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O Labirinto de Vidro e o Espetáculo do Caos
A mansão dos pais de Sara, situada em um dos condomínios mais exclusivos da cidade, estava transformada em um cenário de sonhos — ou, para alguns, de pesadelos. Margareth, a matriarca que exalava autoridade e ouro, decidira que o chá de revelação e celebração das novas gravidezes da família deveria ser um evento inesquecível. O jardim vasto fora coberto por uma tenda de circo luxuosa, em tons de pastel, seda e luzes de fada.
Emanuel caminhava pelo gramado impecável com uma expressão que oscilava entre o tédio e a vigilância constante. Ele estava em seu auge físico, as tatuagens subindo pelo pescoço sob a camisa de linho entreaberta, mas seus olhos não descansavam. Ele tinha três mulheres sob sua guarda agora, e três novas vidas a caminho.
Sara, exuberante aos quatro meses de gestação de Ágata, desfilava em um vestido justo de paetês dourados que acentuava sua barriga já arredondada pelo silicone e pela gravidez. Ela segurava uma taça de suco de frutas como se fosse champanhe, rindo alto com as amigas da alta sociedade. Ao seu lado, Eduarda parecia uma pintura renascentista: pálida, doce e visivelmente sobrecarregada. Grávida de gêmeos, Maya e Arthur, Eduarda já sentia o peso dos cinco meses. Maya, segundo as ultrassons, era a tranquilidade em forma de feto, mas Arthur parecia ter herdado a energia vulcânica do pai, chutando sem parar.
— Você precisa se sentar, Duda — disse Emanuel, aproximando-se e colocando a mão possessivamente na base das costas de Eduarda. — Você está pálida.
— Eu estou bem, Emanuel — sussurrou ela, embora buscasse o apoio do corpo dele instintivamente. — Só está um pouco barulhento.
— Margareth não sabe o significado da palavra limite — Sara comentou, aproximando-se e dando um beijo estalado no rosto de Emanuel. — Ela contratou metade do Cirque du Soleil para animar a Valentina e os convidados.
Valentina, a primogênita de Sara, corria entre as mesas, encantada com os malabaristas. Mas Emanuel sentiu um puxão suave em sua calça. Olhou para baixo e viu Amélie. A menina, com seus cachos castanhos e olhos grandes e expressivos, estava encolhida, segurando um coelhinho de pelúcia contra o peito.
— Papai... — a voz de Amélie era um sopro de medo.
— O que foi, minha pequena? — Emanuel se agachou, ignorando o fato de que seu terno caríssimo tocava a grama.
— Muita gente... caras pintadas — disse Amélie, apontando com o dedo trêmulo para a entrada da tenda.
Margareth, querendo fazer uma entrada triunfal para o entretenimento principal, deu um sinal. De repente, uma música circense estridente e acelerada começou a tocar. Das laterais, surgiram dez palhaços. Eles não eram sutis; usavam perucas neon, maquiagens exageradas com sorrisos pintados que iam de orelha a orelha e sapatos gigantes que faziam um barulho oco no tablado de madeira.
Para a maioria das crianças, era o auge da festa. Para Amélie, era o início do fim.
A fobia de palhaços da menina era algo que Eduarda tentara tratar com carinho, mas que Emanuel sempre achara que ela superaria com o tempo. No entanto, o trauma visual de ver aquelas figuras saltitantes e gritantes vindo em sua direção foi demais para o coração sensível da criança.
— Olá, pequena princesa! — um dos palhaços, com uma peruca azul elétrica e um nariz vermelho gigante, saltou na frente de Amélie, buzinando uma corneta metálica.
O grito que escapou de Amélie não foi de surpresa, mas de puro terror. Ela recuou, tropeçando nos próprios pés, e se jogou nos braços de Eduarda, que quase perdeu o equilíbrio devido ao peso da barriga de gêmeos.
— Amélie, calma! É só um brinquedo — disse Sara, tentando intervir, mas Valentina começou a rir e a pular ao redor da irmã, achando que era parte da brincadeira.
— Sai! Sai daqui! — Amélie começou a gritar, a voz ficando esganiçada.
Emanuel se levantou, os olhos escurecendo perigosamente.
— Afastem-se dela — ordenou ele, sua voz cortando a música como uma lâmina fria.
Mas os palhaços, instruídos por Margareth a serem "interativos e persistentes", continuaram a performance. O palhaço azul tentou fazer um truque de mágica, tirando um lenço da orelha de Amélie.
Foi o estopim. Amélie começou a hiperventilar. O som de sua respiração tornou-se um chiado agudo e desesperado. Seus olhos reviraram levemente e ela se agarrou ao pescoço de Eduarda com uma força maníaca, antes de começar a tremer violentamente.
— Emanuel, ela não está respirando direito! — Eduarda gritou, entrando em pânico, sentindo Maya e Arthur se agitarem freneticamente em seu ventre em resposta ao seu estresse. — O coração dela, Emanuel! O coração!
Emanuel agiu com a velocidade de um predador. Ele arrancou Amélie dos braços de Eduarda e a prensou contra seu peito, sentindo o corpo da filha sacudir em espasmos.
— ACABEM COM ESSA MÚSICA! — O rugido de Emanuel ecoou por todo o jardim, silenciando os convidados. — AGORA!
Margareth correu em direção a eles, as joias balançando.
— Emanuel, querido, é apenas uma festa! Não seja tão dramático...
Emanuel virou-se para a sogra com um olhar de puro ódio. Se ele pudesse incendiar o lugar com os olhos, a tenda estaria em cinzas.
— Se você não tirar esses malditos palhaços da minha frente em três segundos, Margareth, eu juro que vou destruir cada centavo que você investiu nesta farsa de circo — ele sibilou, a voz baixa e letal.
Os palhaços, percebendo que a situação havia saído do controle e intimidados pela estatura e pelas tatuagens de Emanuel, recuaram. Amélie, no entanto, continuava a hiperventilar, o rosto ficando arroxeado.
— Duda, pegue a bolsa de emergência no carro! — Emanuel comandou, enquanto se sentava no chão com Amélie, tentando acalmá-la. — Sara, tire a Valentina daqui!
Sara, vendo o estado da sobrinha e a fúria do marido, não discutiu. Pegou Valentina pelo braço e a levou para dentro da casa, lançando um olhar de desaprovação para a própria mãe.
Eduarda voltou correndo, segurando a barriga, entregando a bombinha e o monitor de oxigênio que sempre carregavam por causa da cardiopatia residual de Amélie.
— Calma, minha vida... o papai está aqui — Emanuel sussurrava no ouvido de Amélie, embora suas mãos tremessem de raiva. — Eu vou acabar com eles, Amélie. Ninguém vai te tocar.
Levou dez minutos para que a respiração da menina voltasse ao normal. Ela adormeceu de exaustão nos braços do pai, o rosto manchado de lágrimas e a pele ainda fria.
Emanuel se levantou, o corpo tenso como uma mola prestes a quebrar. Ele entregou Amélie para Eduarda, que estava sentada em uma cadeira próxima, sendo amparada por Gabriel.
— Leve ela para o quarto. Não saia de lá até que eu mande — disse Emanuel para Eduarda.
— Emanuel, por favor, não faça nada... — Eduarda pediu, conhecendo o temperamento dele.
Ele não respondeu. Caminhou em direção ao centro da tenda, onde Margareth tentava explicar aos convidados que tudo estava sob controle.
— Margareth — Emanuel chamou, e o tom de sua voz fez a mulher empalidecer.
— Emanuel, foi um erro de cálculo, eu não sabia que a fobia era tão séria...
— Você sabia. Eduarda te avisou. Sara te avisou — ele disse, parando a centímetros dela. Ele era mais alto, mais forte e exalava uma autoridade sombria. — Você quis o espetáculo. Você quis o brilho. E quase matou a minha filha por causa de palhaços de aluguel.
— Não seja vulgar, Emanuel! — Margareth tentou recuperar a compostura. — Estamos em sociedade.
Emanuel soltou uma risada curta e sem vida.
— Você quer ver o que é ser vulgar, Margareth? Vulgar é o que eu vou fazer com os seus contratos de exportação amanhã de manhã. Vulgar é o fato de que você nunca mais vai chegar a menos de dez metros das minhas filhas sem a minha supervisão.
Ele se virou para os palhaços, que ainda estavam por perto, confusos.
— Saiam. Agora. Se eu vir um pingo de maquiagem neste jardim em sessenta segundos, eu vou garantir que vocês nunca mais consigam emprego nem em festa de rua.
Os artistas fugiram, tropeçando em seus próprios sapatos gigantes. Emanuel olhou ao redor, para os convidados que observavam a cena em silêncio absoluto.
— A festa acabou — declarou ele.
Ele caminhou de volta para a casa, encontrando Sara no corredor. Ela estava encostada na parede, observando-o.
— Você exagerou com a minha mãe — disse ela, embora não houvesse raiva em sua voz, apenas uma constatação.
— Ela quase causou uma parada respiratória na Amélie, Sara. Você quer que eu peça desculpas?
Sara suspirou, aproximando-se e colocando a mão no peito dele, sentindo o coração de Emanuel martelando contra as costelas.
— Não. Eu só quero que você se acalme. Ágata está agitada aqui dentro, e eu não preciso de outro drama hoje. A Duda está lá em cima com a Amélie. Vá cuidar delas. Eu cuido da minha mãe e da bagunça aqui embaixo.
Emanuel subiu as escadas, os passos pesados. Entrou no quarto e encontrou Eduarda deitada na cama king-size, com Amélie dormindo em seu peito. Eduarda tinha a mão sobre a barriga, fazendo movimentos circulares.
— Eles estão agitados? — perguntou Emanuel, a voz suavizando instantaneamente.
— O Arthur está tentando chutar as costelas da Maya — Eduarda sorriu fracamente. — Eles sentem quando eu fico nervosa.
Emanuel se deitou ao lado delas, um gigante cercado por sua fragilidade. Ele beijou a testa de Amélie e depois a barriga de Eduarda.
— Eu odeio que as coisas tenham que ser assim — murmurou ele. — Eu odeio que eu tenha que ser o monstro para que vocês fiquem seguras.
— Você não é um monstro, Emanuel — disse Eduarda, acariciando os cabelos dele. — Você é o nosso escudo. Mas às vezes, o escudo bate com muita força.
— Eu vou proteger a Ágata, a Maya e o Arthur do mesmo jeito — ele prometeu, a mão espalmada sobre a barriga de Eduarda, sentindo um chute vigoroso de Arthur contra sua palma. — Ninguém vai assustar eles. Ninguém.
— Eu sei que não — sussurrou Eduarda.
Naquela noite, a mansão de Margareth ficou silenciosa. A festa que deveria ser o triunfo da matriarca terminou em abandono. No quarto, Emanuel vigiava o sono das três, enquanto Sara, no quarto ao lado, planejava como contornar o prejuízo financeiro que Emanuel certamente causaria à sua mãe no dia seguinte.
Emanuel olhou para Eduarda e depois pensou em Sara. Ele tinha tudo o que queria, mas o preço era uma guerra constante contra o mundo e contra seus próprios instintos. Enquanto Arthur continuava a chutar dentro de Eduarda, Emanuel entendeu que seu labirinto de vidro estava ficando maior, mais complexo e muito mais perigoso. E ele estava disposto a sangrar para que ninguém mais quebrasse aquelas paredes.