamente no meio da sala, rindo alto, buscando o aplauso e a validação. Era a cópia fiel de Sara: queria o palco, o brilho, o reconhecimento.

Amélie, aproveitando a saída da irmã, ocupou o centro do peito de Emanuel. Ela espalhou as mãos pequenas sobre as tatuagens do pai, traçando os desenhos com os dedos curiosos.

— Papai... — sussurrou Amélie, a voz tão baixa que apenas ele ouviu. — Fica.

— Eu estou aqui, Amélie. Eu não vou a lugar nenhum.

Eduarda observava a cena com um misto de gratidão e uma melancolia que nunca a abandonava totalmente. Ela via como Emanuel se dividia. Ele era um homem de extremos. Com Sara e Valentina, ele era o empresário, o homem de gelo que provia e dominava. Com ela e Amélie, ele era o porto seguro, o homem que sussurrava promessas de proteção na calada da noite.

— Emanuel, o Dr. Arantes ligou — disse Eduarda, quebrando o transe. — Ele quer marcar o check-up trimestral da Amélie para amanhã.

O corpo de Emanuel tensionou-se instantaneamente. O nome do médico sempre trazia de volta as memórias do hospital, do sangue e do medo.

— Eu vou com vocês — afirmou ele, o tom não admitindo discussões.

— Você tem a reunião com os investidores do novo estúdio amanhã, Emanuel — lembrou Sara, cruzando os braços e exibindo suas unhas perfeitamente feitas. — Eu posso levar a Eduarda e a pequena. Não precisa parar sua vida toda vez que ela tem uma consulta de rotina.

— Não é uma consulta de rotina, Sara. É o coração dela.

— O coração dela está ótimo, o médico disse isso no mês passado! — Sara rebateu, a impaciência começando a aflorar. — Você está sufocando a menina de novo, do mesmo jeito que fez com a mãe dela.

O clima na sala esfriou. Eduarda baixou o olhar, sentindo o peso daquela discussão antiga. Emanuel olhou para Sara com uma dureza que faria qualquer outra pessoa recuar, mas Sara apenas sustentou o olhar, desafiadora.

— Eu decido o que é prioridade na minha vida, Sara — disse ele, a voz baixa e perigosa.

Nesse momento, Valentina, sentindo que o clima não estava mais favorável para sua dança, correu de volta e tentou empurrar Amélie do colo do pai para subir novamente.

— Minha vez! Méli sai! — gritou Valentina, puxando o braço da irmã.

Amélie começou a chorar. Não era um choro de raiva, mas de susto. O som do choro da filha menor agiu como um gatilho em Emanuel.

— CHEGA! — Ele se levantou bruscamente, colocando Amélie no chão ao lado de Eduarda e segurando Valentina pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que a fez parar o grito no ato. — Valentina, você não vai empurrar sua irmã. Nunca mais. Entendeu?

Valentina arregalou os olhos azuis, surpresa com a repreensão. Ela olhou para a mãe, buscando apoio, mas Sara apenas suspirou e balançou a cabeça.

— Ele tem razão, Valentina. Você é uma mocinha, não uma bárbara. Peça desculpas.

Valentina fez um bico imenso, as lágrimas de frustração surgindo.

— Desculpa — resmungou a menina, sem olhar para a irmã.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse acumulado. Ele olhou para as duas mulheres à sua frente. Sara, a loira siliconada e vibrante que ele amava por sua força e por não ter segredos com ele; e Eduarda, a bailarina frágil e doce que ele amava por sua pureza e pela forma como ela o fazia querer ser um homem melhor.

— Eu vou para o escritório — anunciou Emanuel. — Preciso de silêncio.

Ele saiu da sala sem olhar para trás. Eduarda pegou Amélie no colo, tentando acalmá-la, enquanto Sara pegava Valentina, que agora soluçava baixinho.

— Ele ainda é um bruto, não é? — Sara comentou, olhando para Eduarda enquanto ajeitava o vestido da filha.

— Ele só tem medo, Sara — respondeu Eduarda suavemente. — Ele ama demais. E ele não sabe como distribuir esse amor sem sentir que está perdendo o controle.

— Ele não perde o controle, Eduarda. Ele o impõe — Sara deu um sorriso irônico. — Mas tudo bem. Eu lido com o leão, e você cuida do cordeiro. No final do dia, ele sempre volta para nós duas.

Horas mais tarde, Emanuel estava em seu escritório, cercado pelo cheiro de tinta e papel. A porta se abriu silenciosamente. Ele esperava ver Sara, vindo para provocá-lo ou discutir os negócios, mas foi Eduarda quem entrou, trazendo uma bandeja com café.

— Você não comeu nada desde cedo — disse ela, colocando a bandeja sobre a mesa de carvalho.

Emanuel a observou. Eduarda tinha uma beleza que não gritava, ao contrário de Sara. Ela era como uma melodia suave que se infiltrava nos vãos da sua alma.

— Obrigado, Duda — ele disse, puxando-a para perto.

Ela sentou-se em seu colo, o lugar que antes fora disputado pelas filhas. Emanuel escondeu o rosto no pescoço dela, respirando o perfume de flores do campo que ela sempre usava.

— Eu agi mal com a Valentina? — perguntou ele, a voz abafada.

— Você foi firme. Ela precisa disso. A Sara a mima muito, e você sabe que a personalidade dela é forte. Se não houver limites, ela vai acabar machucando a Amélie sem querer.

— Eu não suportaria isso — murmurou ele. — Eu olho para a Amélie e vejo o quanto eu quase destruí tudo. Cada vez que ela respira um pouco mais pesado, eu sinto que o teto vai cair.

— O teto não vai cair, Emanuel. Nós estamos aqui. Eu, a Sara, as meninas... nós somos a sua fundação.

Emanuel a apertou contra si. Ele sabia que sua vida era um equilíbrio precário. Ele vivia em um mundo onde precisava de duas mulheres para se sentir completo: uma para desafiá-lo e outra para acalmá-lo. Uma que representava o seu sucesso e a sua imagem pública, e outra que guardava a sua vulnerabilidade e o seu passado.

A porta do escritório foi aberta com um estrondo. Valentina entrou correndo, seguida por uma Sara que parecia exausta.

— Papai! — Valentina gritou, esquecendo a briga de mais cedo. Ela trazia um desenho feito de rabiscos coloridos. — Pra você!

Atrás delas, uma babá trazia Amélie, que ao ver o pai, esticou os braços novamente.

Emanuel riu, uma risada que dissipou a tensão do escritório. Ele aceitou o desenho de Valentina e abriu espaço para que Amélie também subisse em sua mesa. Sara encostou-se no batente da porta, observando a cena com um olhar satisfeito.

— Viu só? — Sara disse para Eduarda. — O império dele está completo. Ele reclama, faz cara feia, mas adora ser o centro desse caos.

Emanuel olhou para as quatro. Suas duas mulheres, suas duas herdeiras. Ele era um homem rico, influente e temido, mas ali, naquele escritório, ele era apenas um homem tentando segurar o mundo nos braços.

Valentina tentou pegar a caneta de ouro de Emanuel para desenhar em sua mão tatuada, enquanto Amélie apenas encostava a cabeça em seu ombro, fechando os olhos.

— Um dia elas vão crescer — disse Emanuel, olhando para Sara e Eduarda. — E eu vou sentir falta dessa disputa por colo.

— Até lá — Sara respondeu, aproximando-se e servindo-se do café que Eduarda trouxera —, certifique-se de que sua coluna aguente. Porque nenhuma de nós pretende sair do seu lado.

Eduarda sorriu e segurou a mão de Emanuel. Ele sentiu o calor das mãos dela e a presença vibrante de Sara ao seu lado. O conflito entre o controle e a entrega, entre a fúria e a paz, continuaria existindo, mas ali, naquele momento, Emanuel entendeu que não precisava escolher. Ele tinha o trono de tinta e o reino de vidro, e faria qualquer coisa, absoluta e violentamente qualquer coisa, para manter as quatro seguras dentro de suas muralhas de amor.